Ar condicionado – um debate necessário, por José Fortunati

fortunatiGanhou grande repercussão a proposta de realizarmos uma licitação do transporte coletivo não incluindo como item obrigatório o ar condicionado como forma de reduzir o custo final e, consequentemente, o valor da tarifa dos ônibus em Porto Alegre.

As grandes mobilizações realizadas no ano passado em todo o Brasil, no que diz respeito ao transporte coletivo, colocaram na pauta de forma enfática o preço das tarifas e de forma ampla a qualidade do serviço oferecido.

Depois de um grande esforço envolvendo as diversas esferas, resultando em isenções tarifárias nos âmbitos federal e municipal, o preço das passagens de ônibus foi reduzido em praticamente todo o país, inclusive em Porto Alegre. Ao chegarmos em 2014, o tema volta à cena. A Prefeitura do Rio de Janeiro majorou as passagens de ônibus para R$ 3,00, São Paulo decidiu ampliar o subsídio ao sistema para R$ 1,6 bilhão – sendo obrigada, com isso, a cortar investimentos em outras áreas –, e a maior parte das cidades da grande SP também aumentaram a tarifa para R$ 3 ou um pouco mais.

Aqui em Porto Alegre, depois de um intenso e complexo debate técnico sobre a planilha da tarifa entre a Prefeitura e o Tribunal de Contas do Estado (TCE), finalmente tivemos uma decisão definitiva tomada por unanimidade pelo Pleno do Tribunal, definindo explicitamente a forma de cálculo dos itens da planilha prevista pela lei 8.023 de 1997.

Ao mesmo tempo, temos uma decisão tomada por um Desembargador do TJ obrigando a Prefeitura a realizar a licitação do transporte coletivo em ônibus em 30 dias. Sem entrar no mérito da decisão, o que foi amplamente discutido com o MP e o Poder Judiciário, decidi que a medida judicial deveria ser cumprida mesmo sem contar com todos os componentes técnicos para viabilizar a melhor licitação possível (impacto do metrô e dos BRTs, como exemplo).

Então, solicitei à equipe comandada pelo secretário Vanderlei Cappellari, que prepara o processo de licitação há quase dois anos, as providências para viabilizar a licitação com o sistema atual em operação no transporte coletivo, a fim de cumprir o prazo definido pela Justiça.

Surge então a discussão sobre os itens que deveriam constar para garantir a segurança e a qualidade do transporte coletivo, ao mesmo tempo buscando uma tarifa menor para o usuário. Um debate necessário para que a equação final “Qualidade e Preço” seja a mais adequada para a população de Porto Alegre.

Infelizmente, muitos simplesmente comparam os sistemas das cidades com base nos preços das passagens e não na qualidade do serviço prestado. Continuo entendendo que este binômio (qualidade e preço) é fundamental, mas ele tem que ser conferido de forma muito precisa porque cada acessório exigido representa naturalmente um acréscimo de custo no ônibus que vai rodar.

Um exemplo é a exigência (que passou a ser obrigatória para todos os novos ônibus a partir de 2011) da colocação dos elevadores para cadeirantes. Uma conquista importante no atendimento à sociedade, que passou a ter impacto no custo da carroceria e será mantida na licitação. Ainda, outros itens fundamentais foram mantidos e acrescidos para o conforto e segurança dos profissionais rodoviários e usuários do transporte coletivo de Porto Alegre.

Quanto ao ar condicionado, ao consultarmos a cidade de Curitiba, considerada modelo nacional de sistema de transporte coletivo, fomos alertados de que a cidade optou em não colocar o sistema de refrigeração em seus ônibus para não encarecer a passagem de ônibus. Curitiba tem uma temperatura muito próxima a de Porto Alegre tanto no inverno como no verão. Atualmente, NENHUM ônibus que transita na capital paranaense possui ar condicionado, nem sequer os BRTs (“Ligeirinhos”). Conforme estudos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), a utilização de ar condicionado nos ônibus acarretaria um aumento de consumo de combustível em 25% na frota. Por isso, a decisão da não utilização de ar condicionado.

No Rio de Janeiro, ocorreu uma inovação, pois até bem pouco os ônibus tinham tarifas diferenciadas para os “sem” e os “com” ar condicionado (apelidados de frescão). Estes últimos tinham uma tarifa próxima aos R$ 6,00. O prefeito Eduardo Paes resolveu “copiar” o sistema de Porto Alegre e estabeleceu uma tarifa única de R$ 3,00 para todo o sistema na cidade.

Achei importante propor este debate com a população através do Conselho do Orçamento Participativo, pois é um tema de interesse especialmente dos cidadãos que se deslocam das vilas populares e têm o menor orçamento familiar. Essa avaliação também será enfatizada na Audiência Pública sobre a licitação do transporte coletivo.

É importante que as pessoas participem do debate com argumentos objetivos sobre o impacto na vida da sociedade para que possamos encontrar a melhor solução possível para a licitação e a melhor equação no binômio “Qualidade e Preço” da passagem.

Como exemplo concreto para o debate, um dos itens que tornam a Carris mais dispendiosa do que as demais empresas de ônibus é o fato de que 56% da sua frota conta com ar condicionado, enquanto o restante do sistema tem 23% dos veículos com esse recurso. O custo do sistema de ar condicionado num ônibus comum é superior a R$ 100 mil, mais o aumento do consumo de combustível do veículo. Num articulado, o valor ultrapassa os R$ 150 mil. A escolha repercute da mesma forma nos orçamentos quando os cidadãos adquirem seus automóveis com acessórios opcionais.

Em síntese, o esforço que a prefeitura vem fazendo nas medidas voltadas ao transporte coletivo tem o objetivo de qualificar o serviço prestado aos mais de 1 milhão de cidadãos que se deslocam diariamente na cidade. O ar condicionado é sim um item de conforto para os trajetos, mas tem custos que inevitavelmente impactarão na tarifa ao final da licitação. Da mesma forma, a retirada do recurso pode levar a uma diminuição da passagem no processo. Esse é um debate sério que os usuários do transporte coletivo devem fazer. Sem demagogia ou proselitismo. Buscando a melhor solução para a cidade.

Blog do Fortunati

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COMENTÁRIO QUE DESTACO, REALIZADO PELO Prof. Marcelo Vicentini:

Sei não, Sr. prefeito. Se eu fosse o Sr. eu me certificaria melhor das informações e dos fatos que estão lhe passando. Pois acho que estão lhe vendendo gato por lebre. O custo de aquisição de um ônibus com ar-condicionado não me parece ser tanto assim, mesmo em ônibus articulado, que não é a maioria utilizada no nosso sistema, aliás. Igualmente, o gasto de 25% a mais quando da utilização do sistema não me parece ser dado com base científica. Quem tem carro com ar, sabe que não é tanto consumo assim, tampouco percentual relevante do valor do acessório sobre o preço total do veículo. Além disso, em boa parte do ano, o sistema nem consumirá tanto, ainda que a tarifa continue a mesma. Assim, a tarifa com sobra no outono e na primavera deve compensar a menor sobra no verão e inverno. O que não podemos mais é deixar o povo ser tratado como gado, já que a tendência é o clima ser cada vez mais perverso em Porto Alegre, no verão. Por fim, quem conhece Curitiba sabe que o calor de lá não tem a mesma sensação térmica escaldante daqui. O Sr. tem que se posicionar naquilo que é melhor para o povo e não para as concessionárias, já que se habilitará à licitação quem quiser, seja qual for o edital adotado, com ou sem ar…



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50 respostas

  1. Quantidades de CC na prefeitura: um debate necessário.

    Que tal, sr prefeito?

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  2. Já to na dúvida se é burrice ou sem-vergonhice?

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  3. Estava vendo um desses programas sobre carros que passam nas manhãs de domingo na TV. Numa reportagem sobre ar-condicionados em automóveis, o especialista entrevistado afirmou que o consumo de combustível aumenta de 10% a 20% com o ar ligado.
    Como é que num onibus o aumento de consumo pode ser tão grande? Tudo bem, o ar tem que ser maior e mais potente, mas um onibus também tem um consumo muito maior para o seu funcionamento.
    Isso que, não vamos esquecer, o Fortunati deu uma bela aliviada na declaração do Cappellari que disse que o consumo aumenta em 50%. http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=517331
    Afinal, Prefeitura de Porto Alegre, o aumento do consumo é de 25%, 50% ou vocês estão acreditando em qualquer bobagem que a ATP diz sem consultar nenhuma especialista?

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  4. Prezado Sr. Prefeito,

    Sou gaúcho e residi quatro anos da última década em Curitiba. O Sr. está muito mal informado sobre o clima daquela cidade. Em função de sua altitude (cerca de 900m), a cidade possui um inverno rigoroso, tal como aqui, mas o verão não se pode comparar. O calor de Porto Alegre é absudamente superior ao de Curitiba. O ar condicionado em Curitiba não é muito visto, inclusive em residências.

    O que não consigo entender na tarifa de ônibus da capital, é que, morando na zona sul da cidade, me desloco sozinho ao centro de carro diariamente, e gasto quase o mesmo valor em combustível do que pagaria vindo de ônibus, sendo que o ônibus pode transportar uma infinidade de pessoas. Esta conta não está fechando.

    Desejo sucesso nesta empreitada de administrar uma cidade como Porto Alegre, pois dependemos do Sr. para melhorar a nossa qualidade de vida, pelo menos até 2016.

    Abraços

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    • Nós achamos milhares de coisas para reclamar, milhares de evidências que não fecham com a prefeitura e governo do estado…

      Mas todos sabemos o verdadeiro problema a priori: servidores desqualificados e corruptos (des)coordenando a cidade, deixando todo mundo na merd*.

      SIMPLES.

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  5. Se São Paulo está aplicando 1,6 bilhão no subsídio ao transporte coletivo, pra mim, está fazendo errado, deveria investir esse valor a mais na construção/modernização de trens e metrôs.

    Por que, ao contrário do que lutam alguns grupos radicais, mais do que transporte público barato ou gratuito, a maior parte da população quer um sistema de transporte seguro, eficiente e qualificado.

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  6. Porto Alegre não preza pela qualidade de vida? Onde esta qualidade em cozinhar a mais de 40ºC dentro de um onibus superlotado? Pois ainda tem isso linhas com mais de 100 pessoas dentro que se sacrificam espremendo-se para não se atrasarem mais do que ja estão em vista que as linhas estão sempre atrasadas.

    E atrasadas pq as pessoas preferem andar de carro com Ar condicionado e conforto do que ficarem torrando espremidas em onibus. Elas sim tem qualidade de vida.

    Até os frangos de abate tem um tratamento melhor…

    O Sr. Prefeito não anda de onibus ja que ele é um privilegiado pois mora a 4 quadras do seu emprego deve caminhar dez minutos nas sombras das marquises do centro até entrr em seu gabinete climatizado…

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  7. A má fé já está implementada antes mesmo da Licitação, aliás, este papo serve somente para criar uma discussão com que propósito, fugir da implementação das determinações do Poder Judiciário e do Tribunal de Contas do Estado.

    Convenhamos José???????

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  8. Nego reclama exclusivamente do Fortunatti, tenho uma má notícia: seria igual com qualquer um.
    A coisa só fica pior com ele porque o mesmo só abre a boca pra falar merda. Uma bela oportunidade de trocar o nome dele pelo do “rei do futebol” na épica frase do Romário.
    Além disso, teve o azar das manifestações acontecerem no mandato dele.

    Aguardo ansiosamente pelo aumento da passagem… Que o caos tome conta novamente.

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  9. O debate necessário não é sobre o ar condicionado, e sim sobre o sistema inteiro, mal otimizado, que quanto mais mal otimizado for, mais as empresas do ônibus ganham.

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    • Sim, quanto mais Kilômetros rodados melhor… Lançam mais custos ‘a planilha viciada e depois calcula-se os percentuais de retorno do concessionário – por enquanto, capitania hereditária – em cima de uma base de cálculo bem maior .

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  10. Se num carro com uma pessoa a diferença chega aos 20%, um bus lotado deve chegar aos 30% no consumo, ainda mais que muitas linhas passam por locais com grandes subidas.O ar do bus é maior que no carro, e o povo desgraçado abre as janelas, só ai piora a situação.
    Comnum ar maior, o sistema deve usar mais gás e tirar uma potencia maior do motor.
    acho que teria esse gasto sim.
    Por que não dão opções?
    liberem o tri para as lotações, escolares, vt entre outros.
    ou onibus commar nos horarios de pico quando as coisas são piores.

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    • sim liberem um ”evolucionário” uso dos cartões de crédito e débito para fazer valer um pouco mais o trabalho dos cobradores,e aos usuários o não aprisionamento de ter que ir a rua uruguai,que seja um método mais eficiente do que se encontra hoje na capital.

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