Processo de desindustrialização de Porto Alegre, uma política desastrosa em longo prazo, por Rogério Maestri

Porto Alegre em 1950, uma cidade industrializada. Foto: acervo pessoal Gilberto Simon

Porto Alegre em 1950, uma cidade industrializada. Foto: acervo pessoal Gilberto Simon

Estamos vendo na Região Metropolitana de Porto Alegre um processo de ressurgimento das cidades que a compõe formando-se nestas, bairros residenciais, que começam a receber a numerosa classe média que trabalham nestas cidades. Uma classe média proveniente de inúmeras indústrias de médio e grande porte que estão sendo localizadas nestas cidades.

A formação destes núcleos residenciais, junto com a criação de centenas de pequenos empreendimentos de todos os tamanhos para dar suporte as grandes indústrias e a população de rendimento mais alto que começa a migrar para estas regiões, está colocando em risco uma arrojada, e em meu ponto de vista suicida, opção que a cidade de Porto Alegre tomou para si. A desindustrialização da cidade com transferências de empregos para as cidades vizinhas a Porto Alegre.

Conforme um trabalho de 1988, denominado – A “desindustrialização” de Porto Alegre: Causas e Perspectivas – de José Antonio Fialho Alonso e Pedro Silveira Bandeira, economistas da FEE e professores da UFRGS e PUCRS, respectivamente, já em 1988 era patente à perda de receita da cidade de Porto Alegre, em 1976 a cidade participava em 21,47% do retorno do ICMS, já em 1987 esta participação caia praticamente a metade, ou seja, 11,76%, nos dias atuais, com a mudança da forma de cálculo do retorno do ICMS a cidade recuperou um pouco (2002 – 12,60% em 2011 -11,17%) mas mesmo assim continua com sua trajetória descendente.

Este processo de desindustrialização da cidade, é devido a inúmeros fatores e escolhas desastrosas. Alguns podem dizer que a desindustrialização é produto do mesmo fenômeno que ocorre em nível nacional, mas se olharmos com cuidado, veremos que o que ocorre em nível nacional atinge mais umas cidades do que outras.

Primeiro, e mais citado por todos é o problema da organização dos espaços urbanos da cidade, que dentro de uma concepção de cidade criar uma cidade voltada ao setor terciário, criaram-se planos diretores que inviabilizaram a criação e manutenção de indústrias na cidade. eliminou espaços possíveis para instalações e manutenção de indústrias.

Segundo a adoção de uma infraestrutura viária baseada no rodoviarismo, abandonou-se os acessos por meio ferroviário, sendo talvez uma das poucas grandes cidades do mundo que não tem uma estação ferroviária voltada para o transporte de cargas e procura-se eliminar também o acesso hidroviário não investindo e limitando ao máximo as instalações portuárias. Este fator pode ser estendido em parte para o resto do país, pois a infraestrutura e outros custos (energia elétrica) que afetam a competitividade de nossa cidade também ocorre em nível nacional.

Terceiro, e talvez o não citado por outros, a opção por “indústrias limpas” como a concepção de implantar como pólo de desenvolvimento um pólo de informática, desconhecendo desta forma a influência da Internet na vascularização de serviços e a não necessidade de nucleação dos mesmos numa dada região.

Quarto, a burocratização excessiva na implantação de qualquer empreendimento industrial, tornando praticamente inviável a localização de qualquer indústria na cidade.

Quinto, a criação de pólos industriais em regiões afastadas de prestadores de serviços, com o único objetivo de absorver mão de obra abundante em determinadas regiões que por falta de infraestrutura educacional ou de treinamento, são desqualificadas para atividades industriais modernas. Não adianta criar pequenos núcleos de indústrias para absorção intensiva de mão de obra, se por limitações de espaço só é possível a localização de pequenas indústrias.

Pode-se perguntar porque grandes cidades em outros países tiveram sucesso em modificar seu perfil de cidades industriais para cidades voltadas ao setor de serviços e no Brasil parece que isto não está dando certo. Talvez tenhamos que levar em conta a forma de distribuição da carga tributária no nosso país. Numa exceção quase que internacional, o Brasil adotou como o maior imposto o ICMS, e este imposto por ser tributado na origem e não no consumo, penaliza sobremaneira as cidades voltadas aos serviços, pois a maioria deles ou é isenta, ou gera pouco tributo, ou pior ainda, é facilmente sonegável!

