Dois mil e dezesseis, por Adeli Sell

Nomes, siglas, palpites, pesquisas secretas. Tudo, menos uma palavra sobre “o que fazer” na cidade. Tem sido assim nos últimos tempos. Foi assim que um governador se elegeu há pouco. Nome, sigla, um partido que não era um partido. E, agora, José? A cidade há tempos está em busca de um espaço na urbanidade, pois no vácuo das inexistências, algo se coloca em seu lugar. Fomos sendo tomados por obstáculos. Ficou difícil andar numa calçada sem tropeçar num objeto que não deveria estar ali. É difícil achar uma faixa pintada para se ver de longe, chamando o cidadão a não passar no meio dos carros. Claro, falta educação também… É penoso ficar numa parada na qual a chuva te molha, querendo ou não. Aqui, divagando, penso no assobio do metrô e me deparo com um velho ônibus de um consórcio qualquer, atrasado, freio enferrujado. O banco está sujo, olho pela janela embaçada de pó, vejo pichações, lixo espalhado, moradores de rua em turbas dormentes. Chocante é ver que o restauro não ocupa o lugar do carcomido, do gasto, da falta de cor. E lá se vai nosso patrimônio. A cidade volta a ser tomada de camelôs ilegais, vendendo ilegalidades, vendendo celulares roubados. Sei que a violência é tratada na esfera estadual, mas cabe à Prefeitura fazer a ponte. O tema moradores de rua se confunde com ordas de craqueiros, punguistas, pequenos meliantes. Ao poder público cabe cuidar de quem precisa de saúde pública e assistência social, usando a lei, as regras, a força do poder de Estado contra os atos infracionais. Há locais em Porto Alegre em que reina o estado de natureza, tão temido por Hobbes há séculos atrás, propondo um Estado autoritário. Não é nossa visão. Mas tem gente que quer reinar na cidade na base destas políticas que mostraram ao mundo sua falência. Nós propugnamos uma cidade democrática, cidadã, sustentável e inclusiva. Com radicalidade vamos buscar uma urbanidade plena, com claros direitos e deveres de parte do governo e dos cidadãos. Vamos erguer uma Ágora do tamanho da Capital, abarcando cada questão, cada problema, encontrando soluções coletivas e pactuadas. Mas não vamos repetir nenhuma das demagogias dos últimos tempos, nem tergiversar sobre temas dados. Os que necessitam de amadurecimento terão dia e hora para decidir e tocar o ritmo que uma metrópole exige de seus governantes. As pessoas terão uma cidade que se mexa e deixe as pessoas se mexerem, sem obstáculos. A mobilidade será radicalizada com ações públicas. Estaremos abertos às Parcerias Público-Privadas, elevando sempre o interesse público como divisor de águas. Haverá espaços plenos para o trabalho local ou dos que aqui querem ter seu lar. Será, portanto, uma cidade acolhedora. Não haverá barreiras para investidores, resguardados os interesses da cidadania, pois seremos a Capital Turístico-Cultural do Mercosul. Em algum momento houve uma suspensão da modernidade que floresceu no início do século XX. Agora, cravaremos uma cunha profunda, para nos separarmos do atraso reinante. Olhares para frente, sem esquecer que a Revolução de 23, que dividiu o Estado, criou o autoritarismo gaudério e a grenalização política. Faremos um enterro sem pompas deste passado, com uma lápide para ensinar a nós e às gerações futuras: “Aqui jaz o atraso”. Nas flores daqui, novas vidas e cores vão surgir e tomar conta de Porto Alegre.

Adeli Sell é escritor e consultor, acadêmico de Direito. Foi vereador por 16 anos.

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19 respostas

  1. O discurso da paranoia e do medo não tem limites, pode eleger governador ou fazer explodir preços. Já vivemos isso na década de 80… o comportamento de manada produz ações burras.

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  2. No começo ele fala de pesquisa secreta, qual a referência?

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  3. Em 2016 provavelmente vencerá a Manuela do PCdoB, virá pregando um discurso de esquerda, mas que nada mais será que mais do mesmo, ou seja, aumento da passagem todos os anos e aquele chororô que a cidade não tem dinheiro para fazer nada, greve dos professores e tudo mais… A única pessoa que me convence que pode fazer algo de diferente por nós, caso vença as eleições, é a Luciana Genro.

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    • Ta louco!!! Luciana Genro é esquerda igual a Manuela…. tu não ve que elas são semelhantes cara ?
      Coitados de nós caso uma delas vença….

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      • Sério que tu acha a Manuela comparável a Luciana? A Manuela não é mais de esquerda que o Fortunati, que aliás, o pessoal esquece que é de esquerda desde o berço.

        Honestamente não acredito que a Manuela seria pior que nosso atual prefeito, mas também não acho que seria melhor. Para mim parecem farinha do mesmo saco.

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    • Ao menos Manuela é esquerda só na casca, mas Luciana é esquerda até o caroço, incluindo todos os relativismos absurdos que você possa imaginar.

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    • Ta louco, a cidade já ta acabada, quer afundar de vez?

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    • Claro que a cidade não tem dinheiro. Tinha quando o Fogaça saiu mas estamos devidamente endividados por uns 30 anos para construir viadutos e duplicar avenidas.

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  4. Hahahaha… Tento respeitar a opinião do ex-vereador, mas não acredito que hoje ele tenha a solução para os problemas da cidade.
    Daqui a pouco estaremos aplaudindo redação escrita pelo Pujol sobre progresso.
    Não é a revolução de 23 que nos divide, mas sim a incompetência tanto do lado bravateiro da esquerda petista quanto do lado da pior direita da américa latina, no caso, a direita portoalegrense. Para mim, assim como para muitos, não existe mais divisão, mas consenso, os dois lados são medíocres, vigésima divisão da política publica mundial. E não estão dispostos a mudar, apenas alternar-se no poder.

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  5. O Adeli fala que vai existir uma lápide escrito Aqui Jaz o Atraso.

    Pois se depender dele, o atraso vai continuar, pois não sei se sabem que ele foi CONTRA a construção do Pontal do Estaleiro.

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  6. O Adeli como escritor é um ótimo consultor.

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  7. Queriam o que desse prefeito ????? votaram nele por causa de uma passagem grátis no segundo onibus .

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    • Não, votei nele por que depois de anos com Porto Alegre parada no tempo, ele fez algo.
      Poderia ter feito mais, mas das opções durante as eleições, o povo ia votar em quem?
      Não tinha outra escolha.

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  8. Eu gostava mais do layout antigo do site, era mais agradável. E comentários do Disqus. Apenas minha opinião.
    Abraço

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    • Tu é a única pessoa que não gostou…
      E eu não posso usar o Discus, pois o Blog é um .com. Somente os .org podem usar vários recursos.
      Estou planejando uma série de mudanças pra breve, inclusive fundir o site de fotos (que já é um blog) e este blog, criando algo como uma revista eletrônica mais dinâmica, mais abrangente.
      Quando eu fizer isso, vou ver se pago hospedagem novamente e aí implanto essas mudanças. Com certeza ficará bem melhor.

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