Parem os carros! Paris proibiu a circulação de metade de sua frota de automóveis para controlar os níveis de poluição atmosférica

Para combater a excessiva poluição do ar, a prefeitura de Paris impôs, a partir da última segunda-feira (17/03), um rodízio de carros, permitindo que apenas metade da frota circule a cada dia. A medida, inédita desde 1997, foi decidida no sábado, uma semana antes das eleições municipais na capital francesa, e foi alvo de críticas dos partidos conservadores e das associações de motoristas. Mesmo assim, em nome da saúde pública, foi posta em prática.

O exemplo parisiense é (ou deveria ser) inspirador para os prefeitos e governadores brasileiros, que tremem de medo ante a ideia de qualquer restrição à circulação de carros nas cidades do Brasil.

O que viu em Paris foi um dia de reclamações e – ato contínuo – a adaptação ao novo cenário com transportes “alternativos”: o metrô, caronas, as bicicletas públicas Velib e os carros elétricos Autolib, estes com aumento de 60% na demanda durante os dias de alta poluição.

Outra ação do governo francês, rápida e merecedora de aplauso, foi decretar três dias de transporte público gratuito, assim que se constatou o aumento dos níveis de poluição na cidade.

A experiência é uma boa receita para Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras que sofrem com a contaminação atmosférica, especialmente nos meses de junho e julho.

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Veja a matéria:

Cidade-luz nas trevas

Uma Torre Eiffel cinzenta como pulmões de quem fumou a vida inteira deveria fazer as pessoas repensarem se vale a pena ter um carro

Torre Eiffel em duas fotos: março/2012 (esq.) e em 12/3/2014 créditos: AFP

Torre Eiffel em duas fotos: março/2012 (esq.) e em 12/3/2014
créditos: AFP

A imagem da Torre Eiffel quase invisível graças a um intenso nevoeiro roda o mundo. Ela é cinzenta, como radiografias de pulmões de pessoas que fumaram a vida inteira. Londres e Roma também ultrapassam os níveis de poluição de Pequim, uma das capitais mais poluídas do planeta.

No domingo, o jogo de futebol de meu filho foi cancelado. Uma colega de minha filha teve um ataque de asma em plena sala de aula. De sexta a domingo o transporte público foi gratuito, mas não mais a partir desta segunda-feira 17.

As autoridades encorajaram o povo a usar as Vélib, as bicicletas com pontos espalhados por toda a cidade. De graça. Mas com um adendo: “Pedalem devagar”. Mais: caminhar é, depois da bicicleta, a melhor maneira para evitar problemas de saúde. Ah, e evitem fazer esporte. Melhor ainda: fiquem em casa.

Por que tanta poluição em uma cidade com um excelente transporte público, carros elétricos e bicicletas disponíveis ao público? Isso sem falar de um prefeito que estreitou as ruas para reduzir o uso do automóvel, ampliou calçadas, criou ciclovias. E fez mais: fechou as principais avenidas para automóveis e motocicletas nos fins de semana para que as pessoas possam caminhar, correr, pedalar, patinar.

A mescla de dias quentes com noites frias impediu a dispersão de partículas emitidas pelos escapamentos, emissões industriais e sistemas de aquecimento. Para se ter uma ideia do estrago, na sexta tivemos níveis poluição de 180 microgramas de PM10 por metro cúbico, ou seja mais do que o dobro do tolerável limite de 80.

Há 17 anos Paris atravessou o mesmo problema. Mas, é evidente, não aprendeu nada. E segundo o artigo 1 da Carta do Meio-Ambiente, “cada indivíduo tem o direito de viver em um ambiente equilibrado e que respeite sua saúde”. Em um blog do site do vespertino Le Monde, Sébastien Vray, da Associação Respire, disse: “Não defendemos os direitos das vítimas, mas daquelas que as matam”.

O maior culpado, é claro, é o automóvel, especialmente aquele movido a diesel. É uma praga comparável ao cigarro. E o governo subsidia essa indústria, visto que ela cria empregos, gera exportações. Anúncios de automóveis não escasseiam na tevê. Neles vemos famílias felizes, homens e mulheres sorridentes. O automóvel encarna a liberdade, e, por vezes, o status social.

Como diz Vray, da Respire: “Nosso país aumenta seu PIB com a poluição, não com a prevenção”.

Por exemplo, a menos de uma semana de eleições municipais, o líder direitista da oposição Jean-François Copé acha que o rodízio “não tem coerência, e na verdade se baseia apenas em pânico”. A oposição socialista-verde diz o contrário.

Já a Associação de Automobilistas defende seus interesses: a atitude das autoridades criou um caos generalizado. E os que pagam mais caro são “as famílias que vivem nos subúrbios”.

As autoridades pelo menos têm reagido. Agora automóveis e motocicletas terão de respeitar um rodízio. Caminhões terão de ficar estacionados.Táxis, carros elétricos, híbridos, ou com pelo menos três passageiros poderão circular.

Centenas de policiais estarão atentos em Paris e nos subúrbios. Contraventores pagarão 22 euros.Vários estão dispostos a desafiar a lei. Em Roma, menos mal, foram mais rigorosos: a multa será de 155 euros.

Autor: Gianni Carta / Fonte:Carta Capital

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Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

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19 respostas

  1. Paris só pode pensar em fazer isso porque está cheia de metrôs. Nenhuma cidade do Brasil pode pensar em deixar de lado os automóveis. Se o governo federal tivesse investido em metrôs e bondes maciçamente desde a década de 70, hoje a situação estaria muito melhor. Mas o que se fez foi o contrário.

