Para debate: A ocupação e a crise de representatividade, por Juremir Machado da Silva

Em política, a ordem dos fatores pode alterar o produto.

A Câmara de Vereadores de Porto Alegre esteve ocupada durante uma semana por uma única razão: os erros sucessivos da maioria dos edis.

Como andei pelo mundo um bom tempo, passei anos estudando sociologia como doutorando e pós-doutorando na Sorbonne e como ouvinte na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e no Colégio da França. Em Paris, tive alguns mestres fantásticos. Aprendi com Edgar Morin, Jean Baudrillard, Michel Maffesoli, Pierre Bourdieu, André Akoun, Alain Touraine e mais uma penca de feras, entre os quais filósofos políticos como Jacques Derrida e Cornelius Castoriadis.

Jean Baudrillard, que não lecionava mais em lugar algum, ensinou-me muitas coisas em bares de Montparnasse, onde ele bebia vinho e eu, abstêmio na época, enchia a cara de Perrier.

Um dia, Baudrillard me disse: o fim do social institucionalizado começa quando os representantes, embora eleitos, não convencem mais a maioria de que a sua representatividade é legítima.

Um representante é eleito por uma parte da sociedade. A democracia consiste em o restante, que não votou nesse representante, reconhecê-lo como tal e legitimá-lo na sua função. Quando os representantes não conseguem mais convencer a maioria de que agem pelo interesse de todos, embora sejam integrantes de partes, os partidos, abrem o flanco para a contestação de fato.

Baudrillard, que era um mestre da ironia e dos paradoxos, ensinou-me outra coisa: quando a indecência política é grande demais, pornográfica, a nudez do eleitor não é obscena, mas reveladora.

O rei está nu. Os vereadores estão nus. Os verdadeiros pelados da ocupação da Câmara de Vereadores foram os que não tiraram a roupa, mas se desnudaram na defesa dos interesses das empresas de ônibus e na incapacidade de ouvir e de entender o que a população está pedindo.

Alguns vereadores esganiçaram-se pedindo respeito aos formalismos. Mais uma vez, ficaram nus. Não entenderam que, quando há crise de representatividade e de legitimidade, a forma se esgota.

A crise é de conteúdo.

Na Câmara de Deputados, o mesmo poderá vir a acontecer.

Depois de uma ameaça de reforma política, tudo começa a estagnar.

Quem se sente realmente representado pelos deputados que fingem ouvir as ruas, anunciam medidas e, em seguida, começam a recuar fazendo a velha política nacional do caranguejo?

Os ocupantes da Câmara de Vereadores de Porto Alegre ganharam de goleada dos eleitos.

Foram, antes de tudo, mais equilibrados do que eles.

Como estamos numa democracia, a dissonância é legítima.

A direita estava acostumada a ganhar no grito e a ocupar todo o espaço da mídia amiga.

As redes sociais e os novos tempos acabaram com esses privilégios.

Os ocupantes agora também têm direito a falar.

Que belos tempos!

Juremir Machado da Silva

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Leia também:

Para debate [2]: A farsa que emergiu das ruas, por Fernando Rosa



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17 respostas

  1. A nudez dos manifestantes não é o problema. É o sintoma dele.

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    • Esse epsódio da nudez está servindo imensamente para que aqueles que entenderam a mensagem, possam explicar aos mais novos e àqueles que só viram arruaceiros e baderneiros, que o que aconteceu nada mais é do que justamente o que o Enrico Canali viu, e definiu em poucas palavras: a nudez é o sintoma do problema. Somente nossos políticos ainda tentam espernear, tentando esconder o problema. Esconder de quem?

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      • Canali e David.
        .
        Eu diria mais, a forma de protesto, é também um sintoma da falta de estruturas organizadas para representar os anseios de parte da população. Todos estão cheios, não sabem o que fazer para demonstrar a insatisfação, aí um diz: Vamos ficar nus?
        .
        Chamaram a atenção, iam fazer o que, ir discutir na assembléia? Participar no programa Conversas Arranjadas? Escrever uma carta para o correio do Leitor?
        .
        Ficaram pelados!

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        • Rogério, disseste bem. E sobre o conversas arranjadas, já participei uma vez… e nunca mais…que decepção!
          Nunca tinha visto nem participado de algo tão arranjado. Tanto que, pelo tema ser explosivo e haver a necessidade de preservarem um dos lados, o programa foi gravado (não foi ao vivo) depois de editado, foi ao ar e não pode ser acessado pela Internet, ao contrario do que anunciou a cada momento o mediador. Naquela conversa arranjada, eu poderia ficar até pelado, não haveria problema, até as palavras seriam editadas. Pois quem gravou tinha exclusividade de editar ou não e de postar ou não.

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  2. Tem o David Coimbra (RBS) também… Ele não se atém somente à ocupação, mas escreveu algo que eu concordo plenamente. A posição dele é bastante “perigosa” e vai ver que é por isso que tem uma turma tentando politizar a todo custo.

    “O que interessa é que essas movimentações mostram como as instituições da democracia representativa estão sem legitimidade no Brasil.

    O presidente da Câmara tem poderes suficientes para lidar com uma situação desse quilate. Ele não precisaria da intervenção da Justiça ou do Ministério Público. Bastaria usar de suas prerrogativas para resolver a questão. Poderia resolver com inteligência e diálogo, o que seria melhor; poderia resolver até com truculência, o que seria muito pior; mas teria de resolver. O presidente da Câmara não resolveu. Por quê? Porque não se sente com legitimidade para isso. Porque o espaço da sua legitimidade foi ocupado pelos manifestantes.”

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  3. O Juremir deu uma de espertalhão, ele iniciou o texto com doutorado, pos-doutorado, nomes e lugares. Ele inclusive referenciou as frases, o que faz com que o texto fique bem convincente.

    Isso não é uma crítica negativa, pelo contrário. O encadeamento logico está muito bom.

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  4. Parabéns a quem está debatendo, e não só rindo e falando besteira! Justamente postei dois artigos antagônicos para provocar mais ainda io debate, saudável e com argumentos. Quem só faz ahahahah não ta com nada!

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    • Gilberto.
      .
      A leitura da maioria da população está sendo correta, ninguém vê naquelas fotos, algo de erotizante ou pornográfico, porém a nudez destes rapazes e meninas está desnudando, isto sim, o que é a nossa chamada casa do povo. Estão todos associando as indecências que temos na nossa política, em alguns casos verdadeiras pornografias que são tão pesadas que as polícias de todo mundo estão atrás dos seus produtores para prendê-los.
      .
      Tu, como funcionário público municipal, já deve estar calejado pelas verdadeiras indecências que são cometidas naquela casa, eu tenho alguns contatos no ramo da construção civil, e sei algumas (pena que não tenho boa memória para nomes). Não estou falando da pequena corrupção de apressar processos, passar por cima de pilhas ou deixar de ver uma pequena irregularidade numa pequena obra, estou falando da grande corrupção que todos sabem. Poderíamos até conjugar o verbo saber, eu sei, tu sabes, ele sabe metade da cidade de Porto Alegre sabe. Porém, nem eu, nem tu temos a coragem de nos despir e mostrar que quem está nu e quem é pornográfico ou indecente não são estes jovens pelados, são mais os velhos peludos.

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  5. Acredito que esses caras nus estão fazendo o que muita gente não tem coragem de fazer; tomaram uma decisão e foram à luta em busca de mudanças. TAMBÉM FIQUEI SURPRESO E NÃO CONCORDO COM ESSE PROTESTO SEM ROUPAS, ALGO QUE DIMINUI EM MUITO A MANIFESTAÇÃO E DESVIA O FOCO DA PAUTA. Mas quem sabe essas fotos não trazem mensagens muito além de nossa compreensão? Àqueles que estão chocados com as imagens de nudez dentro da “casa da democracia”, por que não se importam quando as mesmas cenas entram ao vivo em suas casas diariamente por meio de filmes, novelas, BBBs etc…. Não esqueçamos que esses canais de tv concedidos pelo governo, eleito por nós, não reivindicam melhorias à população, apenas sugam mais e mais para proveito próprio e de seus artistas nus. Outra coisa que os chocados esquecem: diversos desses manifestantes que agora tiraram a roupa na Câmara, amanhã serão candidatos à mesma Casa governamental e, serão eleitos. Até usarão esse feito “memorável” de nudez como promoção de suas façanhas. Os parlamentares que hoje ocupam nossos legislativos nos municípios, estados e em Brasília, tiram a “roupa” (ensino, segurança, saúde, transporte…) de brasileiros e brasileiras diariamente. Ficamos nos preocupando com o “templo da democracia”, quando nosso próprio templo (a sala de nossas casas) está sendo invadida e desnudada pelos mesmos políticos, que hoje reclamam que estão sendo violados e violentados pelos manifestantes. Sequer nos escandalizamos com os nossos equipamentos públicos, (escolas, hospitais, presídios, transporte…) padrão “não” Fifa, mostram que estamos todos nus. Quando a Copa chegar em 2014, tudo será maquiado para os gringos verem, mas a Copa terminará e a maquiagem cairá, mostrando mais uma vez nossa nudez.

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  6. Concordo com boa parte do texto. Se a casa não representa aqurles que devia desobediência civil é o caminho. E até o barraqueiro Thiago Duarte reconheceu qur não houve vandalismo na ocupação.

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  7. “A direita estava acostumada a ganhar no grito e a ocupar todo o espaço da mídia amiga”
    Que eu saiba a mídia, salvo exceções como a Veja, apoia o governo e está infestada de agentes comunas. A direita está fora do poder desde muito tempo. E essa gentalha que está ocupando o plenário é um bando de comunas. Cacete neles.

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