As calçadas revelam o caráter de uma cidade

Em entrevista, o arquiteto paisagista Benedito Abbud trata da necessidade de projetos de paisagismo para as calçadas e discute o papel do poder público na manutenção desses passeios

Benedito Abbud na ciclovia do rio Pinheiros, em SP  créditos: Victor Affaro/Arquitetura & Construção

Benedito Abbud na ciclovia do rio Pinheiros, em SP créditos: Victor Affaro/Arquitetura & Construção

Calçadas bem-concebidas, sustentáveis e acessíveis propiciam cidades mais civilizadas, com melhor qualidade de vida para seus habitantes. Este conceito vem sendo defendido pelo arquiteto paisagista Benedito Abbud ao longo dos seus mais de 40 anos de profissão.

Graduado e mestre em arquitetura paisagística pela FAU/USP, Abbud assina projetos paisagísticos por todo o Brasil e em países como Argentina, Uruguai e Angola.

Cada vez mais interessado pela escala urbana, nesta entrevista ele discorre sobre as propostas que desenvolveu para as calçadas, elemento que considera de fundamental importância na definição do ambiente urbano: “É através das calçadas que se tem a imagem da cidade”, ensina o profissional.

O que o levou a buscar soluções inovadoras e melhores para as calçadas das cidades brasileiras?

Por uma constatação simples, porém importante: o sistema viário é constituído por dois elementos, o leito carroçável e as calçadas, que são o espaço de circulação por excelência das pessoas, dos pedestres. E elas têm ainda importância fundamental na definição do ambiente urbano. É através das calçadas que se tem uma imagem da cidade. E infelizmente, boa parte das calçadas da maioria das cidades brasileiras reflete uma visão negativa do ambiente urbano para os que nelas vivem e visitam. Elas traduzem uma poluição visual, são pouco acessíveis, não são saudáveis, têm inúmeros obstáculos e representam a desarmonia urbana, até mesmo nos elementos verdes, na sua vegetação. Enfim, falta projeto de paisagismo de qualidade para nossas calçadas.

Falta conhecimento sobre a necessidade de projetos de paisagismo para as cidades?

Sem dúvida. Infelizmente ainda há um grande desconhecimento por parte dos administradores públicos sobre a importância do projeto de paisagismo. Em São Paulo, por exemplo, a Lei das Calçadas está voltando a ser discutida pela Câmara Municipal. Este é um momento importante para decidir se cabe ao poder público assumir a revitalização e a manutenção desses espaços ou se o problema é individual.

A maioria das empresas do mercado imobiliário já valoriza o projeto paisagístico, atualmente. Falta o poder público também adotar essa postura, para termos cidades mais agradáveis, com calçadas e espaços pensados para melhorar a qualidade de vida de seus moradores e visitantes.

Na sua opinião, calçada deve ser obrigação do particular ou da prefeitura?

Defendo que cabe ao poder público essa responsabilidade pelas calçadas, e não aos proprietários dos imóveis, situação que impera hoje na maioria das cidades brasileiras.

Isto porque a desarmonia e o caos de que falava acima têm a ver com o fato de que cada proprietário de um imóvel residencial, comercial ou industrial é quem decide de que forma será sua calçada, quais os materiais que utilizará nela, qual o tipo de vegetação que será – ou não – plantada ali, resultando numa cacofonia, numa grande poluição visual e, em geral, na falta de manutenção, em passeios esburacados, com pisos irregulares e degraus, dificultando a locomoção de pessoas com deficiência visual ou locomotiva, e também para idosos e mães com carrinhos de bebê, por exemplo.

Mas, para que a prefeitura assuma de fato e bem essa responsabilidade, ela precisa ter um departamento específico para isso, com técnicos habilitados, entre eles, arquitetos paisagistas. E precisa ter projeto para desenvolver bem uma calçada, com todos os requisitos necessários.

Matéria publicada originalmente na revista Prisma nº 47, maio de 2013

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Categorias:Arquitetura | Urbanismo, calçadas

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14 respostas

  1. Se é assim, o que resta para Curitiba? As calçadas aqui são horríveis!!!

    Minha mala está com as rodinhas totalmente detonadas (e eu só andei com ela umas três vezes) por andar nessas calçadas.

    Algumas poucas calçadas são boas, como na Rua das Flores, que apesar de não ser totalmente regular, não tem buracos (ela é feita com aquelas pedrinhas que dá pra fazer desenhos). Tem algumas com pedras de cimento que são bem boas também. O pior são aquelas de paralelepípedo, que são a maioria. Nessas calçadas, a maioria das pedras está solta, daí quando chove, fica cheio de água embaixo e quando você pisa nessa pedra espirra um monte de barro na sua calça e você fica todo sujo! Quando não estão soltas, tem buracos ou o piso é totalmente irregular.

    Mas isso é na região central, pois a maioria dos bairros da cidade não tem calçada. Só um trecho de grama. E quando o morador faz sua calçada, ele faz do seu jeito. Nos bairros daqui não há padrão.

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  2. Interessantíssimo e correto. Que bom que tem paulista analisando esta questão e elaborando soluções, porque se depender de gaúchos não sai nada. Afinal o que os grandes especialistas em urbanismo formados no RS fazem? Complicado. Se houvesse alguma competência a capital não seria esta vergonha de cidade desleixada que infelizmente é.

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    • Como São Paulo não adotou a esquerda (os últimos governos foram do PSDB e similares), foi pragmática e fez ações concretas para se desenvolver. Lá eliminaram outdoors, melhoraram em muito a segurança, etc…

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    • Desculpe, não acho Porto Alegre uma vergonha. Muito pelo contrário. Porto Alegre humilha a maioria das capitais brasileiras. É só conhecer as demais cidades como elas realmente são.

      Sou do interior de SC e moro em Curitiba faz alguns anos. Aqui se faz faz muita propaganda de cidade modelo e tal, mas a cidade não é tudo isso não. As pessoas e até a mídia local aqui acham que vivem numa “bolha” e que não existe nada além de Curitiba, ou melhor, Curitiba é uma mega cidade, muito rica e desenvolvida e o restante do Brasil é uma favela, na visão dos moradores daqui, o que faz com que eles mascarem os problemas ou dão as costas à eles.

      Acredito que falta um pouco disso aos porto alegrenses: mais orgulho de sua cidade, abrir os olhos e reconhecer as incontáveis qualidades da cidade e não só os problemas e melhorar a auto estima.

      Quando leio os comentários aqui, me parece que vocês pegam exemplos como São Paulo, Rio e até Curitiba como se essas cidades não tivessem problemas semelhantes ou até piores.

      Muitos dizem que Curitiba tem o melhor transporte público do país, até nem discordo, o transporte aqui é realmente muito bom. Mas também tem problemas como, saturação, ônibus, tubos e terminais vandalizados e o pior, nesses ônibus, tubos e terminais, quando chove, chove mais dentro do que fora (até mostraram isso na tv esses dias).

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  3. E qual o carater de Porto Alegre e seu povo?

    É só ver a falta de carater, param obras por votos nas eleições, prejudicando todos.

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    • Ou param as obras porque essas estão prejudicando todos (e nem estão percebendo)?

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      • Tu acha que a Sofia Cavedon está interessada no bem comum e não querendo aparecer ao se meter em todas os eventos populares encabeçando propaganda contraria ao futuro candidato a governador?

        Sofia Cavedon, Pedro Ruas, Fernanda Melchiona. Nenhum deles proprôs nada que ajude no desenvolvimento econômico de Porto Alegre. Estão todos preocupados em dinamitar o Fortunati para que ele não se candidate a governador e assim o Tarso tenha chance de se reeleger. O pessoal que segue eles não vê que é massa de manobra e esta sendo usado.

        Nenhum desses 3 tem respaldo intelectual ou moral para propor soluções para Porto Alegre:

        Sofia Cavedon: professora de ensino médio de educação física. Parou de publicar no blog dela os protestos do CPERS assim que o tarso assumiu.

        Fernanda Melchiona: é bibliotecária

        Pedro Ruas: criou uma lei proibindo lixo atômico em Porto Alegre, algo muito relevante…

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  4. É uma situação insólita… pagar milhões por viadutos que ajuda muito pouco ou nada* nas cidades e não pagar nada por calçadas, que todo mundo usa.

    * Em uma cidade, a imensa maioria dos viadutos não dispensa as faixas de segurança ou sinaleiras para conversão. Nos viadutos onde não há faixas de segurança normalmente o pedestre é forçado a subir e descer quase o equivalente a dois andares de escada.

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    • Faz um exercício mental aí, e imagina Porto Alegre sem nenhum viaduto. Imagina o cruzamento da Protasio com a Silva Só, imagina o cruzamento da Assis Brasil com perimetral. Outros viadutos não são hoje tão essenciais, mas são projetados com base em perspectivas futuras de demandada e vão se pagar no futuro.

      Um viaduto pode ser caro, mas mais caro é desperdiçar a produtividade de milhares de pessoas em ônibus e carros fazendo-os ficarem parados esperando. E como demonstrado acima, sim viadutos ajudam em muito a evitar congestionamentos obviamente.

      Se quiserem uma cidade com menos transito, mais tranqüila, vão morar no interior. Tem muita cidade no interior precisando de negocio e novos moradores. Aqui temos 3 milhões de pessoas morando numa metrópole com infraestrutura deficiente, então deixem elas se locomoverem da forma que acharem mais eficiente.

      Não me venham com lavagem cerebral sem sentido como a de que vias mais largas causam mais congestionamento. Façam mais um exercício mental aí e imaginem a Ipiranga com somente duas pistas. Alguns vão dizer que ocorre menos congestionamento com vias mais estreitas, mas estão vendo apenas uma parte do problema. As vias mais estreitas ficarão congestionadas, deixando as vias um pouco mais largas abaixo da capacidade. E outros vão dizer que vias mais estreitas desestimulam o uso do carro. É claro, mas ao custo das pessoas não se locomoverem, ou demorarem muito mais tempo no seu deslocamento. É obvio aí que por se locomoverem menos estão interagindo menos, trocando menos idéias, menos mercadorias, desestimulamdo a economia, atrasando o desenvolvimento.

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      • A Região Metropolitana de Porto Alegre tem 4,2 milhões de habitantes!

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      • Sou apaixonado por Porto Alegre mas a única coisa que me deixa triste e que eu não gosto muito na cidade é essa grande quantidade de viadutos. Bom, mas se esses viadutos realmente ajudam na mobilidade da cidade, acho que faz-se necessário. Até porque, do pouco que conheço da cidade, vejo que ela possui ruas extremamente estreitas.

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      • Há cidades muito maiores que Porto Alegre e que funcionam muito melhor que Porto Alegre. Faça um exercício mental e imagine Paris ou Londres com a quantidade de viadutos de SP? Isso traria um prejuízo econômico em turismo e qualidade de vida imenso! Quer viaduto? Vá morar em SP. Prefiro uma cidade com melhor qualidade de vida e isso PoA está perdendo. Até SP e NY já estão se encaminhando para melhoria do transporte público, ciclovia e calçadas. Para que insistir no erro?

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  5. Essa historia de transferir a responsabilidade do calcamento publico para particulares e’ algo inedito na historia da civilizacao. O pior e’ que o Ze’ Povinho ate’ ja’ se acostumou com essa ideia sem vergonha e absurda e nem reclama mais.

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    • Não sei se é uma boa passar para a prefeitura cuidar. Mas uma regulamentação forte quanto a padronização eu sou 100% a favor! A pior coisa que tem é esta pataquada que encontramos hoje: cada casa com uma calçada diferente… e pior, de péssima qualidade!

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