Rastros de um dia de chuva no centro de Porto Alegre, por Adeli Sell

O Mata-Borrão, década de 60.

O Mata-Borrão, década de 60.

Caminhando contra o vento num dia destes de chuva, saíra do Edifício Condor da Andrade Neves, me alegrei de ver uma limpeza que fizeram no Clube Espanhol, me dei para lembrar do Mata-Borrão, prédio de uma arquitetura sui generis que existia ali na esquina com a Borges de Medeiros, colocado abaixo sem explicação, hoje ocupado pelo “Tudo Fácil”.  Desci pela “Rua 24 Horas” que nunca existiu, apesar de tão defendida pelo saudoso Isaac Ainhorn, um sujeito com quem se conseguia debater em alto nível na Câmara(como também era o caso do João Antônio Dib). Por sinal, esta já foi “beco”: Beco do Coelho, Beco do Brito, Beco João Carvalho, para depois virar Travessa Itapiru. Hoje, é uma rua sem identidade: Travessa Acylino de Carvalho.

Antes de ir ao Mercado, para almoçar, para debater com amigos sobre um livro que estamos organizando, passei na Saraiva para comprar “Convite à Filosofia”,  de Marilena Chauí;  indicação de minha professora. No trajeto, uma vendedora maluca de não sei que bugiganga na Rua da Praia, fugindo da chuva e não dos fiscais da Smic, me atropelou, sem pedir desculpas. Não é novidade, porque as pessoas nesta cidade, especialmente no Centro andam pilhadas. Outros vendedores de ilicitudes, com chuva e tudo, estavam nas marquises, no seu território privatizado.

Fiquei lembrando o livro “Rua da Praia”, do jornalista Nilo Ruschel, com suas histórias fenomenais. O que ele escreveria sobre ela agora com seus camelôs, o lixo espalhado, o cantor gospel desafinado, o caipira-sertanejo com aquela cantoria melosa em cima de uma letra brega? O que diria o homem que cunhou “Cidade Sorriso” para a Capital?

Talvez quem pudesse escrever um “Anedotário da Rua da Praia” III seria o Renato Maciel de Sá, porque coisas risíveis ele acharia, afinal de contas é melhor rir de certas coisas do que chorar.

Era o dia dos turbilhões de ideias. Lembrei que nesta rua conheci o Paulo Brossard, o jurista que nos deixou há pouco, bem como outras figuras. Foi ali que participei nos anos 70 de vários atos e manifestações, tantos e tantas foram que virou Esquina Democrática quando ela encontra a Borges de Medeiros. Foi ali que ouvi e vi de perto o velho Ulysses Guimarães. Ali também a Polícia me prendeu, porque fizemos um ato contra o imperialismo ianque, num protesto acho que era contra o Reagan. Afinal, foram tantas as vezes que a memória nem sempre alcança tudo.

Prédio do Guaspari, com seu terrível revestimento metálico. Foto: Gilberto Simon.

Prédio do Guaspari, com seu terrível revestimento metálico. Foto: Gilberto Simon.

Ah, ali os Andradas do velho Império encontram o caudilho castilhista Borges. É. Histórias e histórias se passando, e o ventinho deste inverno intermediado de calores me fez prosseguir. Ao passar pelo Guaspari – prédio desfigurado com aquele envelopamento ridículo – uma obra, para não esquecer, do arquiteto Fernando Corona, inesquecível professor do nosso Instituto de Artes, recebo uma flauta de um vendedor de cigarros do Paraguai. Nem respondo.

Piso no Largo Glênio Peres e a primeira lajota está solta e levo um banho. Dou mais um passo e vem dois garotos grudados no celular e quase me levam ao chão. Que dia! Resolvo entrar pelo portão principal do Mercado, aquele do relógio, que ninguém vê ou olha. Passo ali pelos decks, ideia que sofremos para impor a alguns que são contra tudo e todos, três deles estão “sem uso”, tomados de bebuns, moradores de rua, de desocupados. Sujos e com uma fedentina atroz.

Antes de chegar ao restaurante no térreo um tampão de ferro me chama a atenção porque tem um buraco nele, enferrujado e carcomido pelo tempo, esperando uma moça enfiar o salto e se estatelar ou uma criança desavisada quebrar o pé. Dou-me conta que nosso Mercado, passados mais de dois anos do último sinistro, não está recomposto. Pelo contrário, está cada vez mais abandonado. Sumiram as fitas antiderrapantes das escadarias, os banheiros andam de mal a pior. Por que me esqueci de ir ao banheiro antes de sair para chegar nele…

Ah, mas o agradável ao final disto tudo, é que consegui comer uma rabada com aipim, por um preço decente. Na saída, encontro um amigo que me convidou para no dia seguinte almoçar com ele, pedindo para escolher entre o Naval e o Gambrinus. Como ele vai pagar, vou pensar seriamente num bacalhau. Afinal de contas, a vida é para ser vivida.

ADELI SELL é consultor, escritor e acadêmico de Direito.

Enviado diretamente ao Blog Porto Imagem.



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