Qual deve ser o preço do ônibus em Porto Alegre?, por Anthony Ling

tarifa-onibus-poaPorto Alegre acaba de mudar a tarifa da sua passagem de ônibus, sendo agora a capital mais cara do país para este serviço.

Ela deveria voltar a ser R$2,85? Ou pode ser mantido o reajuste para R$3,05? Ou deveria diminuir do patamar original? Que tal R$2,00? Ou melhor, que tal deixar os ônibus grátis, como na Estônia?

Para mim, essas perguntas não deveriam nem mesmo existir, pois fundamentalmente o preço, neste caso, é apenas uma ilusão.

Por que essa pergunta não é considerada absurda como “qual deveria ser o preço de um computador em Porto Alegre”? Obviamente existem modelos, finalidades, formas de pagamento e, principalmente, necessidades diferentes para cada cidadão.

Se você notou algo estranho nestas últimas frase pensou certo: computadores são vendidos através de preços, já passagens de ônibus por tarifas.

Onde existem mercados, os valores pagos por um determinado produto ou serviço não são resultado de decisões políticas, mas resultado das trocas realizadas entre todos os “agentes de mercado” (mesmo aqueles que não participam!). O consumidor, ao decidir quantas passagens comprar (ou até mesmo não comprar) está sinalizando sua opinião em relação à qual deveria ser o preço justo da passagem para uma determinada qualidade de serviço, ajudando a definir, mesmo que inconscientemente, o preço do ônibus.

Já no sistema onde muda a tarifa-mestra-única surgem as manifestações, gritarias, “ocupações” e intermináveis discussões, cada um tentando impôr a sua opinião de qual deveria ser o preço universal de um determinado produto. As opiniões não diferem muito de o que acontece no mercado: quem usa quer de graça enquanto quem vende quer o preço máximo. A diferença é que com concorrência e venda por preços temos a criação de linhas de produtos diferentes assim como a inovação e a constante redução de preços. É justamente o que aconteceu com computadores: em um dos mercados mais abertos e mais concorridos do mundo o preço por byte (unidade de armazenamento de dados) caiu 100,000 vezes nos últimos 30 anos, e sempre que a tecnologia chega perto do limite uma mente inovadora traz algo novo e mais eficiente.

Mas transporte coletivo se tornou algo diferente. Os municípios tomaram o mercado à força, criando tamanha confusão que o termo na mente do cidadão tem praticamente o mesmo significado que transporte público, como se fosse um serviço impossível de ser realizado por ninguém sem a caneta de um burocrata por trás. Prestadores de serviço não autorizados são considerados criminosos, e o mercado é restrito à apenas alguns agentes, que atuam em parceria com a Prefeitura (quando não exclusivamente por uma empresa estatal). O que é então cobrado são tarifas, às vezes equivocadamente chamadas de preços, pois não são definidas a partir de uma ordem espontânea entre consumidores, empreendedores e toda a rede de centenas de milhares de participantes que influenciam na construção do seu valor preço.

Nossos governantes conseguiram enraizar a ideia na população de que o fornecimento de serviços de transporte coletivo “não autorizado”, com opções, formatos, tecnologias e preços diferentes – para pessoas diferentes – é algo extremamente errado, embora o mercado de computadores seja exatamente assim e funcione muito melhor. Assim continuaremos vendo cidadãos furiosos com o aumento das tarifas, políticas ineficientes e populistas de “ônibus grátis” após anos de proibição de empreender em transporte coletivo e de planejamento pró-transporte individual e, principalmente, cidadãos emocionalmente indiferentes à aumentos de preços em lojas de informática já que simplesmente buscarão concorrentes mais baratos e eficientes.

