Erosão das cidades pelos carros

6e609595Faz uma semana que uma obra ficou pronta aqui em Porto Alegre. É o Binário da Praia de Belas, uma obra que inverteu o sentido de duas avenidas, transformando elas em avenidas de mão únicas. Não entendi muito bem o motivo quando vi a obra, até porque ultimamente não passo muito por ali. Mas daí lembrei do clássico livro da Jane Jacobs, “Morte e Vida das Grandes Cidades”, escrito em 1961, e entendi tudo.

No livro ela fala sobre o conceito de “erosão das cidades pelos automóveis”, que funciona basicamente assim: o congestionamento de carros gera um alargamento de rua, que por sua vez gera a transformação da rua em uma avenida, que gera uma avenida de mão única, que gera a sincronização de semáforos, que gera os viadutos – e por aí vai. Não lembro realmente se foi ela que criou esse conceito ou se foi outra pessoa, mas no livro está mapeada a exata ordem da transformação que os carros em demasia imprimem na mobilidade urbana da cidade.

Assim como o passo-a-passo de como uma cidade pode ser erodida pelos carros, Jane Jacobs também discorre por páginas e mais páginas sobre o quão prejudicial é essa abordagem para a vida de uma cidade. Isso porque, segundo ela (e eu concordo), quanto mais espaço se der aos carros na cidade, maior se tornará a necessidade do uso deles e, por consequência, de ainda mais espaço para carros. É um círculo vicioso já diagnosticado há mais de 50 anos, mas que infelizmente continua a acontecer nas nossas cidades.

A obra na Praia de Belas foi feita por causa do intenso trânsito que existia ali. Para tentar diminuir o congestionamento, a Prefeitura transformou as avenidas em vias de mão única, diminuindo assim os cruzamentos existentes nas duas ruas para uma maior fluidez ao trânsito. A real é que a obra não adiantará muita coisa, pois ela é um convite para que mais carros ganhem as ruas. Com mais carros nas ruas, só a inversão de sentido da avenida não será suficiente, sendo necessário no futuro que um viaduto seja construído ali. E por aí vai.

Caos Planejado

Por Luciano Braga – 3 de março de 2015



Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

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27 respostas

  1. Mais mimimi sobre carros? Sério? Sejam realistas, que outra opção confortável as pessoas tem pra se locomover nessa cidade? Vocês acham que se paga um absurdo pelo carros no Brasil porque? Por que brasileiro “adora” carro como dizia a propaganda da ipiranga? Até pouco tempo atrás 70% dos carros vendidos eram modelos populares sem nenhum status ou qualquer atributo que um adorador de carros poderia valorizar.

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    • As pessoas não tem outra opção confortável, por isso o mimimi.

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    • No Brasil carro não é questão de conforto, mas sim de status, se fosse só por conforto as pessoas compartilhariam carros bem mais do que compartilham hoje. Ainda é o sonho de muita gente ter um carro, é uma vitória na vida, é o presente de 18 anos, é um trófeu, um prêmio, algo a ser almejado.

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    • Adriano, mas a questão é justamente a falta de opção confortável, como você mesmo falou. Muita gente com poder aquisitivo escolhe caminhar, pegar ônibus ou pedalar muito mais por convicção pessoal do que por conforto, já que nossa administração não planeja isso. Eles escolhem a alternativa mais ineficiente. Usam milhões para erguer vários viadutos mal feitos e esperam que os 200km de ciclovias sejam feitas por contrapartida de shopping, me diz se dá pra levar a sério? Nem falo do preço da passagem, olha só essa frota de ônibus sem ar-condicionado. Eles não percebem que melhorar a dignidade do ônibus também é uma política de transporte (nas entrelinhas, nosso amados políticos tratam esse assunto como se fosse coisa de “pobre querendo luxo”). Ninguém consegue caminhar nas nossas calçadas quando chove, aliás, dependendo da calçada nem precisa chover. Muitos pegam carro só pra não passar pelo transtorno, e o problema não foi dirigir o carro, o problema foi ter que dirigir ele.

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    • 1- Tu pode não gostar dos carros “populares”, mas no Brasil ter um deles é sim símbolo de status até hoje. Sempre depende de quem vê.

      2- Não vou entrar na discussão se há opções melhores apesar de ter vendido o meu por vontade própria. Mas o fato de “não haver melhor opção” não significa que a erosão deixe de acontecer e que não devemos deixar de pensar no assunto, até para criar as alternativas.

      3- “mimimi” é achar que a supremacia dos carros não deve ser questionada.