Como resultado disto tudo, geramos uma cidade que arrecada pouco, ficando importante na sua receita os impostos locais como o IPTU e o ISSQN, como estes impostos são importantes na arrecadação da cidade, há uma sobre-elevação de seus percentuais, fazendo com que várias empresas migrem para regiões adjacentes a Porto Alegre.

Temos imensas preocupações com nossa qualidade de vida e exigimos do município uma série de obras de infra-estrutura, em compensação o item básico na qualidade de vida, o salário de cada um, parece que por falta de emprego não acompanha o crescimento do resto do país.

Com menor infraestrutura, com uma carga tributária elevada, com a não existência de terrenos baratos para a localização de indústrias, com a evolução das formas de produção no setor de serviços, com políticas industriais equivocadas, a receita da cidade ficará estagnada dependendo de tributos locais, estamos num desastroso processo de desindustrialização, que num ciclo vicioso agrava todas as condições necessárias para a criação de empregos.

Alguns pensam que o não desenvolvimento arquitetônico da nossa cidade é um fator de perda de importância da mesma, mas se invertemos a ordem da frase, talvez tenhamos a solução, ou seja o efeito é que é a causa.

Rogério Maestri – Engenheiro, Mestre em Recursos Hídricos e Especialista em Mecânica da Turbulência



Categorias:Economia, Economia da cidade, Industrialização de Porto Alegre

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30 respostas

  1. No meu TCC sobre a história dos estádios de Porto Alegre, há um dado sobre o decréscimo de população do bairro Navegantes, de 19.000 nos anos 80, para 11.000 em 2000.
    Acho aquele empreendimento do Fiateci bem arrojado. Mesmo com regras de plano diretor especiais pro 4º distrito, investir lá ainda é risco.
    Enfim, as indústrias não vão voltar, o que se faz daqui pra frente? A zona tende a crescer economicamente pelo investimento privado, mas o público precisa de algo mais arrojado do que duplicar a Voluntários pra recuperar aquele bairro.

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    • Eduardo.
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      As indústrias dos dias de hoje tem outras necessidades dos que a do passado, logo uma área que servia nos anos 30 não serve mais 80 anos depois. Não estou propondo um “De volta ao passado” pois isto é algo reacionário em termos científicos, o que estou propondo é que olhemos com cuidado este setor para não errarmos no futuro, e se possível não fazer coisas que o inviabilize.
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      O que chamo a atenção é que o setor de serviços nos dias atuais tem uma volatilidade muito grande e se colocarmos toda a economia duma cidade neste setor estamos arriscando muito.
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      Estamos jogando roleta colocando todas as fixas num número, se não der certo perdemos tudo.

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  2. Acabei de chegar de POA e é assustador. Enquanto São Paulo concentra a riqueza do país, Porto Alegre concentra a pobreza. Os gaúchos são conhecidos pelo orgulho que nutrem por sua terra, mas que orgulho podem ter os portoalegrenses? Orgulho de quê? Enquanto no Rio as favelas são nos morros, em Poa a favela é no centro. Enquanto o Pelourinho de Salvador é apenas um bairro, o centro de Porto Alegre é o próprio Pelourinho. As pessoas são tão incivilizadas que não sabem nem usar os containers de lixo! Que cultura porca! Horrível, vergonhoso, deprimente!

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    • Caro Maurício
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      Simplesmente desfazer a cidade sem ao mínimo procurar entender os processos que atuam na mesma não contribui em nada.
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      Orgulho quando canalizado para a boa direção indica auto-estima, e a auto-estima significa que um grande passo para a recuperação.
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      Sinceramente não vi nada em tua intervenção que acrescentasse algo no debate, simplesmente adotar posturas de repúdio a isto ou aquilo, está mais para programa de TV de terceira linha do que contribuição para melhorar a cidade, este tipo de intervenção que procura simplesmente desconstruir o que existe atua mais na direção de reforçar o que está errado do que achar soluções na direção que deve se tornar.
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      Em resumo, simplesmente lamentável.

