Cidades: crescimento tem limites

Físico britânico explica por que as cidades seguem crescendo e alerta sobre os limites da urbanização.

Região sul já tem mais de 80% da população vivendo em cidades

geoffrey-west-350A população mundial acaba de cruzar um limiar: hoje, mais da metade das pessoas vivem em cidades. Com uma taxa de urbanização de um milhão de pessoas por semana no planeta, a perspectiva é que, até 2050, 75% da humanidade ocupe ambientes urbanos. Na região sul, o quadro já é bem mais agudo, e acompanha os números nacionais: cerca de 84% da população vive em cidades. Mas é possível encontrar algum padrão nessa expansão aparentemente caótica?

O físico Geoffrey West (foto) dedicou boa parte de sua carreira na busca de possíveis leis que expliquem como as cidades crescem e se multiplicam e, também, como elas dificilmente morrem. O britânico apresentou suas ideias na segunda-feira (4), em palestra do projeto Fronteiras do Pensamento, que lotou o Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

West buscou referências na biologia – a ideia de ver cidades como grandes organismos já não é novidade – e percebeu um padrão. Animais possuem determinada massa e consomem certa quantidade de energia para seguirem vivos. No entanto, ao comparar um mamífero a outro duas vezes maior, a necessidade de energia não duplica, mas cresce em 75%. Ou seja, há uma economia contínua de escala na ordem de 25% da energia.

Buscando identificar padrão similar no crescimento das cidades, West chegou a uma “economia de escala” de 15%. Ou seja, quando uma cidade dobra de tamanho, sua infraestrutura não precisa acompanhar a duplicação, mas sim aumentar em 85%. “Por isso as cidades seguem crescendo. Há uma economia de energia, conforme se expandem”, justifica West.

Isso foi confirmado por levantamentos dos mais diversos indicadores, como número de postos de gasolina, hospitais, redes de cabos e esgotos. Da mesma forma, a economia é de 15% em indicadores como consumo de água e na necessidade de novas estradas, enquanto o crescimento é similar em valor de salários, número de empregos especializados e patentes registradas. Não por acaso, dados negativos como custo de vida, criminalidade e epidemias de gripe e AIDS apresentam a mesma curva ascendente no gráfico.

“Seria então Nova Iorque uma versão em escala de Chicago, e esta uma versão em escala de Santa Fé, a cidade onde eu moro?”, pergunta West. Tudo indica que sim. No entanto, o estudo do físico aponta limites para essa expansão. À medida que as cidades crescem exponencialmente, elas tendem à estagnação e ao colapso, caso as condições iniciais sejam mantidas.

“Para que o gráfico seja ‘resetado’, e um novo ciclo de crescimento tenha início, dependemos periodicamente de grandes inovações revolucionárias”, explica o físico. Quando questionado sobre a semelhança de sua teoria com a de outro britânico, Thomas Malthus – que no final do século XVIII previa a incapacidade do planeta em produzir alimentos para uma população que se multiplicava exponencialmente –, West concordou e declarou-se “neo-malthusiano”: “Malthus foi criticado por ignorar a função da inovação, quando previu que a população cresceria mais que a capacidade de produzirmos nossa subsistência. Mas esta necessidade de inovação está ocorrendo em ciclos cada vez mais curtos”, aponta.

“Não sei se conseguiremos inovar de maneira suficientemente rápida. Para resolver o problema, antes precisamos reconhecer o problema. Acho que nossa consciência política não acompanhou o crescimento dos nossos organismos urbanos. Nosso estilo de vida está sob grande ameaça”, alertou o físico em um tom paradoxalmente simpático. “Mas espero estar errado, como Malthus”, finalizou West, sorrindo após o alerta.

Revista Amanhã

Por Antenor Savoldi Jr.



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Demografia, Economia, Meio Ambiente, Meios de Transporte / Trânsito

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4 respostas

  1. E tem uns comunistas ai que sonham num mundo na beira da praia numa casa de madeira, com um fogão a lenha.
    hahaha

    Imagina toda a população mundial vivendo numa casinha de madeira.
    Vish

    Acreditem, tem gente que sonha com isso, por que a cidade grande é a tal da “babilonia”.

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  2. Ao menos deste problema Porto Alegre está livre. É a capital que menos cresce populacionalmente no Brasil por N. motivos. E há um lado bom que poder gerir a cidade com mais facilidade.

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  3. Assim como os dinossauros, grandes e fortes ou mesmo grandes animais como elefantes, mamutes ou búfalos perderam espaço para animais menores, mais inteligentes e com melhor capacidade de organização social. As cidades precisam se tornar mais dinâmicas e melhorar a integração. Isso indica que melhor seria a melhoria das condições internas do organismo (cidade) bem como sua diversificação e não o investimento massivo em um único meio de transporte. Talvez por isso que cidades melhores para se viver são também as mais eficientes em termos de transporte coletivo e ciclovias em oposição a viadutos e trincheiras.

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