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  2. O automóvel é uma das últimas tábuas de salvação da economia brasileira, fortemente baseada no setor, gerando milhões de empregos diretos e indiretos e gerando bilhões em impostos a cada ano. Se eu gosto de cidade engarrafada e poluída? Claro que não. Odeio. Mas e daí? São os paradoxos do consumo e da indústria. Não é que as grandes cidades brasileiras não tenham planejamento viário compatível com a demanda de tráfego. É que as cidades simplesmente não têm nada compatível com quaisquer demandas. Saúde, educação, segurança pública, etc. A culpa não é do carro. É da falta de seriedade e ineficiência estatal ao lidar com planejamento e tudo mais.

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    • Favor descontar os custos de saúde diretos (acidentados que custam ao SUS e ao INSS) e indiretos (poluição e as doenças respiratórias, etc) daí a gente fala sobre economia.

      Que falta planejamento nas cidades é fato, mas isso é outra discussão. Ninguém disse que o carro prejudica a educação.

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      • Custos com doenças respiratórias têm descontos muito mais com o cigarro, queimadas e as drogas fumadas. Mortes e invalidez têm números muito maiores na violência doméstica e do tráfico de drogas e entre os motociclistas. Retirem as indústrias automobilísticas do Brasil e o país entre em falência imediata.
        Glauber; se você soubesse LER corretamente o que eu escrevi, não ficaria rodeando a própria cauda tentando mordê-la. Eu disse que a economia brasileira depende do automóvel. Só fiz uma constatação conjuntural. Jamais disse que ela devesse depender só do carro. Muito antes pelo contrário. Uma economia salutar não depende de uma único setor. A diversidade de investimentos é absolutamente necessária.

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      • Não muda o assunto. Tu disse que a indústria automobilística gera muito lucro, eu disse que tem que descontar mais custos dessa industria pra calcular o lucro líquido. Cigarro, etc é outra discussão.

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    • Cara, muito economista quando apoia essa tese de que as “montadoras ajudam a economia” esquecem de dizer que qualquer outra alternativa aplicada em escala ajudaria (e mais) a economia. Produzir trens, bicicletas, ferrovias e ônibus também geram empregos com a vantagem de que não geram “deseconomia” como poluição e acidentes como os causados pelo transporte de carro, além do carro ser um poço de ineficiência logística e energética. Tudo isso envenena a economia.

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      • O que mais polui o ambiente são as termelétricas. Elas existem pra produzir energia elétrica, pra vocês verem Tv a cabo, carregarem celulares, gelarem a cerveja, ligarem o ar condicionado, navegarem na internet, jogarem strike force, escutarem um rock pesado, para fábricas produzirem suas bicicletas, e toda espécie de itens dependentes da eletricidade e que geram e sustentam a nossa vida de confortos. Descontem os benefícios da poluição das usinas de carvão, e vocês verão a merda que a vida de vocês virará. Aposto que aqui ninguém trocaria a despoluição do ar pela ausência dos mimos que a tecnologia pode lhes proporcionar.

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      • Qual a fonte sobre as termo? Tem gente que aponta para elas, outros para os caminhões, outros para vacas flatulentas mas nunca vejo fontes.

        Sem falar que as termo geram muita poluição sim, mas longe da cidade. A concentração de poluição aqui em POA é alta devido a tudo menos termoelétricas.

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      • Oscar, acho que você não entendeu meu argumento. Estou dizendo que podemos definir os meios mais eficientes para nos transportar e isto é mais econômico que simplesmente pensar que as “montadoras geram empregos” sem considerar todo o resto que também gera e causa menos transtornos. Tua analogia com as termoelétricas não foi bem aplicada, pois o principal poluente das cidades são os carros. Veja que as usinas ficam longe dos grandes centros, ao contrário dos carros, elas não emitem poluição no meio da cidade, convertem o combustível em energia com o dobro da eficiência de um carro e, além de tudo, é mais eficaz filtrar os componentes tóxicos de uma chaminé do que de o de centena de escapamentos. No Brasil o principal poluidor nem são as coitadas das termoelétricas, mas os carros (bem no meio das cidades). Concordo que toda produção de energia vai gerar algum impacto. Por isso mesmo é fundamental que cada watt seja usado de forma inteligente.

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    • é o negocio é fingir intelecto dentro do carro, parado nos congestionamentos do novo binário e não achar seu carro e culpado disso., e lembre sempre de buzinar para tentar chegar mais rápido possível ao próximo semáforo.

