Relatório da OMS relaciona segurança viária com transporte de massa

Organização Mundial da Saúde divulgou no último dia 14 de março seu mais recente Relatório de Status Global, documento oficial da entidade sobre segurança no trânsito

Transoeste, no Rio de Janeiro  créditos: Mariana Gil

Transoeste, no Rio de Janeiro créditos: Mariana Gil

Em 14 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou seu mais recente Relatório de Status Global (Global Status Report), anteriormente publicado em 2009. O Relatório de Status Global é um documento oficial sobre segurança no trânsito. Na publicação de 2009 foram incluídas apenas duas referências sobre transporte de massa, inseridas na seção de segurança viária- a primeira sobre os riscos do transporte público pelo mundo e a segunda sobre a necessidade de priorizar a segurança de pedestres e ciclistas nas rodovias.

O relatório deste ano dedica uma seção completa sobre Políticas de Transportes no capítulo sobre a conexão entre transporte público e rodovias mais seguras. O fato de o relatório estar incluindo esta seção é um sinal encorajador sobre um reconhecimento crescente de que transporte de massa e planejamento urbano têm um impacto positivo na segurança do trânsito.

OMS reconhecendo cada vez mais o transporte de massa e o design urbano como soluções para a segurança no trânsito

A seção de Política de Transporte do Relatório de Status Global de 2013 observa que, tanto em países desenvolvidos quanto no mundo em desenvolvimento, o transporte público tem sido mostrado como um modo mais seguro do que os carros privados. “Sistemas de transporte público seguro”, o relatório explica, “são cada vez mais vistos como importantes para melhorar a segurança de mobilidade, particulamente em áreas urbanas com congestionamento em crescimento” (Relatório de Status Global 2013, página 33). O relatório também observa um aumento em atividades físicas e a saúde global com investimento e promoção de transporte público seguro. Com intuito de tornar a mobilidade urbana tanto mais segura quanto efetiva na redução do volume de tráfego, a OMS encoraja os governos a tornar os sistemas de transporte público seguros e acessíveis. Citando um caso de estudo em que eu fui co-autora com o Diretor da EMBARQ Índia, Madhav Pai, o relatório oferece o exemplo de Ahmedabad, Índia, e a implementação de um sistema de ônibus avançado no local (p. 34). Os acertos individuais do país nos apêndices do relatório da OMS são construídos em cinco pilares, e a pesquisa da EMBARQ contribuiu para o pilar sobre Rodovias Mais Seguras e Mobilidade (Safer Roads and Mobility). O relatório também inclui um caso de estudo do plano de ação do Prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, para segurança de pedestres (p. 31). O Prefeito Bloomberg, o qual se pronunciou no lançamento do relatório deste ano, citou soluções de transporte sustentável, bem como sistemas de ônibus avançados, ampliação do espaço para pedestres, e defendeu as ciclovias, bem como provou exemplos do “que funciona”.

Como o transporte de massa amplia a segurança viária?

O transporte público oferece benefícios tanto a passageiros quanto a moradores, nas estradas, nas bicicletas e a pé. “Transporte sustentável”, observa Dario Hidalgo em um recente post no TheCityFix, “na forma de facilidades protegidas para caminhar e andar de bicicleta, sistemas de transporte público bem desenhados e operados… podem contribuir para reduzir viagens em veículos motorizados individuais e fazer essas viagens de boa qualidade – menos perigosas – do que dirigindo um veículo privado para trabalhar, não somente para o motorista mas para todos os usuários da rodovia”. Quando passageiros optam pelo ônibus a seus próprios carros, eles reduzem dramaticamente as possibilidades de ferimentos ou mortes em acidentes de trânsito. Transporte sustentável também ajuda a atenuar os riscos de saúde em consequência da má qualidade do ar, devido às emissões dos automóveis. Sistemas de ônibus avançados, bem como os de Ahmedabad, Índia, são desenvolvidos para criar segurança para os pedestres entrando e saindo das estações, e atravessando as ruas. As velocidades são reduzidas nestas áreas, e os motoristas de ônibus são treinados para reconhecer e reduzir riscos de acidentes.

Caso de Estudo: Ahmedabad, India

A cidade de Ahmedabad é projetada para crescer de 5,5 milhões de habitantes hoje, para 13,2 milhões até 2040. Se o desenvolvimento da cidade continuar em um caminho de redução da densidade, expansão rápida, e crescimento do uso de automóveis, EMBARQ estima que isto também acarreatrá em um crescimento anual de fatalidades de trânsito de 240 para quase 7300 – totalizando em um crescimento de 3000%. Por outro lado, se a cidade escolhe um caminho mais sustentável, expandindo a densidade de corredores de trânsito e promovendo um transporte público de alta qualidade (reduzindo, assim, o crescimento de viagens em veículo individual) nós estimamos que isso pode reduzir fatalidades em 2040 em mais de 5500 [1]. Existem benefícios adicionais, como a redução de emissões de CO2 para mais de 10 milhões de toneladas por ano. No contexto de uma urbanização continuada, e dadas as tendências atuais de motorização, aumentos tanto de viagens em veículos individuais quanto de fatalidades de trânsito são inevitáveis em alguma extensão.

