Projetos básicos para licitação encarecem obras e são estímulo à corrupção, afirma presidente IAB

Nubia Silveira

Sérgio Magalhães: "O que há é a necessidade de se utilizar todos os modos de transporte articuladamente" | Foto IABRJ

Sérgio Magalhães: “O que há é a necessidade de se utilizar todos os modos de transporte articuladamente” | Foto IABRJ

Arquitetos e urbanistas de todo Brasil estão reunidos em Porto Alegre na 144ª Reunião do Conselho Superior (COSU) do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que há nove anos não se reunia em Porto Alegre, apesar das reuniões serem bimestrais. No comando está o presidente nacional do IAB, o gaúcho Sérgio Magalhães, natural de Bagé e formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). A importância do COSU, lembra Magalhães, está na sua função de ponte entre a categoria e o IAB.

Em entrevista ao Sul21, defende que a contratação de arquitetos para projetos governamentais seja sempre por meio de concurso público. E que os projetos só sejam licitados depois de concluídos. Os projetos básicos para licitação só encarecem obras, aumentam os prazos e se tornam um estímulo à corrupção. Magalhães também alerta para a necessidade de as cidades utilizarem em rede todos os modos de transporte: ciclovia, ônibus, táxi, automóvel, NRT, metrô, trem e as calçadas. “O maior número de viagens é a pé nas cidades contemporâneas”.

Sul21 – Os brasileiros têm Curitiba e Brasília como exemplos de cidades bem planejadas. Esta imagem corresponde à realidade? Ou o país ainda não pode se orgulhar do seu planejamento urbano? Por quê?

Sérgio Magalhães – Acho que não dá para o Brasil ter orgulho do seu planejamento urbano. Mas, as cidades, em geral, obedecem a ideia de uma planta. As cidades não são da ordem da natureza, são da ordem da cultura. Cada projeto tem por trás dele, por mais que não esteja explicitada, uma ideia. O que ocorre é que as cidades brasileiras e o Brasil também, do ponto de vista territorial, estão sem rumos há muitas décadas. O Brasil está desconsiderando que investimentos importantes precisam ser articulados. Precisam ter começo, meio e fim que sejam previsíveis. As cidades do Brasil estão sendo construídas segundo as emergências do dia-a-dia. Elas têm planos antigos, mas há muito tempo se parou de fazer planos no Brasil. Há projetos episódicos. Planos que tenham a perspectiva do que se deseja é muito raro, nas cidades brasileiras.

Sul21 – Alguma cidade seria exemplo na planificação de seu crescimento?

Sérgio Magalhães – Não é por estar em Porto Alegre. Mas acho que entre as cidades brasileiras médias e grandes, que conheço, talvez Porto Alegre seja a que tem tido uma qualidade média melhor. Porto Alegre é uma cidade que, lá nos anos 50, estabeleceu um Plano Diretor e alguns elementos que vêm sendo paulatinamente incorporados ao seu desenvolvimento. Mas, como todas as cidades brasileiras, sem exceção, ela vem se expandindo sem uma estrutura compatível com o tempo de hoje.

Leia toda a entrevista no SUL 21 clicando aqui.



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6 respostas

  1. Só comunista pra achar Brasília exemplo de planejamento, com aqueles descampados horríveis onde não se vê uma viva alma, além dos blocões soviéticos enfileirados.

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    • Note que o arquiteto não concordou com isso.

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    • Aliás, não é mera coincidência o fato de tanto o Niemeyer quanto o Lucio Costa terem sido ligados ao partido comunista. Brasília, coitada, reflete um pouco das inspirações soviéticas deles, o que resultou numa cidade sem vida nas ruas e cheia de “monumentos” estéreis.

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    • Um dos maiores problemas de Brasília foi não ter planejado junto com a cidade pelo menos uma linha de metrô enquanto ela construida. Se a linha tivesse sido feita enquanto não tinha “nada” na cidade ela teria sido muito mais barata de se fazer e já seria ponto de partida para as próximas linhas da cidade. Combinaria muito mais com o espírito moderno que a cidade exibia quando foi construida, a ponto de o astronauta Yuri Gagarin afirmar que não se sentia no planeta terra quando chegou à cidade.

      O outro maior problema de Brasília foi não ter planejado o que fazer com os trabalhadores que a construiram, assim, ao redor da cidade moderníssima e planejada, há favelas miseráveis e sem nenhum planejamento.

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      • Há que se dar um desconto quando você considera a época em que a cidade foi construída. Foi antes da crise do petróleo, no auge da cultura do carro, guiado por aquele modelo do american way of life em que toda família teria um carro e todo mundo seria classe média. Era o que fazia sentido pra época – embora hoje reconheçamos como um modelo péssimo.

        Se Brasília tivesse sido planejada uns 40 ou 50 anos antes, provavelmente teriam planejado trens e bondes por toda parte, pois a cultura urbanística ditava isso.
        Se tivesse sido projetada hoje, talvez se pensasse assim também. Hoje talvez até dessem bola pra questão dos operários.

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  2. Notem a relação desta matéria com o impasse nas obras do “BRT”

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