13 princípios para converter uma orla em um espaço público transitável e culturalmente ativo

Sugerida por um leitor do Blog, publico esta matéria que saiu no ano passado no ARCH DAILY.

Tenho certeza que vai gerar um grande debate principalmente em cima de pontos polêmicos como o item 9 (construir prédios baixos).

Boa discussão!

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Nossos amigos do Project for Public Spaces (PPS) elaboraram um guia com 13 conselhos que podem ser levados em consideração pelos municípios na melhoria dos espaços urbanos das cidades costeiras, a fim de torná-los lugares mais atrativos e que protejam a identidade da cidades e seus habitantes.

Na seqüência os 13 conselhos da PPS:

© Gord McKenna; Via Flickr

© Gord McKenna; Via Flickr

1. Estabelecer metas públicas como objetivo primordial

Ao se construir ou remodelar uma orla, os municípios devem trabalhar sobre um princípio básico: satisfazer as necessidades públicas rapidamente ao invés de satisfazer as conveniências financeiras do setor privado. Segundo a PPS, isto se acontecerá quando os municípios determinarem que suas orlas são um bem público, nos quais os cidadãos cumprem um papel ativo.

© Ken Lund; Via Flickr

© Ken Lund; Via Flickr

2. Criar uma visão compartilhada para a costa

Para se projetar uma orla costeira, o ideal é incluir a visão dos cidadãos na etapa de planejamento e desenho, convidando-os a pensar em novas propostas e metas para este espaço público, que podem ser integradas gradualmente. Além de atingir um desenho pensado no usuário, ao se criar uma visão compartilhada, as transformações e atividades que acontecem na orla ganham credibilidade.

© ilovebutter; Via Flickr

© ilovebutter; Via Flickr

3. Criar destinos múltiplos: “O Poder dos Dez”

A PPS elaborou uma proposta que permite estruturar um plano a longo prazo para qualquer orla costeira: “O Poder dos Dez”. Este consiste em criar dez grandes destinos ao longo de toda a linha costeira, onde os cidadãos criariam um sentido de comunidade em espaços públicos abertos. Uma vez identificados os dez lugares, o uso de cada um deles pode ser definido por autoridades municipais, organizações cidadãs e empresários locais. O ideal é que cada destino permita realizar dez atividades distintas, garantindo assim uma orla ativa, diversificada e multifuncional.

© La Citta Vita; Via Flickr

© La Citta Vita; Via Flickr

4. Conectar os destinos

Os dez destinos propostos no ponto anterior devem estar conectados entre si ao longo da orla costeira. A chave para isso se baseia na necessidade de assegurar continuidade de deslocamento para os pedestres, pois uma borda costeira caminhável com uma ampla variedade de atividades em toda a sua extensão se conectará com êxito a outros destinos, permitindo que cada um deles se fortaleça com o fluxo de pedestres.

Conectar os destinos não significa apenas unir dez lugares entre si, mas também criar conexões com outros pontos da cidade. Um exemplo disso é o Passeio Marítimo de Helsinki, na Finlândia, onde as pessoas podem se deslocar do centro da cidade até a orla costeira através de um trajeto reto que conta com vias para automóveis, ciclovias e um passeio de pedestres, todos acompanhados de árvores e flores, com vista direta para o mar.

© Ray_from_LA; Via Flickr

© Ray_from_LA; Via Flickr

5. Aperfeiçoar as vias de entrada do público

Para que as orlas costeiras sejam utilizadas e visitadas pela maior quantidade de gente possível, é vital criar vários acessos em toda a extensão do passeio, pois quando estes não existem, o público diminui consideravelmente, pois se estabelece visualmente um obstáculo até ele. Por isso, é de suma importância que os acessos não interrompam os espaços públicos e assegurem a continuidade da orla costeira.

O passeio costeiro Balboa California Island,localizado na costa de Newport Beach, possui todo seu litoral disponível ao público, ao invés de privilegiar as propriedades privadas com vista para o mar.

O acesso também implica em um contato com a água através de muitas formas, como nadar, fazer um picnic, navegar, dar comida às aves, etc. Contudo, como existem praias que não são adequadas ao banho, a PPS propõe substituir as atividades aquáticas por outros tipos de acesso à água, como jogos infantis em piscinas, à semelhança das praias que foram instaladas em Paris, em uma porção da orla do rio Sena.

© didbygraham; Via Flickr

© didbygraham; Via Flickr

6. Assegurar que o projeto da orla costeira se ajuste à visão da comunidade

Quando a visão dos cidadãos é primordial em um projeto de revitalização de um passeio costeiro, os novos desenhos devem ser adaptados para satisfazer seus objetivos e expectativas. Para a PPS, as orlas costeiras são valiosas demais para serem entregues ao setor privado e permitir que ele dite as pautas de crescimento e desenvolvimento ao orientar os novos desenhos a um perfil de habitante muito diferente das pessoas locais. No entanto, isto não deve ser interpretado de forma a ver o desenvolvimento através do setor privado como algo que não traz benefícios para a comunidade, mas, por outro lado, que este projeto deve privilegiar as necessidades locais. Tampouco se deve interferir nas conexões peatonais, ciclovias e estacionamentos para os automóveis.

© sairenso; Via Flickr

© sairenso; Via Flickr

7. Não limitar as atividades públicas do passeio costeiro para privilegiar o desenvolvimento residencial

Por que nos grandes passeios de pedestres não existem zonas residenciais? Segundo a PPS, esta situação ocorre pois estes lugares estão repletos de gente durante o dia e a noite. Além disso, suas dimensões e localização os fazem locais ideais para consertos, festivais, feiras, lançar fogos de artifícios e outros eventos que atraem um grande número de pessoas.

Para a PPS, as autoridades não devem permitir o desenvolvimento imobiliário nos arredores imediatos dos passeios costeiros, pois os proprietários não querem ser perturbados pelos ruídos dos eventos e limitam o horário de funcionamento das atividades nos passeios. Com isto, a urbanização das orlas costeiras limita a diversidade de atividades e as proíbe em certos horários, privatizando um espaço que é público.

© That Car; Via Flickr

© That Car; Via Flickr

8. Construir parques para conectar destinos

Em cidades como Nova Iorque, Toronto e Vancouver, os parques foram construídos como destinos em si, dando lugar a uma “ecologização” das orlas costeiras que não mesclam atividades e, conseqüentemente, não atraem público, pois é o mesmo que se encontra em cidades sem praias. Por outro lado, em Baltimore, Estocolmo, Helsinki e Sidney, os parques que se localizam nas orlas costeiras são utilizados como parte do tecido conectivo da cidade, unindo os principais destinos.

© Karen Roe; Via Flickr

© Karen Roe; Via Flickr

9. Edifícios baixos para ativar o espaço público

A construção de grandes torres na orla de lagos, praias e rios é absolutamente descontextualizada, pois estas atuam como um muro visual e psicológico para os bairros que estão atrás desta linha de edifícios. Por isso, a PPS coloca que a edificação na orla costeira deve ser de baixo gabarito e deve combinar usos comerciais e públicos no térreo para somar-se os espaços públicos da costa.

© David Berkowitz; Via Flickr

© David Berkowitz; Via Flickr

10. Apoiar múltiplos meios de transporte e limitar o acesso de veículos

O público aumenta consideravelmente quando se pode acessar através de diferentes meios de transporte e não apenas o automóvel. Andar de bicicleta e caminhar são parte importante da mescla de modos de transporte, o que se comprova nas orlas de Estocolmo, Helsinki, Hong Kong, Sidney e Veneza, que já contam com passeios de pedestres e ciclovias.

Embora à primeira vista as pessoas não tenham tomado gosto pela restrição dos estacionamentos de carros, aos poucos optaram por outros meios que lhes permitem evitar os congestionamentos e, conseqüentemente, a perda de tempo. No caso das pessoas com mobilidade reduzida, a PPS coloca que se aumente o número de estacionamentos para elas e que se utilizem cores fortes para distingui-los.

© Capt' Gorgeous; Via Flickr

© Capt’ Gorgeous; Via Flickr

11. Integrar atividades de temporada em cada destino

Embora as zonas costeiras se caracterizem por más condições climáticas, isto não justifica que seus passeios não sejam palco de atividades durante o inverno. Por isto, se deve criar uma programação e infraestrutura especial para os meses mais frios e chuvosos, para que prosperem as atividades econômicas e o público não deixe de circular por estes espaços públicos.

© Kwong Yee Cheng; Via Flickr

© Kwong Yee Cheng; Via Flickr

12. Construir edifícios emblemáticos para criar um destino multiuso

Segundo a PPS, uma estrutura icônica pode ser de grande ajuda na revitalização de um passeio costeiro, pois atua como um destino multiuso. Por exemplo, o edifício municipal de Estocolmo foi construído nos arredores da orla costeira, onde se pode navegar e percorrer o parque que cerca o edifício.

Dessa forma, o edifício é visto como um ícone da cidade e cria um forte sentido de lugar público.

