Ônibus em Porto Alegre: por que manter a gratuidade da segunda passagem

Por Filipe Wels

Algum tempo atrás, escrevi um texto criticando o preço então cobrado pelos táxis porto-alegrenses. Disse que eram desproporcionais e abusivos. Recebi críticas que diziam que eu não tinha conhecimento do verdadeiro custo da corrida de táxi, que legitimaria o preço até então praticado.

Os fatos me deram razão. Se hoje, com a concorrência dos carros particulares de aplicativos, os táxis dão descontos de 30% pelos aplicativos Easy e 99 e 25% pelo do Sintaxi, é que os preços que então praticados eram abusivos. Do contrário, não seria possível oferecer descontos desse nível.

Agora, se, antes da chegada da concorrência,os táxis já praticassem um preço aceitável, possivelmente teriam uma demanda muito maior – e já consolidada- e o consumidor não visse vantagem em usar aplicativos como o Uber. Agora, como havia uma demanda reprimida em virtude dos altos preços ( e também de outros fatores), veio a concorrência, que conseguiu suprir essa fatia do mercado.

Uma obviedade econômica que muitas vezes é despercebida pelo setor público é: aumento de preços (ou de impostos) muitas vezes não equivale a aumento de arrecadação. Se eu vendo um produto por 5 reais e resolvo ampliar minha margem de lucro e dobrar o preço, duas coisas acontecerão. Primeiro, parte dos consumidores deixarão de consumir este produto para substituí-lo por outro mais barato, ainda que de qualidade inferior. Segundo, será  criada, no mercado, uma demanda não suprimida. Basta algum concorrente perceber isso e oferecer produto semelhante pelo preço anterior de 5 reais e pronto- perdi parte do mercado. E no afã de aumentar os lucros, aumentando o preço, o que consegui foi gerar concorrência, e perder dinheiro.

O mesmo se aplica com impostos. Estamos em recessão há 3 anos e o governo federal insiste em querer aumentar impostos para tentar diminuir o déficit público. O resultado disso seria: empresários deixando de investir, empregos deixando de serem gerados, assim como consumo e renda. E queda da arrecadação. É visível que os diversos ministros da fazenda que tivemos nunca foram apresentados à curva de laffer.

E, finalmente, com  o fim da gratuidade da segunda passagem.

Foto: Gilberto Simon

Um argumento de quem defendeu o aumento é o velho chavão do “não existe almoço grátis”, esquecendo que, dependendo da ocasião,o almoço supostamente grátis é mais rentável que o almoço cobrado.

O transporte público de Porto Alegre é o pior entre as principais metrópoles brasileiras. Basta viajar um pouco para perceber isso. Não temos um sistema de BRT, nem de metrô. Temos várias linhas sobrepostas, o que resulta engarrafamentos e lentidão nos ônibus. Linhas de ônibus têm intervalos de 15 minutos ou mais, isso em dias de semana. Nossas paradas de ônibus são desconfortáveis e inferiores às das periferias de Rio e São Paulo. Não temos painéis digitais informando quando chegam os próximos ônibus, algo que também não é incomum em outras capitais. No final de semana, o serviço de ônibus é extremamente deficiente.

Todas as ações do poder público vão na contramão do que seria o mais racional a ser feito. E não falo da atual gestão da prefeitura. Sempre foi assim.

Todo ano, quando se aumenta o preço da passagem, vem a justificativa de que caiu a arrecadação por conta da queda do número de passageiros. Isso chega ser risível. Ou seja: seu produto é ruim e ninguém quer comprar. O que seria racional, lógico e coerente a fazer? Investir para melhorá-lo, baixar os preços para atrair consumidores ou as duas coisas ao mesmo tempo. O que fazem nos ônibus de porto-alegre? Aumentam o preço mais ainda. Aí, como reação, o número de usuários cai de novo. Então, no outro ano, aumentam o preço de novo, para tentar compensar a perda, que vai fazer o número de usuários cair mais ainda, e assim por diante.

Agora, acabam com a gratuidade da segunda passagem, na contramão das principais metrópoles do Brasil. Além de ser o pior, nosso transporte público também será o mais caro. Só que existe um fator novo que vai fazer com que essa decisão dê um prejuízo maior que o esperado: transporte individual passou a ser concorrência ao transporte público.

O Uber adota em São Paulo o Uber Pool, corridas compartilhadas com preço que chega a ser 40% inferior ao UberX. É questão de tempo chegar em Porto Alegre. Seu concorrente Cabify dá vouchers com descontos consideráveis com frequência. O mesmo com o recém chegado 99Pop. Os táxis tradicionais também baixaram seus preços. Além disso, o Easy Taxi oferece a possibilidade de dividir o táxi, fazendo o preço cair pela metade.

O resultado disso é que o preço do transporte particular, seja por táxi, seja por carro particular, com a cobrança de duas passagens, passa a ser mais barato que o ônibus. Ou pouco mais caro a ponto de não compensar pelo tempo que se dispende com o transporte público.

Não é comum esperar 15 minutos na parada pelo ônibus. Agora, faça o seguinte raciocínio: espere 15 minutos pelo ônibus, ande 20 minutos até onde for pegar o segundo ônibus. Mais 15 minutos na parada e mais 10 minutos no  segundo ônibus. Total: uma hora.

Agora, com o mesmo trajeto feito através de transporte privado, pagando 2 ou 3 reais a mais. Qual seria sua opção?

Ontem, fiz uma simulação : da minha casa até o Hospital Divina Providência, pelo Google Maps, eu levaria uma hora e quarenta e nove minutos de ônibus e 18 minutos de carro. De carro, pelo Easy Taxi, que estava com desconto de 40% por promoção do Visa Checkout (além dos 30% normais), me custaria 10 reais.

Da mesma forma, quando vou caminhar no Parque Moinhos de Vento, frequentemente consigo algum desconto por aplicativo que me fornece um carro por 5 ou 6 reais. Não vou gastar 4 reais para ficar 15 minutos esperando na parada de ônibus, que é praticamente o tempo inteiro de deslocamento de carro.

Pessoas são agentes racionais que fazem cálculos racionais para tomar uma decisão. Dentro desse cálculo, são considerados tanto o fator dinheiro como o fator tempo. Racionalmente, 2 reais valem menos que uma hora e meia de seu dia economizados ( ou 3 horas, contando a volta).

A prefeitura ignora que os carros particulares estão invadindo o mercado relevante do transporte público. E, ao cobrar pela segunda passagem, estão dando um golpe de morte nessa modalidade de transporte (e não preciso mencionar que mais carros na rua equivale a mais congestionamento, poluição e custo com manutenção de ruas). Deveria agir para fortalecer nosso transporte público, e não o contrário.

E para fortalecê-lo, basta fazer com que a arrecadação aumente, aumentando-se a demanda por ônibus. E isso se faz de uma maneira simples: fazendo com que se torne atrativo andar por esse meio de transporte. Atacando os problemas de alta espera, de linhas sobrepostas, de paradas desconfortáveis. Mas, ao invés disso, aumenta o preço, acreditando que haverá resultados, com o mesmo raciocínio do governo que aumenta impostos quando temos recessão (para gerar mais recessão ainda e arrecadação mais baixa).

Façam uma grande reformulação do transporte de Porto Alegre para torná-lo atrativo. Ou acabem com ele. O fim da gratuitade da segunda passagem simplesmente vai acabar com qualquer aumento de arrecadação que se espera ter pela queda do número de usuários que vai se seguir a isso. O que é uma grande lástima.

* Filipe Wels é Advogado e um dos fundadores do Blog Porto Imagem

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Categorias:Artigos, onibus

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10 respostas

  1. Uma Coisa que vejo todo dia quando estou indo trabalhar, é pessoas andando de graça dentro dos onibus, sim isso mesmo, gratuitamente, pois já conhecem os motoristas, e ficam na frente, e os cobradores olham e não fazem nada, como se ninguém estivesse ali, ou entram por traz, ai eu pergunto cade a fiscalização ? isso não é de agora que está acontecendo, sempre foi assim, eu acho que tinha que ser feito algo urgente no transporte de POA, pois o que vejo quando me desloco é de ficar de boca aberta, onibus velhos circulando, onibus sem tampa do ar condicionado circulando, mes passado estive em SP e os onibus la dão de 10 a zero nos daqui, tudo bem que estou falando de SP, mas vamos pegar um lugar mais perto, Caxias do sul, tem uns onibus articulados novos, e outros também. por que POA não pode ter ? por que aqui tudo é dificil de se realizar, o transporte de POA, precisa de uma renovada total urgente.

    Queria deixar claro que essa é opinião minha.

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  2. Mesmo ineficiente o transporte publico de Porto Alegre ainda vai transportar muitas pessoas por um bom tempo e ao meu ver cada vez pior.Eu não sei como é remunerada as linhas portanto se tiver muitos ou poucos usuários o permissionário ganha a mesma coisa tudo fica como esta para pior.Se transportar pessoas por onibus em Porto Alegre dá tanto prejuizo as empresas eu sugiro construir uma igreja com as imagens dos donos das empresas e canonizá-los pois são anjos,pagam para trabalhar,não há outra explicação viável. O ideal seria uma empresa publica séria bem gerida e com um sistema racionalizado e eficiente.Sabe quando isto vai acontecer? Nunca.A melhor idéia que eu já vi sem metro foi o de Curitiba e pelo que sei a passagem está cara e o sistema não está o bixo,o futuro talvez seja este para muita gente o compartilhamento de unidades individuais,bicicletas e até a pé,por que não.

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  3. Boa tarde.

    Artigo interessante. Parabéns.

    Procurei saber como funciona a compensação da gratuidade mas não consegui esclarecer.

    A gratuidade já esta embutida no valor das passagens ou é subsidiada pela prefeitura? Essa informação é crucial.

    Abraço.

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    • Até onde sabemos, todas as gratuidades (segunda-passagem, idosos e meia de estudantes) estão embutidas no valor da passagem.

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      • Bom, se a gratuidade não é subsidiada pela prefeitura acho melhor, pois seria mais um custo pra sociedade.

        Sendo embutida no valor da passagem é menos pior, digamos, pois ao menos o custo fica restrito aos usuários. Não que isso seja bom, como falei é menos ruim.

        Vale a pena comparar com o Trensurb que é subsidiado pelo governo federal. Ou seja, toda a sociedade paga o custo de parte de operação, mas somente os usuários são beneficiados.

        Enfim, um assunto polêmico e com muitos interesses em jogo.


        https://polldaddy.com/js/rating/rating.js

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    • Todo o custo do sistema é distribuído entre os usuários pagantes, ou seja, quem paga as atratividade é quem paga a passagem.

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  4. Opiniao interessante!
    Concordo que a saida seria investimento, inovacao, e reducao na passagem. Porem, estamos falando de Brasil. Tirar cobradores reduziria custo. Investir em onibus hibridos ou eletricos reduziria o custo do km rodado. Sincronizar linhas otimizaria viagens e aumentaria o numero de passageiros por onibus. No entanto, a maioria dessas solucoes tem barreiras. Acredito que onibus eletricos ainda sao muito caros no Brasil (nao sei se o governo isentou os impostos). Retirar cobradores o sindicato nao deixaria (a principio).
    Enquanto uma solucao inteligente nao chega, os aplicativos de carona ganham.

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    • O problema maior é que investimentos que podem otimizar custos são vistos apenas como gasto.

      Um BRT simples, como o que era prometido, otimizaria a quantidade de linhas e o tempo de espera nas principais vias da cidade, mas não siau do papel porque “é caro”. Gastamos dinheiros com a troca da pavimentação dos corredores mas não temos sistema nenhum. Retirar os cobradores, mesmo que aos poucos, também diminuiria o custo, mas então teríamos retaliações por parte dos sindicatos etc.

      Ônibus elétricos realmente barateariam o custo por km rodado, pois o kW/h é mais barato que o litro da gasolina (está certo que o consumo energético vai além disso) mas um ônibus elétrico não tem necessidade de troca de peças como filtro de óleo, ar e diesel, bomba de combustível, boia do tanque de combustível, radiador…
      Como o motor elétrico transmite muito menos vibrações que um motor a combustão, o chassi dura muito mais, e a vida útil do ônibus seria muito maior. Mas como o custo inicial do veículo elétrico (por enquanto) é maior, as empresas de ônibus fogem deles.

      O que poderia baratear os veículos elétricos no Brasil? Desenvolvermos tecnologia aqui! Mas o governo e as empresas acreditam que Pesquisa e Desenvolvimento é “gasto”, porque o retorno não é imediato. Então lá vai o Brasil gastar mais dinheiro importando tecnologia, tendo de pagar para países que investiram em P&D anteriormente.

      E nem mais a duração da carga da bateria é um empecilho, hoje temos ônibus elétricos que conseguem rodar de 160 à 250 km com uma carga da bateria (a linha D43 por exemplo, roda 14,5km no sentido centro-bairro), e podem segui carregando quando param ou ter um sistema de pantógrafos e catenária, um meio termo entre um trolebus e um elétrico puro, por exemplo.

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  5. Concordo com voce Filipe. No meu caso, trabalho a 8 km de casa, pego 2 onibus para ir e 2 para voltar, existe uma linha que só funciona de madrugada, que atenderia o meu caso, com apenas 1 onibus. Com a cobrança da segunda passagem fica mais vantajoso pra eu ir de carro (R$4,05×4= R$16,20 – 2l de gasolina R$8,00), sem contar o tempo de espera, que em alguns dias chega a 40 minutos (20 min para cada onibus) tem duas linhas que posso usar e as duas ten intervalo de 20 min e as duas fazem o mesmo horario, quer dizer andam juntas (isso é um deboche com o usuario). Em dias normais demoro em torno de 35 min para chegar ao trabalho de onibus e 10 min de carro. De cabify essa corrida custa em media R$12,00 e de taxi RS19,00. Realmente é de se repensar o transporte urbano, sem contar que a prefeitura está sucateando a Carris para depois privatizar. Com excessão dos onibus mais novos(os laranjas) todos estão desmanchando, não da pra conversar dentro do onibus, sem manutenção alguma, e quem sofre são os usuários. Se liberassem o transporte coletivo para particulares, bom acho que ai sim teriamos um transporte de qualidade.

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    • Eu já fiz esses cálculos quado comprei o meu primeiro carro. Há algo muito errado com o transporte coletivo em Porto Alegre, pois como é que pode ser mais barato de carro com uma ou duas pessoas, contando depreciação e seguro do que de ônibus carregando 40?

      O motivo são uma série de ineficiências.
      1. Necessidade de duas pessoas, motorista e cobrador, para transportar pessoas;
      2. Leis que limitam a idade dos ônibus, logo compra-se ônibus de baixa qualidade q dure pouco;
      3. No sistema, todos ganham quando a tarifa aumenta, seja os 7,35% das operadoras seja os 3% da EPTC. Logo, por que economizar?
      4. Linhas em zigue-zague, com sobreposição e muito longas, que circulam vazias em alguns trechos e muito lotadas em outros:

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