Urbanista italiano afirma que infraestrutura viária é barreira para a cidade

Bernardo Secchi participou do primeiro ciclo de seminários Quitandinha+50 e conversou com a imprensa sobre mobilidade urbana e o papel de arquitetos e urbanistas

O urbanista italiano Bernardo Secchi  créditos: Divulgação

O urbanista italiano Bernardo Secchi créditos: Divulgação

Todas as metrópoles e grandes cidades padecem dos mesmos problemas: ambiental, de mobilidade e a desigualdade social. O urbanista italiano Bernardo Secchi define esses problemas como a “nova questão urbana”, e a resolução de um deve necessariamente lidar também com os outros, pois essas questões estão interligadas.

Em Paris, por exemplo, cidade com estrutura radial, a dificuldade da mobilidade atua na direção da segregação social. E a solução não passa por grandes obras viárias, que demoram e são caras, mas sim por projetos de urbanismo que pensem a cidade de forma geral, afirma o urbanista.

Bernardo Secchi foi o conferencista do primeiro dia do ciclo de seminários Quitandinha+50, evento realizado pelo IAB e CAU/BR. Esta edição ocorreu no Rio de Janeiro, entre os dias 27 de fevereiro e 1° de março, com o tema “Arquitetura, Cidade, Metrópole – Democratizar Cidades Sustentáveis”. O ciclo de seminários continua pelo ano de 2013, no Rio Grande do Sul (abril), São Paulo (maio), Distrito Federal (junho), Minas Gerais (julho), Bahia (agosto) e Amazonas (setembro).

A primeira mesa-redonda do primeiro dia de seminários relembrou o histórico Seminário Nacional de Habitação e Reforma Urbana, realizado no Hotel Quitandinha, em 1963, destacando a importância da discussão de novas bases de uma política de urbanização nacional e das mudanças demográficas brasileiras.

Antes de sua conferência que encerrou o primeiro dia, Bernardo Secchi conceceu entrevista a jornalistas presentes no evento. Leia abaixo os melhores momentos da conversa:

Você afirma que as metrópoles sofrem com os mesmos problemas de mobilidade, de desigualdade social e problemas ambientais. E as soluções? Como ver e pensar a cidade para resolver essas questões?

Todas as cidades têm os mesmos problemas, mas cada cidade é diferente da outra. Não há uma única solução, cada cidade precisa de uma solução específica. O que sugiro para Paris não é o mesmo para Moscou, e não sei o que sugeriria para o Rio de Janeiro, mas seria diferente. De qualquer forma, a primeira ideia é que o problema de mobilidade não pode ser solucionado com nova grande infraestrutura. Isso só chama novos carros e novos congestionamentos. É preciso pensar em algo mais difuso, menos caro. Soluções como as de engenharia precisam de grandes investimentos, mas a municipalidade não tem dinheiro, então a solução chegaria em muitos anos, sendo que o problema é agora.

Você tem algum exemplo?

Desigualdades sociais e problemas de mobilidade estão ligados, unidos. Em Paris se provou que o problema era do sistema de mobilidade, que atua na direção da segregação, não integração. Mas, quando há grandes problemas de mobilidade, eles chamam engenheiros para solucioná-los. E o que os engenheiros estão fazendo é criar novas vias e viadutos, que são contínuas barreiras pela cidade, que enclavam as pessoas, como ocorre em Paris. É preciso chamar os arquitetos urbanistas.

E é preciso tratar a questão da cultura de carro de forma sistêmica, não de forma isolada.

Não é isolada, é geral. Creio que estaríamos melhor em um mundo sem carros, ou com menos carros. Não é impossível. Em Bruxelas, propusemos uma área vetada a carros. Os políticos, tomadores de decisões, nos chamaram de loucos. Depois, feitos passo a passo, eles mudaram de ideia, disseram “Não é tão louco assim”. As pessoas começaram a organizar “ilhas” de pedestres em fins de semana sem carros, com muito sucesso. Agora, esses tomadores de decisão nos pediram para desenvolver uma estratégica concreta para reduzir os carros, claro que não imediatamente.

Qual é o papel dos arquitetos e urbanistas na formação das cidades?

O papel é melhorar a qualidade de vida das pessoas. Começando pelo design da xícara de café até, atravessando a escala, um pedaço pequeno da cidade e regiões inteiras. Para fazer isso, é preciso boa teoria. Esse trabalho [de arquitetura e urbanismo] deve propor soluções práticas, e, como backgroud, deve ter bom fundamento. É preciso discutir sobre as teorias.

Você poderia comentar sua afirmação de que é o espaço que dá forma às relações sociais e à economia?

O espaço é que produz relações sociais, que produzem novas formas para a economia. E há muitos exemplos disso. Quando a burguesia fez cidades como Paris, Milão, Viena, eles fizeram espaços nos quais ela podia viver e circular. Isso era importante para o desenvolvimento da burguesia. O mesmo ocorreu para as classes sociais no começo do século 20, quando o estado de bem-estar social começou a pensar parte da cidade para a classe trabalhadora. Isso foi uma melhora, não só para a vida social, mas também para a economia. Depois, essa ideia se perdeu, é difícil dizer por quê. Hoje pensamos que todos os problemas são financeiros e econômicos, e nada mais, mas creio que isso está errado.

MOBILIZE.ORG.BR

Autor: Luciana Tamaki | Postado em: 05 de março de 2013 | Fonte: Pini Web



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Meios de Transporte / Trânsito

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26 respostas

  1. O mobilize.org continua com a prática de espalhar desinformação anti-carro. A questão é por que outros blogs passam esse lixo adiante.

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    • Mais uma vez, argumentação focada no autor (ad hominen) em vez de argumentação focada no argumento. Tu não cansas disso?

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  2. Acho ingênuo pensar que resolveremos algum problema de mobilidade com ruas estreitas, semafórica e sinalização incompreensíveis, falta de vias expressas e transporte coletivo altamente ineficiente.
    Não será bicicleta, rodízio, pegádio ou imposto que resolverá isso.
    A grande diferença entre Porto Alegre, Paris e Moscou é que nós não chegamos lá ainda.
    Muito embora adoremos pensar em Porto Alegre como se estivéssemos no mesmo nível de São Paulo.

    Para querer achar que mudança social e melhor distribuição de renda vai melhorar o trânsito é preciso passar pelas grandes obras viárias.
    Para resolver mobilidade é preciso poder mover-se mesmo se não houvessem carros e isso não conseguimos com muito sucesso.

    Na ânsia de nos considerarmos uma megalópole tendemos a adotar soluções baratas, que tornem a responsabilidade difusa e sirva de honrosa desculpa para que nossos técnicos e políticos não façam o que tem que ser feito.

    Qual a grande obra de infraestrutura de POA?
    BRT’s ou perimetrais ? Essas são apenas cópias baratas e mal planejadas/executadas de boas idéias que deram certo em outros lugares.

    Somos espartanos ao gastar com medo que não dê certo e pagamos um preço muito alto por isso.
    Fazemos um viaduto que deveria ter seis pistas de tráfego com apenas duas para que fique mais barato. E para “compensar”, colocamos um ponto de ônibus em cima, fora do corredor de ônibus para que haja um zigue-zague infernal entre os carros de passeio e os coletivos.E para desviar do custo da desapropriação fazemos o dito viaduto em formato de “S”. No final, quando percebemos que não foi uma boa solução carimbamos: grandes obras não resolvem o problema.
    Quando deveríamos dizer: esta obra como foi feita não resolveu o problema.

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    • Respondendo apenas a tua conclusão (devíamos é fazer um viaduto de 6 pistas): A não ser que saíssemos desapropriando fileiras inteiras de casas e/ou eliminando calçadas, o próximo gargalo estaria logo adiante. Com gargalo me refiro a uma via mais estreita ou um outro cruzamento, que exigiria outro viaduto ou uma highway. Por isso não adianta fazer um viaduto de seis pistas, é um ciclo vicioso que sempre pede mais e mais dinheiro.

      Em relação a transporte público concordo, fizemos e fazemos tudo errado, e vamos continuar pagando por isso.

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    • A sua conclusão está falando sobre qual viaduto? O da Perimetral com a Nilo? Qual é o problema de parada em cima do viaduto? Você quer que os passageiros façam integração como?

      Enfim, essa tua argumentação me faz parecer que tu é da turma que acha que era mais negócio tirar os corredores e devolver o espaço dos corredores para os carros. Eu já debulhei esse argumento usando a simples matemática aqui no blog várias vezes, então nem vou me dar ao trabalho.

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      • O problema de paradas de ônibus em cima de viadutos é que é mais caro, além de aumentar a carga sobre a estrutura (o que também deixa mais caro).

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      • Até faz sentido a questão do preço, mas tem uma questão de espaço aí? Se tu for olhar a vista aérea do cruzamento da Nilo com Carlos Gomes ele tem um alargamento para dar espaço à toda estrutura.

        Imagino que se fosse fazer no meio de uma quadra, por exemplo, ia ter que diminuir as calçadas ou as pistas de rolamento.

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    • Ingênuo é pensar que vias expressas e ruas mais largas vão resolver o problema. A solulção é transporte coletivo eficiente, e para isso não precisamos de ruas mais largas do que já temos.

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  3. Pelo contrário, em Poa o problema é a falta de infraestrutura.

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    • Concordo nisso, mas acho que discordamos em qual tipo de infraestrutura está em falta 😛

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      • Transporte público de massa.
        .
        Se olharmos a nossa rede viária e compararmos com a rede de outras grandes cidades do mundo não há muita diferença, a diferença é que esta rede viária é utilizada subsidiariamente, enquanto no nosso caso é a única “solução”.

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  4. Este senhor pode ser um grande e renomado especialista, mas sei lá, pelo que está afirmando Paris é uma cidade terrível, quando não é! Paris é uma maravilha e quem nos dera ter a infraestrutura e a qualidade de vida incrível que eles têm lá. Acho que estes especialistas acabam inventando coisa com intuito de polemizarem e se destacarem dos demais, e com isso acabam ganhando projeção e ótimas viagens para palestrar no terceiro mundo. Estão mais dispostos mesmo a curtir a vida bancando os sábios e recebendo aplausos. Porto Alegre e a bem da verdade a maioria absoluta das cidades brasileiras, sim são um fracasso em termos de mobilidade e urbanismo, mas por favor, Paris, Berlim e outras grandes cidades civilizadas, não. São ótimas e deveríamos cópia-las ou ao menos inspirar-nos nelas.

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  5. Decadas atrás eles falavam que o automovel era o futuro..

    Não se preocupem,quando a moda acabar, vão mudar de idéia, ai vai aparecer outra coisa pra andar nas ruas.

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  6. Isso aqui é interessante: “Hoje pensamos que todos os problemas são financeiros e econômicos, e nada mais, mas creio que isso está errado.”

    Por muitos anos achávamos que o único problema do Brasil era a inflação. Aparecia o Sarney ou o Collor dizendo que com o fim da inflação a economia iria crescer, a desigualdade iria diminuir, a escolaridade iria aumentar, a violência iria diminuir…

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  7. Alô Fortunati! Alô Carrolari: ” De qualquer forma, a primeira ideia é que o problema de mobilidade não pode ser solucionado com nova grande infraestrutura. Isso só chama novos carros e novos congestionamentos.”

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    • Pois é, o que está acontecendo em POA vai contra qualquer especialista.

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    • Parece-me que este urbanista pousou por aqui sem olhar um pouco a realidade nacional. Ele citando Paris, Moscou e cidades brasileiras, comparou o incomparável. Primeiro ele diz que não compararia e não daria soluções genéricas para as grandes cidades, algo que está certamente correto, mas depois ele diz que o problema de mobilidade não é resolvido por uma NOVA iinfraestrutura, OK, mas no caso do Brasil é um pouco diferente, pois as cidades brasileiras não tem nem a ANTIGA infraestrutura de transporte coletivo funcionando.
      .
      É fácil se debruçar no caso de cidades em que existe uma malha de o metrô funcionando e que partir desta não há necessidade de uma segunda ou NOVA infraestrutura.
      Este papo todo me parece à conversa de técnicos de países “já construídos” em que o problema é o remanejamento e otimização do que existe. Precisamos sim de uma infraestrutura mínima de transporte coletivo, para depois pensarmos em outras coisas, e este mínimo não existe!
      .
      Tomando este comentário e o colocando em outras áreas. Nos Estados Unidos e Europa toda a população possui energia elétrica, água tratada, tratamento de esgoto e outras coisas óbvias para a existência de uma cidade moderna, no Brasil, não temos nada disto pronto, logo não é uma questão de otimizar, reformar e melhor utilizar os espaços públicos.
      Outro exemplo que ele coloca é sensacional, o centro de Bruxelas, criaram uma área sem carros, porém o acesso a esta área é garantido por um transporte público eficiente, aqui já se criou uma área somente para pedestres, e devido à deficiência do transporte público esta área ficou completamente degradada e está se revertendo a solução.
      .
      Acho realmente que não precisamos de propostas de técnicos que passam de avião sobre o país e,não conhecendo realidade de nossa cultura e de nossas cidades, transportam a realidade das cidades dos países do “primeiro mundo” (ou melhor, países já prontos) para um país em construção.
      .
      Temos que confiar nos nossos, arquitetos, nos nossos urbanistas e nos nossos engenheiros, pois conhecendo a realidade do país fica muito mais simples.

