O exemplo está aqui ao lado

O urbanismo moderno aponta novas tendências de humanização e harmonização dos espaços coletivos, com o reconhecimento de que todos somos pedestres, e que ruas vivas são essenciais para a cidade. Muitos de nós já vimos os frutos disso quando viajamos a países desenvolvidos: são as ruas de tráfego calmo, as travessias fáceis e seguras, as vias onde diferentes modais convivem em harmonia.

Voltar pra Porto Alegre e não perceber que estamos fazendo exatamente o oposto disso é ignorar a realidade diante de nossos olhos. Aqui ainda priorizamos a pressa e a segregação das pessoas nas suas bolhas motorizadas. Os exemplos disso em Porto Alegre abundam: é o atropelo pra transformar a Beira-Rio em via expressa; é racionalizar o alargamento da única via que tinha  equilíbrio do Centro (Andrades Neves) pelo “fluxo”; é titubear na implementação da ciclovia da José do Patrocínio, temendo impacto no comércio, a despeito do que já observou mundo afora. É também o manter calçadas exíguas e mal-mantidas em lugares movimentados. É toda a pequena decisão onde a função fundamental da rua ficou por último, e infelizmente é tudo que Porto Alegre sabe fazer.

Porto Alegre pode fazer melhor. E, a bem dizer, nem vai precisar viajar muito longe, nem muito caro, para ver exemplos. Buenos Aires está a duas horas de voo daqui, e lá já se iniciou a reformulação da urbe em prol do pedestre, com o lançamento do Plano de Mobiilidade Urbana Sustentável. Em uma primeira etapa, foram escolhidos 36 cruzamentos que seriam remodelados. No lugar de amplas áreas asfaltadas desordendas , foram criadas pequenas rótulas, refúgios, funis e outros elementos organizadores, como mostram as fotos a seguir:

Como pode ser observado nessas fotos, essas intervenções são muito simples, de obra barata e rápida. É uma questão de demarcar o espaço com barreiras elegantes e reforçar pinturas. Evidentemente pode ser aprimorado posteriormente, mas esses elementos básicos já conseguem dar outra vida pra essas vastas terras de ninguém que permeiam nossos cruzamentos.

Esse simples modelo poderia, portanto, ser facilmente aplicado em certos pontos críticos da nossa cidade. Nos lugares onde o pedestre pena pra atravessar. Quem caminha nessa cidade sabe que eles existem, aos montes. Na Oswaldo entrando e saindo do túnel. No HPS. Na Praça Argentina. Na Lima e Silva com Perimetral.

Só falta querer fazer.



Categorias:Acessibilidade, Arquitetura | Urbanismo, calçadas, Mobiliário Urbano, Reurbanização

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29 respostas

  1. Pequenas mudanças com custo baixo são, na maioria das vezes, mais significativas que grandes obras. O pedestre deve ter prioridade sempre no trânsito e para isso é necessário mudar, educar e fiscalizar.

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  2. olá. achei muito boa a ideia desse video: http://www.teligaformiga.com/2013/10/a-um-passo-pro-futuro.html acho que meree um post por aqui, abraço

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  3. “aqui o serviço publico é um cabidão de emprego tá cheio de gente inapta ganhando fortunas e não fazendo nada”

    O cidadão (nós) temos que se organizar, debater, achar alternativas viáveis, protocolar na prefeitura, chamando eles para a conversa e depois pressionar até a melhoria ficar pronta. Só reclamar não adianta, aí eles vão continuar na inércia.

    Até projeto de lei de iniciativa popular da pra fazer pela internet. Grande mobilização pode ser feita sem sair de casa.

    obs.: o calçadão de Montevidéu é um espetáculo, um sonho para Porto Alegre.

