O que houve com a Porto Alegre de todos nós?

Foto: Gilberto Simon

Foto: Gilberto Simon

Pode ser que o meu humor tenha sido abalado pelo calor sufocante e insuportável das últimas semanas, admito, mas tenho a sensação de que nunca vi Porto Alegre atravessar um momento tão complicado como o atual. E olhem que cheguei aqui em novembro de 1968, há mais de 45 anos. Tenho bem mais tempo de vida na cidade do que na Criciúma do meu nascimento. Nestes anos todos, nunca vi um conjunto tal de confusões e decepções.

A cidade está suja, cheia de pichações, com lixeiras para resíduos orgânicos lotadas de lixo limpo, viradas, destruídas. Nem as pessoas se preocupam em preservar seu próprio ambiente. É só prestar atenção na conduta de muitas delas no dia a dia. Como aquela moradora que disse a uma repórter de rádio, semanas atrás, que jogava o lixo ‘num cantinho’ porque não encontrava lixeiras. Em vez de guardar com ela até encontrar um local adequado, usava ‘um cantinho’, como se o lugar não fizesse parte da cidade. E confessava isso como se fosse uma sábia decisão.

Poucas vezes vi tantos moradores de rua em calçadas, debaixo de viadutos e, nos últimos tempos, ocupando barracas – como aquelas de camping – em praças, nas margens do Guaíba ou nos taludes do pobre Arroio Dilúvio. É, este riacho apodrecido que por si só já é um atestado de falência dos administradores (e isso vem de muito tempo), constrangedor para quem vive na cidade e repugnante para quem a visita.

A Porto Alegre de obras públicas que entram em falência diante da primeira exigência fora do padrão (o Conduto Álvaro Chaves, por exemplo), é também a cidade de projetos que andam em um ritmo irritantemente moroso. Uma avenida aqui não pode ser completada porque a Justiça ainda não tomou uma decisão sobre seis árvores de uma praça, outra lá adiante não pode ser melhorada porque uma revenda de carros, que ocupa uma área pública, se recusa a desocupar o terreno. E como a desocupação também depende da Justiça, fica a população prejudicada porque a decisão – que deveria ser automática – é retardada.

O transporte público, que em certa época orgulhou a cidade, agora está um caos. Durante toda a semana, a população que mais precisa dos ônibus sofreu em imensas filas nas paradas porque os rodoviários estão em greve. Pararam e desafiaram a Justiça. Não cumpriram as exigências determinadas por uma juíza e não deram a mínima para a decretação de ilegalidade. Apesar de todo este tumulto, o Tribunal de Contas do Estado marcou para o dia 12 o anúncio da decisão sobre os custos da planilha. Por que não fazem isso daqui a dois dias? Dá para entender? Em meio a tudo isso, pesquisa divulgada pelo jornal Zero Hora prova que as passagens tiveram aumento de 656,76% do ano 2000 para cá, enquanto o salário dos trabalhadores ficou em 323,665% no mesmo período. Empresas que lucraram tanto se negam a dar os 14% (ou negociar por um pouco menos) pedidos pelos rodoviários e insistem nos 7,5%, dando margem à greve que atormenta os moradores mais pobres da cidade. São as mesmas empresas que falam de prejuízos com a tarifa atual. Algumas delas transportam 150 mil passageiros por dia. Faça uma conta simples e veja se é possível acreditar em prejuízo.

Por último, para complicar ainda mais, a mesma população desassistida pelo transporte público e impotente diante da briga entre um lado e outro, agora corre o risco de ficar também sem um de seus momentos de alegria e desafogo, o Carnaval. Pode? Por falta de cumprimento de normas de segurança, o Ministério Público determinou que os barracões do Porto Seco, onde os carnavalescos criam sua arte, fossem lacrados. No ano passado, a licença foi dada uma hora antes do desfile. Neste ano, pode nem haver desfile por absoluta incompetência e indiferença do poder público.