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      • Mas Rogério, pense bem na forma com que nossa infra-estrutura está sendo construída. Pegue por exemplo o caso de SP que vem fazendo anéis rodoviários sem ter o anel ferroviário, anel metroviário e o que nem se usa mais, mas há em muitas cidades europeias, o anel hidroviário formado por canais.

        Estamos construindo viadutos sem ter transporte de massa mesmo, que seria metrô e bondes. Da mesma forma que o nosso bonde foi destruído para dar lugar à “modernidade” estamos tirando espaço útil da cidade para ruas e estradas.

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      • Pablo.
        .
        Tens razão em todas as tuas afirmações, porém o que fala aquele arquiteto parece que não são necessárias as obras que tu falaste, o básico. O supérfluo é o que estamos construindo agora em termos de viadutos e demais obras rodoviárias.
        .
        O discurso do mesmo minimiza a necessidade de obras básicas, como elas já existissem, por isto o repúdio de “obras que precisam engenheiros”, sendo mais importante o remanejamento do que não existe do que construindo o que é consenso para qualquer um (exceto a prefeitura, é claro!).

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      • Rogério, entendo teu raciocínio mas note este trecho:

        “De qualquer forma, a primeira ideia é que o problema de mobilidade não pode ser solucionado com nova grande infraestrutura. Isso só chama novos carros e novos congestionamentos.”

        Ou seja, ele se refere a grande infraestrutura rodoviária, não metrôs ou VLT’s.

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      • Felipe
        .
        Nos detalhes é que mora o perigo! A entrevista do Arquiteto abre a possibilidade da justificativa de BRTs e outras “soluções” mais baratas (no caso de POA viadutos em vias existentes) que todos sabemos serem soluções meramente paliativas.
        Chamo atenção da seguinte frase.
        “É preciso pensar em algo mais difuso, menos caro. Soluções como as de engenharia precisam de grandes investimentos, mas a municipalidade não tem dinheiro, então a solução chegaria em muitos anos, sendo que o problema é agora.”
        Ou seja, adapta-se as soluções à pseudo falta de dinheiro, com pequenas reformas cosméticas, a medida de uma rede de metrô ficaria excluída.

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      • Ahhhh saquei a o ponto do Rogério. Para o metrô o investimento inicial é muito alto para um retorno um pouco pequeno (região atendida pelo metrô), entretanto expandir o metrô é barato e o retorno é muito bom.

        Como em PoA não tem metrô essa coisa de “não temos dinheiro” é desculpa para fazer obras do tipo maquiagem, ou seja BRT que é um corredor de ônibus que se paga antes*, viadutos e alargamento de vias.

        * Alguns BRTs de PoA vai compartilhar o corredor com ônibus normais, então o que adianta um BRT que todos entram e saem rapidamente se há na mesma fila um ônibus que precisa-se passar pela roleta, com portas estreitas e escadas?

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      • Blz, entendi teu ponto Rogério.

        Pablo, em relação ao BRT é isso mesmo. Honestamente acho um erro fazer com que apenas parte da frota tenha pagamento antecipado. Mas como infelizmente optamos por um sistema exageradamente complexo, com smartcard e tudo mais fica mais difícil de fazermos pagamento antecipado em toda rede.

        É incrível como sempre optamos por essas soluções complexas, não? Lembram da ficha verde, que tinha que ser queimada pelo cobrador? Chega a ser engraçado..

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