920 metros e muitas expectativas: expansão do Salgado Filho começa esta semana

Investimento previsto para ampliação do aeroporto é de R$ 1,5 bilhão nos próximos três anos

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Pista do Salgado Filho será expandida em 920 metros | Foto: Alina Souza

Com previsão inicial de investimentos de R$ 1,5 bilhão nos próximos três anos, terá início a partir do dia 22 de março o projeto de expansão e de melhorias do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. O evento, que contará com a presença do governador José Ivo Sartori e outras autoridades, marca o que deverá ser a nova era do terminal diante da concessão à empresa alemã Fraport, tornando-o um hub internacional para o transporte de carga. O novo momento é representado pela expansão em 920 metros da pista, obra que vinha se arrastando nas duas últimas décadas e enfrentando diversos entraves e, ao que tudo indica, será concretizada, apesar de ainda depender especificamente a remoção das famílias que moram na beira da área da pista.

Mas o que representa o lançamento da pedra fundamental do Salgado Filho Airport para o Rio Grande do Sul? Os reflexos podem ser observado por vários panoramas. Para alguns empresários, a ampliação da pista, assim como a expansão do terminal 1, deve ser comemorada como “a chegada de uma indústria de grande porte” ao Estado, como define o presidente da Agenda 2020, Humberto Busnello. A lógica é simples. Com a pista mais ampla, haverá um impulso considerável no transporte aéreo de carga (importação e exportação), que atualmente é limitado em Porto Alegre. “Com essa operação haverá uma geração de impostos muito significativa e que está concentrado em São Paulo”, explica o empresário. A estimativa é que, quando o aeroporto estiver funcionando a pleno, gere por ano, apenas em impostos, cerca de 500 milhões de dólares, aproximadamente R$ 1,7 bilhão.

Apesar de reconhecer que as melhorias estão atrasadas, o presidente da Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura, Paulo Menzel, ressalta que esse é um momento relevante e deve ser celebrado. “Esses 920 metros vão proporcionar que o Estado possa escoar a sua carga aérea. A realidade hoje é que 96% das cargas saem do RS para os aeroportos paulistas – são 1,3 mil quilômetros de distância – para depois voar para o resto do mundo”, lembra. Os prejuízos econômicos estimados são variados. Mas ele projeta que a falta de infraestrutura adequada do Salgado Filho faz com que o Estado deixe de gerar R$ 13,3 bilhões ao ano. “Esse faturamento que poderia ocorrer aqui acaba se efetivando em outros lugares”, cita.

Além da geração de riquezas, a nova estrutura representará um ponto positivo no custo logístico do Estado, que tem um peso considerável na questão da competitividade. O coordenador de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Ricardo Lins Portella Nunes, acredita que a opção do transporte de carga aéreo torne mais barato o custo de logística, aumentando o lucro ou pelo menos não criando um prejuízo às empresas. “Ter uma logística é fundamental para sermos um Estado competitivo”, aponta. “É um atrativo às empresas. O que se gasta nesta perna rodoviária (que é levar a carga pelas rodovias até São Paulo) inviabiliza muitos os negócios. Acreditamos que será o início de um círculo virtuoso”, defende.

Neste círculo abre-se espaço para novos produtos serem comercializados. Especialmente os itens com maior valor agregado e que precisam de deslocamento rápido para o mercado exterior. “Vai trazer novas perspectivas de negócios e de produtos, que atualmente não temos condições de exportar com rapidez”, avalia Busnello, da Agenda 2020.

Mas também há outros benefícios que deverão vir com essa expansão de 920 metros. Em função da melhor ocupação da aeronave, a previsão é de que outras linhas e conexões passem a operar no terminal, especialmente voos de longas distâncias. Isso porque atualmente, com a pista mais curta, o avião tem a capacidade limitada, tornando inclusive o voo mais caro, além de não receber aeronaves de maior porte. Com a melhor utilização, a quantidade de combustível pode ser ampliada, assim como o seu peso, o que amplia as possibilidades no transporte de carga, como já apontado. Diante das alternativas, o presidente da Associação Nacional em Defesa dos Direitos dos Passageiros do Transporte Aéreo, Claudio Candiota Filho, acredita que poderá ainda haver redução nas tarifas. “Rentabiliza o voo. A empresa lucra no conjunto da operação, não só no número de passageiros”, detalha.

Porém, se de um lado há reduções, de outros há aumentos esperados. O diretor de Segurança e Operações de Voo da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Ronaldo Jenkins, ressalta que nos terminais já concedidos houve o registro do aumento no valor de taxas e tarifas às empresas áreas. “Vários custos que estão previstos nos contratos, não podem ser elevados. Porém, há outros que são livres e acabam tendo aumento maior”, explica. Ao mesmo tempo, considera que as melhorias são consideráveis e, que além dos fatores já citados, a pista mais ampla traz vantagens operacionais. “É importante termos flexibilidade e poder voar com capacidade total. São só benefícios”, exalta, além de considerar as melhorias na infraestrutura aeroportuária como um novo momento da aviação nacional.

Apesar de ser contrário ao processo de esvaziamento da Infraero e concessão dos maiores aeroportos, o Sindicato dos Aeroviários de Porto Alegre acredita que as melhorias vão trazer maior segurança aos funcionários. Segundo o diretor de comunicação do Sindicato, Osvaldo Rodrigues, é preciso avançar neste ponto de garantir as melhores condições de trabalho. Ele cita, por exemplo, o caso que ocorreu em que um funcionário que ficou ferido ao ser atingido por um raio na pista. “A nossa preocupação é exatamente nos momentos com maior movimento ou de instabilidade no tempo”, destaca.

As obras da pista e a conclusão da ampliação do terminal 1, que teve início na gestão da Infraero, também eliminam possíveis dúvidas em torno das operações do Salgado Filho, como o seu esvaziamento diante da construção de um novo aeroporto na Região Metropolitana, o Vinte de Setembro. “O projeto em outra cidade não seria benéfico aos porto-alegrenses. O Salgado Filho é um diferencial na cidade que muitas vezes não é lembrado, com facilidades de acesso e localização”, diz Candiota Filho. As mudanças realizadas no edital de concessão, que viabilizou o leilão no ano passado, foram consideradas fundamentais para este momento, como aponta o coordenador do Comitê de Defesa do Aeroporto Salgado Filho, que reúne cerca de 70 entidades, Alcebíades Santini.

Mesmo assim, ele diz ter receio de que o projeto de expansão da pista possa atrasar. “Temos que manter o acompanhamento intenso e permanente do andamento das obras”, disse Santini. A preocupação, que é compartilhada por Candiota Filho, tem justificativa. A novela da remoção das famílias que ocupam as proximidades do aeroporto não é recente e se arrasta especialmente pela última década. “A desconfiança permanece até ver a obra começando. Porque no edital diz que a remoção deve ocorrer em até 54 meses e não depende da empresa. É um assunto que precisa ser acompanhado de perto porque depende do poder público”, alerta ele.

Apesar dos receios, a questão da transferência das famílias que ainda ocupam a cabeceira da pista ganhou um fôlego importante neste mês de março. Após quase dois anos, houve a retirada de pessoas que invadiram um condomínio construído especificamente para receber parte dos atuais ocupantes das vilas. Porém, agora é necessário aguardar que a Caixa Econômica Federal, que é a responsável pela construção do condomínio, faça os reparos e termine efetivamente a construção. Segundo o Departamento Municipal de Habitação de Porto Alegre (Demhab), o levantamento realizado em 2010 indicava a presença de 1.250 famílias na vila Dique, sendo que destas ainda falta retirar 300, que irão para condomínio próximo ao Porto Seco. Da vila Nazaré, na época eram 1.200 famílias. Neste caso, haverá uma atualização no cadastro para dar sequência ao processo de transferência, que será para o conjunto habitacional no Sarandi e para outro que está em construção, com previsão de término até o final do ano. Assim, a desocupação total da área na beira da pista ainda deverá evoluir em 2019.

Que obras são essas?

As melhorias que terão início neste mês no Salgado Filho integram o pacote mais relevante dos investimentos relacionados à concessão, que envolve a expansão do terminal 1, a extensão da pista, adequação das vias de taxiamento e melhorias no sistema de drenagem do aeroporto. Para a execução, a Fraport contratou um consórcio – grupo HTB, Tedesco e Barbosa Mello -, que também será responsável pelos funcionários que vão atuar na obra. Um ponto positivo é que as licenças ambientais para o início das obras já foram emitidas. Em relação à contratação de profissionais, deverá chegar a 700.

O conjunto de melhorias tem prazo de conclusão até 2021, segundo o contrato assinado entre a Fraport e o governo federal, sendo que para a ampliação do terminal 1 a data é 2019. “Nossa meta é criar um aeroporto moderno, eficiente e focado no cliente. Estamos trabalhando para oferecer o nível mais alto de qualidade em serviços, operação e segurança”, define a CEO Fraport Brasil – Porto Alegre, Andreea Pal.

Correio do Povo

 



Categorias:Aeroporto Internacional Salgado Filho

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1 resposta

  1. A primeira “obra” vai ser afastar os drones do entorno.

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