Conservadorismo e inovação em Porto Alegre, por Adeli Sell

Porto Alegre é uma cidade eminentemente conservadora e atrasada. Está em nossa origem, está no DNA de nossa cultura e formação urbanística. Fiéis ao Imperador, recebemos a divisa de “Leal e mui valorosa cidade” do Duque de Caxias. “O conservadorismo porto-alegrense remonta às nossas origens açorianas, essa gente simples, de extração camponesa, que aqui reproduziu seu modus vivendi (…)”   Luis Carlos da Cunha Carneiro e Rejane Pena, em Emoções Masson.

Segundo eles, “muito de nosso conservadorismo vem daí”. Este é o âmago da questão. Já nascemos assim. Tentamos mudar com a vinda dos alemães por via torta, acabando com aspectos da arquitetura herdada dos nossos fundadores, portanto jogando fora uma parte de nossa História.

Há localidades onde as coisas acontecem em ritmo acelerado e frenético. De um dia para outro, surgem novas vias e bairros. Edifícios são erguidos e novas atrações são entregues à sociedade quase que num piscar de olhos. Definitivamente, em Porto Alegre não é assim. Aqui, as coisas se arrastam ao ritmo das gerações. A nossa modernidade há tempos está suspensa.

Há 30 anos um engenheiro genial e ousado inventou o aeromóvel. Mas só agora, em 2013, um primeiro modelo entrará em ação de forma comercial. Foi preciso outra ousadia, desta feita da gestão da Trensurb, para derrotar o conservadorismo da área de meios de transporte. Nesta mesma linha, terminamos com os ônibus movidos à eletricidade para botar nas ruas os poluidores de óleo diesel.

Vontade de fazer me parece que não falta, mas, como na era imperial, as discussões se arrastam por décadas. O metrô vai sair. Mas sairá porque os europeus estão entrando na disputa. A crise de lá irá favorecer os de cá. O problema é que não será a nossa ousadia que implantará esta modalidade de transporte, mas sim circunstâncias exteriores. É sempre a mesma coisa: uma luta incessante para superar nosso conservadorismo.

Em 1923, a Casa Masson implantou seu crediário. Uma inovação para a época, com pagamento em prestações. Nada a ver com o caderninho da venda para pagar no final do mês. Mas o tradicional Banco da Província, estabelecido no outro lado da rua, no Edifício Malakoff, não abriu linha de crédito à mais importante loja da cidade, sendo que seus fornecedores do Rio de Janeiro adiantaram um bom valor para que esta modernidade fosse aqui implantada. O sopro veio novamente de fora.

Porto Alegre somente agora recebe seus contêineres para o lixo. Mas aceita os avós da classe, implantando apenas um tipo para o resíduo domiciliar. Já a nossa Caxias do Sul, na serra gaúcha, há anos tem modelos moderníssimos, com dois exemplares para separar o detrito seco, não criando esta barafunda e imundície que temos na Capital.

Temos preservado até aqui o Mercado Público no coração da cidade, apesar de seus quatro incêndios. Mas um sujeito, com espaço na mídia local, propõe botar tudo para o chão. Não pode ter visão mais conservadora do que esta. Ainda bem que quanto a isto, desta vez, parece que foi voz isolada. Talvez estejamos acordando para a modernidade, já que se fala tanto em “acordar”.

Não fosse um gringo de Marau, consorciado com alguém de fora, o que não teriam feito com a Cervejaria Continental, o nosso Shopping Total? E com o prédio Guaspari, oriundo da década de XX no Centro da cidade? Foi o primeiro prédio modernista feito pelo arquiteto Fernando Corona, hoje liquidado pelo atraso do nosso comportamento. O seu envelopamento acabou com a estética do edifício.

Vale o mesmo para o Viaduto Otávio Rocha, um marco de nossa ousadia na década de XX, que hoje está numa deterioração de dar dó. O governo local não tem 10 milhões para investir em sua revitalização. Daí surge a fúria conservadora que ataca a proposta de uma PPP – Parceria Público-Privada. Prefiro acreditar que para ser vanguarda precisamos propor, ousar e sair na frente.

