Frota de veículos mais que dobra em 10 anos

De moto a ônibus, já são mais de 80 milhões; população aumentou apenas 11% no período

O Brasil ganha mais carros e motos do que gente créditos: Hans von Manteuffel / O Globo

O Brasil ganha mais carros e motos do que gente
créditos: Hans von Manteuffel / O Globo

O despachante Júlio César Rodrigues mora em Teresina (PI) e há quatro anos comprou uma moto com a qual vai para todos os cantos da cidade. Mesmo sem se dar conta, ele ajudou o Brasil a bater um novo recorde: o país chegou a uma frota de mais de 80 milhões de veículos.

Carros ainda são maioria, mas as motos, como a comprada por Júlio César, estão entre as maiores responsáveis pelo alcance dessa marca. Junto com os veículos, crescem o tempo gasto no trânsito, a poluição e o número de acidentes, do qual o despachante também já foi vítima.

O Brasil se tornou um país que ganha mais carros e motos do que gente. De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), entre setembro de 2003 e o mesmo período deste ano, houve um aumento de 123% na frota do país. Para se ter uma ideia, nesse mesmo espaço de tempo, a população cresceu 11%.

Nesses anos usados para a comparação, o Brasil ganhou uma média de 12 mil por dia. Em resumo, é como se todos os moradores de uma única cidade, como Cardoso Moreira, no Norte Fluminense, adquirissem pelo menos um carro ou uma moto diariamente.

— Quem ganha um salário mínimo pode comprar uma motocicleta a prestações. As facilidades hoje são grandes, tanto no grande número de prestações como no consórcio — explica Júlio César, fazendo contas de que uma motocicleta nova custa de R$ 5 mil a R$ 7,5 mil e pode ser comprada em consórcios ou em prestações de R$ 200 a R$ 250 mensais.

Todas as regiões do país mais do que dobraram suas frotas, mas a elevação no índice foi catapultada principalmente por Norte e Nordeste.

Nos dois casos, os percentuais de crescimento do número de veículos foram de 235% e 195%, respectivamente. A maior contribuição para que as duas regiões atingissem tamanho percentual veio das motocicletas, o que se refletiu no índice brasileiro.

Mais carros nas mesmas ruas

Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e especialista em transportes, Gilberto Gonçalves explica que o aumento da frota brasileira é fruto de uma política que incentivou o uso do carro, com facilidades de financiamento e redução de tributos, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que deixa de vigorar no fim do ano.

Foi a escolha por um transporte individual em detrimento do coletivo. O número de carros e motos, por exemplo, aumentou 125% nesse período. O de ônibus e micro-ônibus, transportes coletivos, 90%.

— Há um incentivo muito grande à aquisição desse tipo de bem (veículos). Mas é inviável o transporte individual para o meio ambiente e para o sistema viário das cidades. Nesse período, o sistema viário não cresceu — explicou o professor.

Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram que o investimento federal em infraestrutura de transporte, em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), caiu desde a década de 1970, mas voltou a uma tendência de crescimento a partir da década de 2000.

Em 2003, 0,07% do PIB era gasto em investimento federal com infraestrutura de transporte, contra 0,29% no ano passado. Em 1976, esse percentual era de 1,84%.

Embora o automóvel ainda seja o veículo mais presente na frota brasileira, as motocicletas e motonetas (como scooters e lambretas) têm papel de destaque: registraram uma elevação de 256% no período analisado.

Somente no Maranhão, o número desse tipo de veículo apresentou um aumento de 543% entre setembro de 2003 e o mesmo mês deste ano.

Tamanho aumento de frota tem reflexo no número de mortes em consequência de acidentes de trânsito, conforme O GLOBO constatou, com base em dados do DataSus, sistema de informação do Ministério da Saúde.

Em 2011, ano do dado mais recente, 43.256 pessoas perderam a vida em colisões — um aumento de 31 % em relação a 2003. Isso faz do Brasil um dos cinco países onde mais ocorrem acidentes com mortes no trânsito.

Os maiores crescimentos estão nas regiões Norte e Nordeste, justamente as duas onde mais houve aumento da frota.

O número de internações por conta das colisões no trânsito também foi às alturas.

Entre janeiro e agosto deste ano, 112.264 pessoas foram parar no hospital por conta de acidentes de trânsito, o que significa um crescimento de 55% em relação ao mesmo período de 2003. Novamente, a tendência se seguiu, e os maiores índices ficaram com Norte e Nordeste.

Mas nenhum índice é tão alto quanto os que envolvem os acidentes com motos — incluindo motociclistas e pedestres atropelados por esse tipo de veículo: foram 167% mais mortes e 235% mais internações nesses mesmos períodos.

Reflexo de um país onde, em alguns estados, há mais motos do que motoristas com carteira de habilitação para andar nelas.

Formação ineficiente de motoristas

Para Dirceu Rodrigues Alves Júnior, diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), o aumento de mortes e de pessoas internadas em consequência dos acidentes de trânsito se deve a uma junção de fatores.

São mais motoristas mal formados percorrendo as vias das cidades e não há punição na mesma medida que as irregularidades acontecem.

Segundo ele, a formação dos motoristas, da forma como é hoje, é ineficiente e se baseia somente no que vai cair na prova do Detran.

Os condutores não saem preparados para dirigir nas adversidades, como na neblina, por exemplo, além de normalmente não aprenderem direção defensiva.

— Existe uma negligência por parte do governo. Há falta de fiscalização e de punição severa. O motorista não respeita o sinal, para na faixa de pedestre, não usa o cinto, desobedecendo ao que é proposto pelo Código de Trânsito. Tudo isso é somado à má condução, porque os cursos são ineficientes, ensinam o sujeito a andar a 30, 40 km por hora, a subir uma ladeira e não deixar o carro recuar, a fazer baliza. O sujeito faz a prova fazendo essas ações. Fazendo tudo direitinho, o governo autoriza a dar uma arma na mão do sujeito que desconhece todas as adversidades no trânsito. Ele não aprendeu nada, só a fazer o carro a andar — afirmou Dirceu.

Os que mais morrem e mais ficam com sequelas por conta das colisões são pessoas de 18 a 34 anos. Dirceu explica que essa ineficácia do país em relação à violência no trânsito custa caro ao governo, que perde na produtividade e na Previdência Social, com jovens se aposentando por invalidez.

Quem entrou para essa dura estatística foi o filho da funcionária pública Guilhermina Mendes e Vales, de 56 anos. Jean Mendes e Vales morreu há seis anos, aos 24 anos, vítima de acidente de motocicleta. Estava sem capacete e sofreu traumatismo cranioencefálico.

— Ele saiu para deixar um amigo e sofreu um acidente. Até hoje, sofro com a mesma intensidade do dia de sua morte — recorda Guilhermina. — Você sabe como são os jovens de hoje. Eles afirmam que vão bem ali, que é rapidinho e não é preciso colocar capacete, não — completou.

Fonte: O Globo

Portal Mobilize Brasil



Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

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12 respostas

  1. A frota dobrou no período (10 anos). Enquanto isso, qual foi a última obra viária nessa cidade nesse tempo todo, obra relevante, como as que estão em andamento agora? A resposta é nenhuma.

    Por isso dou risada da tchurma que reclama dos investimentos na cidade. Estamos com 10 anos de atraso em obras na cidade e com uma frota quase 50% maior.

    Tem que investir sim em transporte público, mas tem que investir nos outros setores também.

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  2. Enquanto isso, o Tarso dando uma de Antonio Britto (lobista da industria farmacêutica, calçadista e das teles) tentando trazer mais uma “montadora” de veículos para o RS.
    Esse é o “planejamento” de todos os governos brasileiros. Isso é que é pensar para as gerações seguintes. Isso é que é investir no transporte coletivo.
    Por que o Tarso não foi a China para atrair uma fábrica de trens e uma empresa que se disponha a implantar ferrovias no RS ?

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    • O que tem o c* com as calças?

      Investimento é sempre bom.

      Se ao menos fosse uma fabrica de alguma marca que realmente fosse vender.

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  3. Bla bla bla…
    Temos mais mortes por que nossos carros são feitos de LIXO, estrutura fraca sem equipamentos de segurança.

    Agora que vai ser obrigatório o uso do air bag e abs, vai reduzir um pouco, mas nada de mais, ja que no Brasil é permitido o uso de carros que se desmancham.
    E não falo no sentido de se desmanchar para amortecer a colisão, falo de amortecer a colisão e a area onde os ocupantes ficam se manter intacta, como é muito exigido na europa e EUA.

    As pessoas não vão deixar de comprar carros, e dificultar a compra não vai adiantar, ate por que existem carros usados.
    Alias, ja temos os carros mais caros do mundo.

    O governo brasileiro poderia ao menos tentar enganar que cobra tantos impostos para incentivar o uso de transporte publico, mas nem isso se presta.

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  4. OFF :

    http://jornalggn.com.br/noticia/os-pontos-de-onibus-hi-tech-na-avenida-paulista

    ter, 03/12/2013 – 10:44

    Do Estadão

    Ponto de ônibus hi-tech é instalado na Paulista

    Paradas terão telas sensíveis ao toque, estrutura única e mais publicidade

    Caio do Valle

    A exemplo do que vem ocorrendo em outras vias da cidade, os abrigos de ônibus da Avenida Paulista começaram a ser trocados. O passageiro encontrará estruturas mais modernas, hi-tech, com iluminação noturna e até telas sensíveis ao toque, mas terá de conviver com diversos painéis publicitários. As duas primeiras paradas reformadas – uma na frente do Parque Trianon, outra diante do Hospital Santa Catarina – serão entregues antes do Natal, segundo a São Paulo Obras (SPObras).
    Até o fim de fevereiro, todos os 14 pontos da avenida serão renovados, conforme a empresa da Prefeitura responsável por gerenciar o contrato com a concessionária Otima, que monta e mantém os abrigos, podendo explorá-los comercialmente. O modelo adotado na Paulista, porém, é diferente da maioria dos pontos da capital.

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  5. Concordo que educação no trânsito devia começar nas escolas, e não só focado no automóvel, mas em todos modais e focar na educação e respeito aos outros.

    Mas em relação ao aumento da frota, só há uma saída para nossas cidades não pararem e não registrarem recordes de poluição: transporte de massa de qualidade.

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  6. Não fosse a última parte, eu iria dizer que o texto é tendencioso e leva em consideração o aumento dos acidentes apenas por causa do aumento da frota. Aliás, a matéria considera o aumento da frota de maneira tendenciosa, fazendo parecer que tem mais carros nas ruas do que crianças nascendo, levando em consideração apenas a porcentagem, enquanto na verdade são 3 milhões de novos carros nas ruas e 21 milhões de novas pessoas no Brasil (quase 7 vezes mais)

    Mas é fato, eu iria falar mesmo que a matéria não tivesse posto. As pessoas não se acidentam simplesmente por haverem mais carros, assim como não aumentou o índice de pessoas que tropeçam nas ruas, por exemplo, simplesmente por haver 21 milhões a mais de pessoas, e assim como não aumentariam o número de acidentes com bicicleta se tivéssemos mais 5 milhões de bikes nas ruas.

    Os principais fatores para as mortes e acidentes é o despreparo dos motoristas nas autoescolas, onde aprendem simplesmente o básico. Aliás, se duvidar, aprendem muito menos do que o básico. Tudo isso que aprendem em dois meses na auto escola, em minha humilde opinião, deveria ser ensinado em 3 anos no ensino médio, e quando o aluno se forma, faz o teste prático para se habilitar a dirigir. Seria mais útil que o “seminário integrado” desta porcaria de ensino politécnico.

    Outra, os brasileiros se acidentam em boa parte por falta de manutenção dos veículos. Infelizmente durante a ditadura e o período em que as importações de veículos foram proibidas, o brasileiro pôs na cabeça que “carro bom é carro que não precisa de manutenção”, quando na verdade, todo componente mecânico precisa de manutenção.

    E por último, e a maior causa de mortes, nossos carros são inseguros. Não é raro, aliás, é o de praxe, nossos carros tem menos aribags que os equivalentes europeus, japoneses e americanos, não tem controle de estabilidade, somente agora começou-se a obrigar freios ABS, fora que para baratear o carro (só na produção, pois nós temos altíssimos impostos e mais altas margens de lucros das fabricantes em cima) resolvem aliviar a estrutura do veículo, as vezes com meno pontos de solda, trocando alguns painéis por outros mais fáceis de prensar e soldar e por ai vai.

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  7. O problema não é o aumento da frota, é não ter opção razoável no transporte coletivo. Se o cara quer ter uma coleção de carros em casa, não há problema nenhum! O problema é não ter opção de locomoção além do carro.

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    • O problema é que o aumento da frota de veículos não retrata pessoas colecionando carros em casa, mas pessoas usando eles como meio de transporte básico diário.

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