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  4. Montevideo dá de dez a zero em Porto Alegre principalmente pelo rio da prata o calçadão deles dá uma sensação de amplitude quando se olha para o horizonte.Entretanto assim como em algumas cidades brasileiras a vida nas ruas esta sendo destruida aos poucos ou seja o comercio cinemas tudo migrou ou esta indo para shoppings .Aquela beleza arquitêtonica ,aquela arborização magnifica do centro e arredores ficou ao leo. Apesar de boas iniciativas a burocracia de lá é igual aqui o serviço publico é um cabidão de emprego tá cheio de gente inapta ganhando fortunas e não fazendo nada.Mas é ainda um bom passeio tanto pela arquitetura parques do passado como estruturas mais arrojadas.

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  5. Seria realmente interessante fazer isso na João Pessoa com a Osvaldo Aranha. É simplesmente um parto atravessar ali, fora que mesmo alguns motoristas parem, os da outra faixa jogam por cima. Aliás, em torno de todo o Campus centro da Ufrgs deveriam ter ações assim, afinal, muitas vezes os estudantes tem que atravessar as ruas (movimentadas) para serviços essenciais da faculdade, como a reitoria, o DCE, restaurante universitário, pegar ônibus…

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    • Bah, com certeza. Eu passo nesse lugar frequentemente tanto como motorista quanto como pedestres. É simplesmente horrível.

      Pro motorista o fato de semáforo ter três tempos ferra tudo. Quem vem da André da Rocha tem 12 segundos pra atravessar. Passa três carros por vez no máximo.

      Pro pedestre, cruzar a João Pessoa envolve fazer pelo menos uma travessia que não é protegida por semáforo, contando com a sorte para que os motoristas que dobram em alta velocidade numa curva que parece desenhada pra fórmula 1 vão lhe dar preferência (não vão).

      E o pior é que ali não é difícil de resolver o problema! Andei pensando nessa situação e cheguei em duas soluções (solução 1, solução 2) onde o cruzamento passaria a ter somente duas fases semafóricas, e os pedestres poderiam fazer algumas travessias “fáceis” (de uma faixa apenas) sem depender do sinal.

      Tudo que precisaria seria tirar um pedacinho de praça junto à André da Rocha, e remarcar as terras de ninguém como canteiro a exemplo do proposto no post. Obra simplérrima.

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  6. Acho que a cidade-exemplo para POA, até pelas semelhanças físicas, geográficas e culturais é Montevideo, que também tá longe de ser perfeita, obviamente, mas está em um estágio mais adiantado de civilização.

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  7. quando estive la notei isso, e também os semafaros na rua oposta, e não obrigando o motorista a torcer o pescoço. com isso não seria necessário a sinaleira dupla de poa. no mais sou a favor de mais calçadas

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  8. A quem interessar possa: está rolando no Facebook um grupo aberto de discussão sobre o que estamos chamando de “ativismo pedestre”, justamente para trazer à tona os problemas enfrentados por quem usa (também) os pés como meio de transporte, bem como tentar encontrar soluções.

    Todos são bem-vindos.

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  9. Uma coisa que me irrita em POA para quem anda de carro é a má sinalização. Tem várias avenidas que toda hora troca de 4 para 3 pistas sem nenhuma sinalização (ex. Ipiranga com Azenha). Isto cria um funil onde os carros tem de se “arrumarem” em questão de 20 metros ou menos. Outra coisa que me irrita é o excesso de sinaleiras em algumas avenidas como a Bento. Chega ao cúmulo de ter sinaleiras espaçadas em 15 metros e ainda por cima desincronizadas. Se pega alguém desatento arranca ao ver o verde da segunda sinaleira estando a 1a fechada ainda.

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    • A quantidade de semáforos não vejo como um problema, agora, a má organização dos tempos e sincronização delas, é um problema bem grave, e que falta somente boa vontade pra resolver.
      A implementação de semáforos inteligentes, baseados em fluxo de carros e pedestres seria muito importante pra melhora a fluides do transito, mas a prefeitura não tem interesse em investir em tecnologia pra melhora o transito, só em alargamento das vias e viadutos, que são mais fácil de desvia dinheiro.

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      • Esse semáforo “inteligente” prioriza qual fluxo, o de carros ou de pedestres? Pois em nome do fluxo, vários semáforos pela cidade ficam abertos milênios para os carros e deixam apenas 10 segundos para os pedestres passar.

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      • Isso seria ajustável conforme a necessidade do momento, o importante é que todos os semáforos sejam integrados em uma unica rede, e possam ser modificados a programação rapidamente e de forma simples a partir de uma central, isso possibilitaria uma sincronização de tempos entre eles de forma simplificada.
        Eu sugeriria, que nos horários onde o transito de carros é menor, seja dada prioridade máxima aos pedestres, e em horário de pico, ela seja equilibrada, isso exigiria um estudo profundo da movimentação de carros e pedestres pela cidade.

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  10. Olha a midia oficial paga da cidade bateu e bateu em calçadões e outras estruturas que tornavam melhor a ideia de circulação de pedestres.O centro de Porto Alegre é um exemplo tentam a todo pano acabar com o calçadão da rua da praia. Porto Alegre tem um jeito e um olhar de provincia apesar do arrojo de algumas construções e temo que vai continuar assim.Dizem que instalaram um chafariz ao lado do mercado publico passei varias vezes lá de dia e de noite e nada.Mas sonhar é preciso,então…

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  11. Cade o IAB, os contra do pontal do estaleiro e a turma do barulho da Luciana de Abreu??

    Pq essas brigas vcs nao tem interesse em comprar??

    Começo a desconfiar da legitimidade desses grupelhos!!!!

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    • tudo partidario…massas de manobra

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    • De certa maneira, quando o IAB foi contra o corte de arvores da Beira Rio, ele estava apoiando esta causa, que é a cidade para os pedestres, não para os veículos…

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    • hahahahahaahahahahahaahhaahahahahah

      Gente! Quem conhece a Carol Bensimon e as pessoas que estiveram a frente daquele negócio da Luciana Abreu sabe que é a coisa menos partidária possível. Acontece que ela é do Moinhos, circula por lá, e tem maior interesse em coisas de lá. O ideal é que mais dessas coisas surgissem pela cidade.

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  12. O centro realmente precisa disso.

    Ate por que são poucos os carros que circulam por la, onde mais tem movimento, são nas vias em que o povo é obrigado a passar para ir entre a zona sul e a zona norte.

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  13. É verdade, obras baratas e rápidas de fazer, mas com enormes benefícios para a cidade.
    Daria pra aumentar as calçadas do centro só com tinta e aqueles pinos amarelos!
    Essa é uma ótima ideia de se levar adiante.

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  14. Muito bom! Este é o meu cavalo de batalha! Calçadas estreitas a torto e direito e todo porder aos veículos. Já escrevi muito aqui a respeito disso mas nunca vi nada acontecer na capital da província:
    antes

    depois

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    • Tua proposta é trocar estacionamento de carros por calçada (como mostram as figuras)? Sou totalmente a favor. Se alguém tem que perder espaço é o automóvel, e se alguém tem que ganhar espaço é o pedestre.

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      • Não seria trocar estacionamento por calçada, mas priorizar o pedestre ao veículo, sacrificar espaço de circulação de carros para privelegiar mais espaço para o pedestre, PRINCIPALMENTE na zona central da cidade. Nossas calçadas são, na maioria estreitas, irregulares e esburacadas. O pedestre deveria ser rei, principalmente no centro.

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        • Oi Marcelo. Estou contigo nessa causa. No entanto, te pergunto se tu já tomou alguma ação perante a algum órgão público para mudar isso.
          Acho que a padronização das calçadas de POA está em evidência e seria um bom momento para se falar do alargamento das mesmas.

          Já tentou a prefeitura? Que tal um abaixo assinado? Ministério Público?

          Vejo que os funcionários da prefeitura (sejam políticos ou não) não são cobrados pelas ações que prometem, vide o mirante do morro Santa Tereza.

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    • Thiago, acabei de mandar 5 emails com fotos detalhadas para orgãos da prefeitura sobre uma solicitação semelhante na esquina da Lima e Silva e Repúbica. Recebi algumas respostas que seria analisado.

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