XX Mundial de Atletismo Master, na visão de um leitor

Centro Esportivo da PUC-RS. Imagem: Google Maps

Centro Esportivo da PUC-RS. Imagem: Google Maps

Está acontecendo de 16 a 27 de outubro, em Porto Alegre, o XX World Masters Athletics, ou Mundial de Atletismo Master. Mais de 4 mil competidores com idades acima dos 35 anos, de mais de 80 países estão em Porto Alegre para o maior evento esportivo do RS em mais de 50 anos. O último evento de porte similar, foi a Universíade em 1963. É a primeira vez que um WMA está sendo realizado em uma cidade da América do Sul. As sedes escolhidas para os eventos foram o CETE, no bairro Menino Deus, a ESEF, no Jardim Botânico, o estádio da PUCRS, no Partenon e a SOGIPA, no São João, além de provas de rua nas cercanias do Parque Marinha do Brasil.

Destas quatro, a sede principal escolhida para o evento foi o CETE. A pista atlética parece muito boa, foi reformada há pouco para o evento, e nesse sentido não deixou a desejar. Ao chegar no evento, percebi que era realmente grande a presença de estrangeiros. Havia gente de todo lugar. De cabeça lembro de Russia, Finlândia, Suécia, Ucrânia, França, EUA, Canadá, Índia, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Argentina, Trinidad e Tobago, Chile, México, Colômbia, Peru, Uruguai. Competidores e acompanhantes. Curiosamente, para um evento desse porte, vi pouco público. A maioria das pessoas presentes eram competidores esperando sua vez, vendo outras provas ou acompanhantes dos mesmos. A estrutura para o público era precária. O sol escaldante da manhã de sábado torrava quem acompanhava as provas. Duas pequenas – pra não dizer ridículas – arquibancadas de madeira foram montadas em um dos lados da pista. Havia um micro-toldo que tapava parte da arquibancada, e era disputado pelas pessoas que procuravam alguma sombra. Digo sem dúvida: temos arquibancadas melhores pra assistir desfile de 7 de setembro ou carnaval. Além disso, apenas as provas de corrida tinham resultados divulgados em telão. Enquanto isso, provas de salto em distância, salto em altura e arremesso de dardo eram realizadas no gramado, e ninguém tinha como saber o que estava acontecendo. Em resumo, era patética a estrutura para o público.

Dando uma volta por dentro do CETE, vi que havia uns estandes com informações da cidade e do estado, estandes das próximas sedes do evento (Lyon, Budapeste e Perth) e um mural onde as pessoas podiam escrever bilhetes e deixar sua opinião. Os bilhetes que li, de brasileiros ou latinos, eram calorosos, saudando ou elogiando (exceto um que reclamava do preço da comida no local). Talvez pelos mesmos já estarem acostumados à desorganização dos países subdesenvolvidos. Já os em inglês, reclamavam de uma série de coisas como falta de transporte para o evento para quem estava hospedado em hostels, falta de equipamento para treinar arremessos, desorganização do evento em geral. Indo até o bar para comprar uma água, ouço o garçom falando com outros brasileiros que compravam bebida algo como “as pessoas falam que não tem nada pra fazer em Porto Alegre, e quando tem um evento desses, pouca gente vem”. Aceno com a cabeça concordando. Mas pensando um pouco, lembro que houve pouca divulgação, pouca cobertura da mídia (apesar de ver equipes de reportagem da Record e SBT lá), e pra quem soubesse dos eventos e fosse ao local ver, chegariam à conclusão que a estrutura era bem ruim. Pra completar, no domingo, dia que as pessoas não trabalham, não há provas agendadas, mas segunda e terça há. É pedir pra não ter público.

Mas nada é tão ruim que não possa ser pior. Após almoçar, fui com minha esposa até a ESEF, esperando acompanhar provas de arremesso de peso, disco e martelo. Lá sim, não havia absolutamente lugar nenhum para o público, só havia competidores isolados, uma prova num lado, outra do outro lado, com meia dúzia de outros competidores assistindo. Nunca tinha entrado nem no CETE e nem na ESEF, e me surpreendi negativamente com a ESEF. A pista é precária, por isso mesmo não está sendo usada no evento. Em meio à quadras de concreto de nível igual ou pior ao que vemos em praças de bairros pobres de POA, algumas áreas gramadas, com o posto e gradil de arremessos, e só. Vergonhoso uma cidade se candidatar e oferecer isso como sede. Vergonhoso também é saber que isso é parte da UFRGS, considerada uma das melhores universidades do Brasil. O que sobra pras ruins?

O que soa mais absurdo é saber que as sedes com melhor estrutura, SOGIPA e PUCRS, foram escanteadas à cerca de 30% das provas. Ambas com pistas de primeiro nível e com estrutura boa para receber o público. A PUCRS tem restaurantes no campus, estacionamento, linhas de ônibus, e ainda o prédio poliesportivo ao lado do estádio para os próprios competidores. Possui arquibancada com mais de 2 mil assentos, coberta e confortável para o público. A SOGIPA é um clube e também possui toda a infraestrutura necessária para os atletas, arquibancada para 5 mil pessoas em toda a volta da pista. Porque os organizadores não escolheram esses dois locais como sedes principais? Qualquer um em sã consciência nem usaria a ESEF, pois é vergonhoso e desrespeitoso receber pessoas que percorram milhares de quilômetros de distância para competir naquilo. O prefeito, governador ou sei lá quem, deveria ter vergonha de se candidatar para sediar qualquer coisa. Não são capazes de gerir os problemas mais básicos da cidade e do estado.

O fato mais positivo disso tudo é a lição de vida dos competidores. Arrancavam sorrisos e aplausos dos presentes. Ver alguns atletas com mais de 90 anos, mostrar que nunca é tarde para praticar um esporte, viajar mundo afora, competindo e conhecendo novos lugares e pessoas. Pena que nem todos os lugares sejam dignos da presença deles.

Texto: Carlos Gasparetto

Leia também:

03/09/2013  –  Porto Alegre receberá maior competição esportiva dos últimos 50 anos



Categorias:Eventos, Mundial de Atletismo Master

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15 respostas

  1. Comunico que participei do campeonato mundial de atletismo master de Porto Alegre, que ainda está em curso, e também participei de outros no exterior. Faço questão de registrar que tanto no exterior quanto aqui os problemas são insignificantes, dada a complexidade do evento. Como atleta master digo que o mundial de Porto Alegre, no que tange à organização. foi uma maravilha. De sorte que, na qualidade de atleta master do Brasil, oriundo do Paraná, cumprimento a todos os Gauchos pela belíssima organização, com destaque para os voluntários, que são os Grandes Campeões. Abraços com desejo de paz e otimismo para Você que está lendo este meu registro. Celso Wolf.

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  2. Gostei muito do teu comentário, estive observando as mesmas precariedades, inclusive com as pessimas calçadas em todo o entorno dos locais, fiquei pensando que os atletas terem mais de 50, 60, 90 anos e serem competidores é elogiável, e que se um deles sofresse qualquer acidente nas calçadas… trágico, beirando um crime ediondo.

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  3. Não sou da organização do evento e tenho ideiasdos fatos. Moro na frente da sede e tenho frequentado o local, portanto estou falando pelo que vejo e sinto. Não sou o dono da verdade e respeito quem tenha outra percepção dos fatos. Faz parte. Não acho que seja uma maravilha, mas também não vejo como uma catástrofe.

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  4. Quem se atreveu a falar algo positivo ou entendeu que não existe as falhas gritantes neste evento, ou faz parte da comissão organizadora(ou desorganizadora) ou não tem ideia dos fatos. É péssimo sim, desordem total. Um evento dessa envergadura sendo noticiado na midia local um dia antes de iniciar, com chamadas em nossos telejornais, com certeza por força de solicitação da Prefeitura. Um evento em Porto Alegre, sobre o qual Porto Alegre não sabia.
    A saber:
    Entre 17 e 24 de novembro de 2011,
    o LOC de Porto Alegre, recebeu a
    visita de inspeção da Diretoria
    da W.M.A. – World Masters Athletics,
    na pessoa do Presidente, Sr. Stan Perkins
    e o Secretário, Sr. Winston Thomas,
    quando cumprimos extensa agenda oficial,
    com visitas institucionais e verificação
    das infraestruturas e locais dos eventos.

    Publicação feita em Novembro de 2012
    Entre os dias 16 e 27 de outubro de 2013,
    Porto Alegre receberá mais de cinco mil
    atletas para o XX Campeonato Mundial Master
    de Atletismo. O evento foi lançado oficialmente
    na noite de ontem (11/12), no Centro Estadual
    de Treinamento Esportivo (Cete), principal espaço
    das provas da competição.

    “Vamos utilizá-lo como teste para Copa de 2014…,
    A solenidade contou também com a presença do secretário
    geral da WMA, o britânico Winston Thomas.
    “Esse é um evento esportivo maior do que a Olimpíada.

    Apoio Financeiro
    O Comitê Gestor da Copa do Governo do Estado através
    do secretário estadual do Esporte e do Lazer (SEL),
    Kalil Sehbe, entregou, na manhã dessa quarta-feira (26),
    a carta de captação de recursos da Lei de Incentivo ao
    Esporte à Associação Brasileira de Atletismo Master (Abram).
    Com o documento, a associação pode captar recursos junto
    às empresas que queiram apoiar a realização do Campeonato
    Mundial Master de Atletismo, maior evento internacional
    da categoria, que ocorrerá em Porto Alegre entre os dias
    16 e 27 de outubro de 2013.
    O valor a ser arrecadado do projeto é de R$ 6.297.782,00.

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  5. De novo o nosso complexo de vira-latas. Achar que aqui é tudo ruim e feio e lá fora tudo é maravilha. Nos países desenvolvidos é melhor, óbvio, mas eles também tem problemas.

    Moro em frente a umas das sedes e tenho acompanhado sempre que posso. Existem ônibus que transportam os atletas de uma sede para outra e táxi para quem quer se locomover para outros lugares, como hotéis, por exemplo. Quem passar pela frente verá um grande números de ônibus e táxi estacionados na frente da sede. Fiscais de trânsito e policiais (a meu ver em número demasiado e ostensivo) fazem um trabalho integrado ao longo da rua toda. Tem voluntários que falam espanhol e e inglês (talvez não em quantidade suficiente) mas grande parcela só fala a língua nativa. Ou seja, teriam problemas em qualquer país do mundo para se comunicar. A estrutura montada no CETE não é ideal para uma olimpíada mas atende sem maiores problemas o evento que não tem a magnitude dos jogos olímpicos. Como disse o presidente da Fifa, J. Blater, o Brasil tem que fazer a melhor copa que o Brasil pode fazer e não a melhor copa que o mundo poderia fazer.

    E para mostrar que não é só tem desgraça que tem em POA, hoje presenciei um acontecimento legal. Um americano chegou e falava em inglês com o segurança na entrada do CETE. O segurança não entendeu nada, obviamente, mas apareceu um frequentador do local que falava inglês e traduziu para o segurança que ele tinha perdido o passaporte. O segurança imediatamente fala que o passaporte havia sido encontrado e estava no setor de informações. Ao que o atleta deu grito “Thx God!”

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  6. Moro no centro e em frente a meu prédio tem um hotel de 25 andares o DAN INN (antigo Conceição). Esta cheia de turistas e eles andam pelo centro sempre com crachás do evento e roupa de atletismo. Hoje pela manhã fui como sempre andar com minha poodle para seu xixi matinal e encontrei dois italianos que não falavam português (óbvio), nem espanhol nem Inglês. Logo depois encontrei 4 alemãs em frente a catedral Metropolitana e um deles me mostrou no celular sua poodle, mas cara, não entendi uma palavra em alemão, perguntei em Inglês, mas ele também não entendeu… Logo depois tinha um senhor falando uma língua que eu chuto que pode ser Polonês ou Russo, sei la.,… muito estranho, perguntei em Inglês e ele também não entendeu…

    Assim fica complicado o diálogo, mas vi que eles todos tinham mapas e câmeras fotográficas… Algumas lojas estão abrindo agora a tarde pelo movimento de estrangeiros. Mas o centro esta sujo, feio, e cheio de mendigos pelos cantos… Porto Alegre ano que vem, vai pagar mico, porque duvido que tenha uma grande melhoria em pouco tempo… Afinal os hoteis do centro são os mais em conta perto do Beira Rio.

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  7. Ué, cade o pessoal que diz que temos a super usina do gasometro com o mais belo por do sol do mundo?

    Não precisamos de coisas novas, prédios altos e modernidade, o que temos ta ótimo.
    hahaha

    Obvio que não temos o que apresentar, no maximo o Ibere, mas acho que cairia mais para um publico focado na area de arquitetura e arte, não no modo geral, não é nada que alguem bata uma foto na frente, e as pessoas ao verem no facebook, vão saber que se trata de Brasil e Porto Alegre.

    Ao menos agora sei o por que de tantos carros argentinos na cidade, e toda a movimentação na Sogipa.

    Infelizmente, mais uma grande oportunidade de mostrar a cidade para o mundo jogada fora.

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  8. Desde 63 não tínhamos um evento deste porte na capital. Pelo fato de sediarmos a Copa, tanto a prefeitura quanto o governo estão se estruturando para teremos uma política para receber bem este tipo de evento. Pode ter todos os tipos de defeitos, mas temos que ver o lado positivo, muita gente consumindo na cidade e gerando emprego e renda, hotéis lotados e muita gente esbanjando saúde. Temos que nos acostumar a olhar o lado bom das coisas, acredito que por ser um evento teste pra Copa, e o último deste porte ter sido somente em 63, estamos evoluindo, parabéns Porto Alegre, continue crescendo. Tive lá no cete também e as arquibancadas não são de madeira, temos que aprender a olhar as coisas boas e divulgar fatos positivos, chega de Porto Alegre ser a terra do não!

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    • A estrutura da arquibancada é de metal, mas oa degraus são sim de madeira. Mas o ridículo era o tamanho e não o material. Em poucos dias montam coisa melhor pro 7 de setembro. Mas é isso. POA não evolui pq as pessoas teimam em ver “lado positivo” na mediocridade.

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  9. O garçom falou uma grande verdade.

    Para a Copa vale a mesma coisa. Muito turista há de preferir outra capital para visitar do que a Capital da Resisência.

    Não só as capitais com praia: até as sem praia têm atrações mais qualificadas que a Capital do Não.

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  10. Sogipa e puc escolheram dentre suas possibilidades no que poderiam oferecer. Na puc não pode arremessar pq estraga o gramado e pode danificar a impermeabilização, é essa a justificativa. Sogipa tem suas atividades e compromissos próprios com seus associados e està correto. A competição é pública e o governo deveria prover. Mas o problema principal é a falta de água gelada, banheiros suficientes e oferta de frutas aos atletas, bem comum em todas as competições desse nível mundo a fora. Mas nada disso felizmente anotara o brilho desse evento mundial.

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    • Sim, o gramado da PUC não pode ser usado para arremessos, mas na SOGIPA poderia. E boa parte das provas de pista do CETE poderiam ser realizadas na PUC, com melhor estrutura para o público e também para os atletas. Já sobre calendário, o evento deve estar agendado há muito tempo, imagino eu, já que a sede de 2016 já está definida. Não custava a prefeitura e estado se coordenarem para os calendários do clube e do evento não conflitarem.

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  11. Interessante o relato. Realmente o número de estrangeiros foi uma surpresa. Uma volta no Centro dá pra ver vários. Uma pena a cidade não estar preparada em nenhum sentido (mal-cuidada e população que nem sabia do evento).

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