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  3. As termo poluem os ares do país como um todo. É por isso que carros elétricos e movidos a hidrogênio não são antipoluentes. Eles apenas transferem a fumaça do escapamento para as termo, já que são as usinas de carvão que precisarão produzir mais eletricidade pra abastecer os veículos. Pra ser verdadeiramente antipoluente, só carros movidos com célula de combustível, onde a eletrólise que transforma água em hidrogênio e libera água pura como único resíduo, é produzida dentro de uma câmara estanque, processo que ainda é economicamente inviável em escala industrial.

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    • Como eu disse, existe uma grande diferença entre poluir no meio da cidade e fora dela. Você também esqueceu de citar que a eficiência da queima numa usina é muito maior que num motor, além do fato de que controlar a emissão de uma chaminé é mais fácil que a de milhares de escapamentos. Além disso, no Brasil nossa matriz é hidrelétrica, nossa principal emissão de poluentes vem dos carros e das queimadas. Por fim, um trem, ônibus ou qualquer outra modalidade de transporte coletivo é mais eficiente que um carro.

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    • Como esse Oscar enrola, meu Deus.

      Não sei de que cartola ele tira esses dados sobre a maior parte da poluição vir das termoelétricas, visto que no Brasil elas respondem por uma parcela ínfima da geração de energia (a maior parte vem das hidrelétricas, as quais, à parte os impactos ambientais, gera energia de forma limpa).

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    • Só esqueceu de dizer que a energia gasta para obter eletricidade à partir do hidrogênio é maior do que a energia obtida. Melhor ainda é o elétrico puro, ainda mais aqui onde temos oferta abundante de energia renovável. No elétrico puro 80% da energia obtida vai para as rodas (na maioria dos veículos à combustão apenas 30% movimentam o carro, a maior parte da energia se perde movimentando bombas de água, óleo e perde-se na refrigeração), e todo o torque está disponível desde 1 rpm. Fora que hoje a autonomia dos elétricos chega facilmente à 250km (sendo que as viagens diárias não chegam a 20 km em media) e a recarga está cada vez mais rápida.

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  4. Ninguém é insano a ponto de se sentir incentivado a ter um carro por conta de grandes avenidas sem semáforos. Isto é demência fruto do uso prolongado da maconha. As pessoas (até os miseráveis, como bem falou aquele jornalista no Youtube) estavam comprando carros a rodo por conta do crédito fácil, do status de novos classe-média e dos incentivos seletivos da Dilma à indústria. Quem é que vai se importar com trânsito na hora de comprar um carro? No Brasil, ninguém.

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    • Uau, mais um que não entende demanda induzida. O pessoal tem muita opinião e pouco conhecimento de economia. ÓBVIO que mais avenidas e menos semáforos vai incentivar mais carros, é uma infra construída para usá-los e faz com que automaticamente ele seja a melhor opção em diversos cenários.

      E o ponto não é parar de fazê-las, é também estimular outros modais.

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  5. Impressionante esses artigos que culpam o carro como se ele tivesse vontade própria e criticam quem tem carro tentando fugir de um ônibus lotado que com sorte passa a cada 40 minutos. Fica muito fácil para os governantes jogarem no carro a culpa por décadas de falta de investimento em infra-estrutura, então inventam termos como “carrocultura”, “imperialismo do automóvel” ou “ditadura veicular”, quando na verdade o termo certo é falta de investimento em metrô, VLT, ciclovias, calçadas e etc.

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    • O ponto é exatamente o investimento pesado em infra que estimula o uso do carro e detrimento a outros.

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  6. O maior problema ainda são os governos municipal, estadual e federal pagar carro, motorista, gasolina e garagem para os políticos. Qualquer um de nós optaria pelo carro se fosse completamente de graça. Isso é simplesmente o nosso dinheiro sendo usado para criar engarrafamento.

    Daí o sujeito resolve andar de ônibus, a pé ou de bicicleta por economia, saúde ou para reduzir os engarrafamentos mas mesmo assim tem que pagar para os outros engarrafarem, como se o salário dos políticos fosse mixaria.

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  7. Porto Alegre tem um problema crônico em transporte público que força as pessoas a terem carro. A minha noiva trabalha no Moinhos, e nós moramos próximo ao Terminal Triangulo. As vezes ela é obrigada a esperar passar o terceiro ônibus porque os dois primeiros estavam completamente lotado.

    Então antes de começar de MIMIMI contra carro, é preciso planejar alternativas de transporte que não seja esses lixos de ônibus que circulam superlotados em nossa capital.

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  8. Com a crise brasileira serão vendidos bem menos automóveis, então esse problema está resolvido. Próximo…

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