Tecnologia 100% nacional, Aeromóvel chega à reta final em Porto Alegre

Transporte inovador, desenvolvido em São Leopoldo (RS), está prestes a ser implantado na capital gaúcha. Chegada do primeiro veículo e testes iniciais estão previstos para abril. Começo da operação comercial será no segundo semestre de 2013

Quem passa em frente ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, fica pelo menos curioso. Diante do terminal de passageiros, dezenas de pessoas trabalham em uma via de concreto, cuja altura varia de 4,5 a 9 metros. A estrutura chama atenção não só pela elevação, mas pelas curvas sinuosas presentes no trajeto. Os trabalhos ali estão na reta final.

Os trilhos estão sendo ajustados na via. No começo e no fim da linha, duas estações de 450 m2, climatizadas e com portas automáticas, recebem os acabamentos. Os dois veículos que vão circular na estrutura – um para 150 passageiros e outro para 300 – foram fabricados em Três Rios, no interior do Rio de Janeiro. O menor chega a Porto Alegre em abril, para os primeiros testes, e o segundo em maio. Esse é o contexto da primeira linha comercial do Aeromovel no país. A previsão de início da operação é para o segundo semestre de 2013.

Barco a vela invertido

O Aeromóvel é um sistema automatizado de transporte de passageiros que se locomove em via elevada. Trata-se de um veículo leve sobre trilhos movimentado pelo ar gerado por ventiladores industriais, que controlam pressão, direção e velocidade do ar.

“O veículo tem uma placa de propulsão fixa no chassi do carro, que fica enclausurada dentro da via. Então, uma corrente de ar de baixa pressão e de alta vazão sopra o veículo empurrando ele pra frente ou succiona, trazendo o veículo de volta. O motor que gera a força de tração do sistema fica fora do veículo, deixando o veículo mais simples e mais leve possível”, explica Diego Abs, diretor de engenharia da Aeromóvel Brasil S/A, empresa sediada em São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre.

“A roda e o trilho tem funções diferentes em relação ao transporte ferroviário. Eles são usados para uma espécie de rolamento linear e a propulsão é feita independente da roda. É um sistema de barco a vela invertido, em que o próprio duto da via é o túnel de vento. Ao invés de esperar o vento soprar, o vento é soprado através de ventiladores industriais, movidos a energia elétrica.”, acrescenta o gaúcho Oskar Coester, presidente da empresa e inventor da tecnologia.

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Em Porto Alegre, o percurso do Aeromovel terá um quilômetro, fazendo a ligação direta entre a Estação Aeroporto, integrante do metrô da capital gaúcha , e o terminal 1 de passageiros do aeroporto Salgado Filho. A linha é de responsabilidade da Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb), vinculada ao Ministério das Cidades. A Trensurb adquiriu o pacote tecnológico do Aeromóvel em agosto de 2010.

“O Aeromóvel será tratado como um braço da Trensurb do sistema principal. Ao comprar o bilhete da Trensurb, o usuário já estará dentro do sistema. Na Estação Aeroporto, ele fará uma transferência, já na área paga, e poderá ter acesso ao Aeromóvel para chegar ao aeroporto, sem custo adicional. E o mesmo vale para o sentido oposto, basta adquirir o bilhete do metrô”, explica Humberto Kasper, diretor-presidente da Trensurb.

De acordo com Kasper, a decisão de implantar o Aeromóvel foi baseada em vários fatores. “Em 2004, um parecer técnico do Ministério da Ciência e Tecnologia recomendou que o país investisse no desenvolvimento da tecnologia, 100% nacional. No relatório da CPI da crise do sistema de tráfego aéreo, foi recomendado que houvesse soluções para os aeroportos em termos de acesso por modos coletivos de transporte. Um plano de soluções foi produzido pelo Ministério das Cidades, que recomendou os testes com a tecnologia Aeromóvel  sugerindo a criação da linha aqui em Porto Alegre”, diz.

Em dezembro de 2010, a Trensurb e a Infraero assinaram um termo de cooperação para implantação do sistema entre a estação do metrô e o aeroporto. A obra teve início em agosto de 2011, com investimento total de cerca de 38 milhões de reais, recursos do governo federal.

Sistema verde

A velocidade dos veículos do Aeromovel será de, no máximo, 65 km/h e o trajeto de um quilômetro vai ser percorrido em um minuto e meio. Como os veículos são leves e há uso de eletricidade, o consumo de energia e o impacto ambiental são reduzidos.

“É um sistema de tecnologia verde. A matriz energética é a eletricidade e como o consumo de energia é pequeno, você tem um baixo impacto ambiental. Além disso, não há emissão de poluentes gasosos e a emissão de ruídos é bastante reduzida. Os veículos pesam de três a cinco vezes menos que os de um sistema convencional de mesma capacidade”, explica Diego Abs.

Ele acrescenta que a expectativa de custo para o operador é de cerca de 1/3 de um sistema equivalente tradicional, já que os veículos do Aeromovel são simples, com poucas partes móveis. Além disso, todas as peças são encontradas no mercado nacional, desde as placas de fixação dos trilhos e emendas das borrachas, vindas de pequenas empresas de Porto Alegre, aos veículos, que foram produzidos no interior do Rio de Janeiro.

Outra vantagem é a versatilidade do sistema. “Ao invés de fazer realocações das passarelas, dos viadutos, das construções ao redor, pode-se inserir o Aeromovel pela malha urbana, minimizando ao máximo as desapropriações e realocações. Isso porque ele consegue fazer curvas bem acentuadas, de raios fechados e consegue vencer grandes aclives. Nenhum outro sistema sobre trilhos consegue, porque os veículos patinam. E o Aeromovel não tem esse problema de derrapar”, diz Diego Abs.

O Aeromovel, segundo o diretor de engenharia, também não oferece risco de abalroamento. Se por acaso um veículo tentar se aproximar enquanto outro trafega na via, ele explica, forma-se um colchão de ar entre as placas de propulsão, evitando a colisão dos veículos. Além disso, as placas de propulsão prendem o veículo firmemente na via diante de qualquer tendência de tombamento.

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Comodidade

De acordo com a Trensurb, a expectativa é atender uma demanda de cerca de 10 mil pessoas por dia. São passageiros que costumam percorrer a pé a distância de um quilômetro entre o terminal 1 do aeroporto e a estação da Trensurb, uma parte pelas ruas e outra pela passarela.

Bastam alguns minutos na entrada da estação para ver repetidamente a cena de pessoas chegando com malas do aeroporto, cansadas. São esses os usuários que aguardam com ansiedade a implantação do Aeromovel.

“Vai facilitar muito para quem desembarca no aeroporto. A gente tem que dar uma pernada, é muito cansativo. Hoje mesmo nós chegamos de Salvador e viemos andando com duas malas pesadas”, diz a secretária Viviane Brito.

O representante comercial Jorge Augusto Germano concorda. Ele mora em São Leopoldo e usa o metrô regularmente para o acesso ao aeroporto. “Realmente é complicado fazer esse 1 km puxando bagagens pesadas, principalmente porque parte do piso não está muito boa e as rodinhas da mala já não funcionam direito. Esse novo transporte vai facilitar bastante” diz.

Copa: catalisador do projeto

A implantação do Aeromovel não está na Matriz de Responsabilidades da Copa do Mundo da FIFA 2014, mas o projeto é considerado fundamental para o Mundial. O fato de Porto Alegre sediar a competição foi um catalisador da realização da obra.

“Esse projeto teve o sinal verde do governo federal neste momento muito em razão da Copa do Mundo, para melhorar a acessibilidade do aeroporto para a Copa, para aproveitar esse momento importante e deixar um legado permanente para o país” diz Humberto Kasper.

Ele acredita que o Aeromovel poderá ser replicado no Brasil., por ter capacidade para transportar mais passageiros com múltiplas possibilidades de uso, inclusive para ligação de grandes centros industriais ou residenciais.

A expectativa de Diego Abs não é diferente. “Esse projeto operando comercialmente com sucesso servirá de demonstração da confiabilidade, da segurança, da competividade, da economicidade da tecnologia. A Copa vai ser muito importante para demonstrar para o resto do mundo que o Brasil consegue desenvolver soluções próprias e inovadoras para seus problemas e, quiçá, exportá-las para o mundo”, diz.

PORTAL DA COPA – GOVERNO FEDERAL



Categorias:Aeromóvel, Aeroporto Internacional Salgado Filho

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32 respostas

  1. Essa é uma das obras mais úteis dessas “para a Copa”. Quem n pega o Trensurb diariamente n tem idéia de como tem gente que utiliza esse transporte para ir ao Aeroporto ou para trabalhar lá. Claro que é um volume muito menor do que em qualquer corredor de ônibus, mas em se tratando de uma linha operacional de teste e com a massificação do transporte aéreo, me parece um raro tiro certo de planejamento urbano em Porto Alegre.

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  2. mas ta demorado isso.

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  3. Segundo um engenheiro meu conhecido, o aeromovel e’ pessimo em consumo de energia comparado a outros meios de transporte. Talvez por isso nunca tenha dado certo em nenhum lugar. So’ foi parar na Indonesia porque rolou uma propina, segundo dizem as mas linguas (gente que estava por dentro do negocio).

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    • Pior do que o T1 parado na tranqueira da Ipiranga? Gostaria de ver estes números!

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    • Ricardo, para implantar este projeto, o aeromóvel passou por uma modernização, uma atualização tecnológica. Creio que tenha acontecido uma mudança bem significativa desde que foi implantado em Jakarta. Isso foi na década de 80. Estamos em 2013, séc XXI. Portanto, a questão energética deve ter melhorado a ponto dele se tornar viável. Mas deixo para o Diego Abs explicar pela enésima vez. Alô Diego …

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    • Teu engenheiro conhecido deve ser a mesma da mesma linha de raciocínio da mente brilhante que preteriu o nosso aeromóvel pra termos essa droga de transporte coletivo baseada em ônibus que temos hoje em POA. Sinceramente, não quero saber opinião de gente assim.

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      • Não sei sobre a eficiência. O ar é gerado por turbinas, não sei se consome mais ou menos.

        Mas uma coisa é questionável: se for tão bom, por que não foi adotado nos países de primeiro mundo?

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        • A maioria dos países do mundo que usa monotrilho, usa o elétrico comum. Eu no lugar deles também desconfiaria de uma tecnologia brasileira que não tenha sido usada em larga escala em lugar nenhum. Por isso mesmo acho que só podemos tirar conclusões com uma linha funcional, com alta demanda.

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    • Quem sabe você pergunta exatamente o porque e expõe alguns resultados… por que só assim fica difícil argumentar.

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      • Nao quis saber maiores detalhes, nao e’ minha area nem esta’ entre meus interesses principais.

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        • Então você trouxe uma informação irrelevante… Quer dizer que existe alguém que julga que o Aeromóvel é ineficiente energeticamente? Sob quais condições? Comparando com o que? Isso significa o que? Afinal de contas células solares são extremamente ineficientes… e daí? Proteína a partir da carne de gado e extremamente ineficiente (comparando com o frango) e daí?

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        • E o motor de combustão interna é muito eficiente, pelo jeito…

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    • “O consumo energético equivalente encontra-se em patamares inferiores à metade dos observados nos sistemas sobre pneus.” Fonte: Wikipedia (não é das melhores, mas é uma fonte).

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      • Acho que ainda é uma fonte melhor do que alguém que não se conhece e não se tem o contato. Afinal de contas se pode contactar quem escreveu esse artigo do Wikipedia e mostrar que ele está errado, se assim for.

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  4. Off-topic: http://wp.clicrbs.com.br/editor/2013/03/25/zh-promove-debate-online-sobre-o-crescimento-desordenado-de-porto-alegre/ – não deixem os xiitas dominarem esse debate, pois é certo que virá à tona o assunto orla. Bom canal de expôr a nossa opinião na mídia “grande”

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    • Ah, esqueçam. Quando falaram em debate on-line, achei q as pessoas participariam, mas parece q é só pra assistir. Bom, dá pra ver o que vão falar…

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  5. Ai da qui uns anos eles derrubam todo e vão construir um aeroporto laaaa na fronteira com a China…

    sahusauhhushushuashuas

    E sobre a sinalização, não fala isso, vamos ter um pouco de tecnologia, algo diferente, por favor… ao menos no aeroporto.

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  6. “Vai facilitar muito para quem desembarca no aeroporto. A gente tem que dar uma pernada, é muito cansativo. Hoje mesmo nós chegamos de Salvador e viemos andando com duas malas pesadas”, diz a secretária Viviane Brito.

    Sinalizar decentemente o onibuzinho que faz esse percurso talvez fosse mair barato que contruir um aeromóvel!

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    • Dificilmente esse onibuzinho fizesse o trajeto em 1 minuto e meio. Fora que em caso de um congestionamento no transito, o onibuzinho ficaria parado.

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  7. Linda a foto a partir do aeroporto… Acho que o Aeromóvel se tornará até turístico, assim como a travessia até Guaíba.

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  8. Muito bom! Sonho em ver um desses por cima da Ipiranga!

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    • Eu também… nossa versão do trem de Wuppertal

      http://en.wikipedia.org/wiki/Wuppertal_Suspension_Railway

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      • Seria maravilhoso se fizessem algo parecido.

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      • Esse modelo alemão não daria certo no Brasil. Eles fariam a estrutura com material ecológico bagaceiro e num dia de bastante movimento, o trem cairia no Dilúvio, matando umas 50 pessoas. Depois a mídia ia televisionar por meses, e começaria o jogo de empurra-empurra para descobrir os culpados… ad infinitum.

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        • A estrutura alemã nem deve ser replicada, pois devido a idade (acho que tem uns 100 anos), já temos técnicas e materiais melhores. Eu gosto do conceito, por isso menciono.

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      • em cima não era. O dilúvio poderia ser aproveitado de melhores maneiras… do lado seria uma boa, mas o aeromovel funciona para grandes distancias? ele não suporta apenas um vagao por vez?

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        • O aeromóvel do aeroporto terá 2 veículos: um com capacidade de 150 passageiros (simples) e outro, duplo, articulado, com capacidade para 300 passageiros. Não acho que 300 passageiros seja pouco.

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        • Gilberto, acho que ela quis dizer se pode ter mais de um veículo em toda extensão do trilho. Considerando que a Ipiranga é enorme, é uma ótima dúvida pois não poderia ter apenas uma para todos percurso. Não sei a resposta.

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        • Acredito que colocando mais ventiladores ao longo da linha resolvem o problema. acredito que um a cada estação seria suficiente já.

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        • Felipe, ao longo do duto há várias “válvulas” (comportas) que abrem e fecham permitindo que apenas os ventiladores mais próximos ao veículo fiquem ligados. A distância é virtualmente infinita.

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    • O limite do aeromovel é a distancia entre os moto propulsores que ficam no solo soprando ar no duto. Como o aeromovel é empurrado pelo ar comprimido ou puxado pelo ar com pouca pressão a frente, só pode ter dois trens entre cada dois moto propulsores obviamente.

      Acho que os maiores limitadores do aeromovel são este limite de trens por trecho e o peso máximo de cada trem, pois a pressão nos duros tem limites e tolerância baixas. Um trem elétrico convencional não teria tais limites.

      Clique para acessar o 000641699.pdf

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    • A resposta é simples. Para funcionar ao longo da Ipiranga seria necessário 2 vias. Teriam que ser construídas várias estações. Teria que ter vários veículos. Em cada estação teriam que instalar um sistema de propulsão (ventiladores e dutos de entrada no duto principal). O mais importante de tudo é que não existe comprovação técnica ou científica que para longas distâncias esta tecnologia é aplicável. O pessoal da Trensurb e a prefeitura de Canoas são um bando de aventureiros, pois querem implantar este sistema em Canoas com 9 estações num percurso de 6km e com 6 veículos. Nem o Sr, Quester tem certeza se funcionará, é só perguntar à ele.

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