Ônibus terão verificação facial para controlar passagens na Região Metropolitana

As empresas de transporte coletivo da Região Metropolitana de Porto Alegre desembolsaram R$ 60 milhões em uma nova tecnologia de reconhecimento facial nos ônibus e mandam um alerta aos seus mais de 500 mil usuários de 32 municípios: quem fraudar os benefícios ficará sem descontos.

Para ler a notícia completa, acesse-a no site da Zero Hora.

Atentem para o custo do sistema. Mesmo que supuséssemos uma recuperação de investimento de 5 anos, isto só faria sentido se o benefício do sistema (i.e. fraudes detectadas + usuários que param de fraudar) fosse de R$ 1 milhão por mês em média. Com 31 dias no mês, estaríamos falando de R$ 32 mil em fraudes por dia. Claro, são dois os tipos de fraude (estudante-emprestando-cartão ou isento-emprestando-cartão), mas assumindo por simplificação que só a  fraude mais “cara” aconteça, fatorando como prejuízo o preço integral da passagem (R$ 2.80), chegamos então ao número de 11,520 fraudes por dia. Pelo menos no escopo de Porto Alegre, com seus 1.2 milhão de viagens por dia, e 15% de passageiros com isenção integral, para chegar a esse número precisaríamos de 6% dos isentos cometendo fraude todos os dias.

O meu ponto é: temos mesmo tanta fraude no sistema?

Por exercício, vamos supor que sim, temos essa proporção toda de fraude no sistema. A pergunta passa a ser então: para quê diabos servem os cobradores?  Pelos dados da planilha do Alex Panato, só em Porto Alegre, os cobradores custam algo como R$ 78 milhões – mais do que a instalação deste sistema na RMPA inteira – por ANO. Claro, todo mundo sabe que o cobrador também é responsável por receber passagens pagas em dinheiro, e é bastante óbvio a partir da experiência de outras cidades (e os nossos próprios lotações) que passar essa tarefa aos motoristas pode ser pior, seja pela segurança ou seja pela praticidade.

O que resta então, se existem fraudes e se os cobradores não as impedem?

Porto Alegre precisa modernizar seu sistema de transporte público, isso vai sem dizer. Uma modernização bastante comum em outras cidades é favorecer as transações com meios eletrônicos (i.e. passagem em dinheiro mais cara), eliminar a figura do cobrador e, em muitos casos, abolir a roleta, adotando a fiscalização por amostragem, com multas pesadas para espertinhos. Talvez seja meio radical abolir a roleta na cultura malandra do Brasil, mas porque não consideramos um sistema híbrido? Bastariam as seguintes medidas:

  • eliminar o cobrador, mas mantém-se a roleta (talvez inclusive botando duas roletas paralelas por veículo, como já sugeri antes)
  • aumentar a passagem paga em dinheiro para um valor redondo, tornando o uso de dinheiro desvantajoso, ao ponto de que poucas pessoas realmente pagariam ao motorista (pense R$ 4,00)
  • facilitar a aquisição de cartões de vale antecipado TRI (aos moldes do que é feito em São Paulo ou no Rio de Janeiro)
  • fiscalização manual inopinada, solicitando os cartões (ou recibo impresso se pago ao motorista) e coibindo abuso nas isenções

A pergunta final é: será que temos pessoas criativas e informadas o suficiente tomando as decisões?

 


Categorias:Bilhetagem Eletrônica

Tags:, , ,

34 respostas

  1. Parem que falar em remover o cobrador sem conhecer o que estão dizendo. É fácil conjecturar sem ter conhecimento, mas não leva a lugar nenhum e desinforma.

    Obviamente, as companhias de ônibus estariam muito felizes em eliminar o cargo de cobrador se isso fosse possivel, para reduzir os custos fixos. Isto é, o cobrador ganha seu salario esteja o ônibus cheio ou vazio, o que é um custo fixo. Custos fixos são o que qualquer gestor mais detesta.

    Se as companhias de ônibus não retiram o cobrador é por que ele é essencial. E ele só pode ser essencial por um motivo óbvio: para garantir o pagamento da passagem (e não para cobrar a passagem). O cobrador é mais um “segurança de ônibus” do que um cobrador efetivamente. E se ele está lá, um em cada ônibus, é por que se ele não estivesse a evasão seria enorme, maior que seu custo. E eu não duvido disto, visto que no Brasil o desrespeito às regras é rampante e mesmo quem não precisa tira proveito.

    Quanto ao custo do sistema, teria que dividir o valor de instalação pelo tempo de depreciação (algo como 15 a 20 anos seria meu chute). Logo, esse sistema custaria, de fato, de 3 a 4 milhões por ano. Agora esse é um valor razoável de se imaginar menor que o valor perdido em fraudes anualmente.

    Quanto ao modelo europeu, de ter um fiscal que passa nos onibus aleatoriamente verificando o pagamento da passagem, acho que é uma ideia aparentemente viável mas que esbarra em três problemas: 1) onibus lotados dificultando o movimento do fiscal e seus seguranças pois cada fiscal deve levar dois a tres seguranças, 2) as pessoas vão andar sem pagar mesmo com risco de serem pegas, e quando forem pegas vão ignorar a multa (a não ser que a PM vá junto e prenda o sujeito no ato) pois não há como penalizar os devedores suficientemente (serasa não basta), 3) os gestores das empresas de onibus não vão se arriscar a implantar um sistema de cobrança inedito no brasil considerando os problemas 1 e 2.

    Portanto, é muito simples:
    – Cobrador ainda existe pois é essencial
    – Valor do sistema se paga quando analisado corretamente

    Curtir

    • Falso. Quanto mais custo, melhor. A tal planilha garante um percentual fixo sobre custos para remunerar a camorra da ATP, 6 % de 100 é diferente de 6% de 150 .

      Curtir

    • Adoro quando alguém começa a frase com “vocês não sabem o que estão dizendo” e não sabe o que está dizendo.

      1- O motorista pode cumprir o papel do cobrador se a roleta for ao lado dele
      2- No sistema de BRT (se sair) o cobrador estará nas estações em vez de em cada veículo, já muda o funcionamento.

      Duvido muito que as empresas vejam eles como essenciais, é muito mais uma questão política e talvez custos. Controle de acesso é feito em empresas sem precisar de uma pessoa sentada na entrada, ônibus não é um ambiente tão especial assim.

      Curtir

      • O motorista pode sim assumir a função de cobrador, tanto que as lotações não tem cobrador.
        Se eliminassem totalmente o uso do dinheiro dentro do ônibus, somente com o cartão e roleta ao lado do motorista, agilizaria em parte a entrada, afinal, não seria necessário dar troco, além de eliminar o cobrador. Mas se faria necessário termos mais bilheterias espalhadas pela cidade ou terminais de auto atendimento, onde o usuário poderia comprar uma passagem única, semanal, mensal ou carregar seu cartão. Funciona com refrigerante, lanche, café e até com trufa da Cacau Show, porque não funcionaria com as passagens?

        Curtir

      • Vocês já viram quanto tempo o D43 fica na parada recolhendo passageiros? Imagina se o motorista tiver que cobrar a passagem.
        Na estação Pronto Socorro o D43 leva no mínimo 10 minutos para recolher os passageiros, vejo isso todos os dias e o comboio de ônibus se forma à partir disso se estendendo no corredor da Oswaldo Aranha…

        Curtir

        • Leva todo esse tempo por vários motivos:

          – Pagamento em dinheiro dentro do ônibus
          – Corredor de subida (escadas e corredor até a roleta) estreitíssimo;
          – Ônibus MEGA lotado, onde o motorista precisa ficar esperando todos os espaços possíveis e impossíveis serem preenchidos, afinal, nos ônibus de Poa dois corpos PODEM sim ocupar o mesmo lugar (ignorando todas as leis da física), aliado ao favor que os queridos passageiros não “poderem” esperar 3 minutos até o próximo ônibus, querem de alguma forma entrar em um ônibus que já não cabe ninguém e o motorista não pode deixar ninguém de fora senão toma advertência ainda por cima.

          É muita burrice!

          Curtir

        • Se a passagem fosse paga na parada, ou mesmo apenas com cartão dentro do ônibus, e os veículos tivessem piso baixo, já agilizaria muito esse processo.

          Curtir

    • Eu fui bem claro no meu post: não estou propondo o modelo Europeu. Eu estou propondo algo híbrido, onde a roleta seria mantida, mas não teria um cobrador ao lado dela, junto a outras medidas que incentivem o uso de cartão para pagamento. Desse jeito, a evasão de tarifa iria exigir que a pessoa ou desça pela frente (coisa que o motorista controla, como hoje) ou pule a roleta (a vista de todo mundo). É óbvio que ainda vai ter gente praticando evasão nessas formas, mas já seria bem menos gente do que numa implementação do modelo Europeu, onde é trivial cometer a fraude sem ninguém notar.

      O meu ponto é justamente esse: existe um ponto de equilíbrio entre o que você gasta contendo as fraudes e o prejuízo que essas contenções vão evitar. A partir de um certo ponto, as medidas de contenção tornam-se cada vez mais caras para menor resultado, ao ponto de que é mais racional permitir a fraude.

      Com relação aos problemas que o fiscal provavelmente enfrentaria ao fazer o enforcement: de novo, justamente por isso não estou propondo o modelo Europeu. O enforcement nesse modelo que propus não envolveria cobrar uma multa do passageiro de fato, e sim apenas conferir o cartão/recibo, suspendendo/cancelando o cartão no ato em caso de fraude. Como a ação “complicada” do fiscal estaria restrita aos casos de fraude de isenção (que são poucos, na prática), o problema da resistência à autoridade já estaria mais contido. Ou seja, não teríamos o desafio de o fiscal ter que obrigar um “mano vida loka” a pagar uma multa, porque pra começo de conversa esse “mano vida loka” já teve que passar por uma roleta, e nem teria porque criar caso.

      E claro, na pior da pior das hipóteses, se um passageiro criar caso, basta que o fiscal solicite que o motorista pare o ônibus e aguarde o passageiro descer. A simples pressão de 40 passageiros te olhando de cara feia já ajuda a desarmar qualquer situação.

      Enfim, não é trivial de implementar, exige todo um novo treinamento e novos procedimentos, com certeza poderia ter algum tipo de confusão no começo, mas com certeza é mais barato, pelo simples fato de requerir menos mão-de-obra.


      Enfim, para mim, o motivo para os cobradores serem mantidos hoje ainda é a força de sindicato que existe defendendo eles. E claro, a tradicional resistência portoalegrense à modernidade.

      Curtir

      • Aqui não é Europa Fmobus.
        O cobrador não serve só para cobrar mas também para impor um pouco de respeito dentro do ônibus tanto que em dias de Passe Livre o cobrador permanece no seu lugar porque senão vira bagunça.
        Tu não andas de ônibus não é Fmobus, em dia de Passe Livre livre então….nem pensar…

        Curtir

        • Q chorumela é essa de impor respeito ? Nem para fazer valer os assentos dos idosos se mexem …

          Curtir

        • traduzindo: brasileiro é vira-lata, e precisa de uma figura de autoridade pra se comportar.

          Essa sentença está errada de tantas formas que eu nem sei por onde começar.

          Curtir

    • 1) Sobre discutir sem saber o que está dizendo, me referi a todos aqui, incluindo eu mesmo. Não quer dizer que não vamos discutir o assunto, mas o ponto de vista de uma discussão em que se sabe que não se conhece bem o assunto é diferente. Se alguém aqui tiver algum conhecimento interno das empresas de ônibus de poa pode se manifestar.

      2) Concordo com o Andre. Se a lei permite 6% sobre os custos, então interessaria para as empresas terem o maior custo possivel, desde que não fossem custos facilmente questionaveis, e os cobradores se encaixam bem aqui. É uma possibilidade.

      3) Não acho viável que o motorista cobre ou controle pois ele tem que dirigir o ônibus. Na lotação o motorista cobra, mas isso só funciona em uma escala menor mesmo, com poucos passageiros. Se aplicarem isto num ônibus que pode receber 20 passageiros de uma vez só não vai funcionar.

      4) Acho que não adianta o sistema hibrido mantendo a roleta, nem cancelar o cartão de quem não pagar passagem. É só fazer o exercicio mental de imaginar alguem que nem mesmo tem o cartão sendo pego. No máximo vão conseguir fazer o cara descer, e então ele vai simplesmente esperar e pegar o próximo onibus da mesma linha. Vai ter metade do onibus descendo na parada e esperando o próximo. Reconhecimento facil talvez fosse uma solução pra evitar que o cara entrasse em qualquer outro onibus do sistema até regularizar sua situação.

      5) sim, o sindicato obviamente nao quer isso, e no caso da Carris o sindicato deve fazer parte do conselho da empresa (não duvide). Mas não vi nem mesmo noticias sobre as empresas estudarem essa possibilidade.

      6) Eu não estou defendendo cobrador em ônibus. Mas acho que não é simples retirá-los. Acho que não se pode simplesmente dizer que é um absurdo termos cobradores sem anallizar bem a situação e aspectos especificos do nosso contexto.

      7) Minha visão do transporte coletivo é de que ele só funciona bem (no caso de ônibus) com entrada livre (sem cobrador). Mas não sei qual solução poderiamos ter aqui. Só sei que não é simples. Talvez reconhecimento facial com bloqueio da porta (não da roleta que poderia ser pulada) seja uma solução.

      Curtir

      • Gente, parece que ninguém leu o que eu escrevi no post.

        Ponto 1: eu realmente não sou engenheiro de trânsito, mas isso não me tira a capacidade de analisar o funcionamento de um sistema, nem de ver as vantagens de outros sistemas que conheci em outras cidades;

        Ponto 2: de acordo. Cabe mudar a forma de precificar e concessionar o sistema. Já discuti e propus soluções por aqui antes;

        Ponto 3: eu propus que o valor da passagem, quando paga em dinheiro, seria (significativamente) maior, ao ponto de que pouquíssimos passageiros optariam por pagar em dinheiro, de forma que o motorista teria que receber o pagamento muito esporadicamente. A probabilidade de chegarem 20 passageiros pagando em dinheiro seria consideravelmente menor. CLARO, isto iria requerer um sistema decente e prático de aquisição de cartões, a exemplo do que já existe no RJ e em SP – ou seja, é possível;

        Ponto 4: no sistema que eu propus, este hipotético passageiro-que-não tem-cartão ainda assim terá que passar pela roleta! Ele só vai passar pela roleta depois de pagar pro motorista, e o motorista vai justamente entregar pra ele um recibo (ou algum tipo de token) que poderia tanto servir pra liberar a roleta quando pra comprovar o pagamento no momento da fiscalização. Essa situação que descreveste só se aplicaria pro caso de o passageiro pular a roleta ou perder o recibo – coisas que são situações limítrofes;

        Ponto 5: Carris é um caso perdido. Pelo menos eles conseguiram demitir os cobradores que estavam fraudando o sistema. É um progresso. Quanto as outras companhias, vale o que eu disse no ponto 2.

        Ponto 6: é simples, se abstraírmos as questões políticas.

        Ponto 7: eu concordo que HOJE é inviável um modelo sem catraca, mas quem sabe amanhã? Digo porque, não subscrevo à teoria de que o brasileiro é intrinsecamente ruim, e que nunca poderemos confiar nele em nada. Acho que um dia sim, poderemos ter um sistema sem catracas e sim, haverá alguma percentagem de fraudes nele, mas é assim em qualquer lugar. Isto dito, eu acredito que um sistema com-catraca-sem-cobrador é um passo significativo para se alcançar isso.

        E isso pode (e deve) ser feito com tecnologias simples e conhecidas, que já tenhamos dominado: que é o caso do cartão RFID. Reconhecimento facial (ou mesmo de digitais) é completamente absurdo para essa aplicação, pois além de não ter a confiabilidade e performance necessárias, tornam a aquisição e adoção por parte dos passageiros mais burocrática e menos anônima.

        E quando a ideia de transferir o bloqueio pra porta (em vez da roleta): não consigo ver nenhuma possibilidade prática de implementar isso. Não conheço nenhum sistema que funcione assim. Ou você está se referindo a sistemas onde a “catraca” é uma porta que se abre (e.g. linha 4 SP)? Nesse caso, considero uma ideia interessante, até porque francamente eu acho essas nossas roletas portoalegrenses uma relíquia jurássica.

        Curtir

  2. Essa não é uma das funções do cobrador? Verificar o documento? E por que não colocam fiscais de vez em quando e caso ocorra irregularidade cobra multa?

    Por exemplo , a cada 20 onibus , em média, fiscais fazem um pente fino e se encontrar contraventor cobra uma multa de 20 vezes a passagem. Vai ter o sortudo que viajará 30 vezes até ser pego e pagará só 20 passagens. L, mas terá também o azarado que viajara 10 vezes de graça e quanto for pego terá que pagar 20 passagens. Dessa forma é bem mais barato e o sistema nunca perde.

    Curtir

    • O quee?
      Tirar o emprego de centenas de cobradores para prejudicar as vitimas do sistema que não tem condições de pagar por um transporte publico?

      Que absuuuurdoooo….

      Espero não precisar explicar a irônia.

      Curtir

  3. Com esses 70 milhões eles já implantariam em todos os ônibus um sistema tipo em miami, com a cobrança ao lado do motorista e emissão do cartão na hora. Eliminação do serviço de cobrador.

    Tão simples. Só pode ser:
    a) burrice;
    b) medo de sindicatos dos cobradores.

    Curtir

%d blogueiros gostam disto: