Região Sul na mira do investidor

A região sul começa a despontar no radar dos grandes investimentos industriais que aportam no Brasil. Uma transformação que pouco tem a ver com a corrida por mão de obra barata ou simples incentivos fiscais

Por Andreas Müller

Não foi por acaso que a BMW escolheu a pacata Araquari, cidadezinha com pouco mais de 25 mil habitantes no litoral norte de Santa Catarina, como sede de sua primeira fábrica no Brasil. Embora pequena e sem a badalação dos grandes centros industriais, Araquari está a poucos quilômetros de distância de cinco dos maiores portos do sul do país – São Francisco do Sul, Itapoá, Navegantes e Itajaí (em Santa Catarina) e Paranaguá (no Paraná). Também desfruta de uma série de vantagens de logística em uma região que começa a se destacar pelos investimentos em infraestrutura. Finalmente, oferece algo essencial para a montadora alemã: bons índices de educação e desenvolvimento humano, que se traduzem em uma mão de obra com alto potencial de qualificação.

Torben Karasek (foto), que assumiu interinamente a presidência da BMW Brasil em janeiro deste ano, sabe que o sul do país não é exatamente um paraíso para os investimentos. Mas vê mais vantagens do que desvantagens na região. Especialmente quando se trata de uma marca como a BMW – cujo negócio é de altíssimo valor agregado. “Os carros da BMW não são do tipo que você faz fácil e barato. Precisamos de gente qualificada e motivada para produzir carros que são complexos”, explica Karasek.

Só para colocar o empreendimento em operação, a BMW investirá R$ 528 milhões e abrirá 1 mil vagas de trabalho – números que podem crescer consideravelmente com a chegada de empresas sistemistas. Mas o secretário de Desenvolvimento Sustentável de Santa Catarina, Paulo Bornhausen, por exemplo, já fala em investimentos de R$ 1 bilhão e até 5 mil empregos formais nos próximos quatro anos. “O objetivo é fazer a nossa rede crescer no Brasil inteiro. Precisaremos de parceiros para manter, vender e nos dar suporte”, conta Karasek.

O investimento da BMW em Santa Catarina é o emblema de uma transformação que vem sendo observada em todo o sul do Brasil: a chegada de investimentos industriais de alto valor agregado. Companhias como Klabin, Renault (foto abaixo), Celulose Riograndense e Stihl, entre outras, começam a (re)descobrir as vantagens de apostar na região. Os níveis de escolaridade, por exemplo, são mais altos: em média, 60,5% dos jovens com 19 anos ostentam um diploma de segundo grau – só o sudeste chega perto desse índice, com 59,7%. A renda per capita também é superior: segundo os dados mais recentes do IBGE, cada habitante do sul ganha cerca de R$ 778 por mês, contra R$ 759 do sudeste. A infraestrutura, como se verá a seguir, pode não ser a ideal, mas está longe de ser o problema que é em outras regiões. Finalmente, há a questão da qualidade de vida. Hoje, a grande frente de crescimento do sul não está mais nas grandes metrópoles, e sim nas cidades pequenas e médias do interior. Um estudo da consultoria IPC Marketing mostra que no Rio Grande do Sul, por exemplo, 80% do potencial de consumo está fora da capital.

“De uma forma geral, os Estados do sul têm uma sinergia muito grande. É diferente do que ocorre no sudeste, por exemplo, onde São Paulo é a grande ilha de investimentos”, compara Edson Campagnolo, presidente da Federação de Indústrias do Paraná (Fiep). Isso, diz ele, coloca o sul em vantagem na disputa por investimentos em alguns setores específicos – como o automotivo. “Hoje, as cadeias produtivas estão muito interligadas. A BMW é um exemplo: mesmo em Santa Catarina, ela acabará beneficiando empresas aqui no Paraná”, ilustra Campagnolo. A regra vale para os principais dínamos da economia do sul. Indústrias de papel e celulose, alimentos e bebidas, máquinas e equipamentos, energia e, claro, veículos automotivos encontram na região uma cadeia de fornecedores já consolidada – o que nem sempre se observa em outras partes do país.

Um polo automotivo

O setor automotivo é um dos que vêm apostando alto na sinergia industrial dos Estados do sul. Além da BMW, outras grandes companhias já anunciaram investimentos vultosos na região. A General Motors, por exemplo, acaba de inaugurar uma fábrica de motores e cabeçotes em Joinville a um custo de R$ 350 milhões. E pode ir além: já anunciou a intenção de investir mais R$ 710 milhões na construção de uma fábrica de transmissões. Em outubro, porém, o projeto foi colocado em banho-maria diante das incertezas do cenário econômico internacional. De qualquer forma, a empresa assegura que a suspensão é temporária “até que se concluam as análises sobre os impactos na atual demanda do mercado global”.

Enquanto isso, a Renault tira da gaveta um dos projetos mais arrojados do setor automotivo no sul do país. Em setembro, a montadora assinou um protocolo de intenções com o governo paranaense para injetar R$ 1,5 bilhão no Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais. Trata-se do maior investimento do grupo Renault-Nissan em todo o mundo para o biênio 2012-2013. “É o nosso grande projeto para esse período. E não sem razão: hoje, o Brasil representa o nosso segundo maior mercado global”, explicou Alain Tisser, vice-presidente da Renault do Brasil, em um evento realizado na sede da companhia, em janeiro deste ano. Em 2012, para se ter uma ideia, o mercado brasileiro de veículos se expandiu em 6% – no período, as vendas da Renault no país saltaram 24%. Com a expansão, a ideia é aprimorar ainda mais esse desempenho. Tisser calcula que mais 2 mil funcionários serão contratados no Paraná.

A expectativa do governo paranaense era atrair ainda mais investimentos no setor. O pacote da Renault, por exemplo, previa a construção de uma nova fábrica da Nissan – que acabou indo para Resende, no Rio de Janeiro. Havia, ainda, a intenção de conquistar uma unidade da Sinotruk, multinacional chinesa especializada na fabricação de caminhões pesados. A Sinotruk se instalou em Lages, em Santa Catarina. O benefício econômico da fábrica, porém, deve ser sentido em todo o sul. Orçada em R$ 589,7 milhões, a planta dos chineses deve gerar pelo menos 400 empregos diretos e recolocar Lages no mapa dos grandes investimentos do sul do país. “Lages chegou a ser um importante polo econômico durante o ciclo da madeira. Mas, quando a madeira acabou, nos anos 50, a cidade parou e não conseguiu mais acompanhar o desenvolvimento das cidades mais litorâneas do Estado”, recorda Marcos Arzua, diretor executivo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina (Fecomércio-SC). Para ele, a simples confirmação do projeto já beneficia a cidade. “Aumenta o mercado imobiliário, a instalação de equipamentos de vários setores e o varejo em si. Toda a cadeia comercial reage rapidamente a um investimento desses”, explica.

A onda de empreendimentos automotivos não para aí. No Paraná, quatro companhias – Daf Trucks, WHB Fundições, Pro Tork e Rodo Línea – devem injetar R$ 883 milhões em novas unidades e ampliações. No Rio Grande do Sul, a contagem é ainda maior: são oito empreendimentos diferentes que, juntos, somam investimentos de R$ 2 bilhões. Mais da metade desse valor (R$ 1,1 bilhão) diz respeito a projetos que o Grupo Randon pretende implementar no Rio Grande do Sul até 2017. Com sede em Caxias do Sul, a companhia definiu que, até 2016, deverá aplicar uma média de R$ 250 milhões por ano em projetos básicos para o crescimento de suas operações. “Além disso, temos cerca de R$ 500 milhões para investimentos não orgânicos, que se materializam em fusões e aquisições dentro ou fora do Brasil. Mas isso é algo que depende da oportunidade e do momento”, informa Astor Schmitt, diretor corporativo e de relações com investidores do Grupo Randon. Schmitt explica que um dos vetores de investimento no sul tem sido a relação “de cooperação” com o governo do Rio Grande do Sul. Atualmente, a Randon tem vários projetos enquadrados no Fundopem, um programa que financia parte do ICMS gerado por empreendimentos novos. “Coisas assim fazem com que tenhamos um compromisso com o nosso local de origem”, diz ele.

A estratégia de expansão da Randon, porém, não se restringe a nenhuma região ou país específico. “Estamos sempre atentos às oportunidades onde elas estiverem, com vistas a manter a liderança nos nossos segmentos de atuação”, destaca David Abramo Randon, presidente do grupo. O último plano de investimentos, concluído em 2012, contemplou a ampliação de unidades da Randon e da Fras-le na Argentina, além de aquisições nos Estados Unidos e uma operação na China. “Ao anunciar mais um plano plurianual de investimentos, a Randon mostra que acredita no seu potencial de crescer dentro do Brasil sem, entretanto, descuidar da sua trajetória de globalização”, conclui David.

Saindo do papel

É no setor de papel e celulose, porém, que despontam os investimentos mais vultosos. O sul abriga, atualmente, pelo menos seis empreendimentos na área, cujo valor total chega a R$ 12,7 bilhões. O maior deles pertence à Klabin, que está erguendo uma nova fábrica de celulose em Ortigueira, no Paraná. Orçado em R$ 6,8 bilhões, o empreendimento sai do papel na condição de maior investimento já feito por uma empresa privada no Paraná. Será instalada no Estado por uma série de fatores conjunturais. Segundo Fabio Schvartsman, presidente da Klabin, o Estado tem tradição no setor florestal e uma cadeia produtiva estruturada para o setor de celulose. A própria Klabin opera outras fábricas na região, que, agora, poderão receber a celulose da nova unidade. Finalmente, o Paraná está nas barbas do maior mercado consumidor do país.

Embora mais distante do sudeste, o Rio Grande do Sul não fica atrás. Em dezembro, o conselho diretor da chilena CMPC deu aval para uma de suas subsidiárias no Brasil, a Celulose Riograndense, investir R$ 4,9 bilhões na expansão e modernização de uma unidade em Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre. O projeto deve dar novo fôlego à economia gaúcha, que encerrou 2012 castigada por uma das mais severas estiagens da história. “Esse é o tipo de indústria que, para cada emprego direto, gera de oito a dez empregos indiretos. É algo que tem um alto alcance”, assegura Walter Lídio Nunes, diretor-presidente da CMPC Celulose Riograndense. Ampliada, a unidade deverá demandar 2,5 mil novos funcionários com carteira assinada. Pelas contas de Lídio, será o suficiente para gerar de 20 a 25 mil postos de trabalho indiretos. “E são empregos de mão de obra qualificada”, esclarece Lídio. Ele lembra que, hoje, o manejo das florestas, por exemplo, é 100% mecanizado. Os empregos, portanto, são gerados no campo da tecnologia, em funções de manutenção, prestação de serviços de suporte e controle.

Na visão de Lídio, o Rio Grande do Sul está bem preparado para atrair investimentos de grande porte. Ele destaca, por exemplo, o fato de o governo do Estado ter criado a “Sala do Investidor”, uma espécie de centro de recepção e apoio a investidores. Quem procura o espaço tem acesso imediato a uma série de informações fundamentais para entender o ambiente de negócios do Rio Grande do Sul e negociar com os representantes do governo local. “É um mecanismo importante, já que favorece a proximidade entre o empreendedor e o poder público”, elogia Lídio. Em novembro de 2012, quando completou um ano de existência, a “Sala do Investidor” já havia analisado projetos com potencial de investimento equivalente a R$ 24,4 bilhões. “O investidor se relaciona diretamente com os órgãos governamentais, em um processo célere e coordenado por gerentes especialmente preparados para ajudá-lo na tomada de decisões”, explica Aloísio Félix da Nóbrega, vice-presidente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI).

A revolução naval

Entre os novos dínamos da economia do sul do país, porém, poucos geram impacto maior que o da indústria naval. O setor renasceu pelas mãos do governo federal e vem transformando a paisagem no sul do Rio Grande do Sul, onde começam a despontar plataformas marítimas, cascos de navios e outros equipamentos. “A região estava estagnada havia vários anos. Mas a implantação do polo naval promoveu uma transformação – hoje, a cidade de Rio Grande, por exemplo, já detém o terceiro maior PIB do Estado”, conta Miguelangelo Thomé, diretor-geral da Quip, uma das empresas que integram o polo naval gaúcho. A onda de investimentos é expressiva. Só os projetos em construção somam R$ 2,2 bilhões. Que se divididem, basicamente, em dois projetos: a construção de um novo estaleiro do Grupo EBR, em São José do Norte (RS), por R$ 1,1 bilhão; e a ampliação das instalações da Techint-Italiana, no Pontal do Paraná (PR). Os demais empreendimentos, embora menores, não são nada desprezíveis. Só a Quip, por exemplo, já aplicou mais de R$ 380 milhões em seu estaleiro em Rio Grande. “Para se ter uma ideia, as plataformas desenvolvidas pela empresa serão responsáveis por 40% da produção nacional de petróleo”, diz Thomé. Aos poucos, a cadeia produtiva que atende às empresas do polo naval começa a se espalhar por outras regiões. Seu mais novo desdobramento é a formação de um polo de indústrias navais e oceânicas em Charqueadas, a 56 quilômetros de Porto Alegre, às margens do Rio Jacuí. Lançado em agosto de 2012, o polo servirá como base de operação para companhias que constroem módulos de plataformas petrolíferas – entre elas, a UTC e a Iesa Petróleo e Gás, cujos investimentos somados passam de R$ 188 milhões. “Felizmente, o governo federal tomou a decisão de ressuscitar a indústria naval, que estava definhando, e instalou um de seus polos aqui”, exulta André Azevedo, economista-chefe da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul). Para ele, são empreendimentos como esse que catalisam o processo de “reconversão tecnológica” – isto é, o surgimento de novos pilares econômicos além dos tradicionais. “Precisamos buscar essas oportunidades”, diz ele. “Ou, pelo menos, manter as portas bem abertas para que elas venham para cá”.

Investimentos na região sul

Confira, abaixo, a relação completa de investimentos anunciados para a região nos últimos dois anos. Foram excluídos da lista investimentos inferiores a R$ 20 milhões ou que já haviam sido concluídos até o fechamento desta edição de AMANHÃ. Os valores incluem projetos que serão executados até 2017.

Em amarelo, são destacados os investimentos no Rio Grande do Sul.

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Revista Amanhã



Categorias:Economia, Economia Estadual, Economia Nacional, Polo Naval de Rio Grande, Polo Naval do Jacuí

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2 respostas

  1. Tomara que a industria naval realmente traga desenvolvimento para o sul do estado. Eh incrivel como o norte eh diferente do sul. O norte eh rico, super dinamico. Suas cidades tem jeito de pujanca. Ja o sul… tudo eh parado no tempo, melancolico. E ate mesmo feio.

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  2. Ótima notícia, não só para o RS como para SC e PR. Acho que já passou da hora da região sul se unir como um todo e parar de competir tanto entre si, é muito mais benéfico para nossa região a fábrica da BMW em Santa Catarina do que no Sudeste ou Nordeste.

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