Artigo: Por que a Engenharia e a Arquitetura estão sendo massacradas nas obras públicas nos últimos anos? – por Rogério Maestri

Ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira - São Paulo, SP Foto: Adão W. Filho

Ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira – São Paulo, SP Foto: Adão W. Filho

Quando olhamos as atuais obras públicas no Brasil nós vemos uma espécie de massacre à engenharia e à arquitetura. Há neste massacre a concorrência de alguns fatores facilmente identificáveis, o modismo, um mero imediatismo ou a falta de estudo do assunto, todos os três aliados a má engenharia e a falta de cuidado no estudo de opções.

Com o fim da construção da ponte Octávio Frias de Oliveira em São Paulo surgiu o modismo das pontes e viadutos estaiados no Brasil. Entretanto poucos sabem que a beleza da ponte não foi produto de um genial arquiteto ou engenheiro, mas sim por demandas estruturais e das restrições geométricas do entorno, que levaram a adotar um só pilar de sustentação da ponte e uma forma curva! Ou seja, um fabuloso exemplo de que a natureza muitas vezes produz melhores formas do que a mente humana. Depois desta ponte, de rara beleza, se passou a projetar pontes e viadutos estaiados onde era e onde não era necessário, este modismo muitas vezes eleva o custo da construção ou em outros casos dão soluções arquitetônicas também nada convenientes convincentes. Da mesma forma, quando se procura ousar, empregando modernidades no projeto ou na construção, se cai no outro extremo ignora-se a responsabilidade que trás a inovação na boa prática da engenharia, desprezado-se aspectos secundários que podem ficar principais na operação desta obra. O estudo criterioso de problemas que são magnificados pela própria inovação, são totalmente desprezados imaginando-se somente como funcionará a nova forma, mas não calculando-a.

Por outro lado se uma ponte, um viaduto, uma avenida ou mesmo um prédio qualquer não tenha uma grande visibilidade ou importância, se constrói o mais simples, o mais comum e o mais burro possível. Fazem-se obras parecerem como um produto do conhecimento de um grupo de estagiários, onde se entrega a concepção e o projeto da obra, porém se negando a estes a possibilidade de criar, é só para adaptar a partir de algo já consagrado.

Por fim em obras mais visíveis ou em outras não tão destacadas, não é exigido o cuidado e a experiência de um projetista sênior. Faz-se da forma mais convencional possível ou pior quando se pretende inovar, inova-se sem o mínimo de estudo sobre as consequências desta. A engenharia do século XIX era bem mais criativa, bem mais ousada, mas muito mais responsável do que a engenharia dos nossos dias. Gustave Eiffel, o projetista e construtor da torre que leva seu nome, foi escolhido não por acaso, mas sim porque era na época uma das maiores autoridades de efeito de vento sobre estruturas, logo ele projetou e construiu a maior estrutura que se tinha na época baseado em um sólido conhecimento técnico sobre o assunto.

Em resumo, o que acontece em nossos dias, ou se procura copiar tanto o bom e inédito, como o medíocre e comum, e quando se pretende escapar desta cópia inovando, não se procura saber todas as consequências, resultando em projetos inadequados, caros e muitas vezes errados.

O que está causando isto? Talvez a pressa em gastar o dinheiro público, mesmo que com isto se cause mais danos que benefícios. Talvez a perda da memória de como se fazia há trinta ou quarenta anos. Talvez, talvez, talvez,… muitos podem ser os motivos, desde aos mais imorais até os devido a ignorância mesmo, porém uma coisa é certa, esta trilha de erros além de assassinar a engenharia e a arquitetura custam caro ao nosso bolso e criam heranças malditas aos que nos sucederão.

Prof. Rogério Maestri – Engenheiro do IPH-UFRGS



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Viadutos e pontes estaiadas

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19 respostas

  1. Sobre o viaduto, não há uma cidade no mundo em que um cruzamento movimentado de 6 por 8 pistas não mereça um viaduto. É uma questão de evitar o desperdício do tempo das pessoas que passam por ali, e o alto movimento faz com que o viaduto se pague ao evitar a produtividade perdida.

    Desta forma, o que sobra é fazer uma obra com menor impacto (visual, social, etc) possível. Mas… O objetivo de todo político é o oposto: aparecer. Isso só funciona por que a população da valor a isso. Precisamos de uma população com mais elevado nível cultural, capaz de perceber conceitos mais abstratos e complexos, as vezes conflitantes.

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    • Adriano, não estou entrando no mérito da necessidade ou não do viaduto, mas considerando que o mesmo deva ser feito, por que não adotar uma forma menos invasiva na paisagem local, e de forma complementar, mais barata!

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  2. Seria interessante termos visibilidade sobre a qualificação das pessoas envolvidas nos projetos e as atas das reuniões feitas. Só assim poderíamos entender o que consideraram.

    Por enquanto a lei da transparência não obriga a publicação dessas informações, mas seria interessante que isso fosse feito numa lei da transparência 2.0.

    Não basta sabermos o nome e o salário. Precisamos de maior visibilidade sobre os projetos.

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    • Talvez aí resida um dos grandes motivos: Baixa remuneração dos projetos, licitados e contratados pelo menor preço.
      Toda a classe de Engenharia e Arquitetura está submetida as decisões políticas, desprestigiada em sua técnica e achatada em seus honorários.
      E off topic – com o advento da Boate Kiss e
      a desinformação geral, e também da imprensa, fazendo parecer incompetência da classe que não sabe projetar instalções seguras, enquanto tudo passa pela falta de fiscalização e aplicação das leis que já existem.

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      • Walter, meu caro, quem contrata os projetos públicos não são engenheiros individuais, são empresas especializadas neste tipo de serviço que se sujeitam a baixos preços, e depois achatam os salários dos profissionais.
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        Isto ocorreu durante décadas a fio, entretanto há muito tempo, devido a situações de mercado, estas empresas que apresentam sólida situação financeira, utilizavam da situação de desemprego no mercado para contratar bons profissionais a preços aviltantes. Hoje em dia parece que mudou um pouco, estes bons engenheiros e arquitetos que aceitavam remuneração não condizente com a qualificação estão deixando de aceitar, e as mesmas empresas de sempre continuam contratando projetos a preços baixos mas não conseguindo pessoal qualificado para levá-los a contendo.
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        A figura do engenheiro e/ou arquiteto sênior, não existe nos projetos das empresas de projeto, simplesmente porque estes se negam a aceitar as condições precárias.
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        Se quisesse colocar lenha na fogueira citaria, inclusive expedientes nada lícitos em termos de legislação trabalhista, que eram empregados por empresas de projetos para poder diminuir ainda mais o custo dos mesmos.

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  3. Que honra, o rei dos ecox***tas do atraso, o tal Henrique Wittler dando as caras por aqui…..hummmmmm….

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    • Defensor das ratazanas e do capinzal da orla, sem falar nos mendigos que ali habitam, fumam crack e trepam ‘a luz do dia rsrs.

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      • Caros amigos.
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        Há duas formas para parecermos grandes, uma dando o melhor de si e contribuindo para que todos cresçam juntos, a segunda é tentando mostra que os outros são pequenos. A primeira aumenta não só a sua própria estatura, mas leva consigo todos os que estão ao seu lado, da segunda só se mostra que realmente todo homem é finito, e que dentro da pequenez de cada um, a sua é a que fica bem evidente.

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  4. Você está afirmando que, soluções de engenharia, quando bem estudadas e adequadamente aplicadas a necessidade geram beleza? Se foi isso, achei genial!

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    • Puxando pro meu lado (engenharia mecânica) um caso desses foi o McLaren F1 nos anos 90, primeiro carro “de rua” da empresa, que teve todos os seus sistemas mecânicos dispostos a obter baixo centro de gravidade e melhor equilibrio de peso, e foi esculpido em tunel de vento para ter a melhor aerodinamica o possível.

      Geralmente acontece o contrário, a equipe de design desenha um sketch, e os engenheiros tem que fazer caber a mecânica ali dentro e arranjar um jeito deste desenho passar pelo tunel de vento.

      E ainda assim, tendo priorizado a performance, conseguiu ser um dos carros mais belos do mundo, mesmo 20 anos depois do seu lançamento.

      Não estou desmerecendo arquitetos e designers, mas sinceramente, acredito que um bom engenheiro com uma boa noção de design consegue fazer maravilhas.

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      • Mas de fato, deve existir um grande descompasso entre arquitetos, designers e engenheiros. Se soubessem trabalhar juntos poderíamos ter o melhor de cada um, mas quando há queda-de-braço e corporativismos estúpidos, além de todas as aberrações governamentais que o Rogério mostrou, obtemos esses resultados.

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        • Pablo, o tempo de um só homem conceber e construir, já ficou para trás lá pelo renascimento, hoje a necessidade do trabalho coletivo, não havendo o que cria e o que simplesmente copia. As decisões são coletivas e quanto mais pessoas agirem assim melhor o resultado.
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          Leia “Ciência pós-normal e comunidades ampliadas de pares face aos desafios ambientais” de Funtowicz & Ravetz que verás o que estou falando, pois num primeiro momento pode parecer simplesmente um discurso demagogo e simpático para os outros, há já uma teoria que explica o sucesso de decisões coletivas principalmente quando o problema ultrapassa o conhecimento dos diversos que participam de um projeto qualquer.
          Vide em: http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v4n2/v4n2a01.pdf

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        • Opa! Algo que eu estava interessado em estudar! Muito obrigado, vou ler beeeem com calma.

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  5. O nivel de educacao e’ baixo, e a maioria sao soldadinhos do passo certo, ninguem quer tentar nada diferente, nem quem esta pagando pela construcao nem os arquitetos, talvez seja este o problema. Entao ficam sempre no feijao com arroz.

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  6. Conseguem fazer caríssimo e ainda feio, então me desculpem não há nenhum país no mundo com tamanha competência invertida. Nos pobres são feitas coisas simples, nos ricos maravilhosas, e no nosso país gastasse como nos ricos para fazer coisinhas mequetrefes como nos pobres. Brasil, realmente único.

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  7. Parabéns pelo artigo.

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  8. Caro Maestri
    Muito interessante suas observações. Fica a impressão que as obras no Brasil são feitas mais com base no orçamento (tanto para mais quanto para menos) do que a necessidade. Daí surgem túneis e viadutos em curva, entre outras coisas.

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  9. Como o Simon colocou uma imagem da bela ponte Octávio Frias de Oliveira, gostaria de fazer um comentário sobre ela em relação ao viaduto que passa pela Bento.
    Na ponte em questão, os estais estão presos a parte bifurcada do pilar, isto foi feito por uma necessidade estrutural, pois como esta ponte está em curva é necessário estais nas duas direções.
    .
    Os nossos grandes projetistas gaúchos, olharam a bifurcação, parece que não entenderam o objetivo da mesma e acharam que era meramente estético. Como a ponte Octávio Frias de Oliveira é um marco em termos de solução arquitetônica, para imitar os arquitetos e engenheiros paulistas, colocaram quatro guampinhas no viaduto da Bento que eles acham bonitinho.

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