Respeito à Luciana de Abreu, por Fernando Goldsztein

A indústria da construção civil possui grande relevância na economia das cidades. Forte geradora de empregos, atende a necessidade imperiosa de habitação. Apesar da sua grande relevância, às vezes não é bem vista pela população em geral, especialmente pelos vizinhos. Frequentemente, ocorre a remoção ou transplante de vegetação, barulho, movimento de caminhões, obstrução de vista, etc.

A estrutura urbana das grandes cidades brasileiras não ajuda. Em função da falta histórica de planejamento e dos baixos investimentos em infra estrutura viária e de saneamento, as grandes metrópoles são concentradas e verticais. Perde-se muito tempo em locomoção para áreas mais afastadas dos centros urbanos. Em contraste, as grandes cidades americanas e europeias, providas de excelente estrutura viária e transporte público de boa qualidade como o metrô, fazem dos subúrbios as suas áreas mais valorizadas.

Porto Alegre, assim como quase todas as capitais brasileiras, é vertical. A população prefere viver de forma mais concentrada a fim de não perder tempo em grandes deslocamentos. Por tudo isso, a indústria imobiliária, como regra geral produz apartamentos, e não casas. Edifícios não são um fim em si mesmos, são uma necessidade.

Quanto às casas da Rua Luciana de Abreu, objeto de recente polêmica em Porto Alegre, houve cuidadosa análise de toda sua documentação e não havia nenhuma objeção para a aprovação de um projeto de edificação. Logo depois de aprovado o projeto e obtidas as licenças na prefeitura, foi deferida uma liminar impedindo a retirada das casas por suposto valor histórico. A partir daí foram 11 anos de disputa judicial. Finalmente, neste mês de setembro, o Tribunal de Justiça confirmou, por unanimidade, que as casas não têm valor histórico ou arquitetônico. Vale ainda registrar que, anos antes de tudo começar, a prefeitura de Porto Alegre inventariou, com auxilio da Unesco, 127 imóveis no bairro Moinhos, dentre os quais as casas da Luciana de Abreu nunca foram incluídas. Portanto existem hoje 127 imóveis listados e totalmente protegidos apenas no bairro Moinhos de Vento. Além disso, comprovou-se no decorrer do processo que as casas foram projetadas por Franz Filsinger que, como tantos outros, trabalhou com Theo Wiedersphan, mas que com ele não se confunde.

Entendemos e respeitamos a gênese do movimento em defesa das casas da Luciana de Abreu e há um nobre apelo para que se estabeleça um diálogo entre a construção civil, o poder público e a comunidade. No que diz respeito à Goldsztein, queremos participar ativamente deste diálogo para uma cidade melhor. Mas, no caso específico, não podemos simplesmente esquecer os deveres que temos com acionistas, investidores e, principalmente, com as três famílias proprietárias das casas, que até hoje esperam pelos seus apartamentos no local.

Tentamos insistentemente, por mais de um ano, propor soluções conciliatórias. Acreditamos que a solução do caso Luciana de Abreu passa, obrigatoriamente, por bom senso e respeito ao direito de todos. Também ansiamos por uma cidade mais humana, democrática e que preserve sua memória através de seus imóveis, avaliados com critérios técnicos. Porém, sem esquecer que as decisões judiciais precisam ser respeitadas, as pessoas precisam viver em apartamentos e a preservação do patrimônio histórico demanda vultosos recursos.

Por tudo isso, estamos e sempre estivemos totalmente abertos ao diálogo. Este é o princípio que rege nossa relação com clientes, parceiros e, naturalmente, com os moradores da nossa cidade.

* Diretor da Goldsztein



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Patrimônio Histórico

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43 respostas

  1. BOLHA IMOBILIÁRIA COMO NOS EUA:

    Tenho um conhecido que trabalha num banco. Eles sabem que tem uma bolha e sabem que vai dar m**** como deu nos EUA, e não tão fazendo nada, porque sabem do “bom-exemplo” dado pelo Federal Reserve: “é só injetar a grana que desaparecer… e tá tudo resolvido”. Grana de impostos. Ou seja, vamos pagar a farra dos outros, como sempre.

    http://www.infomoney.com.br/minhas-financas/imoveis/noticia/2941708/suspeito-que-haja-uma-bolha-imobiliaria-brasil-diz-robert-shiller

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  2. Essa discussão é uma tentativa de desviar o assunto. POA é pouco verticalizada (no sentido de ter muitos prédios baixos) por causa do plano diretor conservador.

    Derrubar estas casas ou ficar no mimimi sobre limitações da aeronáutica no entorno do aeroporto é uma mera preocupação com o lucro das empresas. Por mais que o setor de marketing do sinduscon vai ficar mentindo aqui que a aeronáutica não deixa construir prédios no Lami.

    Mas claro, se as empresas estão preocupadas com o lado social das cidades, podiam construir prédios para revitalizar nosso centro, em vez deixá-los abandonados e invadidos:

    http://www.sul21.com.br/jornal/todas-as-noticias/geral/moradores-sao-agredidos-por-policiais-em-ocupacao-de-porto-alegre/

    Tá, essa última parte foi uma provocação mesmo 🙂

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  3. Sinceramente, quanto atraso!! Pelo amor de deus! É por isso que as coisas não andam em POA. Tem tanto imóvel tombado pelo patrimônio histórico que só não “tombou” ainda por força divina e ainda vem esse muro de lamentações, passeatas?!?
    Fala sério, vão pra frente da prefeitura pleitear melhores calçadas, melhores parques….ou por um acaso a população vai doar dinheiro para cuidarem dessas casas, que nem tombadas foram??
    Salve POA

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    • Se não gosta de prédios históricos, se muda pro extremo sul da cidade constroe a infra necessária e mora no meio do mato, lá ninguém vai reclama de derrubarem prédios históricos pra construir espigões de mal gosto.

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  4. A Goldsztein paga só R$ 5 mil mensais para um engenheiro com 5 anos formado. É ridícula.
    Querem lucros, isso sim. Acho que esse sr. levou uma pirocada, pra além de tudo vir com uma nota dessas. Uma piada.

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  5. Enfim, eu acho que dá pra preservar o patrimônio do bairro e mesmo assim construir.

    É meio cômico que quem tá na frente da preservação (essa associação e membros, por exemplo do MP – vários promotores devem morar no moinhos) mora em prédios que foram erguidos em cima de antigas casas, igualmente bonitas e históricas. E aí vem a ideologia ordinária que eu tenho total pavor e é impregnada em poa, que é a política do não, da hipocrisia, da não-concorrência, do provincianismo local.

    A elite do bairro, que mora em apartamentos luxuosos, não quer novos edifícios porque: 1) vai atrair mais moradores, aumentar o fluxo de veículos, etc (coisa que aumentará de qualquer jeito já que o moinhos fica numa região “coração”) e consequentemente atrapalhar os atuais moradores; 2) derrubar as casas da vizinhança que tanto embelezam o bairro – detalhe que os moradores associados já tem garantido os seus aps caríssimos.

    Me revolto porque nunca se planejou, realmente o crescimento da cidade e o bairro – e nesse ponto eu concordo com o vídeo – mas um pouco do fato do moinhos ser o que é hoje é justamente por ter se expandido em cima das casas históricas, transformando-se em um bairro multiuso.
    ….comentario do forista h.corleon do skyscrapercity:

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  6. Ninguém questiona o fato da geração de empregos e todo esse blablabla..o problema é o desfigurameno da cidade e o crescimento vertical em áreas que não comportam mais tantas moradias de péssima qualidade…. alem os estragos que eles fazem nas casas já existentes e que não se responsadilizam..

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  7. OFF :

    A/C Otoridades da Bovinolândia :

    http://jornalggn.com.br/noticia/projeto-urbanistico-de-ny-aumentou-em-50-o-lucro-comercial-apos-privilegiar-pedestres

    Projeto urbanístico de NY aumentou em 50% o lucro comercial após privilegiar pedestres

    qui, 26/09/2013 – 15:17 – Atualizado em 26/09/2013 – 15:37

    Mônica Ribeiro e Ribeiro

    Jornal GGN – Considerada a capital financeira do globo, a cidade norte-americana de Nova York recebe, por ano, milhares turistas de todas as partes do mundo. Um dos lugares mais frequentados não só por estrangeiros, como também pela população local, é a Times Square, na região central, que abriga os famosos teatros da Brodway, os estúdios de TV e a redação do jornal The New York Times.

    Para facilitar a mobilidade dos frequentadores, a prefeitura da cidade resolveu fechar algumas vias, sendo que, em algumas delas, pequenas praças com mesas e cadeiras foram criadas com uma simples pintura no chão. A experiência urbanística, que rendeu um aumento de 50% na receita dos comerciantes locais, foi apresentada pela secretária municipal de transporte Janette Sadi-Khan na Câmara Municipal de São Paulo, na quarta-feira (25), durante o seminário “A Bicicleta em São Paulo: Políticas Públicas para Transformar a Cidade”.

    “Desde que fechamos a Times Square para o trânsito, além das vendas, houve um aumento de 50% no valor dos aluguéis. Construímos bulevares apenas passando tinta no chão. Entre 2007 e 2012, criamos 50 novas praças na cidade”, enfatizou Sadi-Khan.

    Segundo a secretária nova-iorquina, o projeto Sustainable Streets (Ruas Sustentáveis), criado há seis anos, prima pela transformação do uso do espaço público em vez de construir novas vias. Além disso, a medida também foi pensada para diminuir os efeitos do trânsito na cidade – uma vez que, como o de São Paulo, é bastante caótico. Para isso, a prefeitura de lá criou o Programa 20 Milhas por Hora (32 km/h).

    “Nós temos a maior frota dos Estados Unidos e, levando em consideração o tráfego pesado de veículos, criamos o programa. Após um estudo, constatamos que o excesso de velocidade causava 25% dos acidentes de trânsito da cidade. Fizemos uma grande campanha, dizendo que se você for atingido por um carro a 40 milhas/hora (64 km/h), sua chance de morrer será de 70%”, enfatizou.

    A bicicleta e a cidade

    Bem parecido com iniciativas já instaladas na capital paulista, outro programa que faz parte do projeto urbanístico é o Citi Bike, patrocinado pelo banco Citibank, que fornece o empréstimo de bicicletas em 40 estacões de metrô e em 8.000 pontos espalhados pela cidade. As passagens de bicicleta podem ser pagas por meio de passes diários “salgados” (o equivalente a R$ 23 por 30 minutos), semanais (cerca de R$ 56) e anuais (por volta de R$ 213), que são mais rentáveis por custarem, ao dia, 26 centavos de dólar (R$ 0,58).

    Segundos dados da prefeitura nova-iorquina, o município possui mais de 600 km de ciclovias em todos os distritos (Manhattan, Coney Island, Bronx, Brooklyn e Queens) e pretende estender as rotas até o ano que vem – São Paulo tem 10% disso, ou seja, 60 km de vias para ciclistas.

    “São 35 mil nova-iorquinos andando de bicicleta a cada dia. Com ciclovias mais seguras, o trânsito fica mais organizado. Além disso, 75% da população apoia o compartilhamento de bicicletas”, disse Sadi-Khan.

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    • Porra, mas usar a times square como exemplo é muita cretinice, ali sempre teve mais gente que carro.

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      • Bem, o centro todo tem mais gente que carro e as calçadas são um lixo. O mesmo vale para a João Alfredo, por exemplo.

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        • Aposto que nenhum morador da João Alfredo iria que sua rua fosse fechada. Já anda deserta e perigosa depois da morte da Cidade Baixa como bairro boemio, imagina como ficaria se fosse sem circulação de carros.

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        • Morte da cidade baixa? Engraçado, fiquei no parafernália até as 3hs da manhã um dia desses, não me pareceu muito morto. Nem perigoso.

          De qualquer maneira, poderia virar calçadão só ali onde é um bar do lado do outro.

          Mas sei como é, é fácil para os outros, sempre, para nós não dá.

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        • Eu vi e vivi a Cidade Baixa e João Alfredo há anos e tenho a mesma opinião: está morta!

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        • Ontem fiquei as 5 hs lá tava vivinha. Gostaria de saber onde está morta.

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  8. Não foram inventariadas como patrimônio provavelmente por alguma negociata entre a construtora e a prefeitura…

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  9. Fatos comprovados por estudos:
    POA é a segunda capital mais verticalizada do BR.
    Atlanta-EUA e uma das maiores redes de highways urbanas dos EUA tem sérios problemas pois a população mora longe e enfrenta engarrafamentos enormes.

    Logo, o Fernando está certo.

    A questão das casas é a diferente opinião de cada (assim como na questão do corte das árvores da beira rio: há pessoas contra e a favor).

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    • vamos estabelecer algumas coisas.

      1) Porto Alegre, segundo a pesquisa do IBGE, é a segunda capital mais verticalizada do Brasil “porque 37% de sua população vive em prédios”.
      2) A definição de prédios do IBGE é bastante aberta, e os prédios de Poa, em comparação com outras metrópoles do Brasil, são bastante mais baixos. Basta comparar com São Paulo, Rio de Janeiro ou até Belém, Manaus e Goiânia. Assim, Poa tem, de fato, muitos prédios, mas prédios, em regra, baixos.
      3) O fato de Poa ter muitos prédios não afasta o fato de que há, aqui, muitos bairros residenciais e de casas muito, muito, muito afastados, tornando a cidade também horizontal, como ressaltado pelo Marcelo, no primeiro comentário. Vide bairros afastadíssimos como Restinga, Serraria, Agronomia e Ponta Grossa, todos distantes ao extremo do centro
      4) Apesar de verticalizada, a densidade demográfica de Porto Alegre é de 2844 por KM quadrado, inferior à de Curitiba (4056), São Paulo (7762), Rio de Janeiro (5348). Embora se possa falar que Poa tem grande área rural, isso não é um explicativo suficientemente, porque quase todas essas áreas (Belém Velho, Novo, Restinga e etc) têm áreas minimanente urbanizadas.
      5) Assim sendo, é possível dizer que Porto Alegre é muito verticalizada em algumas áreas (ex. Bela Vista), mas extremamente pouco verticalizada no subúrbio, o que a torna uma cidade horizontal e vertical ao mesmo tempo.

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  10. porque não se tenta um consenso? porque não se procura fazer uma adequação ao projeto, mantendo as casas? veja o caso do hotel viverone que estará sendo inaugurado em 01/10… será que não seria um bom exemplo para encontrar um caminho? poderia-se manter as casas, construir os prédios nos fundos e quem sabe, se houver privação da área de lazer, deixar para fazê-lo na cobertura? porque não melhorar os projetos para manter as casas já que a comunidade está pedindo isso? será que não seria o caso de em circunstãncias semelhantes a prefeitura poder liberar mais indices de construção ( talvez mais um ou dois pavimentos ) para compensar a preservação das casas?

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  11. 1 – habitaçao há suficientemente para todos, o problema é que todos os prédios tem no mínimo 20% de ociosidade enquanto há muita gente sem casa
    2 – só quero ver, por exemplo, ql vai ser a “compensaçao” do “residencial América” e suas 323 torres na Av. Antonio de Carvalho que ñ comporta mais nada!
    3 – tanto na Unesco, como na Prefeitura, como no “rol” das construtoras há lobbys meu caro
    4 – se a Goldsztein dialogar como a prefeitura estamos f***
    5 – as pessoas precisam viver em apartamentos=cidade mais humana AHHAHAHAHAHAH

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    • prédio com 20% de ociosidade só o teu, cara. deixa de ser tolo.

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      • Os novos têm ociosidade, ou terao: pois trata-se de uma mudança no ROL de investimentos, antes se colocava tudo em bolsa de valores e agora se investe em algo mais sólido = apartamentos…
        É só olhar os apto do fim da ipiranga, e depois mesmo os que ficarao prontos do “central parque” vários sem ninguem dentro….é fácil, só passar de noite e ver todas as luzes apagadas…

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        • a tua tese, então, é baseada em “passar de noite e ver todas as luzes apagadas”. boa, champz! é tanta (não) ociosidade, principalmente dos novos, que os preços dos imóveis em Poa não param, assustadoramente, de crescer. mas não vou nem começar uma discussão contigo porque já percebi que as tuas ideias são embasadas em achismo e burrice.

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        • ‘tão ta meu, aja “cientificamente” e comprove empiricamente.

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  12. Acho que ele quis dizer valorizadas não em termos financeiros mas na qualidade de vida/interesse de moradia

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  13. tudo ao contrário, fernandinho. Nas grandes cidades americanas e europeias a s areas mais valorizadas são as centrais, e poa é horizontalizada e sem concentração. O problema não é a vertizalização, mas a vertizalização depredatório que está em curso graças a empresas como a tua.

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    • ué, se são as mais valorizadas em termos de interesse de moradia, isso se reflete no preço.

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    • Não são, não. Dá uma olhada no street view.. Principalmente nos EUA as famílias mais abastadas moram nos subúrbios, todos muito bem estruturados, asfaltados. Arborização então nem se fala. Até em cidades desérticas as ruas suburbanas são verdíssimas e as áreas de verticalização são específicas, geralmente junto às regiões de centro comercial e econômico. Ele não disse mentiras, no Brasil subúrbio é sinônimo de pobreza. E uma das razões é sim a falta de infra-estrutura. Por isso inclusive da verticalização das nossas grandes cidades e da existência de tantos condomínios fechados nas áreas mais afastadas porque nesses condomínios (que são uma verdadeira ferida urbana) a estrutura é de primeira qualidade, suprindo a má-vontade e má gerência da administração pública.

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    • Horizontalizada? Somos a segunda capital mais verticalizada do País.

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