© Sandy Austin; Via Flickr

© Sandy Austin; Via Flickr

13. Administrar, gerir, administrar

A gestão contínua dos passeios costeiros é essencial para mantê-los ativos durante todo o ano e poder realizar eventos. Existem municípios que adotaram o modelo de melhoramento comercial que consiste em estabelecer alianças entre as empresas e as organizações cidadãs a fim de financiar exposições temporárias de artistas e músicos locais, para que a borda tenha um caráter identitário único que esteja alinhado ao perfil da comunidade.

Texto via Plataforma Urbana.

Tradução Archdaily Brasil



Categorias:Arquitetura | Urbanismo

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22 respostas

  1. Basoseira ideológica safada.

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    • Prova: vejam o item 7, nossa orla é exatamente assim como propõe, desprovida de “desenvolvimento imobiliário” (ou especulação imobiliária, como diriam aqui), e tudo o que não temos é uma orla dinâmica e aproveitável.

      Agora, comparem com a orla de Copacabana, por exemplo, que é exatamente o oposto do tal “conselho” e onde houve a tal de “privatização do espaço”, qual é mais dinâmica e com diversidade de atividades?

      Ah, “sua piscina está cheia de ratos”,…

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      • Só seria bom lembrar que a orla de copacabana hj é espaçada e com lugar pra atividades públicas porque foi aterrada. Na época da construção de prédios como o Copacabana Palace os prédios ficavam quase dentro do mar…

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        1. Não limitar as atividades públicas do passeio costeiro para privilegiar o desenvolvimento residencial

        “locais ideais para consertos, festivais, feiras, lançar fogos de artifícios e outros eventos que atraem um grande número de pessoas.”

        Tem isso na orla? Alguém já conseguiu alguma autorização para fazer qualquer evento na orla?

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  2. É infelizmente, se tivéssemos políticos sérios, comprometidos realmente com o bem estar do povo, não com aconchavo político, falcatruas, caixa 2 , maracutaias ( farinha pouca meu pirão primeiro ), éramos pra ter uma bela Orla, com 1/10 do que foi gasto na copa ( Porto Alegre ) já daria para fazer uma boa frente!!!!!

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  3. Engraçado ler o item 9 neste blog.

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  4. “13 princípios para converter uma orla em um espaço público
    transitável e culturalmente ativo…”

    Vou sugerir o “14”:
    Mandar todos os eco-abostados para a Coreia do Norte com passagem so de ida.

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  5. Os carros são necessários na orla, o problema é a atual exclusividade deles e poucos motivos para pedestres e ciclistas ficarem ali. E onde está o transporte de massa para a orla?

    Sobre prédios baixos, acho que o ponto do artigo está corretíssimo: prédios baixos seriam os bem juntos a orla, e todos de uso misto, os primeiros andares deveriam ser de serviços de acesso a todos (não torres de escritórios por exemplo). Vivo mencionando a Austrália, e foi isso que vi no Darling Harbor de Sydney e no cais que esqueci o nome em Melbourne. Logo depois da orla (tipo uma quadra) já tem prédios de dezenas de andares.

    Canoas tá mal mesmo, mas Guaíba está ligeiramente melhor que nós.

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  6. Interessante notar as 2ªs, 8ª. 9ª e 10ª fotos, e os dizeres do 4º “mandamento”. Não é necessário abdicar totalmente o uso do carro na Orla, é preciso saber equilibrá-lo.

    Enfim, concordo com todos os itens, e Porto Alegre ainda da muito as costas para a sua orla, mas pelo menos as pessoas vão lá para tomar chimarrão que seja, e não vejo isso como sinônimo de falta de informação ou cultura de quem a utiliza.

    Canoas está em situação bem pior, tem duas orlas, a do Gravataí, que é quase estritamente industrial, e a do Sinos, que é total sinônimo de degradação e piada quando se ouve falar do nome que aqui ela recebe: a prainha do Paquetá!

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  7. Qualquer coisa ai é proibido em Porto Alegre.
    Acabaria com o microclima da orla.

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  8. Por falar em orla, veja o que anda circulando pelo Facebook

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  9. Olha toda vez que vou a Porto Alegre e de longe vejo a orla de Porto Alegre lindamente moldada pelo Guaíba porém abandonada eu fico super, hiper, mega grilado.

    Eu sei que a cidade tem diversos outros problemas, mais sei também que diversas outras cidades bem menos favorecidas inclusive conseguem fazer de suas orlas um lugar agradável.

    Portanto não me venham me dizer que a 7ª cidade mais rica do Brasil não tem condições de fazer algo decente por falta de recursos…Porque isso é mentira!

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  10. Parece que a Prefeitura conhece muito bem esses princípios, pois se esforça pra se afastar deles ao máximo!

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    • Ia comentar exatamente isso. Esses princípios apontam para o lado completamente oposto aos do nosso querido poder público.

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