Bem-vindo ao Masoquistão

O estranho lugar onde a principal tarefa da prefeitura é infernizar os cidadãos

ENTRE AS nações mais curiosas do mundo figura o misterioso Masoquistão. Os habitantes desse país se caracterizam por desprezar tudo aquilo que os beneficia e idolatrar leis e instituições que os maltratam. Esse costume fica evidente na maior metrópole do Masoquistão, onde a prefeitura tem como principal tarefa transformar a vida das pessoas num inferno.

Por exemplo, quando um camelô resolve, durante uma tempestade, vender guarda-chuvas a preços módicos ao masoquistense parado na saída do metrô, um fiscal aparece aos gritos (“Clandestino!”), apreende os guarda-chuvas, deixa o vendedor sem a mercadoria e o cidadão contente por sofrer na chuva.

Numa avenida reta, larga e segura, a prefeitura instala radares de velocidade cujos limites mudam, sem critério, de 50 para 70 e depois para 40 km/h, rendendo multas que reduzem a um valor mais adequado a aposentadoria de velhinhas incautas.

Os masoquistenses odeiam carros e demolições de casinhas antigas. Por isso mesmo criam leis que aumentam o número de carros e demolições de casinhas antigas.

Primeiro, asseguram que o transporte coletivo seja uma desgraça, impondo um monopólio público no serviço de ônibus. Sem concorrência, as empresas agraciadas pelo monopólio oferecem um serviço de sádicos. Os poucos empresários que tentam quebrar essa reserva de mercado trabalham com carros velhos, como medo de vê-los aprendidos por fiscais.

Quando alguns cidadãos menos adeptos ao sofrimento decidem evitar os ônibus morando perto do que acham interessante, a prefeitura dificulta a construção de prédios altos nessas áreas. Estabelece limites da área construída em relação à área do terreno.

Como resultado, a cidade se expande para os lados e muita gente vai morar longe, tendo que se deslocar de carro pela cidade. E as construtoras, para erguer quaisquer 20 andares, avançam sobre a área de casinhas antigas.

Há décadas essas leis garantem o caos da grande metrópole do Masoquistão. Mas quem disse que os masoquistenses reclamam? Nada. Nas eleições, como se houvesse alguma diferença relevante entre os candidatos, eles escolhem aqueles que mais vão sabotá-los. “Mais planejamento!”, exige um masoquistense típico. “Não à verticalização!”, grita um vereador recém-eleito.

LEANDRO NARLOCH é jornalista e autor de “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” e coautor de “Guia Politicamente Incorreto da América Latina”.

Folha de São Paulo

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No Facebook este artigo circula com uma foto de Porto Alegre:

masoquistão



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20 respostas

  1. Tá na cara que o autor deste texto deu uma passada em Porto Alegre, viu todas essas coisas e depois escreveu este artigo. Se encaixa perfeitamente com as características da nossa cidade. Em tempo: São Paulo também não é nenhum exemplo de desenvolvimento urbano eficiente e sustentável, portanto não serve de exemplo pra capital nenhuma do país.

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  2. Muito bom.

    To todo emocionado que conheci o Rio, de de fato, Porto Alegre vai ser igual, vai ser tudo muito longe.

    Uma pessoa que mora na zona sul ja precisa fazer uma viagem até o centro, vai ficar pior, ja que para alguns é ambientalmente correto derrubar matas pros lados, e e um perigo para o mundo construir alto.

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  3. “Numa avenida reta, larga e segura”…

    Qual avenida dentro de cidade que se fala ?

    Tirando a vias expressas onde não existe pedestre/ciclista (em POA só existe a Castelo Branco), o resto a velocidade sempre vai ser controlada. Numa mesma rua se existir passagem de pedestre, por exemplo, a velocidade tem que ser reduzida. Pra isso serve as placas de transito.

    “Sem critério” faz pensar que é relacionada ao transito de veiculo. Pq os carros obviamente o critério é andar sempre com uma velocidade alta. Mas como existe vida fora dos carros (por exemplo, pedestre e ciclista) os técnicos regulam. Pode reclamar pq ainda tem avenida a 60km/h, mas falar que se existir uma placa informando velocidade menor é “falta de critério” é um pensamento bem estreito, tipicamente dum motorista enclausurado dentro do carro sem ver a sua volta.

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    • “Pensamento estreito” é só focar a leitura na parte que ele fala de carros e não ler a parte que tbm fala de monopólio de transporte público e da horizontalização das cidades fazendo as pessoas irem morar nas periferias, longe do trabalho. Ambos os casos se encaixam perfeitamente em POA.

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  4. Só faltou constar que a cidade é Porto Alegre comandada por uma quadrilha de Agentes Públicos espalhados sob vários órgãos públicos do Paço Municipal, é só ver a quantidade de irregularidades cometidas por
    Agentes Públicos ou não será isso???????????????

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  5. Pois está inaugurando o novo prédio do Foro; estive lá e fiquei impressionado. O prédio é enorme, corredores infindáveis, tudo magnânimo… Até entrar numa Vara Cível. Eu não acreditei:

    O espaço mais importante, onde acontece o atendimento, nos balcões das varas, é minúsculo, muito menor do que o do Foro anterior… Em algumas, o espaço de balcão atual é a metade do anterior.

    Na vara cível do novo Foro simplesmente não cabiam, dentro da micro saletinha, as pessoas com os processos a examinar!

    Quem “planejou” isso? Sofre das idéias? Ou será articulado por mal intencionados?

    Afinal, fazem tudo enorme exceto o lugar mais importante, onde os jurisdicionados, os destinatários da prestação jurisdicional, vão buscá-la!

    Isso não faz o menor sentido. As partes e, pior, os advogados, todo dia no foro, ACOTOVELAR-se-ão como em latas de sardinha em espaços minguados de atendimento.

    Como ninguém nasceu ontem, isso não aconteceu por acaso:

    Querem apequenar as partes e os advogados, minguar nossas forças.

    Observe a semelhança com a técnica de cansar dos famigerados call centers onde o consumidor padece numa sucessão de menus e sons infames, um empurra empurra, para cansar, e desistir sem conseguir veicular uma reclamação…

    O acotovelamento – em local onde espaço não falta – só faz sentido como proposital para acirrar os ânimos, jogar os advogados uns contra os outros – levando-os a quase brigarem por um espacinho no balcão…

    Enquanto os advogados se acotovelam, as corporações de telefonia desfrutam de espaço amplo e privilegiado dentro do Foro.

    Os jurisdicionados são os destinatários da prestação jurisdicional!
    Os advogados peças essenciais a Justiça.
    Então, inaceitável a indignidade de os submeter a um ACOTOVELAMENTO em espaços minguados.

    Não somos sardinhas para sermos apertados uns contra os outros!

    Quem planejou isso visa desencadear, nos advogados, a Síndrome de Burnout, incapacitando-os para exercerem a defesa de direitos: http://padilla-luiz.blogspot.com.br/2013/07/acultura-superficialidade-encenacao.html

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    • Caro prof Padilha!
      Isto que você nos relata é sinal dos tempos. Talvez queiram apequenar alguém, mas é mais provável que seja decorrente do “avanço relativo” dos novos tempos, movidos pela tecnologia e informação. Noto que nos últimos anos há um tom de deslumbramento devido as novas ferramentas computacionais, à internet e à telefonia. Os equipamentos e os projetos estão perdendo a alma do projetista, que se focava na logica e na intuição para faze-los, além de um tempo para maturação. Hoje não é mais assim, não há tempo de maturação de um projeto, forças comerciais ou politicas, imprimem velocidade. Como consequência coisas erradas acontecem. No caso do Foro, eu diria que quem o projetou, o fez pensando sob a batuta dos novos tempos. O cara ou a equipe deve ter pensado: “Hoje é tudo pela internet, as pessoas resolvem tudo pelo por telefone, e cada vez menos irão a esse tipo de lugar, já que tudo é informatizado, então porque fazer um sala grande que ficará vazia”. Conheço vários projetos já realizados, feitos para novas tecnologias que ainda não estavam plenamente consolidadas e que tiveram que ser readaptados.
      As coisas estão assim, totalmente distorcidas, como se as novas tecnologias e as maquinas pudessem substituir os homens e os empregos. Assim como os projetos, a substituição do homem pela maquina, também precisa de maturação e deve ser um processo natural sem pressa. A tecnologia no seu devido tempo substituirá o homem. O futuro (dos filmes) ainda não chegou.

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  6. O texto se enquadra para a grande maioria das cidades brasileiras, e não só para Porto Alegre, porém ele é bom mostra uma verdade que não queremos ver.
    Sempre fui bairrista, sempre torci muito pelo Rio Grande e pela nossa capital. Aprendi e ouvi que nós temos os melhores políticos, que o povo é o mais politizado do Brasil, que aqui é a terra de presidentes, das mulheres mais lindas. Porto Alegre é a cidade sorriso, nosso por do sol é o mais bonito do mundo. Somos um povo muito hospitaleiro. Somos quase um “pais independente” pelo nossa cultura e tradicionalismo.
    De uns tempos para cá, ou estou me decepcionando ou vendo a verdade: nossos políticos não são tão bons assim. Não vejo melhorias para nosso Estado por conta da atuação deles. Porto Alegre e o Estado estão cada vez piores economicamente. Ranços ideológicos estão levando o Estado ao isolamento e a divisão interna. Os índices demográficos estão estagnados, empresas estão indo embora.
    Mais recentemente tenho ouvido opiniões de amigos sobre nós gaúchos, há uma certa decepção. Talvez as glorias do passado tenham embalado nosso ego um pouco além da média, já que ultimamente não temos tido outras glorias para nos vangloriamos. A cultura politica de um povo e o debate servem para ajudar a crescer e levar prosperidade. No nosso caso é o petismo e o anti-petismo, os do contra e os a favor, numa perfeita harmonia. É o radicalismo fazendo o papel contrário: dividindo, desagregando e fazendo caminharmos para trás.
    De modo geral, amamos a terra em que nascemos, creio ser da natureza humana e ficamos aqui sobrevivendo, somos gaúchos, assim como colorados ou gremistas, não trocam a camiseta na mais longa fase de derrotas. Mas de vez em quando dá uma vontade de ir …

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    • “O texto se enquadra para a grande maioria das cidades brasileiras, e não só para Porto Alegre, porém ele é bom mostra uma verdade que não queremos ver.”

      A prova disso é a maioria discordante aqui. Todos reclamando do Gilberto ter postado o artigo e defendendo a cidade, mostrando como a maioria está contente. Ninguém precisa propôr mais nada. Já foram dadas dezenas de propostas aqui pra orla, mobilidade, urbanização, etc. Só falta alguém pra analisar e agir. E infelizmente, vai ficar faltando.

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  7. Que fique registrado que o artigo foi publicado na Folha de São Paulo, SEM FOTO. A foto foi um usuário do Facebook que publicou para ilustrar o artigo. Eu publiquei pelo mesmo motivo. O artigo foi escrito de forma genérica, sem indicar alguma cidade.

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  8. Pessoal, calma. Quando se trata de um artigo assinado por alguém de fora do Blog, ele não retrata necessariamente a nossa opinião. Estou postando ele aqui para discutirmos. Que fique registrado que não é a opinião do Blog, nem minha. É para refletirmos.

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  9. Sensacional, bem nessa!

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  10. Porto Alegre é uma boa cidade pra se viver, desemprego baixo, arborizada, quatro estações bem definidas no ano, opções de lazer e gastronomia em abundância e vida cultural intensa. Há defeitos aqui como a morosidade do poder público e o conservadorismo em mudanças por parte da nossa população. Mas longe de ser um lugar decadente.

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  11. Pegou pesado, Gilberto. Eu sinceramente curtia mais o blog quando tu apresentava mais propostas para melhorar a cidade e criticava menos.

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  12. Vou dizer o mesmo que disse sobre o artigo nos comentários: faz sarcasmos sobre o que não gosta, sem apontar fatos concretos e não propõe nada de fato. Achei péssimo.

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