Fonte: Rendering Freedom (enviado ao Blog por e-mail pelo autor *Anthony Ling )

Anthony Ling é Arquiteto e Urbanista pela UFRGS e escreve em renderingfreedom.com



Categorias:Artigos

54 respostas

  1. Quando fala-se em preço, relaciona-se a qualidade do serviço disponiblizado em relação ao valor da passagem.

    O serviço incluem a qualidade dos veículos, o conforto e estado de conservação dos mesmos, a quantidade da frota, se é suficiente para a demanda, e é claro o atendimento dos funcionários das empresas, e se os mesmos estão dentro das normas técnicas que protegem a emissão de gases poluentes

    Na maioria das vezes o que vemos são ônibus com o tempo de uso vencido, o estado de conservação e o confrto aos passageiros de má qualidade.

    Nesta relação os valores devem ser estabelecidos.

    Se a qualidade dos serviços não corresponderem aos requisitos, por quê o aumento das passagens?

    Quanto mais falam-se de ônibus em Porto Alegre, mais eu tenho saudade dos bondes, embora seus bancos na época fossem de madeira, ao menos eles tinham valores de suas passagens bem baratinhas em relação aos dos ônibus e seus atuais preços.

    Está mais que na hora dos VLTs, trens de passageiros e bondes modernos voltarem na paisagem de nossas cidades, nossos campos, vales, montanhas, etc.

    A Europa e o resto do mundo eles convivem bem com a modernidade, só em nosso país viraram TABÚ!

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  2. Quando fala-se em preço, relaciona-se a qualidade do serviço disponiblizado em relação ao valor da passagem.

    O serviço incluem a qualidade dos veículos, o conforto e estado de conservação dos mesmos, a quantidade da frota, se é suficiente para a demanda, e é claro o atendimento dos funcionários das empresas, e se os mesmos estão dentro das normas técnicas que protegem a emissão de gases poluentes

    Na maioria das vezes o que vemos são ônibus com o tempo de uso vencido, o estado de conservação e o confrto aos passageiros de má qualidade.

    Nesta relação os valores devem ser estabelecidos.

    Se a qualidade dos serviços não corresponderem aos requisitos, por quê o aumento das passagens?

    Quanto mais falam-se de ônibus em porto Alegre, mais eu tenho saudade dos bondes, embora seus bancos na época fossem de madeira, ao menos eles tinham valores de suas passagens bem baratinhas em relação aos dos ônibus e seus atuais preços.

    Está mais que na hora dos VLTs, trens de passageiros e bondes modernos voltarem na paisagem de nossas cidades, nossos campos, vales, montanhas, etc.

    A Europa e o resto do mundo eles convivem bem com a modernidade, só em nosso país viraram TABÚ!

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  3. O transporte público é tão bom, mas tão bom, que o governo proibiu a iniciativa privada de competir com ele pra que ela não tenha prejuízos.

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  4. Acho que o autor do artigo desvirtuou um ponto importante estudado pelos economistas, que é o papel da ilegalidade na regulação da economia.

    O preço dos produtos são definidos pelos fabricantes e comerciantes desse produto, que basta que eles aumentem lentamente o preço que as pessoas não sentirão e seguirão comprando, se realmente precisarem. Se não precisarem deixarão de comprar ou comprarão outras coisas (ao invés de comer batata, comem arros, ou massa…). Entretanto há toda uma economia ilegal acontecendo com produtos atravessando a fronteira como se fossem para uso pessoal e são revendidos mais baratos. Quando essa diferença é muito grande as pessoas vão comprar no camelô mesmo.

    Essa economia informal (que existe em todos os países) é necessária para a regulação da economia formal. Acontece que não temos nenhuma outra opção “ilegal” para o transporte em Porto Alegre… Talvez o mais ilegal que conseguimos é andar de bicicleta na calçada.

    Acho que o problema do artigo é justamente dizer que uma desregulação total é benéfica…

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    • Pablo, eu simplesmente não quero excluir certas pessoas essenciais para a economia e taxá-las de “informais”. Quero que elas tenham os mesmos direitos.

      Abraços,
      Anthony

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