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    • Desincentivar o uso de automóaveis sem que as cidades tenham uma rede de metrôs e outros sistemas de transporte coletivos qualificados não significa resolver o problema de circulação urbana, muito pelo contrário,

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  2. Eu já li teorias que o plano diretor deveria insentivar a não existência de vagas de automóveis em edificações que atraem público, o contrário do que e hoje. Quanto mais difícil fosse estacionar, mais tentadas as pessoas c sentiriam a procurar outros meios de locomoção

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  3. Penso que dificilmente se poderá obrigar a pararem com a circulação de veículos uma vez que para muitos trata-se de um meio de trabalho. O que nossa cidade poderia começar a planejar é dificultar ou até mesmo proibir o estacionamento de veículos em determinadas ruas da cidade, tais como ruas e avenidas que servem de escoamento do transito. Por si só a falta de veiculos estacionados já fluiria melhor o transito. Na verdade a grande maioria desses veículos estacionados ao longo das ruas e avenidas, são de pessoas que utilizam o carro para irem e voltarem do trabalho. Sei que vão falar que enquanto não tivermos um transporte público eficiente e de qualidade as pessoas não vão deixar de andar em seus carros. Mas já seria um começo. Hoje vejo avenidas como Farrapos, Cristovão Colombo, Alberto Bins, Otavio Rocha, centro em geral, João Pessoa, enfim, todas as grandes avenidas da cidade com estacionamento e ainda ruas com sentido duplo de transito, com estacionamento nos dois lados, prejudicando muito o transito. Penso que já é um começo, mas para tal o municípi deve abrir mão da arrecadação dos parquimetros, deixando-os apenas para algumas localidades onde estacionar seja indispensável.

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    • Deveriam fazer igual ao que vi no Chile, estacionamentos subterraneos.
      Não lembro os preços dos estacionamentos, acho que dava uns 10 dolares por noite, não tenho certeza.

      Proibe de estacionar nas ruas, faça estacionamentos e cobra bem por isso.

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    • Desculpem, mas o debate é sobre a poluição ambiental causada pelo enorme número de automóveis nas ruas e não problemas de trânsito.

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  4. Noticia sensacionalista……

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  5. Este consumo desenfreado de automóveis, economia baseada em fabricação de carros e extração de petròleo é uma questão preocupante. Até quando vão entulhar as ruas com estas máquinas? Se Paris está assim, com uma das melhores malhas de metrô entre as metrópolis, o que deixará para nossas caóticas grandes cidades?
    Estamos corroendo nosso planeta tal qual um cupim a um pedaço de madeira!

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  6. Imagina o inferno que não deve estar a cidade?
    haha

    Ao menos eles tem uma estrutura pra isso, mas será que vai dar conta pra tanta gente nova pegando transporte publico?

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  7. Para ver como estamos atrasados… o pior é que quando chegarmos a esta situação simplesmente não teremos um terço da infra que Paris tem. Agora imaginem vocês que com um ar destes todo mundo na cidade é fumante passivo, quase ativo. Passivo talvez até nós já sejamos.

    A Índia também tem um programa de racionalização http://www.mobilize.org.br/noticias/6076/governo-da-india-cria-programa-para-reducao-no-consumo-de-carros.html

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  8. Caso alguém esteja se perguntando porque a frota já não é 100% de veículos elétricos, procurem o documentário Quem Matou o Carro Elétrico. Imperdível.
    (Who Killed The Eletric Car?)

    Motor a combustão é coisa do século XIX.

    A tecnologia já existe há muito tempo, mas a Governos e indústria automobilística e do petróleo querem lucrar até o petróleo acabar.

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  9. A notícia não foi dada por inteiro, o rodízio só será feito em dois dias, somente, como medida de urgência. Não existe coerência em proibir um veículo de circular unica e exclusivamente pelo fim da placa. Paris até poderia realmente adotar essa medida, por independente de onde estiver, ter pelo menos uma estação de metrô num raio de 500 metros, abundantes aluguéis de bicicletas e carros elétricos (que ficaram de fora do rodízio). Mas sinceramente espero que uma cidade como Paris tome decisões mais inteligentes, como reduzir impostos para carros menos poluentes (consequentemente, híbridos e elétricos pagariam menos ou nada) e estimular a renovação da frota (entram carros novos em circulação, e os antigos são reciclados.

    Notem que em Paris não há BRT’s, somente VLTs, preferidos justamente por não poluírem (localmente).

    E também é interessante notar o desconhecimento de quem escreveu a matéria a respeito dos carros diesel. Primeiro, o diesel europeu é livre de enxofre, e não raro, lá os carros diesel fazem de 20 à 30 km/l, reduzindo não só combustível, mas como emissões de CO e CO2.

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  10. Estive lá no início deste mês e realmente a sensação nublado ad infinitum é péssima! Sem falar no nariz, sempre desconfortável.

    Agora, um trecho preocupante do texto, que poderia muito bem ser traduzido para o Brasil (e que nos deixa receosos para um futuro): “… o governo subsidia essa indústria (automóvel), visto que ela cria empregos, gera exportações. Anúncios de automóveis não escasseiam na tevê. Neles vemos famílias felizes, homens e mulheres sorridentes. O automóvel encarna a liberdade, e, por vezes, o status social.”

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