Cercar espaços públicos é errado em todos os sentidos imagináveis, por Anthony Ling

Parque Farroupilha. Foto: Ricardo Stricher/Arquivo PMPA

Parque Farroupilha. Foto: Ricardo Stricher/Arquivo PMPA

O debate sobre cercamento de espaços públicos às vezes vem à tona nos nossos centros urbanos. Em São Paulo surgiu uma proposta de cercar o vão do MASP, atualmente um dos espaços públicos mais democráticos da capital paulista, senão do país. Em Porto Alegre o debate atual é o cercamento do Parque Farroupilha, popularmente conhecido como “Redenção”, proposta que vai a plebiscito público. O exemplo vem de algumas cidades europeias como Paris e Londres, que possuem praças cercadas, e do exemplo paulistano do Parque Ibirapuera, que também é cercado. O argumento principal daqueles que defendem o cercamento é a maior segurança do espaço, evitando também depredações à noite.

A ilusão da segurança

Antes de mais nada, deve ficar claro que o objetivo principal é aumentar a segurança para a cidade como um todo, não em um espaço público em específico. Ou seja, a segurança em todas as áreas adjacentes ao parque devem ser levadas em consideração no momento em que se decide cercar qualquer área pública.

Por esse ponto de vista, é possível prever que a consequência imediata de um muro ou de uma cerca ao redor de um espaço público é da criação de uma área deserta ao todo seu redor: do lado de dentro, usuários naturalmente vão evitar chegar perto da cerca, um ambiente espacialmente desagradável, e do lado de fora pedestres vão evitar de caminhar junto a ela pelo mesmo motivo. Seja cerca ou muro, a barreira criará um espaço “morto”, inutilizando a área e gerando uma baixa circulação de pedestres de ambos lados.

A circulação e a atividade humana são importantes para a segurança pública pelo efeito identificado pela célebre urbanista Jane Jacobs como “olhos da rua”, uma característica espontânea de cidades gerarem ambientes mais seguros através da simples observação e fiscalização informal dos cidadãos ao seu redor. Espaços públicos desertos não são apenas monótonos, mas também criam um ambiente onde assaltos e atividades ilegais podem ocorrer sem testemunhas.

Os exemplos usados em favor dos espaços cercados normalmente não são os melhores. O Parque Ibirapuera, mesmo cercado, é, até hoje, foco de uma série de problemas de segurança, não surpreendentemente localizados no seu entorno, onde esses espaços mortos ocorrem. As grandes barreiras nas avenidas do triângulo do seu entorno, Quarto Centenário, República do Líbano e Pedro Álvares Cabral, afastam o trânsito de pedestres, e sequer se vê o movimento dentro do parque já que os usuários evitam chegar próximos a essas barreiras. Muitos usuários chegam ao parque de carro, sendo o próprio estacionamento alvo de assaltos, e aos que chegam a pé ou de bicicleta, o caminho até o portão de entrada do parque é sempre mais assustador até que se entre no ambiente movimentado de gente.

O mesmo ocorre em Paris: o entorno de praças como o Jardins de Luxembourg ou Parc Monceau são pouco agradáveis e se tornam um grande contraste às movimentadas calçadas com “fachadas ativas” (térreos com atividades comerciais) que caracterizam a capital francesa.

“Cercar um espaço público não aumenta a segurança da cidade: ela apenas desloca a violência para outro local e, possivelmente, pode aumentá-la criando zonas ausentes de olhos da rua.”

Cercar um espaço público não aumenta a segurança da cidade: ela apenas desloca a violência para outro local e, possivelmente, pode aumentá-la criando zonas ausentes de olhos da rua. Entendo segurança pública como um problema sistêmico que, para ser contornado, deve ser pensado desde a frente mais objetiva de fiscalização, punição e reintegração de criminosos na sociedade até o próprio desenvolvimento econômico e social, já que o progresso de ambos tende a diminuir o crime violento.

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Categorias:Artigos, Parques da Cidade, segurança

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3 respostas

  1. Também acho. Afinal de contas , a iniciativa do cercamento se dá justamente pela falta de segurança.E esta é de responsabilidade da prefeitura e estado, que gastam tanto em coisas fúteis! Nada de cercar, mas de manter a segurança no local!

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  2. Apoio o cercamento.
    O Germania é um exemplo de que é melhor pra controlar a entrada de pessoas.
    Moro em frente a uma praça cercada, e isso facilita muito quando a policia entra na praça.
    A redenção é muito maior, mas ainda assim da pra fazer um controle do parque.
    E como dito, é feito em diversos lugares do mundo, mas só Porto Alegre que é a certa.
    hahaah

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  3. Devemos avisar Curitiba que ela está totalmente errada!

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