É o complemento de um desastre anunciado, desde que o município encontrou um jeito de expulsar – isso mesmo, expulsar – os carnavalescos para o Porto Seco, tirando os desfiles da área central. Foram iludidos com a promessa de que lá seria construído um Sambódromo, que concentraria atividades culturais e todos os desfiles, inclusive dos de setembro, o da Independência e o da Revolução Farroupilha. Cedo descobriu-se que era um discurso vazio, para iludir. Os outros desfiles continuaram na Perimetral e na Avenida Beira-Rio. Só o Carnaval e seus apaixonados participantes, quase todos de comunidades periféricas e pobres, foram afastados da melhor área – para alivio dos ouvidos sensíveis que não suportavam o som bem brasileiro do samba.

Estou com saudade da Porto Alegre de antes – ou este sentimento é efeito dos 40°C ?

Blog do Mario Marcos



Categorias:Outros assuntos

21 respostas

  1. Diante do texto apresentado, tem-se a certeza que esta cidade, parece ser comandada por uma máfia, em que eles agradam uns em detrimento dos demais, com isso, pensam na continuidade no mandado no Paço Municipal.

    Se listarmos o que deixa a desejar e o que não foi feito nesta cidade, teremos a certeza que estamos muito longe do ideal, faltará espaço neste Blog.

    Se listarmos as irregularidades praticadas por Agentes Públicos no exercício da função junto à Pref. Mun. POA, certamente teremos os motivos porque esta cidade está jogada as traças.

    Enfim, só nos resta o próximo pleito para tirarmos essa Máfia que comanda a cidade de Porto Alegre.

    E Agora José, o que fazer, o que dizer ao povo de Porto Alegre?

    Curtir

  2. Como sempre digo, o plano pra recuperar o centro e simples e nao tem como ser de outra forma,
    1 tirar o transito de onibus do centro
    2 recuperar o calçadao da rua da praia
    3 recuperar p cais e orla
    4 recuperar monumentos e predios históricos
    5 recuperar calcamentos das ruas
    6 linha de metro ou aeromovel ate o centro
    eliminar aeromovel, ultima estacao na rodoviária que passaria a ser rodoviária para onibus urbanos. .. a rodoviária intermunicipal seria removida para o antigo
    salgado filho ou outro local
    7 incentivo a abertura de cafes e restaurantrs com mesas nas ruas.
    8 retirada em definitivo de camelos, inclusive aqueles disfarcados de artesãos indígenas
    9 eliminação dos esqueletos e prédios inacabados
    10 SEGURANCA NAS RUAS. ..!

    Curtir

    • O antigo salgado filho ???? É o atual terminal 2 ativo do nosso aeroporto….

      Curtir

      • Sendo leigo, me parece que a Rodoviária tem ir para a Zona Norte, pela facilidade de acessos, proximidade do aeroporto e futuro metrô (se sair, oxalá!). Na região central não dá mais.

        Por outro lado, é preciso um estudo minucioso do local. Em Novo Hamburgo quiseram desafogar o bairro Rio Branco (que é o verdadeiro Centro da cidade do Vale do Sinos) e fizeram uma grande tolice. Boa parte das empresas urbanas não usam o já nem tão novo terminal, continuam a congestionar o Rio Branco e criou-se quase que um elefante branco na Zona Sul daquela cidade.

        Outras cidades, como Vacaria colocaram a Rodoviária numa vila pobre, fora do Centro, há muitos anos atrás e choveu críticas. Hj, o bairro ao redor da rodoviária de Vacaria tem uma estrutura urbana muito melhor e a cidade começou a crescer de fato naquela direção. Lá deu para dizer que deu mais ou menos certo (mas a rodoviária da cidade serrana já está ficando podre tb e a prostituição cresce a passos galopantes por ali)…

        Terminal de ônibus no Brasil é quase sempre algo problemático.

        Curtir

    • Só uma correcao no item 6 coloquei eliminar aeromovel, na verdade quis dizer eliminar trensurb e substituir por aeromovel. Alias pra meu gosto o trensurb deveria ser eliminado bem antes e conectado a linha de aeromovel ou metro possibilitando o alargamento da entrada da cidade na Maua e Castelo Branco

      Curtir

  3. A prefeitura está autuando os proprietários de calçadas a arrumá-las aqui no Moinhos por que este é um bairro turístico, a copa está aí, etc. Meu condomínio foi autuado. Pensei, pensei e não consegui descobrir o porquê. Até que ali estava: um buraco de um orelhão que a Oi retirou e o buraco ficou. Fizemos reclamações no 156 e nada. Um vizinho tinha um resto de cimento em casa e ele mesmo tapou. Não ficou perfeito, mas não causaria mais o risco de acidentes. A prefeitura vem e diz que somos porcos. Ok. Caminhando neste final de semana pelo bairro e pelo Bom Fim me chamou a atenção o estado lamentável das calçadas do DMAE, me chamou a atenção da sinaleira entre a Praça Júlio de Castilhos e a Ramiro, com um poste no meio da faixa de segurança (que deve ser atravessada a jato,, se não vc morre atropelado). Me chamou a atenção o estado precário do asfalto da rua Tobias da Silva, entre Demétrio e Quintino, com várias partes onde o asfalto começa a desaparecer e a mostrar o chão de saibro. Se aqui no bairro “turístico’ está assim, como estará na periferia?

    Tem o Centro que o Marcelo já mostrou – e, acredite, existem partes ainda mais degradadas do chamado, com certo esnobismo de “Centro Histórico”: a Julio, o entorno do camelódromo, etc, etc, etc

    Curtir

  4. Quando se chega à capital gaúcha tem-se um choque e toda expectativa de aportar na metrópole mais austral do país vira baita decepção. Nasci aí e toda vez que retorno é a mesma coisa. Bom acho que são inúmeros os motivos para o quadro tão sinistro desta cidade, mas por ter vivido em Curitiba e Maringá, me parece que o nó da questão está no URBANISMO. Já observei algumas obras recentes daí e não posso crer como os acabamentos são tão ruins, até mesmo quando se trata de simples meio-fios. Pavimentos, bancos, paradas, sei lá, tudo é inacreditavelmente desleixado e mesmo quando novo é material barato e de tremendo mau gosto. Bato na tecla de não conseguir entender o quê as universidades locais fazem e como formam (deformam) os profissionais que trabalham com urbanismo nesta cidade. Simplesmente patético. E isto acaba por gerar ônus para a cidade, mantendo um cenário de feiura que desestimula visitantes e cidadãos (uma urbe que está pronta para desagradar), além da falta de funcionalidade, tudo soma-se para que uma cidade com um potencial tremendo se apresente como um lugar qualquer e bem chinelão. Na Argentina há uma cidade incrivelmente parecida com POA que é Rosário com n pontos em comum dos quais destaca-se uma área de porto colada ao centro histórico. Todavia é o oposto quanto ao urbanismo, conta com prédios maravilhosos tanto históricos como torres moderníssimas, jardins e parques com monumentos fantásticos, arborização exuberante de alta qualidade paisagística e calçadas com pavimentos modernos, bonitos, e adequados, que tornam o cenário belo e agradável aos transeuntes. Enfim, um exemplo do que POA pode(ria) ser. Como já disse, penso que há vários fatores envolvidos mas enquanto o URBANISMO não for bem compreendido (para mim aí está tudo distorcido por ideoloidiotas) e posto em prática em alto padrão de ordenamento e qualidade de equipamentos e estruturas públicas, não haverá chance para a capital gaúcha.

    Curtir

  5. É o que tenho dito faz muito tempo, Porto Alegre está um caos e não é de hoje. A cidade só é bela em cartões postais mas no dia a dia é suja, mal cuidada, trânsito infernal, transporte público de 3º mundo, falta planejamento e manutenção na cidade, violência. Porto Alegre é um excelente cenário para uma linda cidade, mas falta muito para que isso ocorra. Podem clicar no negativo, mas pra mim basta de bairrismo cego, enquanto os gaúchos seguirem nesse orgulho cego nada vai mudar..

    Curtir

  6. Forno ex-Alegre degenerou na capital dos extremos: frio e chuva demais, ou um calor infernal impedindo a decolagem de vôos comerciais*
    • Um voo da Copa Airlines que partiria de Porto Alegre (RS) com destino ao Panamá às 12h15 da segunda-feira 3/2/2013 foi cancelado no Aeroporto Internacional Salgado Filho; o calor excessivo na capital gaúcha impedia a decolagem!
    http://on.fb.me/M1h85S
    https://www.facebook.com/photo.php?fbid=406535606149988&set=a.302201169916766.1073741828.289128387890711&type=1&theater

    O trânsito lento e caótico, táxis insuficientes, transporte público inoperante, insegurança, impostos excessivos. burrocracia e corrupção elevando todos os preços; a má-gestão levou a insuficiência da rede de energia e são constantes os “apagões” provocando a falta de água…

    Curtir

  7. Manifestantes assassinos!!!

    Curtir

  8. Podem me negativar, mas Porto Alegre era MUITO melhor administrada na década de 90. O problema é que, por birra ideológica, muitos insistem em não admitir isso.

    Curtir

    • O próprio PT mudou para pior. O PT de hoje já não consegue nem achar dentro dos seus quadros um candidato decente à prefeitura. A experiência federal também não ajudou. Agora, todo mundo sonha com um carguinho em Brasília.

      Curtir

    • Concordo contigo. Me desagrada pessoas que apoiam ou condenam ações por simples birra ideológica.

      O problema, é que a experiência que temos é que os primeiros mandatos do PT são muito bons, mas com o tempo ficam péssimos, mas como as pessoas se lembram da melhoria que ocorreu continuam votando mesmo quando já está intragável.

      Há partidos que, casualmente ou não, já no primeiro mandato é um lixo, como o PDT, após o Brizola. Lembram do Alceu Colares? Já no primeiro ano conseguiu ser tão ruim quanto o Fortunatti.

      Curtir

      • Como dizia o Eça de Queirós:

        “Os governantes e as fraldas devem ser trocados com frequência. E pela mesma razão.”

        Curtir

      • Enquanto cargo político for emprego (e um baita emprego), as coisas não vão mudar. Eu trabalharia como vereador de graça, afinal a agenda é tranquila e as decisões realmente importantes não precisam de muita enrolação. Tirando a politicagem que envolve o Legislativo, daria para fazer muita coisa em pouco tempo. Eu não precisaria discordar das boas ideias, pois, afinal, não estaria ali para ganhar dinheiro, estaria ali para resolver, para ganhar dividendos intangíveis. Para mim seria o bastante, já que tenho um emprego que me sustenta.

        O meu gabinete não precisaria ter nenhum CC. Se eu tivesse alguma dúvida quanto ao teor de um projeto de lei, chamaria um servidor da área jurídica da casa e pediria um parecer sobre a constitucionalidade da minha ideia ou de outro legislador.

        Um legislativo municipal deveria ser como uma reunião de condomínio. Ninguém é remunerado por isso, exceto do síndico eventualmente, mas mesmo assim as coisas são resolvidas.

        Curtir

  9. Perfeita a materia publicada. O sentimento de abandono, de falta de respeito das autoridades, do cidadão, das pessoas que vivem aqui é assustador. Eu penso que não existe meios de reparar tantos erros, tantas falcatruas, tantas injustiças de forma amigavel. As vezes eu penso que seria preciso começar do zero, acabar com tudo, deixar a natureza se recompor. Não acredito que este país tenha solução pela conversa, pela negociação, ninguem quer isto. O barco já afundou, e estamos a deriva agarrados em destroços pensando que são botes salva vidas.

    Curtir

  10. Eu estou muito desanimado e frustrado com Porto Alegre. Mas não é só com a cidade, é com o país no geral.
    Só que aqui a coisa virou um inferno (até o calor veio para aumentar a sensação de estarmos no inferno).
    Greves abusivas, insegurança, vandalismo (minha vizinha teve o carro todo riscado), roubos (parente teve casa arrombada), apagão elétrico, lojas fechando mais cedo…

    Porto Alegre está parecendo Gothan City quando é atacada por aqueles vilões.

    Curtir

%d blogueiros gostam disto: