Por uma cidade com mais flores, boa e tranquila para se caminhar

A psicóloga Beatriz Flandoli reflete sobre a urgência de voltarmos a ocupar os espaços públicos onde vivemos, e sugere que caminhar é fundamental para ter felicidade

Autor: Beatriz Xavier Flandoli*

Na cidade moderna, caminhar já não é algo natural créditos: Caroline Pires / Mobilize Brasil

Na cidade moderna, caminhar já não é algo natural
créditos: Caroline Pires / Mobilize Brasil

 

Meu avô, José Arlindo Gomes, era um caminhante urbano.

Adorava percorrer as ruas da cidade, dizia que a vida estava nas pernas e viveu saudável, por muitos e muitos anos, chegando pertinho dos cem. Por certo, teria ido mais longe não fosse o fato de se cansar da solidão de viúvo e de outra solidão que a vida lhe impôs ao lhe tirar a audição.

Com o tempo, desistiu dos aparelhos e das caminhadas e aos poucos foi se deixando definhar, até chegar tranquilamente ao fim. Penso em como é diferente caminhar pelas cidades duas décadas depois da partida de meu avô e busco compreender essa diferença analisando alguns aspectos da vida urbana, nesses dias em que uma nova onda de assaltos assusta minha cidade.

Percorro-a em noite calma. Está silenciosa e tem as calçadas vazias. Observo os espaços externos: não há adornos por onde se anda, nada que agrade o olhar do passante: vasos, flores, adereços. Toda a beleza está resguardada nos espaços internos. Não há beleza compartilhada pelos moradores nas áreas públicas da cidade em que vivem.

Qualquer caminhar que não tenha um objetivo utilitário, como ir ao banco, ao supermercado, atravessar rapidamente uma rua, acontece agora nas pistas para caminhadas, que têm se expandido nas cidades e se tornam os territórios “corretos” do outrora livre ato de andar.

Nessas trilhas, não estamos em contato com a cidade. Não são as mesmas calçadas percorridas por meu avô. Ao longo das calçadas de minha cidade há anúncios icônicos da falta de segurança que assola o caminhante: os orelhões têm correntes, portas e janelas têm grades e os jardins são protegidos por cercas elétricas sobre os muros.

Comparo essas calçadas com aquelas das noites anteriores à chegada da TV, em que famílias se sentavam em rodas de conversa. Há nas cidades uma lacuna incômoda nesses horários em que não há pessoas entretendo-se nas ruas.

O psicanalista James Hillman postulava que há alma nas cidades e que é preciso resgatar e manter espaços citadinos em que nossa alma se manifesta. Os textos de Hillman em português estão disponíveis no livro Cidade & Alma, e neles Hillman ensina que andar acalma, sendo por essa razão que a pessoa ansiosa mede o chão com seus passos, seja esperando o bebê nascer ou aguardando as notícias da sala da diretoria.

Por outro lado, anuncia que ao caminhar imprimimos um ritmo orgânico aos estados mentais depressivos, embotados, com agitações reverberantes, e esse ritmo orgânico do compasso ritmado do caminhar adquire significado simbólico.

O psicanalista postula ainda que a linguagem do caminhar acalma a alma, e as agitações da mente começam a tomar um rumo. Caminhando, estamos no mundo, encontramo-nos num lugar específico e, ao percorrer esse espaço, tornamo-lo um lugar, uma moradia, um território, uma habitação com um nome. A mente é então contida em seu próprio ritmo.

Quando não podemos caminhar, pergunta-se Hillman, para onde irá a mente contida?

Sairá correndo, ou ficará paralisada, movimentando-se apenas no ritmo da farmacologia: estimulantes e calmantes, relaxantes e excitantes? Ele afirma que uma cidade que não permite caminhar é uma cidade que nega moradia à mente.

“Podemos estar dirigindo-nos para a loucura, quando privados dessa atividade natural que é caminhar, já que provavelmente exista uma cura arquetípica que ocorre enquanto caminhamos. A ansiedade normalmente costuma nos travar os gestos e as pernas”, nos diz o psicanalista. “Quando estamos nas garras da ansiedade, como nos pesadelos, ficamos quase sempre incapazes de mover as pernas. Há uma associação entre pavor e o movimento dos pés. Quanto menos movimentamos as pernas, mais sujeitos estamos à ansiedade”.

Na Europa, durante o Iluminismo, caminhava-se muito, principalmente em jardins ou em torno deles, e a arte da jardinagem atingiu seu apogeu. Os urbanistas da época, afirma Hillman, eram movidos por razões estéticas.

As cidades mais modernas não oferecem espaço para caminhadas e têm problemas nas calçadas. Uma vez que os pés são ignorados, as ruas rapidamente se tornam regiões de crime e, prontamente, janelas são fechadas e portas são trancadas.

O crime nas ruas, afirma o psicanalista, começa com um mundo em que não se caminha; começa na prancheta do urbanista inepto, que vê as cidades como um amontoado de arranha-céus e de shopping centers com ruas que servem meramente de acesso entre eles, como se uma cidade fosse apenas um mapa viário, e não um organismo vivo.

Atenta às ideias desse estudioso, escrevo com a intenção de compartilhar seus pensamentos com a esperança de que, quando cresça meu mais novo e doce amor, esse anjo de olhos grandes encontre espaços para caminhar alegremente pelas calçadas das cidades em que passar. E eu desejo a ele que as cidades e as calçadas o recebam, e a todas as gerações que vêm chegando, com segurança e alegria.

Felizes calçadas, meu neto! Feliz Cidade!

*Beatriz Xavier Flandoli é psicóloga, residente em Campo Grande (MS). É mestre em Educação e professora da UFMS.

**O artigo acima foi enviado como contribuição ao Mobilize Brasil pelo geógrafo José Donizete Cazzolato

Mobilize.org.br



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28 respostas

  1. Psic Beatriz Flandoli!

    Saudações SAUDÁVEIS!

    Apesar de terem-se passados somente 75 dias, sinto a vontade para ponderar alguns aspectos mais temporais, para que não percamos a evolução do espaço aberto, contra o enclausurado, no dito espaço urbano.
    A França no início do séc XVIII, lidera o mundo com os palácios e os jardins, portanto, ainda não eram fruto do PAISAGISMO, mas sim de abnegados JARDINEIROS, que glorificavam e valorizavam a vontade dos IMPERADORES e da Burguesia, daí surge o estado bucólico, e a maneira era caminhar com segurança e isso SIM só era possível junto a segurança oferecida pelo ESTADO, de então.
    Muitos fatores se fizeram, com que à volta destes PALÁCIOS, surgissem uma população lateral ou marginal, usurpadora dos espaços, hoje chamados ‘cinturam de miséria ou favelas ou vilas’.
    Mas, comento que em 1873 é que surge o URBANISMO como ciência, em Barcelona na Espanha. Para contornar a CRISE de época e a Gripe Espanhola que lá estava envolvida.. E o que fez surgir a solução, foi a ampliação de favorecimento da criação dos corredores de ventilação natural urbana (av. largas e retas), e a ampliação de mais janelas e em maior número.
    Mas quando após a 1ª guerra mundial o AUTOMÓVEL surge como meio para facilitar a liberdade do cidadão IR e VIR. As VILAS e CIDADES orgânicas, não tinham tomado nenhum sentido de ORGANICIDADE. Começa-se dar valor a URBANIZAÇÃO para tomar sentido a expansão URBANA. Le Corbusier, Lúcio Costa e Niemayer, lançam novos critérios para o mundo tecnológico e o automóvel poder chegar no seu ápice, em Brasília.
    HOJE, estamos nos voltando a MOBILIDADE URBANA, ao transporte coletivo e os espaço para o CIDADÃO.

    Raramente os passeios passam de 2 m, é mais fácil deslocar os veículos do perímetro central e criar os calçadões, e as pessoas inclusive, cada vez mais fazendo trajetos a pé.

    Tudo em nome da expansão do MERCADO IMOBILIÁRIO, que já praticamente ocupou o estoque de terrenos livres e regulares disponíveis, então a solução é VERTICALIZAR, até 50 pavimentos.

    Porque esta introdução ao TEMA?

    Que CAUs.

    Somente a três anos SIM, houve uma ruptura no Brasil, do ciclo militar determinantista, desde o Estado Novo de 1930 e com os ARQUITETOS querendo sair do SISTEMA CONFEA/CREA. O que só foi possível a 31 de dezembro de 2010. Quando fois assinada a Lei dos Arquitetos, urbanistas e Paisagistas.
    COMEÇAMOS a respirar e a ter liberdade para pensarmos em PLANEJAMENTO e a termos de nos adaptar ao NOVO TEMPO.
    Somente agora que vai completar os três anos. é que estamos nos ORGANIZANDO ADMINISTRATIVAMENTE, para reivindicarmos a QUALIDADE DE VIDA e ao BEM ESTAR SOCIAL, que a Carta Magna Brasileira reivindica por sí só a todos os Brasileiros e não somente aos privilegiados capitalistas capitalizados.

    Psic Beatriz! Seu enfoque é pelo OLHAR do indivíduo, em seu interior, o que faz que assim que surja um inconsciente coletivo, e que o fulgor do ÂNIMA da ALMA se manifeste através de um inconsciente doente, e sem condições de tratamento pela Psicologia.

    Porto Alegre começa a deixar de se comparar, ou deixar de buscar respostas em modelo distantes e somente remediações.

    A POLÍTICA governativa esta muito distante das reivindicações que a SOCIEDADE CIVIL solicita e acabou que a III Perimetral, então não derrubou a IGREJINHA Marthin Luther e também cortou o orçamento estabelecido de R$ 220 milhões, parta ficar em R$ 150 milhões e somente agora é que aparecem os viadutos que eram para serem executados naquela ocasião.
    Assim dá voto.

    A PSICOLOGIA cuida do INTERIOR do HOMEM e o PAISAGISMO da AMBIÊNCIA externa a este HOMEM.

    Integrando o OLHAR Multidisciplinar, podemos obter instrumentos de superação dos obstáculos da EVOLUÇÃO da TECNOLOGIA e não da ESPÉCIE, e esta espécie conseguiu obter a ampliação da LONGEVIDADE, pela superação da FOME, da DOENÇA e da LENTA E GRADUAL SUPERAÇÃO DOS OLIGOPÓLIOS corporatistas, e em que BRASÍLIA se petrificou.

    Enfim! É só um começo possível e com NOVO OLHAR e MODELO

    Jamil Campos Vergara
    Arq. Urb. e Paisagista
    a701.2mil@gmail.com

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  2. A autora está certíssima! E não precisamos sequer de todas essas referências de fora do país e sequer da nossa própria região, posto que a cidade conforme a exposição das ideias acima existe e é logo ali acima, Curitiba, em que o transporte coletivo é protagonista e as áreas mais centrais privilegiadas para os pedestres, com suas ruas e calçadões que recebem atenção através de cuidados paisagísticos e limpeza pública simplesmente admiráveis. A antítese de tudo isso, a outra grande cidade do Sul, Porto Jurássico Alegre.

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  3. Pessoal, peço a todos que se interessam por urbanismo para assistir esse vídeo aqui:

    http://blog.ted.com/2007/04/20/james_howard_ku_1/

    Pode-se escolher a legenda em português.

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  4. Casualmente, a primeira colocada no ranking do IDH barra construção de novos prédios

    http://www.redebomdia.com.br/noticia/detalhe/54755/Por+que+Sao+Caetano+esta+em+1%26ordm%3B+no+IDH%3F

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  5. Assiste o documentário primeiro… Não se refere só ao petróleo. Subúrbios norteamericanos é ter grandes áreas só com residências imitando uma fazenda. Inevitavelmente esse sistema cria sérios problemas de infraestrutura independentea fonte de energia.

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  6. Muito interessante!

    O ser humano, por muito milênios foi nômade coletor e caminhava dezenas de quilômetros por dia. Depois da invenção da agricultura e da pecuária caminhava-se para plantar, colher e armazenar, cuidar dos animais… Faz menos de cem anos que paramos de caminhar. Cem anos não é nada para milênios de evolução do nosso organismo para a caminhada. “Casualmente” temos glândulas linfáticas na virilha e nas axilas. Fica claro que precisamos movimentar as pernas e braços para que a linfa se distribua para o corpo e cumpra sua função, pois ao contrário do sangue, a linfa não tem um coração para que ela circule.

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  7. A mesma babozeira marxista de sempre.

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  8. Bom, tratando-se de um olhar psicanalista sobre o assunto, é bem interessante (ainda mais para mim que sou psicólogo, apesar de não seguir a linha psicanalítica). A psicanálise é um assunto subjetivo, portanto, trazer o material, ou como pode-se concretizar esse sentimento de pertença a cidade, é o grande desafio.

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    • Legal cara. Fale mais sobre isso! Kkkk. Até acho que essa onda de depredação tem tudo a ver com essa coisa de “a cidade não é de ninguém” ou “não é minha”.

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  9. Em resumo, ela gostaria de morar em um subúrbio americano.

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    • Não, gostaria de morar em uma cidade mais européia menos americana, é o contrário.

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      • Uma pena pra ti que, considerando o tamanho do nosso país, não tenha sentido nenhum usar o modelo europeu aqui, em que pese ser bastante aplicado na prática, considerando a nossa elevada verticalização.

        Enquanto tu prefere morar em apartamentos, eu pactuo com os americanos, preferindo muito mais morar em uma bela casa, bem espaçosa, com um baita pátio, num local calmo.

        Tipo isso:

        https://maps.google.com.br/?ll=40.635864,-74.322974&spn=0.000768,0.001206&t=h&z=20&layer=c&cbll=40.635864,-74.322974&panoid=mHmHZpfYEwLOgObkzw2LPQ&cbp=12,112.39,,0,7.11

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        • Ou seja, tu prefere o modelo americano, não a autora.

          Nosso modelo não é nem um nem outro, pois ficamos com a verticalização mas com os hábitos de motorização e dia-a-dia compartimentado dos americanos. Honestamente acho o nosso pior que os dois.

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        • Adriano, provavelmente esta casa está a 10 quilômetros longe de qualquer coisa, para que cada um saia dela deve sair de automóvel particular, pois simplesmente não há transporte coletivo nos subúrbios.
          .
          E tem mais, os norte-americanos moram em casas descartáveis, onde as paredes internas e externas são de aglomerados, as janelas geralmente são vidros fixos nas paredes com as baguetes falsas e o isolamento interno é feito com material que com o tempo mofa e deve ser destruída toda a casa por motivos higiênicos.
          .
          A construção civil norte-americana é um exemplo de insustentabilidade.
          .
          E o mais interessante de tudo, que mesmo em zonas de tornados e furacões, as casas são construídas da mesma forma, e quando passa um desses simplesmente elas se desmancham!

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        • Adriano, no link que você mandou não se vê NINGUÉM caminhando nas ruas. E isso não é mero acaso. Por mais “verdes” e “bucólicos” que sejam os subúrbios americanos, eles praticamente não têm vida nas ruas. As pessoas acabam usando o carro para tudo, e acabam caminhando o mínimo necessário. O homem é um animal social, e é a presença de outras pessoas que faz um local ser agradável, convidativo para se caminhar.

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    • Subúrbios norte-americanos são insustentáveis.

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      • Estamos na crise do “oleo” desde a década de 70…e desde lá já se foram quarenta anos e o disco de certos não mudou. Modelo bom mesmo é o brasileiro pelo visto, onde se amontoam pessoas em apartamentos pequenos, pagando-se um absurdo, devidamente cercados pelo medo à violência. Se o problema é petroleo, que se use outras formas, como já se anda pesquisando por aí. Carro se troca facilmente. Casa, meu caro, é bem mais difícil.

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        • Estás misturando problemas sociais (insegurança) com modelo de urbanização e transporte.

          Mas enfim, nem tenho muita esperança que isso mude. Provavelmente vamos teimar num sistema pouco eficiente até que tenhamos uma crise que nos obrigue a parar de usá-lo. Mas faço minha parte 🙂

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        • Caro Adriano.
          .
          O preço da gasolina nos Estados Unidos era em torno de US$1,10 o galão até meados de 1999, tendo atingido um mínimo de US$0,96 em fevereiro de 1999, ele vem subindo de forma mais ou menos constante, atingindo no mês de junho deste ano um valor de US$3,71 o galão, ou seja já subiu 240% em 14 anos.
          .
          Atenção, o chamado “shale oil” (óleo de xisto), que segundo muitos é a verdadeira salvação da lavoura, está com preços marginais subindo muito a custa do desenvolvimento tecnológico, segundo o Financial Times (http://www.ft.com/cms/s/0/ec3bb622-c794-11e2-9c52-00144feab7de.html#axzz2arMywAM6) estes custos estão passando de US$104,50 o barril, um custo que em relação ao custo do pré-sal brasileiro pode ultrapassar quase 3 vezes o mesmo.
          .
          Tenha cuidado em falar que nada acontece com o preço do petróleo, pois em poucas décadas se passou de US$10,00 a US$110,00, ou seja morar no subúrbio cada vez é mais caro.

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  10. A autora diz que o problema é a cidades terem cada vez mais arranha-ceus e shoppings… Pelo menos do primeiro problema ela nao pode reclamar de Porto Alegre!

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  11. Muito bom o artigo, e precisamos de muita coisa para conseguirmos isso, entre elas, valorização do espaço do pedestre, mais transporte de massa e menos garagens gigantes em todos “compartimentos” que habitamos.

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