Pare, um pedestre quer atravessar a rua!

Mobilize reproduz artigo do blog Rua de Gente que fala da dificuldade de ser um pedestre em Salvador (e no Brasil)

Pessoa com dificuldade de atravessar a av. Vale de Nazaré créditos: Google Street View

Pessoa com dificuldade de atravessar a av. Vale de Nazaré
créditos: Google Street View

“É descabido parar o fluxo de veículos de uma avenida para uma só pessoa atravessar!”. Um amigo me disse isso há algumas semanas e a frase não me saiu da cabeça. Dirigindo para casa, em uma rua com grande fluxo de veículos, observei uma pessoa sozinha tentando atravessar. Não parei. E me lembrei da frase de meu amigo. Poucos metros depois, vi mais uma pessoa sozinha tentando atravessar a avenida. Também não parei. Em seguida, outra pessoa. Novamente, não parei. Mas pensei: “Se tivesse parado para a primeira pessoa atravessar a rua, as três teriam atravessado…”

Nossas avenidas são barreiras quase intransponíveis, não fosse o auxílio de equipamentos como sinaleiras ou passarelas. Mas tais equipamentos não atendem nem um terço das necessidades da população. Primeiro, a maioria das sinaleiras da cidade de Salvador existem apenas para regular o trânsito: fecham as vias para o cruzamento de carros e não dispõem de temporizador para pedestre. Um exemplo disso é a sinaleira da Garibaldi, próxima à entrada de Ondina. Para o fluxo de quem está na via, ela abre para os carros que estão no retorno, mas não dá tempo para os pedestres atravessarem a avenida no longo trecho após a sinaleira. Ou seja, trata-se de uma sinaleira para carros, não para pedestres.

Figura 2: Mapa da Av. Garibaldi e Av. Adhemar de Barros. Composição própria.

Figura 2: Mapa da Av. Garibaldi e Av. Adhemar de Barros. Composição própria.

As passarelas da cidade, além de poucas, exigem um aumento muito grande no esforço físico para atravessar uma pequena distância entre dois lados de uma avenida. Além de aumentar muito o deslocamento da pessoa, exige uma subida em rampa acentuada, fora de qualquer norma para acessibilidade.

Em muitos pontos da cidade, há uma demanda por travessia não atendida por nenhum equipamento. E estes pontos são extremamente perigosos para atravessar. Os pedestres muitas vezes correm sérios riscos, pois só conseguem atravessar correndo entre os carros. Imaginem se os pedestres são gestantes, idosos, obesos, crianças, deficientes físicos ou mesmo jovens carregando algum objeto maior ou mais pesado!

Toda essa falta de equipamentos necessários reduz ou impossibilita muitas pessoas de fazerem o deslocamento a pé. E ainda as obriga a utilizar como alternativa o carro, a moto ou o táxi, aumentando a quantidade de veículos nas ruas e assim piorando o trânsito.

Um exemplo prático: um jovem que mora no Condomínio dos Securitários, na Av. Pinto de Aguiar, e estuda no Colégio Salesiano D. Bosco, se tivesse facilidade de travessia, poderia ir andando para a escola. São apenas 1.250m de distância no plano (ver trilha verde no mapa acima). Entretanto, o estudante acaba usando outro meio de transporte, pois a travessia para o pedestre naquele lugar é muito complicada sem sinaleiras ou passarelas. A passarela mais próxima da casa de nosso estudante fictício aumentaria o percurso dele em 800 metros, com subidas e descidas (trilha vermelha).

Como sofrem as pessoas que moram próximas às avenidas sem equipamentos para facilitar suas travessias diárias! Outro ponto que chama a atenção é a avenida Bonocô, nas proximidades da entrada do Ogunjá. Os moradores do Condomínio Pedras do Vale e da Rua Rodolfo Pimentel, para chegar ou sair de casa, precisam fazer a travessia da avenida. Sempre que circulo por lá, vejo alguém tentando atravessar naquele ponto.

O trânsito faz parte de um sistema que tem que ser fluido e eficiente, mas só representa 20% do sistema. Quando se investe só nele, estamos comprometendo o funcionamento dos outros 80% do sistema, que perdem em eficiência. Vale lembrar que a pesquisa de Mobilidade Urbana da Região Metropolitana de Salvador 2013 mostra que de todos os deslocamentos realizados na cidade, menos de 20% são feitos de carro e os demais são a pé ou de transporte público. Por isso, a excessiva fluidez do trânsito compromete muito a mobilidade dos demais meios, principalmente do pedestre e do ciclista. E todo usuário de transporte público é também pedestre nos deslocamentos até o ponto de ônibus.

Quanto mais se investe na fluidez do tráfego, mais se gera congestionamento. E quanto mais se investe em outros modos, aumentando as possibilidades para os meios não motorizados e priorizando o pedestre, o transporte público, a redução da velocidade máxima dos carros e as facilidades para as travessias dos pedestres, mais pessoas poderão deixar seus carros em casa e optar por um meio de transporte mais saudável, econômico e ecológico. Essa é uma tendência em todos os grandes centros do mundo, a exemplo de Nova Iorque, Barcelona e Amsterdã.

Para ver mais detalhes e mais fotos, clique aqui.

Portal Mobilize Brasil



Categorias:Pedestres

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20 respostas

  1. É descabido mesmo parar o fluxo de determinadas vias expressas para um pedestre atravessar. É por isso que existem as passarelas e túneis de pedestres, obras de engenharia muito complexas para este c* de mundo chamado Brazil.

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  2. Pablo, se caminharmos 30 metros para a direita do teu exemplo, existe uma sinaleira na Ramiro onde tem uma travessia para pedestres…
    Transito por este local, a pé, (frente do HPS entroncamento das Avs. Osvaldo Aranha, Venâncio Aires e logo adiante Protásio) todos os dias e sabendo que pedestre não tem vez procuro atravessar pelo local mais propício para mim.
    Quanto ao caos que se instala este é provocado pelos motoristas (b.u.rros) que trancam as ruas não observando que quem tranca os outros acaba trancado.( sempre tem que ter um Azul para que sigam a lei)
    Quanto a passar por meio de carros e ônibus isto acontecia diante do portão do HPS que agora esta fechado por motivo das obras, e cuja a faixa quadriculada não era respeitada pelos motoristas fechando com isso a entrada do HPS e impedindo as ambulâncias de entrarem…
    Nosso trânsito é um horror, mas se cada um fizesse sua parte respeitasse aquilo que todos sabem que deve ser respeitado talvez as coisas fossem bem melhores….

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  3. Não li o post, mas quero mencionar apenas uma coisa: se a “presidente castelo branco” da foto é a de poa, ela é uma rodovia expressa e não admite cruzamento de pedestres.

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    • Primeiro: a rodovia da foto fica na Bahia.
      Segundo: às pessoas que negativaram: estou errado? Podem continuar negativando sem dar explicações, mas eu tenho a minha:

      CTB, Art. 68. § 2º Nas áreas urbanas, quando não houver passeios ou quando não for possível a utilização destes, a circulação de pedestres na pista de rolamento será feita com prioridade sobre os veículos, pelos bordos da pista, em fila única, EXCETO EM LOCAIS PROIBIDOS PELA SINALIZAÇÃO E NAS SITUAÇÕES EM QUE A SEGURANÇA FICAR COMPROMETIDA.

      A segurança dos pedestres é comprometida em uma via expressa sem bordos ou faixas de travessia.
      A Castelo Branco é uma via expressa, é dever das autoridades proporcionar cruzamentos seguros ao pedestre em meio ao trânsito em alta velocidade.

      http://www.detran.pr.gov.br/arquivos/File/habilitacao/manualdehabilitacao/manualdehabparte4.pdf
      “- Vias de trânsito rápido: Caracterizadas por acessos especiais com trânsito livre, sem interseções em nível, sem acessibilidade direta aos lotes lindeiros e SEM TRAVESSIA DE PEDESTRES EM NÍVEL. Quando não sinalizada, a velocidade permitida é de 80 km/h. “

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  4. Tal como a cidade de Porto Alegre, esta voltada simplesmente para os veículos. Tente atravessar a Av. Borges Esquina com Av. Ipiranga junto Shopping Praia de Belas, a qual se encontra uma parada de ônibus no meio da quadra.

    Mas reclamar para o erário público municipal – EPTC não adianta, eles não tem o pedestre como prioridade. Fico a imaginar que a EPTC queira vetar o recente projeto aprovada pela Câmara Municipal de Porto Alegre que dispõe de 30 segundos para as sinaleiras..

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  5. Além das ruas e sinaleiras serem projetadas apenas para os automóveis, elas ainda são muito mal projetadas. Na Assis Brasil, todas as sinaleiras estão fora de sincronia. Esses dias tirei uma foto. Do carro conseguia enxergar quatro sinaleiras em sequência. A primeira estava vermelha, a segunda estava verde, a terceira vermelha e a última verde. Elas deveriam ter sincronia não apenas entre elas, mas também com as sinaleiras de pedestres quando alguém aperta o botão solicitando a travessia.

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  6. Infelizmente nossas cidades são projetadas para fluxo de veículos e não para as pessoas desfrutarem de seu bairro, e a polícia/eptc realmente não ajuda.

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  7. Um contra-exemplo: em Massachusetts-EUA, e lei estadual os carros pararem para os pedestres atravessarem. Quem nao cumpre a lei pode tomar multa de ate 100 dolares. O que ajuda a fazer a lei funcionar e a policia. Quem nao para na faixa, a policia vai atras. Na primeira vez e um aviso, na segunda e multa.
    Isso funciona ate em Boston, que e uma cidade maior que Porto Alegre.

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  8. Esse é um exemplo de Porto Alegre

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    • Onde é esse cruzamento mesmo?

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      • Isso é no HPS. O pedestre é obrigado a serpentear por calçadas estreitas, até entre os carros e os ônibus em um trecho, passando por milhares de tempos de sinaleira para uma simples travessia da Protásio/Osvaldo. Aqui em Liverpool, todas as sinaleiras, sem excessão, tem um tempo q

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      • Isso é no HPS. O pedestre é obrigado a serpentear por calçadas estreitas, até entre os carros e os ônibus em um trecho, passando por milhares de tempos de sinaleira para uma simples travessia da Protásio/Osvaldo. Aqui em Liverpool, todas as sinaleiras, sem excessão, tem um tempo que é só para pedestres em cada ciclo, em que a travessia em qualquer direção é permitida. Uma solução simples, que não atrapalha muito a fluidez dos carros mas gera um ganho enorme para o pedestre.

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        • Esse cruzamento da Venâncio com a Osvaldo Aranha é um verdadeiro caos. Tanto para pedestres quanto para veículos. E nada da prefeitura tentar arrumar uma solução. No mínimo uma passagem de nível deveria existir ali. Em horário de pico chega a ser cômico a anarquia que aquilo se transforma.

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        • É um horror pedalar ali também, já fiz isso.

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        • Em Auckland, Nova Zelândia, também é assim. Diversos cruzamentos tem tempos exclusivos para pedestres os quais atravessam em qualquer direção, é muito bom.

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    • Outro belo exemplo de Porto Alegre. Tente atravessar a Ipiranga (estando em frente ao Mac na esquina com Silva Só) em linha reta e intuitiva para o pedestre.

      https://www.google.com.br/maps/@-30.0434706,-51.2046566,126m/data=!3m1!1e3

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    • E se ele for pelo caminho 3, não é mais fácil?

      http://www.casimages.com.br/i/140308022317837196.jpg.html

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