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  3. Todas as cidades que avançam são cidades miscigenadas. Não tem contradição entre produzir e morar, entre morar e usufruto do tempo livre em bares e restaurantes, até mesmo casas noturas.
    Tendo regramento, tudo pode funcionar.
    Este negócio de isolar, longe do lugar onde se mora, um “parque industrial” é uma ideia que se criou no Brasil.
    O Parque Industrial da Restinga estava numa ponta da Restinga, quando foi criado, longe de tudo lá, sendo que a Restinga já era o “final” da cidade de Porto Alegre.
    Tiramos as empresas de cargas de perto da saída de Porto Alegre, levamos para o Porto Seco, sem fazer o “braço norte”, ou seja, a saída.
    Tudo errado. Mal planejado. Melhor, nunca planejado.
    E aí todas as facções políticas tem seus débitos.
    Eu reconheço que o caso mais grotesco de separação forçada foi na Vila Santa Catarina, ou Vila dos Papeleiros, e foi meu partido…. Em vez de EDIFICAR, deixando espaço para galpão de reciclagem, usina de reaproveitamento ou algo similar demos uma casinha que logo precisou de um “puxadinho”, que não tinha local para os resíduos e foi ficando aquilo que vemos ali na Voluntários.
    Porto Alegre foi, é, e será – se a gente não se rebelar – sempre uma cidade conservadora, sob o ponto de vista de sua economia, de seu planejamento, e isto em certo sentido dita o urbanismo e até sua arquitetura, sem ter necessariamente uma relação direta.

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    • Adeli, meu caro.
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      Não sei se notaste, mas em nenhum momento citei o “Parque Industrial da Restinga”, e não citei por vários motivos que agora me obrigas a explicitá-los.
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      Não citei o exemplo para não partidarizar o assunto e trazer críticas ao partido A ou ao partido B, pois é de minha opinião que o chamado “Parque Industrial da Restinga” deve ter sido proposto com outra denominação e outra ótica, pois se ele foi criado com o objetivo de oferecer uma opção industrial para a cidade de Porto Alegre, ele começou mal, continua ruim e nunca será um polo industrial.
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      Ao meu juízo, acho que este empreendimento lançado pelo governo municipal da época tinha alguns objetivos diferentes do que se entende como um parque industrial ou uma zona industrial. Mas temos que analisar historicamente quais foram os motivos e quais foram as intenções.
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      A criação do bairro Restinga foi uma das maiores crueldades que foram feitas na cidade de Porto Alegre. Quando do início das obras do que originou a região em que está o Teatro Renascença, em 1965 os moradores da antiga Ilhota e outras vilas foram “convencidos” a se mudar do centro de Porto Alegre para uma área afastada a 22km. Isto foi feito aproveitando a memória da cheia de 1941 que ainda estava no inconsciente dos moradores da região que causou grandes dramas em que lá viviam. O problema da delocalização foi que em nenhum momento explicaram aos moradores que o sistema de diques transformaria aquela região num Polder protegida contra as cheias. Após a cheia de 1967 que de novo atingiu profundamente a Ilhota, pois os diques não estavam prontos, em 1969 expandiu-se ainda mais a Restinga.
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      Esta área sem empregos, sem infraestrutura, porém longe dos olhos do resto da população viveu mais ou menos a sua sorte recebendo a conta gotas a infraestrutura necessária. Durante as próximas décadas os moradores da Restinga viveram quase que a margem da população de Porto Alegre, sendo um exemplo de higienismo clássico, sínico e cruel, aplicado pelas classes dominantes no nosso país. Higienização esta obtida pela simples transferência das vilas e favelas para regiões longe dos olhos dos mais abastados.
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      Criado o problema social por diversas administrações anteriores o governo da época, como outros governos, procurou montar o que veio a ser denominado Parque Industrial da Restinga, que foi uma ação meritória,mas que por diversos motivos não se pode denominar este projeto como um parque industrial ou região industrial.
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      Acho que o grande erro da administração da época foi exatamente em tratar de forma híbrida este, que ao meu juízo, é mais um programa social do qualquer coisa, como um parque industrial. Se o empreendimento se fosse encarado e denominado com o objetivo real, dar emprego a uma população que não o tinha próximo, poderia ter buscado fontes de financiamento internacionais voltadas para este fim, porém como foi tratado como um Parque Industrial, não o sendo, fecham-se estas fontes de financiamento.
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      Não se cria um Parque ou Zona Industrial como foi criada o “Parque Industrial da Restinga”, para que uma região seja denominada parque industrial ela deve possuir atrativos para indústrias. Ele deve possuir áreas para instalação de empresas de diversos portes, uma série de serviços comuns tais como abastecimento de energia elétrica e de água para diversos fins (potável, para caldeiras, para arrefecimento), redes de internet de alta velocidade, tratamento de esgotos, e sistema de acesso a vários modais. Além disto, deve ter mão de obra qualificada para trabalhar nas empresas que se instalam.
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      Se considerarmos isto acima, o que há na Restinga não é um Polo Industrial, é mais uma ação social do que uma zona de atração. O que comprova isto, é que apesar do “Polo” existir a mais de 20 anos, segundo informações atuais da prefeitura ele possui somente 600 empregos diretos.
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      Outro problema do “Polo da Restinga”, é que por atrair empresas de baixo nível tecnológico, a geração de empregos indiretos é muito pequena.
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      Agora vem o pior na resposta, o problema é que várias administrações podem estar cheias de boa vontade, porém boa vontade sem competência e sem planejamento, como diz o ditado, “O Inferno está cheio de boa vontade”.

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      • Bem colocadas todas as questões atinentes a Restinga.
        Pelo que tenho acompanhado das tuas reflexões, poderíamos pensar em propor ao Gilberto Simon e seu blog Porto Imagem, uma Mesa Redonda, num dia destes para discutir abertamente os problemas de nosso Urbanismo. Isto gravado e filmado e reproduzido poderia ajudar o debate tão tacanho que temos visto e ouvido por aí.
        Todas as quintas-feiras, às 22h, vai ao ar agora o Porto Alegre em Revista que vai tratar de temas da cidade. Quem sabe num dia destes possamos contar com a sua participação.
        Estou também pensando num evento para debater a Identidade e a Estética Urbana de Porto Alegre.
        Estou no e-mail – adeli13601@gmail.com p f. 99335309

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      • Adeli
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        Não vou me fazer de rogado nem de bolachinha mais recheada do pacote, é só combinar com alguma antecedência que darei um jeito de ir, seria um prazer levar parte das discussões, que temos aqui para a TV. Terças e quintas dou aulas a noite na UFRGS (20:30-22:00), entretanto como são poucos alunos posso sair mais cedo e participar.
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        Meu e-mail privado o Simon tem, é só pedir que ele te passa, só não coloco o telefone na rede, pois se assim fizer nas vésperas das provas vou ficar todo o tempo atendendo-o para responder perguntas do tipo:
        – Professor a figura do exercício nº 5 é…..

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      • Adeli.
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        Mais uma informação, sem falsa modéstia acho que para o assunto proposto “Identidade e a Estética Urbana de Porto Alegre” não sei se não há uma dezena de pessoas que participam deste blog que são bem mais qualificadas para isto. Agora se quiserem uma opinião sobre assuntos correlatos, como um assessório a discussão, posso participar.

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  4. Tirando o crescimento vegetativo, o que é que estes últimos governos fizeram para Porto Alegre? Não fizeram nada. Correram o capital que dá empregos e pujança.

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    • Caro Antonio.
      Não acho que seja uma opção política de ser contra o capital e a favor não sei lá o que, é uma opção de desprezo a um tipo de produção, e isto pode ter um caráter subjetivo que é bem mais profundo na mente de todos, parece que um tipo de atividade não é olhada com a importância que deve ter.

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  5. Só mais um adendo, leiam a notícia do Correio do Povo (PIB do RS cai 1,8% em 2012 – Queda foi puxada pelo fraco desempenho da agropecuária em função da estiagem). Um estado que ainda necessita da liberalismo da vaca e da livre iniciativa do touro para nos mantermos!
    http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=492133

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  6. Ricardo.
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    Há algum tempo pensava exatamente como tu pensavas, entretanto observando as grandes cidades do mundo (mais virtualmente do que ao vivo e a cores) verifiquei que estas de forma nenhuma abandonaram a indústria a não ser por absoluta e total falta de espaço.
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    Posso dar como exemplo New York e Paris, a primeira possui uma área de 1.213 km² e a segunda 105,40 km², ou seja, NY tem mais do que dez vezes a área de Paris. Como consequência disto a cidade de Paris simplesmente ficou tomada por imóveis residenciais e por setor terceário, concentrando nesta grande parte da administração pública francesa que consegue ser mais centralizada que a brasileira, já NY não desistiu de seus mais do que 233.000 empregos no setor manufatureiro nas suas mais de 10.000 manufaturas , que geram para a cidade só no setor de indústria de chocolates mais de 234 milhões de dólares de exportação por ano. Se pensarmos em infraestrutura de transportes, aí nem se fala, portos, linhas férreas, hidrovias são conservadas para manter aberto as veias da cidade
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    Ou seja, a atividade industrial em NY é pujante e nenhum prefeito Novaiorquino pensou em abrir mão deste setor.
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    Por outro lado, aqui como os nossos prefeitos são muito mais espertos do que o Giuliani e o Bloomberg fazemos tudo para impossibilitar a vida das indústrias na nossa cidade. Pois é mais fácil no lugar de procurar que as indústria lancem a sua poluição, enviá-las para o entorno da cidade, pois lá elas não poluem o Rio Guaíba nem o ar que respiramos.
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    Importante, eu sou professor federal em vias de aposentadoria, logo não necessito de emprego, mas será que todos os portalegrenses são assim?

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  7. Pessoal,

    A tendência de migração das atividades industriais dos grandes centros urbanos para as periferias das mesmas regiões metropolitanas é um fator de escolha política, ou é um desenvolvimento natural da organização econômica? Nesse caso, subsidiar as indústrias para mantê-las nos centros urbanos teriam custos invisíveis (menor eficiência, maiores custos financiados pelos contribuintes, mais poluição, mais trânsito) que compensariam os benefícios visíveis?

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    • “Nesse caso, subsidiar as indústrias para mantê-las nos centros urbanos teriam custos invisíveis”
      – menor eficiência – Para escoar os produtos sim, mas para chegada e saída de trabalhadores não.

      – maiores custos financiados pelos contribuintes – Nessa caso quem paga é o trabalhador para chegar e sair da empresa, bem como os contribuintes para promover infra-estrutura de transporte para os mesmos.

      – mais poluição – A poluição que a indústria gera é a mesma estando na cidade ou não, agora se ela estiver mais longe os trabalhadores geram poluição para chegar até ela.

      – mais trânsito – Para os trabalhadores chegarem até as indústrias distantes é que gera mais trânsito, tornando a cidade um lugar de passagem e não um lugar de convívio.

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    • Caro Ricardo.
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      O Pablo de forma perspicaz conseguiu rebater alguns dos teus argumentos, entretanto vou continuar um pouco a refutá-los, adotando outra linha, uma linha mais baseada em fatos do que em teorias.
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      A afirmação que fazes que a migração da indústria para fora dos grandes centros urbanos é uma lógica que acompanha o crescimento das mesmas, está correta. Mas os efeitos desta migração que retira determinadas indústrias é agravado à medida que ações corretas, em momentos corretos, não são realizadas.
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      Um dos grandes bairros industriais que existiam na nossa cidade era o quarto distrito, e por quê? Simplesmente era o bairro mais próximo ao terminal ferroviário da cidade e do porto. Vais dizer isto é óbvio, sim é óbvio, mas no momento em que estes dois modais foram abandonados todo o atrativo para a indústria que ali existia acabou.

      Poderias retrucar, dentro de uma organização moderna da indústria a escala das mesmas aumentaram para satisfazer um mercado bem mais amplo e ganhar escala que permite melhor grau de competição, correto, porém qual foi a alternativa que se oportunizou para substituir no momento correto a perda destes dois modais? Nenhuma.
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      Podes de novo dizer, mais isto foi no passado, exato mais uma vez! Foi no passado como disse no meu texto, a opção pela desindustrialização não é recente, e simplesmente abandonou-se a opção simplesmente através do estrangulamento da localização de indústrias. Quando nas décadas de 60 e 70 estrangulou-se o acesso a meios de transporte industriais não se pensou no futuro.
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      Tínhamos um pátio de manobras de trens limitado que não tinha grande possibilidade de expansão, como a banheira em que estava o bebe se tornou pequena, simplesmente a jogamos fora com o bebe dentro. Não se pensou numa expansão ou numa segunda alternativa como todas as grandes cidades a fazem. Simplesmente abandonou-se tudo.
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      Como o transporte fluvial estava precário foi mais fácil simplesmente abandoná-lo do que investir no aumento do calado ao longo da Lagoa dos Patos, afinal não era prioridade da cidade. Nós somos a Capital, e o resto do estado deve nos manter! O que resultou? Um estado falido que não tendo recursos para nada em nada investe. Porto Alegre se apequenou em relação a tudo.
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      Quanto à poluição ainda é mais enigmático. Parece que tirando dos nossos olhos ela deixa de existir, este é um dos raciocínios que está levando a Europa ao estado que está. Sabe-se que indústrias nos dias atuais podem produzir sem a emissão de poluentes e que é mais fácil fazer uma indústria despoluir seus resíduos do que, por exemplo, os resíduos de zonas residenciais. Somos realmente tão preocupados com a poluição que largamos “in natura” quase 80% dos resíduos domésticos gerados na cidade de Porto Alegre e o mesmo valor em outras cidades da grande Porto Alegre. Eu acho completamente hilário quando os rios que são os geradores do Guaíba estão com vazões baixas e não conseguem diluir as toneladas de resíduos domésticos e todos saem à procura de uma ou outra indústria para coloca-la como a grande culpada de tudo. Acho hilário, pois os mesmos que procuram a origem da poluição dos rios são os reais contribuintes da mesma.
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      Estamos com um fantástico projeto de saneamento ambiental, o Sócio-ambiental, que deveria estar pronto há mais de vinte anos, mas deixamos que a cidade cresça para que cada dia a solução fique mais cara e complexa. Mas não faz mal, o nosso esgoto é jogado no valente e poderoso Rio Guaíba, que por ser rio ainda consegue depurar toda esta imundície.
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      Somos uma cidade que como os personagens Estragon e Vladimir da peça “Esperando Godot” estamos parados a décadas, porém estamos pior do que estes, pois além de não nos movermos para onde devemos ir, quando nos movemos, nos movemos para o lado errado.

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  8. Sou totalmente a favor a desindustrialização de Porto Alegre. O futuro de grandes cidades, como Porto Alegre, evidentemente que está no comércio e prestação de serviços. Desejar o retorno de indústrias para uma cidade que quer ser um centro de referência é um retrocesso, coisa do século passado. Já passamos dessa fase e temos de ir em frente.

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    • Julião, este teu pensamento já está defasado. Os grandes arquitetos e urbanistas do mundo já estão se dando conta que foi um grande equívoco separar as indústrias das moradias e serviços. Modernamente está se pensando o contrário. A cidade pode ter sim todas as esferas das atividades humanas, como forma de facilitar por exemplo o transporte. Não tem porque ser obrigado a percorrer grandes distâncias pra se chegar no trabalho (indústria) quando esta está localizada numa outra cidade.
      O movimento da BR-116 que o diga.
      As cidades brasileiras estão ao contrário das tendências, em todos os sentidos! Infelizmente.

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      • Exatamente! Há projetos urbanísticos que são baseados em células e que no dia-a-dia as pessoas conseguem tudo que precisam dentro dessas células de cerca de 4km de raio.

        Fora isso tem a questão econômica.
        Setor primário apenas tem baixíssimo valor agregado e baixa geração de renda.
        Setor secundário apenas precisa ir muito longe para buscar a matéria prima, precisa de muita mão de obra e gera resíduos.
        Setor terciário apenas depende fortemente dos setores primário e secundário e sempre orbitarão em torno desses. As empresas de serviços que se localizam longe de seus clientes estão em desvantagem, mesmo sendo mais competentes.

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      • Gilberto e Simon.
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        Só reforçando o que disse acima e que vocês falaram. Em países em que o imposto é pago no consumo (a imensa maioria dos países) eles, por vários pontos como está bem colocado nas intervenções dos dois, estão pensando em reverter esta separação de funções nas cidades. Agora imaginem, no Brasil, onde além disto tudo temos a questão fiscal (o ICMs é cobrado na origem) induz um favorecimento dos municípios e estados que tem indústria o caso é passa de preocupante a dramático.
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        O Rio Grande do Sul como um todo, sempre sofreu com isto, pois os serviços e o agro-negócio produzem pouco ou nenhum ICMs, logo poderíamos estender, mutatis mutandis, todo o texto e as conclusões que se toma para a cidade de Porto Alegre.

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  9. Rogério, não teve também o dedo dos militares no período da ditadura? Sabe como é essa coisa deles quererem “organizar” criando regiões industriais, residenciais, comerciais… O centro de Porto Alegre deserto nos fins de semana e atrolhados nos dias úteis vem dessa “organização militar”. Será que a desindustrialização não tem a ver com isso também?

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    • Pablo.
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      Não tenho certeza, mas acho que era mais uma questão cultural da época do que o dedo dos militares. Temos muitas faturas a serem debitadas na conta dos governos militares, mas tenho quase certeza que na época desses se houvesse uma discussão aberta e democrática deste item (coisa que nunca houve) talvez teríamos uma ou duas vozes contra este movimento de desindustrialização, mas a maioria seria a favor!
      .
      Se houver mais comentários neste texto verás que mesmo hoje em dia as pessoas ainda pensam assim.

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