Por mais amor às cidades, por Jorge Brand

Curitiba. Foto: Gilberto Simon

Curitiba. Foto: Gilberto Simon

Curioso que Curitiba, sempre referência em termos de planejamento urbano e desenvolvimento, não foi capaz, até o presente momento, de incorporar adequadamente, com visão de futuro e ousadia, a bicicleta como opção de mobilidade. Igualmente curioso é observar como as recentes iniciativas, implantadas e anunciadas pela prefeitura, já provocam reações adversas de gente que não quer largar dos preconceitos e nem do volante.

Quando falamos da necessidade de implantar espaços seguros para a bicicleta e colocar o pedestre como referência no planejamento, fazemos uma declaração de amor à cidade. A bicicleta é um vetor de ocupação do espaço que trará as pessoas às ruas, facilitará às novas gerações a descoberta da história da cidade, da geografia, dos rios e da vida urbana como um todo.

Deixar o carro para as verdadeiras necessidades é crucial. Precisamos entender isso e garantir as prioridades já estabelecidas pela lei da mobilidade urbana: prioridade do não motorizado sobre o motorizado; do coletivo sobre o individual.

Em Curitiba, a rede inicial de ciclovias, idealizada nos anos 1970 pelo então prefeito Jaime Lerner, foi um primeiro passo que, infelizmente, não teve continuidade. Agora, com a implantação do sistema trinário na Sete de Setembro, cria-se duas vias lentas junto da canaleta, para o acesso ao comércio e edifícios, e duas vias rápidas nas quadras seguintes, para prover o escoamento do trânsito nos sentidos bairro-Centro e vice-versa. O motorista, com pressa, que siga pela Visconde de Guarapuava ou pela Silva Jardim. Na via lenta, a calma é a tônica.

Inserir as bicicletas nas vias lentas é o caminho natural para criar uma rede de acesso à cidade, integrando aos poucos a bicicleta com o próprio transporte coletivo, com bicicletários nos terminais, com as futuras bicicletas compartilhadas e com as redes cicloviárias dos bairros. Não queremos apenas a Sete de Setembro como Via Calma, mas também a República Argentina, a João Gualberto, a Padre Anchieta e as demais estruturais. Precisamos urgentemente tornar a bicicleta uma opção segura para a população. Criar essas estruturas irá induzir o uso de um modal que favorece a autonomia, a saúde e a ocupação cidadã do espaço público; melhora o trânsito e o ar que respiramos; dessa forma, deve ser entendido como política transversal de mobilidade, saúde, segurança e meio ambiente.

Os urbanistas que defendem essas iniciativas vão desde a nova geração de pesquisadores que está pensando a cidade até aqueles que colocaram Curitiba no mítico panteão das cidades inovadoras. Jaime Lerner, Carlos Ceneviva e Manoel Coelho, para citar apenas alguns, são dessa outra geração, que não pedala, mas entende a importância da bicicleta para a vida das cidades. Todos defendem as vias lentas como espaços que devem ser compartilhados.

O mais importante disso tudo talvez seja a discussão que se coloca sobre a mortandade no trânsito. Ano passado, no Paraná, foram 2.618 mortos e mais de 55 mil feridos. Precisamos reafirmar a discussão sobre morte zero no trânsito e, para que isso não seja apenas uma utopia, precisamos de políticas públicas que acalmem o trânsito nas cidades. A Via Calma é exemplo de ação que fortalece essa discussão. Isso não é apenas sobre bicicletas, é sobre uma nova forma de nos relacionarmos com a cidade e com nossos corpos.

* Jorge Brand é mestre em Filosofia pela UFPR e coordenador-geral da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu (CicloIguaçu).

ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Bicicleta, ciclovias

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8 respostas

  1. Gilber Simon
    Fiz busca com o nome Jorge Brand e encontrei algo que achei muito interessante que ele e sua associação estão fazendo em Curitiba.
    http://redeglobo.globo.com/rpctv/a-curitiba-que-eu-amo/platb/noticias/praca-de-bolso-do-ciclista-um-presente-para-curitiba/

    Os próprios cidadãos construindo uma praça. Bem interessante e acho que muito relacionado a conservação das cidades. Uma população que se envolve cuida muito mais. Adorei a ideia e acho que nosso amor pela nossa cidade deveria ser também manifestado com atitudes dessa.

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  2. Falando em amor à cidade, nós criamos uma estrada na orla.

    Aliás, hoje aproveitei que o trânsito estava fechado no novo viaduto e pedalei até o novo viaduto da Pinheiro Borda para ver como a coisa está para o pedestre.

    Minha impressão foi totalmente confirmada, é simplesmente impossível atravessar a pé vindo da Taquari ou da Pinheiro Borda até a orla. Quer dizer, talvez dê caminhando no barro por uns 2km. Mais para a frente faço um post detalhado.

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    • Mais um “legado” dos gênios proprietários da cidade .

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    • Concordo. Passei a pé por ali hoje saindo do jogo em direção ao Barra e realmente… se o trânsito não estivesse interrompido, não havia alternativa senão o barro. Parece que fizeram licitação até determinado pedaço, e até ali fizeram corredor de ônibus (que acaba do nada) e a calçada/ciclovia (não deu pra definir o que era… era asfalto com uma faixa vermelha pintada no meio). Ambos acabam exatamente no mesmo ponto. Ao passar em frente ao Iberê Camargo, não há calçamento, e depois disso, pior nem tem pra onde ir após chegar à esquina da Chuí com a Diário. Ali não há onde caminhar… somente canteiros com grama. Parabéns mais uma vez aos envolvidos.

      PS.: E mais uma vez, me deu aquela tristeza que sempre bate ao passar em frente ao terreno baldio do que hoje já poderia ser o Pontal do Estaleiro. Imagino que talvez se o projeto existisse até poderia haver calçamento por ali. Mas isso é sonho…

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  3. Acredito que só foi possível implantar o urbanismo de Curitiba, porque um visionário a governou durante um período de ditadura (foi a sorte desta cidade, porque esta combinação é muito rara). Nao acredito que seja um processo gerado pela população. Acredito que seja uma cidade, ao contrário, muito conservadora.

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  4. Achei fantástica a ideia das Vias Lentas em Curitiba, e pelo o que já vi vai conectar todos os bairros ao centro usando as vias de transporte coletivo já existente. Até aí tudo maravilha.

    Mas estou curiosa pra saber como está sendo e vai ser na prática com os motoristas perdendo espaço e velocidade. Será que os motoristas vão deixar esses projetos irem pra frente?

    Estou mesmo curiosa como isso está acontecendo

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  5. Resumindo: nenhuma intervenção na cidade deve ser feita sem pensar em como o pedestre (no mínimo, mas se possível incluindo o ciclista) vai passar por ali com segurança e um mínimo de conforto. E o coletivo antes do individual.

    Perfeito!

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