Adeli Sell é escritor e consultor



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47 respostas

  1. Texto enlatado do Adeli. Vai votar contra o Pontal do Estaleiro, vai…

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  2. Ha algum tempo os portoalegrenses comecaram a ser contra tudo.
    Mas o tamanho da HERANCA MALDITA foi demais.
    Ali consolidou-e de forma pesada um cancer que traz reflexos ate hoje. Nao adianta dizEr que nao: as ideias ultrpassadas, contra tudo , provicianas e super orgolhosas ( ! ) estao ai na cabeca de um monte de gente, em todos lugares!

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  3. Ele esqueceu de comentar os 16 anos de PT.
    Cultivaram e anabolizaram como em nehm lugar desse pais instituicoes e vlaores marxistas, provincianos, contra todos os governos nao-seus… os frutos na cultura dessa cidade estao ai ate hoje na cultura porto-alegrense.
    E mais: durante esses quase vinte anos, mesmo que o OP tenha meritos, cuidou-se so de assuntos micros: uma politica para desenvolver a cidade nao existiu.
    E ainda por cima tinham raiva de burgueses e dificultavam ao maximo seus investimentos. O Dado Bier explicou muito bem isso.

    Mas, o principal, nesses 16 anos se pensou a cidade provincialmente: lembro bem uma propaganda eleitoral na televisao, o Tarso mostrava uma escadaria no bairro Gloria e um meio-fio pintado de branco, e disse: “Esses foram os maiores feitos do meu governo”

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    • Paradoxalmente, o tio do Dado Bier, outro pregador do neoliberalismo, precisou neste final-de-semana do serviço público de cinco caminhões de bombeiros para apagar o incêndio no quintal de sua casa. Se o discurso neoliberal tivesse alguma seriedade, não precisaria ser “defendido” desvalorizando seus opositores.

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      • Aldo, não mistura alhos com bugalhos.

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      • Bah tu calado e’ um poeta. lol So’ para vcs que ainda acreditam nas bobagens marxistas, as instituicoes Gerdau pagam enormes impostos ao governo federal, estadual e municipal, nao tendo nehum servico a altura dos impostos cobrados, e tu vai reclamar que o corpo de bombaeiros foi la apagar um fogo??? Eles podem morar aonde quiserem, mas vao se mantendo por ai, com tipos raivosos como tu. Deveria ter uma estatua a esta familia por ter que aguentar bobagens como a que escrevestes.

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        • Duvido que pague mais de 20% de IR como a classe média. Além disso, empresários podem socar despesas pessoais nas contas da empresa sem maiores percalços jurídicos. Ou seja, o rico paga menos imposto proporcionalmente que a classe média.

          Até o imposto sobre o consumo é menor, pois um empresário pode comprar passagens aéreas jogando nas contas da sua empresa, o que dilui a sua tributação.

          A classe média e os pobres é que são os f******. Rico paga pouco imposto e vive reclamando. A gente paga e fica quieto. Impostômetro eu já conheço de cor. Sei muito bem o que eu pago de imposto. Quero ver o sonegômetro como é que fica.

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        • Alô, Phil. Se pagastes contas de luz da CEEE até há alguns anos atrás, informo que estavas pagando parte da conta da Aços Finos Piratini na forma de subsídio cruzado. Foi o governo “marxista” de Lula que retirou esse subsídio dos consumidores de baixa tensão. Até que isso acontecesse, a Gerdau comprava energia da CEEE a um preço menor que esta comprava de Itaipu e compensava o prejuízo nos pequenos consumidores. Isso graças a uma privatização irresponsável da Aços Finos Piratini que transferiu esses direitos ao comprador e a uma política energética Robin Hood às avessas que só recentemente vem sendo corrigida pelos governos Lula e Dilma. Não deixe que esse teu ranço anti-esquerda te cegue.

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    • Caro Georgeano.
      .
      Esqueces uma ENORME CONDICIONANTE do tempo do governo do PT.1989 a 2005, durante este período tivemos três grandes crises internacionais Crise do México (1995), a Crise Asiática (1997-1998) e a Crise da Rússia (1998), estas crises causaram efeitos na economia brasileira e gaúcha (diminuição nas exportações).
      .
      Agora há uma coisa que ninguém se dá conta (ou não quer ver), durante os distintos governos do PT tivemos distintas taxas de crescimento da economia brasileira, que vou reproduzir por prefeito:
      .
      Olívio Dutra…….-0,15
      Tarso Genro…….4,30
      Raul Pont…………2,00
      Tarso Genro…….1,30..(um ano)
      João Verle……….3,17
      .
      O que fica claro nisto tudo, que quem pegou a carne de pescoço foi o Olívio Dutra, ou seja, o Galo Missioneiro, pegou uma conjuntura internacional e nacional extremamente desfavorável, estávamos ainda em regime de hiperinflação e com uma enorme recessão.
      Se formos comparar com as taxas de crescimento dos governos Tarso e Fogaça, aí que dá para ver quem não fez nada.
      .
      Tarso………….4,30
      Fogaça………..3,64

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  4. Quanto ao Viaduto Otávio Rocha, parece-me um caso sem solução. Seu aspecto sombrio advém dos prédios altos construídos à sua volta, e não há revitalização que vá devolver a luminosidade natural que banhava seus arcos em sua infância.

    Se nossos antepassados não preservaram o seu entorno, nós devemos aprender com seus erros e não deixar outras heranças malditas como essa às futuras gerações.

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  5. Acho que primeiro, o autor do texto deveria tentar descobrir oque e’ um conservador. Os tipos que ajem contra o desenvolvimento sao na sua vasta maioria membros do partido de seu Adelli e outros partidos das cavernas tipo pstu e psol. Sao os pedro Ruas da vida que impedem, sao os Raul Pont que na querem que nada seja feito, as sophia cavedons, stella farias, Tarso Genro e o resto dos sociopatas atrelados a ESQUERDA. E’ a esquerda sul americana que E’ IDEOLOGICAMENTE CONTRA O DESENVOLVIMENTO!!! Eles sao adeptos da teoria do crescimento zero. Eles nao querem que nada mude. Tu vais me dizer que sao estes miticos “conservadores” que demoram a dar as licencas para obras e projetos??? Ou, sao os aparelhos do PT e PSOL que tornou o setor publico em um enorme cabide de empregos aonde param e impedem que qualquer coisa seja feita???

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  6. Obrigado Adeli, Julião, Rogério e Diego! Mas como diz o Rogério, eu sou apenas um lançador de pautas. O Blog é nosso portanto todos nós estamos de parabéns !

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  7. Parabéns Gilberto.
    Sucesso sempre.
    Vc merece.

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  8. Mais um marco do Blog: chegamos a 6 milhões de acessos hoje, desde que iniciamos em 2008. Há 2 anos comemorávamos o primeiro milhão de acessos! Então foram 5 milhões em 2 anos! Parabéns pra todos nós, que discutimos e damos importância aos problemas da cidade.

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    • Parabéns ao Blog e ao teu trabalho Gilberto! A independência e a pluralidade deste espaço são o tipo de contribuição importante para nossa democracia. A paixão por Porto Alegre é o que nos une a todos, não importando as cores partidárias ou orientação política.

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    • Gilberto, parabéns pelo sucesso e espero estarmos contribuindo para o Blog, mas agora uma recomendação, NÃO SIGA NENHUMA PROPOSTA ou reclamações sobre a tua POLÍTICA EDITORIAL, siga teus INSTINTOS, pois como se diz no futebol, não se mexe em time que está ganhando.

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    • Parabéns!

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    • Esta marca merece um tópico para comemorar, não um simples comentário. Parabéns pelo trabalho!

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    • Parabéns Gilberto!!!
      Realmente o Blog Porto Imagem é uma importante ferramenta para se discutir as necessidades e os destinos de Porto Alegre. Aqui todos demonstram seu amor pela cidade.
      O sucesso é merecido!!!!

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    • Parabéns ao Blog, a todos os editores e seus seguidores que, mesmo discordando em pontos de vista, contribuem para um debate saudável e rumos para melhorar a nossa querida Porto Alegre.

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  9. Ótimas pautas levantada pelo autor.

    -apoio ao aeromóvel
    -volta e aumento da frota de ônibus movidos a eletricidade
    -melhor organização do sistema de coleta de lixo

    Só falta brigar por isso na Câmara dos Vereadores.

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  10. Vc deixou de aproveitar os 16 anos em que foi governo, agora quer transferir responsabilidades? Francamente…

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    • O Adeli Sell sempre teve ideias mais avançadas do que os copartidários dele. Nunca entendi o que ele faz ainda no PT !!!

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    • Em todos os partidos há conservadores. O problema é esclarecer o que se entende por conservadores.
      Se ser conservador é não querer 6 pistas entre a cidade e a orla, assino minha carteirinha de conservador hoje mesmo. Ou isso seria ser ‘do contra’?
      Então temos na cidade aqueles que são conservadores, os do contra, os maria-vai-com-as-outras e os progressistas(?)….

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    • Caro Eduardo,
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      Qualquer um tem o direito de se reinventar, se não fosse isto garantido teríamos uma sociedade de pessoas dizendo gugu-dada.
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      É uma pequena crônica, que não concordo com ela, porém se trata de uma visão que já começa a ser quase que uma interpretação generalizada da situação de nossa cidade, Entretanto acho meia simples demais em atribuir um conservadorismo a origens portuguesas da cidade, eu talvez teria uma interpretação histórica baseada mais na composição do estado do que nas origens açorianas.
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      Porto Alegre não foi sempre assim, até 1930-50 éramos uma cidade inovadora que andava par e passo (em menores dimensões é claro) com as grandes metrópoles brasileiras. Tínhamos uma imprensa vigorosa, onde as próprias oligarquias se manifestavam com propostas divergentes, tínhamos intelectuais que podiam ser chamados como tal, tínhamos empreendedores que empreendiam com seu próprio dinheiro e com sonhos de grandeza. Não esqueçam que o famoso Barão de Mauá (Irineu Evangelista de Sousa) nasceu nada menos nada mais do que no município de Jaguarão, este foi o primeiro e o mais bem sucedido, porém houveram muitos inovadores, e a maior parte deles com sobrenome português.
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      Só para dar um exemplo de outro pioneiro nascido no Rio Grande do Sul, mas que ficou por aqui mesmo, João Corrêa Ferreira da Silva, este homem depois de gastar boa parte do seu dinheiro (e do governo também), consegue implantar uma ferrovia Taquara-Canela devido a um sonho de transformar a região da serra em um centro turístico e de veraneio. Seu filho Danton Corrêa da Silva, funda na década de 30 o Grande Hotel de Canela, começando de forma profissional a construção do turismo profissional na Serra, que muitos atribuem a diligentes e trabalhadores emigrantes alemães e italianos, quando na verdade quem começa tudo são dois Silvas.
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      Vejam, teorias baseadas na falta de iniciativa e visão de futuro dos portadores de sangue português, mostram por grandes Sousas e Silvas que não há DNA que faça um povo ser mais empreendedor do que outro.
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      Talvez um dos problemas maiores de nossa cidade seja uma consequência desta estar atrelada a economia de um estado eminentemente rural, temos uma indústria relativamente forte, mas se a pecuária ou a agricultura vão mal, o estado e a capital vão mal também. Ainda não conseguimos nos libertar de um setor que não produz muitos impostos ao estado e é extremamente dependente das condições do clima e os humores do mercado internacional de commodities.
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    • Nem o PT, nem o PMDB, nem o PDT, ninguém consegue modernizar Porto Alegre. Os milicos, com a sua visão tecnocrata, modernizaram Porto Alegre no mau sentido, acreditando que bastava inserir elementos modernos para modernizar a cidade: ônibus, viadutos, prédios públicos com um foco no funcional em detrimento do estético.

      Porto Alegre morreu lá pelo final dos anos quarenta, com o acirramento da especulação imobiliária no centro da cidade. De lá para cá, a fórmula se repete: construções antigas são derrubadas para darem lugar à fome da especulação imobiliária. Por serem resultado da especulação, as novas construções não possuem valor cultural, estético e turístico. Daí surge a nossa tradição em construir caixotes.

      Esses dias, conheci o Bourbon Wallig. Não precisava ter ido lá, moro no centro e existem shoppings mais próximos, mas fui com a minha namorada só para ter uma ideia de como anda a concepção desse tipo de empreendimento em Porto Alegre. Para a minha surpresa, vejo que o mais novo e supostamente moderno centro de compras da cidade é o mais claustrofóbico de todos: sem arbustos ou poltronas nos corredores para dar um aspecto mais orgânico e aconchegante, o Wallig segue um conceito no estilo “compre logo e suma daqui”. Os assentos são desconfortáveis e sem encosto. A contragosto, almoçamos numa que talvez seja a pior praça de alimentação de shopping da cidade (se é que existe alguma boa).

      Ao presenciar esse retrocesso no conceito de consumo na cidade, essa radicalização do consumismo depressivo, aguçado no Wallig, lembrei-me da Detroit de 2013, e vislumbrei destino parecido em uma Porto Alegre dos anos 2030, quando a cidade terá um cemitério de shopping centers, uma reprise da decadência das lojas de departamentos do Centro e da Azenha no fim dos anos 80. Lembram da J.H. Santos, da Mesbla, do Hipo e da Hermes Macedo? Ficaremos debatendo nos blogs o futuro desses caixotes-fantasmas. Esse cenário é bem razoável de se materializar, pois o que esperaríamos dos jovens de hoje, acostumados a comprar aplicativos, músicas e alugar filmes pelo smartphone? Não haverá razão para adquirir eletrodomésticos em lojas físicas.

      Porto Alegre também tem uma tradição de empurrar pobres para as periferias, enquanto, em termos urbanísticos, faria mais sentido construir os novos empreendimentos em bairros periféricos, desafogando as áreas centrais e tornando a cidade mais equilibrada, com um comércio e lazer qualificados em toda a sua extensão. Historicamente, a prefeitura se faz de boba por alguma décadas, permitindo que favelas sejam formadas em áreas periféricas. Essas favelas beneficiam a classe média num primeiro momento: é dali que saem as domésticas que cuidam das residências dos bairros nobres e dali sai o grosso da mão de obra do setor de serviços do centro.

      Quando as regiões centrais ficam inchadas, a primeira atitude da prefeitura, pressionada pelas construtoras, é expulsar a população das favelas para uma nova periferia, mais distante que a anterior. E assim, a cidade se expande do centro para a periferia. Eu sou totalmente a favor de manter as favelas onde estão, regularizando as moradias e dando dignidade aos que ali residem. Assim, essas pessoas podem vender seus terrenos não por 45 mil, mas sim por cem mil, quem sabe.

      É o mínimo que a sociedade pode fazer por quem nos serviu por décadas sem que déssemos a mínima por suas condições de vida e saneamento básico. É o mínimo por termos fechado os olhos. Quando suas pequenas porções de terra ficam comercialmente interessante, são expulsos novamente. É uma legião de desapropriados que revivem histórias de seus antepassados de uma forma cíclica. E isso só prejudica a cidade, pois continuaremos a reclamar do inchaço e da destruição do patrimônio histórico da região central. Os novos empreendimentos da classe média é que devem ir para a periferia. Essa classe média, geralmente mais influente, é que tem poder político para exigir melhorias de infraestrutura nas regiões mais afastadas.

      Eu acredito que a salvação do turismo e da cultura da cidade está justamente em favelas revitalizadas. Que tal se pudéssemos tomar um chope num clássico boteco da Cruzeiro ou do Morro Santa Teresa assistindo a uma roda de samba, com segurança e vista privilegiada? Esses bairros aparentemente desorganizados aglutinam o pouco de alma que resta em Porto Alegre, mas que a qualquer momento podem ser engolidos por caixotes de consumo ou pombais com espaços de lazer privados. Estamos cada vez olhando para dentro, vendo o mundo através da televisão e do Facebook, graças à perda de identidade com o espaço urbano promovida pela omissão política de décadas.

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      • Mais um que acha que favela e miséria é ponto de atração turística, oh Deus!! No geral, favelas são ocupações irregulares (invasões) e sacramentá-las (legalizá-las como o amigo diz) nada mais seria do que a própria especulação imobiliária em sentido inverso e mais nefasto, ou seja, eu invado uma área, me faço de coitadinho, a Prefeitura regulariza o meu terreno e eu aproveito e vendo ele por um valor absurdo e vou procurar outra área para grilar, ops invadir (é ou não é a própria contradição?)! O mais importante não é isto, mas sim dar condições desta gente estudar e produzir, comprando com o suor de seu rosto a sua propriedade, de forma adequada para cada caso, seja aonde for, inclusive no local em que invadiram, mas que paguem por isto e não façam progredir a indústria da invasão e do coitadismo (sim, ela existe!). Sofia Cavedon fazendo escola, bah!

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        • Se você tem sobrenome de gringo ou português, você é um feliz descendente de donatário de um pedacinho de terra que seja. Em 1850, no mesmo ano da lei do ventre livre, outra lei restringia o usucapião, o que impediu que ex-escravos se tornassem proprietários de terras.

          http://www.infoescola.com/historia/lei-de-terras/

          Essa lei prejudicava também os imigrantes italianos e alemães, mas para compensar, o governo doou terras para esse público. Os próprios casais que desembarcaram em Porto Alegre ganharam terras.

          Somos todos invasores, Carlos. Mais ainda, os quilombos jamais foram reconhecidos como o usucapião negro – que, se não eram pela lei, o eram de fato, como ocorria com os posseiros e os imigrantes. Sua visão sobre invasão é deturpada e racista, sinto muito.

          E acho que a favela tem potencial turístico sim. Tirando a violência, que afeta não só a nós, mas à grande maioria dos residentes nessas comunidades, esses espaços têm grande potencial turístico, como já ocorre no Rio de Janeiro, ainda que timidamente.

          Não se pode comparar a venda de um lotezinho de terra de 150m2 (se muito) por uma família com especulação imobiliária. A regularização dos lotes seria uma medida necessária para dar dignidade às pessoas que os ocupam, dando-lhes liberdade de ficarem ou não onde estão. Se quisessem mudar, poderiam vender por valores maiores do que os oferecidos pela desapropriação da prefeitura. Isso foi dado aos imigrantes portugueses, alemães, italianos, etc. Por que não corrigir essa dívida histórica aos que nunca tiveram o direito de propriedade de suas residências?

          Mais ainda, Carlos, acho improvável que você toparia se juntar a um assentamento urbano desses para daqui a vinte anos ou mais ganhar a posse de um terreninho sem infraestrutura nenhuma, sujeito à violência do tráfico e da polícia, algo recorrente nesses locais.

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        • Semiógrafo,

          Erros históricos não justificam erros contemporâneos. Essa política de explorar o coitadismo só serve para alguns tipos de partidos políticos, que vivem exatamente dos votos recebidos por estas populações, que não tem consciência e discernimento para enxergar isto. As pessoas podem e devem trabalhar para comprar seu terreninho e construir sua moradia com dignidade. Eu me incluo entre aquelas pessoas que não só acreditam nisto, como lutei para isto. Quanto ao aspecto turístico das favelas, com todo respeito, mas que atrativo que tu enxergas na miséria? No caso do Rio de Janeiro, eles exploram as favelas no sentido da vista deslumbrante que se enxerga do alto daquelas comunidades, mas aquela cidade tem características geográficas muito peculiares que favorece este tipo de turismo. Não é o caso de Porto Alegre, com todo o respeito. E desde quando é agradável mostrar miséria, apenas por mostrar? Seria uma coisa meio sádica, na minha modesta opinião. Enfim, não vou me alongar mais, seria perda de tempo.

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        • Não tem nada a ver com mostrar miséria, Carlos. Dando o certificado de propriedade para esses assentamentos urbanos, os moradores poderiam até tirar financiamento para reformas. O próprio BNDES poderia ter um fundo para empreendimentos populares.

          A favela se mantém estigmatizada porque quem mora nesses locais não é proprietário, o que dificulta a vida dessas pessoas até na questão do empreendedorismo individual.

          Eu não quero ver miséria, mas não do jeito que você não quer ver. Eu quero ver a miséria transformada em riqueza e não empurrá-la para onde os meus olhos a percam de vista. Sobre características geográficas e vista privilegiada, o que você me diz do Morro Santa Teresa? Vai dizer que a vista é feia também?

          Essa meritocracia cega e surda, em que a classe média pensa que merece e o pobre é sempre vagabundo não dá mais. O impressionante é que nos solidarizamos com os ricos, numa ilusão de que estamos mais perto deles do que do pobre. Essa é a pior classe média: a que não se deu conta de que paga, proporcionalmente, a mesma quantidade de impostos que os mais pobres. Os ricos, os maiores sonegadores, ficam rindo que acreditamos que podemos um dia nos igualar a eles trabalhando muito.

          Isso de fato existe, milagres acontecem, assim como ganhar na loteria, mas conheço uma penca de gente que se mata trabalhando e não tem perspectiva alguma de crescimento – porque para esses, o BNDES não empresta dinheiro; para esses, a prefeitura não libera um alvará voando como faz para alguns; para esses, desmembrar uma área rural é impossível, mas para as construtoras certas, é algo que leva uma tarde. E por aí vai. Solidarizemo-nos com quem é mais parecido conosco – e tenho certeza que estamos mais próximos das favelas e dos ônibus do que das mansões e dos helicópteros.

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        • Caro Carlos.
          .
          É interessantíssima as tuas intervenções, coloca as injustiças do passado como algo que deve ser esquecido em nome do futuro. Esplêndida colocação, só com um pequeno problema para o teu raciocínio, a prescrição.
          .
          Sabendo que o futuro é algo a ser escrito, o presente é um mero instante, que milésimos de segundos já o tornam passado, ficamos somente como algo real e existente o passado.
          .
          Aí escreves, “Erros históricos não justificam erros contemporâneos”, o que defines como histórico. Se 1850 é passado, 1967 também seria história, ou 2013 também fará parte da história. Qual o limite para não tentarmos corrigir estes erros? Quando prescrevem estes erros?
          .
          Coloquei propositalmente 1967 como uma data, pois neste ano mais de 1000 moradias foram removidas a força da então “Ilhota” para o novo bairro de Porto Alegre, a Restinga. Isto é também história?
          .
          Pelo teu raciocínio, a remoção do pessoas da Vila Tronco, no ano que vem será história?
          .
          É simples, tudo que incomoda em termos de vilas deve-se simplesmente reduzi-lo a história. Por que então não se ocupa terrenos desocupados em Porto Alegre,ou imóveis vazios, se espera um dia e se transforma isto em passado?

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      • Caro Semiógrafo.
        .
        Parabéns, conseguiste em duas intervenções resumir mais do que dezenas de comentários

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      • Não concordo com tudo, mas a tua análise é muito boa! Nunca tinha relacionado os atuais shoppings ao J.H. Santos ou Mesbla do passado. Isso faz todo o sentido! Muito bom!

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