Processo de desindustrialização de Porto Alegre, uma política desastrosa em longo prazo, por Rogério Maestri

Porto Alegre em 1950, uma cidade industrializada. Foto: acervo pessoal Gilberto Simon

Porto Alegre em 1950, uma cidade industrializada. Foto: acervo pessoal Gilberto Simon

Estamos vendo na Região Metropolitana de Porto Alegre um processo de ressurgimento das cidades que a compõe formando-se nestas, bairros residenciais, que começam a receber a numerosa classe média que trabalham nestas cidades. Uma classe média proveniente de inúmeras indústrias de médio e grande porte que estão sendo localizadas nestas cidades.

A formação destes núcleos residenciais, junto com a criação de centenas de pequenos empreendimentos de todos os tamanhos para dar suporte as grandes indústrias e a população de rendimento mais alto que começa a migrar para estas regiões, está colocando em risco uma arrojada, e em meu ponto de vista suicida, opção que a cidade de Porto Alegre tomou para si. A desindustrialização da cidade com transferências de empregos para as cidades vizinhas a Porto Alegre.

Conforme um trabalho de 1988, denominado – A “desindustrialização” de Porto Alegre: Causas e Perspectivas – de José Antonio Fialho Alonso e Pedro Silveira Bandeira, economistas da FEE e professores da UFRGS e PUCRS, respectivamente, já em 1988 era patente à perda de receita da cidade de Porto Alegre, em 1976 a cidade participava em 21,47% do retorno do ICMS, já em 1987 esta participação caia praticamente a metade, ou seja, 11,76%, nos dias atuais, com a mudança da forma de cálculo do retorno do ICMS a cidade recuperou um pouco (2002 – 12,60% em 2011 -11,17%) mas mesmo assim continua com sua trajetória descendente.

Este processo de desindustrialização da cidade, é devido a inúmeros fatores e escolhas desastrosas. Alguns podem dizer que a desindustrialização é produto do mesmo fenômeno que ocorre em nível nacional, mas se olharmos com cuidado, veremos que o que ocorre em nível nacional atinge mais umas cidades do que outras.

Primeiro, e mais citado por todos é o problema da organização dos espaços urbanos da cidade, que dentro de uma concepção de cidade criar uma cidade voltada ao setor terciário, criaram-se planos diretores que inviabilizaram a criação e manutenção de indústrias na cidade. eliminou espaços possíveis para instalações e manutenção de indústrias.

Segundo a adoção de uma infraestrutura viária baseada no rodoviarismo, abandonou-se os acessos por meio ferroviário, sendo talvez uma das poucas grandes cidades do mundo que não tem uma estação ferroviária voltada para o transporte de cargas e procura-se eliminar também o acesso hidroviário não investindo e limitando ao máximo as instalações portuárias. Este fator pode ser estendido em parte para o resto do país, pois a infraestrutura e outros custos (energia elétrica) que afetam a competitividade de nossa cidade também ocorre em nível nacional.

Terceiro, e talvez o não citado por outros, a opção por “indústrias limpas” como a concepção de implantar como pólo de desenvolvimento um pólo de informática, desconhecendo desta forma a influência da Internet na vascularização de serviços e a não necessidade de nucleação dos mesmos numa dada região.

Quarto, a burocratização excessiva na implantação de qualquer empreendimento industrial, tornando praticamente inviável a localização de qualquer indústria na cidade.

Quinto, a criação de pólos industriais em regiões afastadas de prestadores de serviços, com o único objetivo de absorver mão de obra abundante em determinadas regiões que por falta de infraestrutura educacional ou de treinamento, são desqualificadas para atividades industriais modernas. Não adianta criar pequenos núcleos de indústrias para absorção intensiva de mão de obra, se por limitações de espaço só é possível a localização de pequenas indústrias.

Pode-se perguntar porque grandes cidades em outros países tiveram sucesso em modificar seu perfil de cidades industriais para cidades voltadas ao setor de serviços e no Brasil parece que isto não está dando certo. Talvez tenhamos que levar em conta a forma de distribuição da carga tributária no nosso país. Numa exceção quase que internacional, o Brasil adotou como o maior imposto o ICMS, e este imposto por ser tributado na origem e não no consumo, penaliza sobremaneira as cidades voltadas aos serviços, pois a maioria deles ou é isenta, ou gera pouco tributo, ou pior ainda, é facilmente sonegável!

Como resultado disto tudo, geramos uma cidade que arrecada pouco, ficando importante na sua receita os impostos locais como o IPTU e o ISSQN, como estes impostos são importantes na arrecadação da cidade, há uma sobre-elevação de seus percentuais, fazendo com que várias empresas migrem para regiões adjacentes a Porto Alegre.

Temos imensas preocupações com nossa qualidade de vida e exigimos do município uma série de obras de infra-estrutura, em compensação o item básico na qualidade de vida, o salário de cada um, parece que por falta de emprego não acompanha o crescimento do resto do país.

Com menor infraestrutura, com uma carga tributária elevada, com a não existência de terrenos baratos para a localização de indústrias, com a evolução das formas de produção no setor de serviços, com políticas industriais equivocadas, a receita da cidade ficará estagnada dependendo de tributos locais, estamos num desastroso processo de desindustrialização, que num ciclo vicioso agrava todas as condições necessárias para a criação de empregos.

Alguns pensam que o não desenvolvimento arquitetônico da nossa cidade é um fator de perda de importância da mesma, mas se invertemos a ordem da frase, talvez tenhamos a solução, ou seja o efeito é que é a causa.

Rogério Maestri – Engenheiro, Mestre em Recursos Hídricos e Especialista em Mecânica da Turbulência



Categorias:Economia, Economia da cidade, Industrialização de Porto Alegre

Tags:,

30 respostas

  1. Rogério,
    Nossas gravações devem ser às segundas-feiras às 20h.
    Sim, a gente se fala.
    Adeli

    Curtir

%d blogueiros gostam disto: