Ambientalistas questionam mega-empreendimento em Belém Novo

Cosmam debateu projeto de urbanização da Fazenda Arado Velho  Foto: Tonico Alvares

Cosmam debateu projeto de urbanização da Fazenda Arado Velho  Foto: Tonico Alvares

A construção de condomínios de alto padrão na Fazenda Arado Velho, que fica no bairro Belém Novo, na zona extremo-sul da Capital, foi tema de discussão na Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam), na manhã desta terça-feira (11/8). Estiveram presentes na Câmara Municipal de Porto Alegre representantes do Executivo e de entidades em defesa do meio ambiente. Previsto para ser implantado numa área de mais de 420 hectares, o Empreendimento Urbanístico Fazenda do Arado deve contar com cerca de 1,2 mil imóveis. No entanto, Felipe Viana, do Instituto Amigos da Terra Brasil, lembrou que um projeto que tramita na Câmara altera o regime urbanístico na região, autorizando a construção de até 2,3 mil habitações.

Ele também apresentou um vídeo com cenas aéreas da região e disse que parte do empreendimento está dentro de uma área de proteção primária. E apontou alguns problemas no estudo de impacto ambiental aprovado. “Existe um projeto tramitando para recriar a Zona Rural em Porto Alegre. Mas, por causa desse empreendimento, a Zona Rural já perderia cerca de 100 hectares”, ressaltou.

Questionou, ainda, o impacto causado pelo empreendimento numa área com densa vegetação e banhados. “Qual a metodologia usada para provar que as áreas úmidas não são banhados? E qual a estimativa de aterro da área?”

Pelo Centro Acadêmico da Engenharia Ambiental da UFRGS, Iporã Brito Possantti lembrou que os campos de várzea são considerados banhados sazonais. “Os banhados permanentes ficam na beira do Guaíba, mas os campos úmidos são sazonais, ou seja, ecologicamente são banhados e, como tais, são habitat de espécies de banhado.”

A engenheira agrônoma Claudia Steiner lembrou que já existe o Terraville na região. “Agora teremos esse outro, e assim por diante. Vão seguir abrindo as portas para novos empreendimentos. Do ponto de vista urbanístico e de desenvolvimento, será que é válido analisar apenas um empreendimento de forma isolada? Ou devemos analisar como um todo?”, questionou. “O mesmo vale para o Estudo de Impacto Ambiental, que é muito limitado e não abrange a área inteira. Se aterrarmos aquela área, para onde vai essa água que está ali acumulada? Vão alagar os vizinhos que não moram no condomínio?”

Conselheira da Região de Planejamento 8, do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA), Rosane de Marco afirmou ser favorável ao empreendimento. “Desde que sejam cumpridas as restrições apresentadas e as demais demandas de urbanização apresentadas pela comunidade.”

Já Eduardo Cezimbra, morador de Belém Novo, reclamou que a zona sul vem sendo invadida pelo concreto e pelo rolo compressor do progresso econômico. “A bolha imobiliária não consegue parar. A falta de planejamento criou o caos no trânsito. E projetos como este promovem a gentrificação.”

Empreendedores

Rudy Fork, fundador da Fork Projetos (escritório responsável), afirmou que o empreendimento será construído dentro de uma área de ocupação rarefeita. “Todas as situações são de baixa densidade e atendem as diretrizes do Plano Diretor, pois teremos cinco unidades habitacionais por hectare. Além disso, a Secretaria de Urbanismo propôs uma diretriz para que seja criada uma espécie de barreira para o crescimento desordenado da cidade em direção ao sul do território.”

Falando pela Profill Engenharia e Ambiente, Juliana Taret ressaltou que os estudos para identificar as áreas mais propícias começaram em 2010. “Esta gleba tem características importantes de preservação ambiental. Dos 426 hectares, cerca de 140 hectares são de morros e de uma Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN), que não serão mexidos. A estimativa que temos é de que apenas 16,4% da área será aterrada”, comentou.

Representando a Arado Empreendimentos Imobiliários, Taufil Neto garantiu que a intenção é preservar a maior parte da área. “Nosso projeto é calcado em análises técnicas realizadas pela própria Prefeitura.”

Executivo

O diretor-geral-adjunto Ronaldo Napoleão salientou a importância do empreendimento para o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae), que pretende construir uma nova estação de tratamento de água numa área do loteamento que será doada ao Dmae. “A estação de tratamento de água que temos no bairro Belém Novo está no limite. Temos projeto para construir uma nova estação com capacidade para 4 mil litros por segundo. É uma questão estratégica, pois vai atender a 11 bairros, inclusive a Lomba do Pinheiro”, afirmou.

O engenheiro agrônomo Paulo Jardim, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam), revelou que não acompanhou o processo desde o início. “Sei que o estudo de impacto ambiental tramitou em várias secretarias e foram estabelecidas uma série de restrições até chegar ao aceite”.

Segundo ele, a etapa agora é do Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU). “Para isso, é necessário também a aprovação de um projeto de lei que altera o regime urbanístico. Ou seja, o empreendimento ainda não tem licença prévia, pois não existe um detalhamento de como será feita a ocupação dos locais dentro do condomínio. Mas as restrições ambientais já estão lançadas para que o empreendimento cumpra.”

Vereadores

A vice-presidenta da Cosmam, vereadora Jussara Cony (PCdoB), salientou que discussão sobre o empreendimento não começou agora e não deve terminar tão cedo. “Todas as lideranças partidárias entenderam que devemos aprofundar mais o debate.”

A vereadora também lembrou que existe uma comissão especial tratando do projeto de recriação da zona rural. “Esta é uma questão que precisa ser avaliada de forma integrada. O parecer dessa comissão especial será importante para a cidade.”

O presidente da Cosmam, vereador Marcelo Sgarbossa (PT), acrescentou que uma visita ao local foi marcada para o dia 21 de agosto. “Todos os vereadores estão convidados.” Também participaram da reunião os vereadores Dr. Thiago Duarte (PDT), Kevin Krieger (PP) e Mario Manfro (PSDB).

Texto: Maurício Macedo (reg. prof. 9532)
Edição: Carlos Scomazzon (reg. prof. 7400)

Câmara Municipal

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A área em azul é a área do empreendimento ao sul do bairro Belém Novo e as áreas em vermelho são as áreas que receberão o status de zona rural novamente.Observe a sobreposição de mais de 100 hectares na área proposta.

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O que está sendo proposto pra área:

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Fonte das imagens: Facebook da Audiência Pública sobre o empreendimento

 



Categorias:Imóveis, Meio Ambiente

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21 respostas

  1. É fato que a anos a expansão pro sul da cidade esta descontrolada. eu moro no bairro cavalhada a 23 anos, antes lá na eduardo prado e a 5 anos mais próximo do cristal e vi na prática o impacto no transito… o corredor na cavalhada foi um alívio pra quem pega transporte público, mas dou graça a Deus que eu não pego mais essa avn pra voltar pra casa…

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  2. Bem, a verdade é que a zona sul de POA – em sendo um núcleo dumas das maiores metrópoles do país – é uma região de natural expansão. O problema é que tá ocorrendo de forma pouco regulamentada, sem políticas decente de expansão e com muitas, mas muita, invasão. A prefeitura não pode mais fingir que a cidade termina no cristal. Eu acho um tiro no pé reinstituir uma zona rural, é sem lógica, assim como fico com um pé atrás com condomínios. Política de loteamento urbano é muito mais salutar pro tecido da cidade. Mas convenhamos que se se fizer isso, a galera que não aceita que a cidade ainda cresce, vai fazer barulho. Enfim, aguardemos pra ver como é esse tal empreendimento, diz que vai ter hotel, então é capaz de ter boa conexão com áreas públicas.

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  3. Poderia haver um otimo PLANEJAMENTO de uma área RESTRITA da zona sul para ser uma espécie de Barra da Tijuca, com prédios altos (ocupando e desmatando muito menos do que um mar de casas) e muito verde.

    Mil residências em prédios altos ocupa muito menos area do que mil casas.

    E se for com planejamento e regras, esses predios altos deveriam ter muito verde em volta.

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  4. O bourbon na juca vai melhorar um pouco, depois viram outro investidmentos privados que estao de olho na regiao como o shpping cavalhada… Cassol e big ja se adiantaram… Depois da tristeza eh praticamente uma zona residencial apenas… De maneira geral eh precisao sair da regiao para ir atras de servicos… E a cavalhada e wenceslau nao dao estao dando conta da demanda.

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  5. Ajudaria muito a zona sul a linha do catamarã para ligar ipanema ao centro da cidade. Evitaria praticamente todos os gargalos das vias que ligam a zona sul ao centro. Muito mais barato que duplicar vias, certamente.
    Aliás, se for para duplicar vias da zona sul a lista é grande! Aquele trecho da wenceslau escobar, no final da tristeza, que vira pista única com uma parada de ônibus bem no gargalo é o cúmulo. As av. coronel marcos e tramandaí são uma vergonha. A Av. Cel. Marcos tem uma pista e meia. A Tramandaí tem pista simples com paradas de ônibus na via. Caminhões manobrando e carros convertendo, assim como ônibus e lotações paralisam o tráfego quando querem.
    A alteração na rótula da interseção Eduardo Prado x Juca Batista ficou muito ruim após a última alteração que colocou os semáforos. Funcionava muito melhor antes. Os semáforos deveriam ser somente para pedestres, com botão e afastados da rótula.
    A Av. Edgar Pires de Castro é uma vergonha. Muito tráfego, muito comércio com estacionamento na beira da via, veículos convertendo em qualquer lugar. Uma armadilha em qualquer horário. A prefeitura encheu de quebra-molas, o que piorou o que já era ruim.
    Para mim, a solução para o tráfego na zona sul é o catamarã. Resolveria, com muito menos custo, a maioria dos problemas que citei.

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  6. Vai ter Bourbon na Juca Batista?

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  7. AMBIENTALISTAS, vulgo ECO-CHATOS!!

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  8. aguardem pra assitir o video de drone na área do empreendimento…. dai tirem suas próprias conslusões !

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    • Onde conseguimos o video Felipe ?

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      • A construção em questão parece grande para ser só um supermercado. Não vai ser grande como os demais “bourbons”, mas acredito que terá um número considerável de lojas. Talvez do tamanho do shopping João Pessoa a parte do shopping e um grande hipermercado junto.

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  9. Eu gostaria de entender o que querem os ecoxiitas……!?!?!?!
    Condominios com dezenas/centenas nao pode pois ocupa uma area imensa….edificios que iriam concentrar mais pessoas em uma area menor sao demonizados com “espigoes”.
    Nao querem casas, nem edificios…so mato !
    Acho que a solucao e’ mandar a populacao crescente dividir a casa/apartamento deles!

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  10. Não sei se é legalmente possível, mas acho que deveriam impedir a expansão da área urbana de Porto Alegre (a não ser que fosse para a construção de bairros “caminháveis” mistos ou comerciais), pois essa expansão para a Zona Sul está seguindo muito o estilo dos subúrbios americanos, o que resulta em congestionamentos e mais deslocamentos de carro. Teoricamente, cada um deveria ter a opção de querer de morar longe, mas quando ocorre como está sendo com a Zona Sul, a opção é individual e o ônus (engarrafamentos, obras públicas, viadutos horríveis) é público. Se há necessidade de mais imóveis, é só verticalizar mais (residencialmente) a cidade, diminuindo as distâncias e tornando o transporte público de massa mais economicamente viável. É só seguir o exemplo de Hong Kong.

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  11. ^^ ESPIGAO ns terra do NAO?

    Impossible!!!!

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    • Hahaha, é verdade. Mas mesmo com o limite previsto em Porto Alegre é possível manter uma densidade alta. No Bom Fim, por exemplo, há 30000 pessoas/km².

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  12. temos que chegar em alguns consensos…os condominios de luxo que está acontecendo na região extremo sul são fruto do crescimento imobiliário e não por demanda de crescimento populacional. Basta ver as campanhas de imobiliárias como “A zona Sul é tudo de bom”, “Prazer em viver na ZS” etc. Porto Alegre é capital que teve o menor crescimento populacional nos ultimos tempos. Estamos exterminando com ZS sem deixar um grande parque pra região. Falo em parques urbanos como Parcao MArinha etce não UC.. .Aqui não é o local adequado pra falar em reforma urbana, funcao social das propriedades outorga onerosa da terra, Estatuto da cidade etc. Nossa cidade quem apita as regras é a especulacao imobiliária em detrimento do coletivo Se o interesse do coletivo for transformar essa área de 420 ha em parque urbano e parque natural que seja feito, desde que o prefeito tenha culhão assim como o SP teve fazendo 200 km de ciclovia, muitas delas em cima de estacionamentos… O video foi apresentado na audiência e será reeditado em breve. Aviso que tem imagens impressionantes do que sobrou de orla com caracteristicas naturais

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  13. segue video do local do empreendimento que no momento tem metade de sua [area voltando a ser rural.mas a câmara dos vereadores vendida ja vai dimunir em 200 hectares. PIADA de mal gosto !

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  14. Porque esta averçao so desenvolvimento organizado. Quanto tempo Poa estará na vanguarda do atraso? A quem interessa esta regeiçao aos condominios organizados. Sera que a sociedade prefers as invasoes? Isto son rende voto qua di o politico vai e promete regularizar.

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