Em um nível mais detalhado, a implementação de um sistema de transporte público de alta qualidade, bem como o bus rapid transit (BRT) Janmarg em Ahmedabad – pode significativamente melhorar a segurança pelas ruas onde os sistemas de ônibus avançados operam. De acordo com dados do Center for Environmental Planning and Technology in Ahmedabad, a implementação do BRT Janmarg resultou em uma redução de 55% nas fatalidades, em 28% os ferimentos, e uma redução de 32% de todos os tipos de batidas.

O modo como as cidades são desenhadas e como a mobilidade dentro delas é provida são chaves para a segurança no trânsito. Quando cuidadosamente planejadas para evitar ou minimizar riscos, transportes sustentáveis e desenvolvimento urbano podem salvar vidas através da melhora de segurança no trânsito, da redução de poluição do ar e do encourajamento da atividade física.

Notas:

[1] EMBARQ analysis, based on Rayle, L. and Pai, M. (2010) Scenarios for Future Urbanization: Carbon Dioxide Emissions from Passenger Travel in Three Indian Cities, Transportation Research Record: 2193, pp. 124-131.

*Artigo publicado originalmente em inglês por Claudia Adriazola, no blog TheCityFix, em 11/04/2013.

mobilize.org.br



Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

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10 respostas

  1. Vocês não sabem que beleza é o BRT da zona oeste do Rio. Lindo, com vbias largas e lindas, paradas enormes de vidro, pontos de ultrapassagem… e uma coisa importante?: não tem aradas a cada 100 metros, como fazem e vão continuar fazendo no BRT tosco portoalegrense.

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  2. Estão esquecendo do pior, a emissão de particulados. Temos um estado que não adota a inspeção veicular simplesmente por conveniências políticas, milhares de carro andam pelas ruas sem a menor condição em termos de emissão de poluentes, e pior de tudo, poluem e não pagam IPVA.
    .
    Além disto adotamos como regra o transporte coletivo por ônibus, e todos sabem a beleza que é um ônibus desregulado, hoje mesmo vi circulando pela Ipiranga um ônibus da Carris que mais parecia uma Maria Fumaça, se adotássemos algumas linhas principais VLTs, teríamos um transporte eficiente, tirando carros das ruas e eliminando a poluição das mesmas.

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  3. É só ver as estatísticas, quanta gente morre em acidentes de ônibus?

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    • (imagina se tivesse transporte público bom por aqui então)

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      • Marcelo, Bom ponto.

        Pablo, se movessem a pista de ônibus para a direita, ela perderia velocidade e enquanto alguns pedestres deixariam de atravessar a rua, outros que hoje atravessam até a metade atravessarão todo o percurso. Não há ganho, a princípio.

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    • Infelizmente, em Porto Alegre, muita gente morre atropelada por ônibus, pois os condutores não respeitam os limites de velocidade e é muito difícil para um ônibus em alta velocidade.

      Em alguns corredores de ônibus, Independência, Osvaldo, etc. o limite é 40km/h. Algum motorista respeita?

      Isso tem uma solução fácil, controladores de velocidade.

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    • Por isso não gosto de corredores no eixo da pista. Se fosse junto à calçada reduziria-se pela metade o número de pessoas cruzando a rua, afinal as pessoas não querem cruzar a rua, cruzam porque tem que pegar ônibus.

      Claro que para funcionar precisa de muita educação dos motoristas de automóvel. Nada de circular na faixa da direita ou cortar a frente dos ônibus para entrar.

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      • Bah cara, essa idéia de faixa a direita acho meio complicada.

        Tem o fator que tu falou, da educação dos motoristas (e isso é coisa pra anos ainda, de mudança, SE ocorrer).

        Junto a isso, fica uma bagunça só: carros que estão querendo entrar na calçada, para estacionar na frente dos estabelecimentos (que pra mim, isso tinha que acabar, mas enfim), carros e outros veículos que precisam dobrar a direita, acabam tendo que cortar a frente dos ônibus e por aí vai.

        Corredor central bem feito, é aquele que permite ultrapassagens e tem preferencias nas sinaleiras. Simples e funcional! E para resolver o problema do excesso de velocidade, monitoramento via GPS, não precisa nem investir em controladores de velocidade estáticos em alguns pontos da via.

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  4. Segurança em transporte de massa ?
    Não é o caso de Bovinópolis, onde autoridades públicas de diferentes esferas fazem vistas grossas ‘a ônibus apinhados de gentes em autoestrada.
    Fato : linhas D72 e D73 pela freeway com mais de 50 passageiros em pé.
    Uma mão lava a outra e as duas lavam a sujeira \/

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