Cinco erros de design urbano que geram comunidades inativas e pouco saudáveis

Há tempos os subúrbios sofrem com projetos arquitetônicos que desencorajam exercícios, mas tais erros estão tornando os bairros cada vez mais prejudiciais aos moradores.

Todos nós queremos estar em forma, saudáveis e felizes, mas nossas melhores intenções – seja fazer compras, manter a dieta balanceada ou equilibrar a vida pessoal e profissional – podem acabar nos iludindo.

Pelo menos um pouco da culpa pode ser colocada naqueles que projetam os espaços das cidades que chamamos de lar. Muitos aspectos da vida nos centros urbanos desencorajam os estilos de vida que podem contribuir para nossa saúde e bem-estar. Sabemos da batalha travada para incentivar a caminhada contra a dependência de veículos, mas esse fator não é o único.

Abaixo estão cinco erros frequentemente cometidos ao se projetar o desenvolvimento para áreas urbanas – e sugestões de como criar comunidades mais saudáveis.

Muitas cercas, portões e barreiras

Portões e cercas são instalados por razões de segurança, mas muitas vezes acabam desencorajando as pessoas a caminhar e praticar exercícios. (Foto: Luciano Paiva)

Portões e cercas são instalados por razões de segurança, mas muitas vezes acabam desencorajando as pessoas a caminhar e praticar exercícios. (Foto: Luciano Paiva)

Levantar e sair de casa é quase sempre o primeiro passo para quem deseja adotar uma postura mais saudável. Mas em nome da segurança, novos projetos incluem muitos portões e barreiras. Os projetistas frequentemente focam em construir o que pensam ser mais seguro. Mas ao mesmo tempo em que isso ajuda a reduzir o crime, também desencoraja as pessoas a caminhar por seus bairros. Algumas vezes colocar tantos portões e barreiras entre as pessoas e as ruas pode ter o efeito contrário, tornando as áreas menos seguras. Isso pode levar a desertificação dos espaços públicos e pátios cercados pouco convidativos.

No lugar de grades, designers podem chamar atenção para a rua encorajando as pessoas a caminhar ao ar livre, criando espaços com maior fluxo de pessoas e, consequentemente, mais seguros.

Fracassar em descobrir o que os moradores querem

Quem pode identificar melhor a pouca área verde, alimentação ruim e a falta de locais para exercícios em uma comunidade do que as próprias pessoas que vivem nela? As reuniões de bairro sempre foram a maneira tradicional de consultar e entender o que uma comunidade quer, mas esses encontros consomem tempo e nem sempre conseguem os melhores resultados, pois atraem quase sempre as mesmas poucas vozes que representam suas próprias poucas vontades.

A internet permite que muitas vozes possam opinar sobre o local que vivem. Sites como o Spacehive permitem que comunidades sugiram melhorias para suas áreas e levantem, por meio de crowdfunding, o dinheiro necessário para que elas aconteçam. Sejam as melhores rotas para caminhadas e corridas, academias ao ar livre ou ciclovias, as pessoas que financiam os projetos podem ter uma ideia clara sobre o que os residentes realmente querem. Isso diminui o risco de gastar dinheiro que os moradores não queiram.

Esquecer os serviços extras

Pode ser fornecendo um sistema de car-sharing ou um local para estacionamento de bicicletas ou um projeto cooperativo de cultivo de alimentos. Qualquer iniciativa que abranja um estilo de vida saudável e poupe algum tempo dos moradores pode aliviar o estresse e tornar os centros urbanos mais agradáveis.

Serviços compartilhados em edifícios têm o benefício de ajudar a fomentar um senso de responsabilidade compartilhada, reunindo as pessoas para manter e desfrutar de seus espaços comuns. Esse compartilhamento resulta em mais tempo livre no dia-a-dia dos moradores que podem ocupar esse período indo à academia, correndo ou com a família. Locais seguros para bicicletas ou sistemas de bike-sharing podem acabar com o desafio de guardar uma bicicleta nos pequenos apartamentos e encorajar as pessoas a pedalar para o trabalho.

Ninguém quer projetar espaços verdes

O parque High Line de Nova York é um exemplo claro do tipo de área verde que as pessoas apreciam, mas que acabam sendo uma reflexão tardia no processo do design. (Foto: David Berkowitz)

O parque High Line de Nova York é um exemplo claro do tipo de área verde que as pessoas apreciam, mas que acabam sendo uma reflexão tardia no processo do design. (Foto: David Berkowitz)

Levar as pessoas a explorar sua vizinhança a pé ou de bicicleta requer que esse seja um passeio atraente. Afinal, há uma razão para as pessoas irem a parques para passear com os seus cães, ou correr para se exercitar. Apesar de espaços verdes serem construídos, eles tendem a ser uma reflexão tardia na cabeça de quem projeta as cidades. Tais espaços comumente são caracterizados por pequenos pedaços de grama que parecem mais apropriados para os cães fazerem suas necessidades do que para caminhada ou exercício dos habitantes.

No lugar desses pequenos espaços deveriam ser projetados parques que possibilitassem aos cidadãos caminhar cercados por vegetação e ar puro – em vez do habitual concreto e fumaça do escapamento dos carros. Esses parques podem ser novos ou mesmo remodelados a partir de infraestruturas já existentes – A Highline de Nova York (foto), por exemplo, é um parque de 2,4 km construído sobre uma ferrovia elevada que estava fora de uso.

Não projetar uma vizinhança agradável primeiro

Um estilo de vida saudável não significa apenas ser fisicamente ativo: é essencial providenciar um ambiente amigável no qual todos sejam felizes e positivos sobre onde vivem. Enquanto constroem ambientes atrativos e de alta qualidade, os desenvolvedores deveriam se certificar que os futuros moradores vão interagir uns com os outros.

Uma pesquisa aponta que alguns elementos arquitetônicos contribuem para uma tendência mais sociável nas vizinhanças, como  portas de entrada sempre voltadas para a rua;  varandas e sacadas a uma distância de até 10m. Outro aspecto importante para essa interação é a vida ativa nas ruas, mas para isso é preciso atrair pessoas para fora de casa, portanto, espaços para crianças brincarem e clara visibilidade da rua podem fomentar o sentimento de segurança e conforto. Ser visível para nossos vizinhos – em distâncias horizontais e não um em cima do outro como nos prédios – é crucial para tornar nossas cidades mais sociáveis.

Artigo publicado originalmente no The Guardian em 28/07/2015.

Claire Mookerjee é Urbanista da Future Cities Catapult, parceira da EMBARQ Brasil na Missão Cidades Sustentáveis Brasil | Reino Unido que aconteceu no início do mês. Saiba mais.

TheCityFixBrasil – 30 de julho de 2015



Categorias:Acessibilidade, Arquitetura | Urbanismo

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