Evento cultural reacende discussão sobre revitalização do Cais Mauá

Obras aguardam estudo de impacto ambiental | Foto: Cais Mauá S.A/ Divulgação

Obras aguardam estudo de impacto ambiental | Foto: Cais Mauá S.A/ Divulgação

Débora Fogliatto

O polêmico projeto de revitalização do Cais Mauá, em Porto Alegre, segue sendo contestado por algumas entidades civis da cidade. Nesta sexta-feira (13), o evento cultural “Todos pelo Cais Mauá” foi realizado para demonstrar discordância com a proposta, que inclui milhares de vagas de estacionamento, torres comerciais, hotéis e shopping centers. O grupo Todos pelo Cais, que promoveu o evento, afirma apoiar a iniciativa de construir cafés, restaurantes, livrarias e praças, mas não grandes empreendimentos, torres e “mais carros no centro da cidade”.

O evento de sexta-feira (13) contou com apresentações de Nelson Coelho de Castro, Frank Jorge, Marcio Petracco, Bibiana Petek, Yanto Laitano, Deluce Deluce, Carlos Carneiro, Paz com Dj Marcus Felix e outros artistas. O coletivo Todos pelo Cais Mauá é formado por pessoas ligadas ao ativismo cívico, cultural, ambiental e urbanístico da cidade e recebeu o apoio de diversas entidades para a realização do evento, incluindo o Instituto dos Arquitetos do Brasil no Rio Grande do Sul (IAB-RS), a Agapan, Mobicidade, Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ/RS), Bar Ocidente, entre outros.

O grupo questiona se a construção de espigões e shoppings centers são benéficas para a cidade e “em que medida os impactos urbanos, ambientais, econômicos e sociais vão afetar aquela região de Porto Alegre”. A sugestão é que a área seja revitalizada a partir de projetos que permitam “o resgate da relação da população com aquele ambiente, sem condicionantes construtivas que visem apenas o aspecto comercial e o retorno financeiro a qualquer custo”.

Evento colheu assinaturas | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Evento colheu assinaturas | Foto: Guilherme Santos/Sul21

A revitalização está sendo realizada pela empresa Cais Mauá do Brasil S.A, que teve o aval para começar as obras em 2013. O consórcio, que será responsável pela área de 2,5 km de extensão por um período de 25 anos, é liderado pela empresa espanhola GSS Holding, que controla 51% das ações, seguida pela NSG Capital, com 39% e pelo Grupo Bettin, com 10%. O período de arrendamento poderá ser renovado por mais 25 anos.

Orçado em R$ 750 milhões, o projeto prevê a reforma de 11 armazéns históricos, a demolição de pelo menos um armazém – o que já ocorreu – e a criação de 4 mil vagas de estacionamento. Destas, 444 ficarão distribuídas ao longo dos 11 armazéns. Já no chamado “Setor Gasômetro”, exatamente ao lado da Usina, haverá outras 2.386 vagas. Além disso, ao lado da Usina, será construído um shopping center com 25 mil metros quadrados de área para locação e capacidade para 180 lojas.

Atualmente, o projeto está em fase de avaliação do impacto ambiental e de mobilidade urbana (EIA-RIMA), período em que o acesso aos armazéns está proibido para o público em geral. Segundo a assessoria de imprensa do consórcio, as obras em si estão previstas para começar no segundo semestre de 2015.

Um dos fundadores do coletivo Todos pelo Cais Mauá, o sociólogo João Correa explica que a discussão acerca do projeto começou desde sua apresentação em 2010 e, desde então, a situação só ficou mais complexa. “O projeto foi sendo apresentado com todas aquelas maquetes visuais e a população queria saber o que é o projeto, como foi o processo. E agora que percebemos que o processo começou a ter uma execução, organizamos isso e começamos movimento para discutir o projeto, para que a população possa se apropriar dessa discussão e questionar o que está acontecendo”, afirma.

Seguranças impediam a entrada no próprio Cais durante o evento | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Seguranças impediam a entrada no próprio Cais durante o evento | Foto: Guilherme Santos/Sul21

De acordo com o coletivo Todos pelo Cais Mauá, o diálogo com a Prefeitura está bloqueado desde o lançamento do projeto em 2010, quando teria sido aprovado sem ser apresentado pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA), assim como sem licitação para o projeto arquitetônico. “Após muita pressão da cidadania foi realizada uma Audiência Pública por formalidade, para apresentação de um projeto aprovado nos gabinetes, sem apresentação de EIA-RIMA (Estudo de Impacto ambiental e Relatório de Impacto Ambiental) ou EVU (Estudo de Viabilidade Urbanística)”, afirma o grupo.

O Todos pelo Cais Mauá defende uma licitação “realmente aberta à participação nacional e internacional” e uma revitalização baseada em polos artísticos, culturais e educacionais. Baseado no projeto da arquiteta Maria Helena Cavalheiro, o grupo sugere que o foco do projeto sejam atrações no âmbito de cinema, teatro, música, circo, literatura, fotografia, design, artes plásticas, entre outros.

João denuncia que o projeto atual foi imposto à população, sem análise do ponto de vista ambiental e sem o aval dos porto-alegrenses. “Ainda falta cumprir uma série de exigências contratuais e licenças que não foram apresentados. O projeto está atrasado há anos, justamente porque apresentaram a proposta sem as licenças e autorizações e estão querendo impor esse processo como se fosse um direito adquirido”, lamenta ele. O sociólogo lembra que, enquanto na revitalização do Porto Madero, em Buenos Aires, foram apresentadas 96 propostas e houve três empresas vencedoras, no caso do Cais o único vencedor da licitação participou do desenvolvimento do projeto.

Faixa questiona: “Tá estressado com o trânsito da Mauá? Imagina um shopping center aqui”| Foto: Guilherme Santos/Sul21

Faixa questiona: “Tá estressado com o trânsito da Mauá? Imagina um shopping center aqui”| Foto: Guilherme Santos/Sul21

O grupo critica a falta de transparência de todo o processo envolvendo o Cais. “É impossível que Porto Alegre, a cidade do Fórum Social Mundial, que é referência de participação popular, não tenha interesse de diversos escritórios de arquitetura e diversas empresas para vir aqui apresentar suas propostas”, opina João. O evento realizado nesta sexta-feira à noite também começou a colher aderências a um abaixo-assinado para que haja uma nova discussão do projeto.

Durante o ato, que aconteceu em frente à entrada para o Cais, o acesso aos armazéns só estava aberto para carros que fossem buscar passageiros do Catamarã. Em frente ao muro, diversos seguranças impediam a entrada de pedestres. A partir das 21h30, os portões foram fechados definitivamente.

Usina do Gasômetro

O projeto de revitalização do cais termina na Usina do Gasômetro — onde será construído um shopping center. Mas a ideia da Prefeitura é realizar também um projeto para o restante da Orla, até a Rótula das Cuias. As obras, com orçamento previsto em R$ 57,4 milhões, correspondem a um trecho de cerca de 1.300 metros. Há dez dias, a Prefeitura realizou uma licitação para encontrar empresas possivelmente interessadas na obra, mas nenhuma se apresentou.

SUL 21

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Nota do Blog:O que ninguém entende é que o poder público não tem condições de bancar a revitalização. E nem é função dele fazer isso. A iniciativa privada, para investir, tem que ter um atrativo. Ninguém vai fazer um projeto de revitalização por teatro, barzinhos e cafés. É necessários ter estas torres (somente 3 num dos lados do cais) para que seja vantajoso ao investidor. Ele vai nos devolver o cais revitalizado e, em contrapartida ganhará este espaço. Seria muita hipocrisia achar que o espaço se ria revitalizado só com teatros e bares. Quem faria isso ?



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Projeto de Revitalização do Cais Mauá

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22 respostas

  1. Esta delegado deste movimento, sao a famosa turma dos contras…..tem pensamento muito pequeno, encheram Porto Alegre como proviniana, e dentro da sua pequenez de pensamento, querem, que todos pensem como eles, uns idiotas….com gente desta estirpe, Porto Alegre, continuara, horrorosa, Vamos em frente para o futuro, de nossa capital recupere sua hegemonia no Sul do pais e volte a ser cosmopolitana,…..Noa vamos permitir retrocesso, desta gente…..

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  2. Entrei no site deles para tentar entender qual a proposta deles e até para ofercer o meu apoio com a condição de que a proposta deles fosse viável e executável no médio prazo. Pelo que eu entendi eles não passam de um grupo que está descontente com o projeto atual pelo fato do projeto atual não ter sido escolhido com a participação da comunidade e se basear na construção de prédios (que eles chamam de “espigões”) o que na visão deles seria ruim para o local e para a cidade. Eles também reclamam da colocação de um estacionamento gigante na área atrás do Gasômetro. Concordo com os pontos deles: me desagradam muitos prédios (ainda que eu goste da idéia de ter 1 ou 2 espalhados ali para que possamos juntar mais recursos para a obra, já que essas torres atraem investimentos) assim como me desagrada a idéia do estacionamento também, gostaria que o centro fosse desenhado para pedestres e não para os carros, e o Cais poderia ser o início dessa virada. A impressão que eu tive é que o objetivo final deles é primeiro BARRAR O PROJETO ATUAL, derrubando ele na câmara através de arrecadação de assinaturas para que depois se pare para pensar em o que será feito naquele local e como. Porém me parece que eles não tem um projeto, no sentido de plano geral, não digo nem projeto arquitetônico, mas de definição de datas por exemplo definidas para a conclusão da etapa de arregimentar assinaturas, data limite para derrubada do projeto, data alvo para apresentações de propostas. Me parece que essas pessoas não tem um conhecimento amplo de financiamento de grandes obras, parece que eles acham que falta apenas “vontade” de construir uma baita obra ali que seria financiada com pequenos cafés e livrarias (e é interessante ver o “apoio institucional” de pequenos empresários donos desses estabelecimentos à esse movimento) pois eles acreditam (ingenuamente na minha opinião) que esse emprendimento poderia ser financiado com aluguéis de R$400 mensais para o empresário abrir no cais uma filial da sua livrariazinha e com aluguéis de R$30 para as pessoas venderem missangas e artesanato lá. Na realidade precisamos sim de um grande empreendimento para financiar aquilo, ou de massivo aporte de dinheiro público.

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  3. O shopping será pequeno e não vejo problemas, as torres que eu me lembre são poucas… isso existe até no Puerto Madero. O que realmente me pareceu absurdo no projeto foi esse estacionamento com vista para o rio, próximo ao gasômetro. Aquilo devia ser uma praça!

    https://vadebici.wordpress.com/2014/08/14/cais-dos-carros/

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  4. Lamentável…

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  5. Que idiotice, pelo visto como está, está incrivel, deixemos o lixo que se apresenta o cais mauá, assim como está a area do estaleiro. Essa turminha eco******, e outras que nem vou escrever aqui, já ta irritando, eita cidade retrógrada. Porto Alegre agora só falta abolir os onibus e adotar carruagens e bondes.

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    • Da mesma forma que a carruagem virou carro, o bonde também está moderno. Se não houvesse ônibus e sim bondes (trams) a cidade estaria muito melhor. Esse povo que é do contra tem que morrer envenenado bebendo água do guaíba (a água do povo).

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  6. Porto Alegre tem muitos “Shoppings do progresso” – lindóia, joão pessoa, total etc – e poucos ambientes culturais públicos atrativos para a classe média… Se a maioria dos opinadores do blog são a favor de balaião, cidades desorganizadas tudo bem, eu prefiro seguir o modelo alemão: tem espaço para shoppings, espaço para cultura e até espaços para o vazio. Se querem algo que pague o investimento, que usem a cabeça, o espaço público estes investidores já utilizarão sem pagar pelo terreno. Não vejo problema em uma ou duas torres, só acho que este projeto se interessa pouco com a revitalização da cidade, com o vazio, com espaço para filosofar à beira do guaíba. Não sou eco chato nem nada, apenas é LEI (entendem?) cuidar do meio ambiente artificial e respeitar a vizinhança, principalmente se tratando de terreno público.
    Sobre a área do estaleiro, bom, ainda bem que não tem residências. E tem shopping e duas torres, tá mais do que bom.

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    • Thiago, aquela ponta do estaleiro eu tenho a impressão que era briga de construtora dentro de Porto Alegre e usaram o vies ecologico para dar um trancaço na obra.Tá mais que na cara que a cidade o pais e o estado não tem dinheiro para tocar obra,graças aos governos do Lula e da Dilma ,logo logo nos vamos nos ferrar mais ainda,então é melhor deixar quem tem dinheiro investir,desde que não seja com as mamatas do BNDES.

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  7. …e ainda continuam dando espaco pra esse jornaleco de 5a categoria por aqui.

    Fui

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    • Gerson, é pra discutirmos tche. Não considero ele um exemplo. Muito antes pelo contrário. Mas justamente pra colocarmos ele no lugar dele. E na próxima vez que tu falar dele, demostrando que tu nao ta entendendo o que to fazendo …. nem sei o que vou fazer…

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      • É lamentável que verdadeiros “grupelhos” como esse se acham no direito de interferir no rumo de uma cidade como Porto Alegre. Conseguiram inclusive influenciar a opinião dos “inocentes-úteis” à época, na questão do Estaleiro – que até hoje está entregue “às traças”, e possivelmente irá permanecer desse jeito por longos anos. Graças a esse tipo de gente, e seu pensamento retrógrado, Porto Alegre e o RS se tornam cada vez mais irrelevantes no cenário nacional…

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      • Uau, mais um que sabe o que é certo ou errado e quem deve participar do jogo democrático.

        Tu foi lá votar a favor do projeto do estaleiro? Eu fui um dos 10 portoalegrenses que foram. Quem não foi é que tem culpa.

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    • Para variar sem nenhuma crítica objetiva ao texto do artigo, apenas achando que algumas pessoas não devem ser ouvidas. Cada noção de democracia que vejo…

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  8. Que projeto é esse Cais Mauá? Nunca ouvi nada a respeito. Por acaso é um projeto urbanístico de revitalização? Expliquem-me direito isso. Por acaso há investidores querendo fazer obras lá? Quando começam?

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  9. Eu sou a favor da iniciativa privada construir torres de escritorio e tambem reformar os cais com restaurantes e tudo mais… Nao sei se um shopping pode impactar negativamente as lojas do centro… Mas tb nao sou contra…

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  10. Esse pessoalzinho não desiste nunca, parece os cupins lá de casa, quanto menos se espera estão destruindo algum móvel ou abertura.

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