Restauro abre debate sobre o Sítio O Laçador

lacadorO Laçador. Monumento mais importante do Rio Grande do Sul está a caminho da restauração; mas e a simbologia do seu sítio, será mantida? A incógnita cerca o futuro dos signos do local, ligados ao tradicionalismo gaúcho

A restauração do monumento mais importante do estado, O Laçador, vai deixar nos trinques a desgastada estátua que adorna uma das entradas de Porto Alegre e a frente do aeroporto Salgado Filho. Mas e os símbolos que foram instalados junto à figura que teve como modelo o tradicionalista Paixão Côrtes? O destino do Sítio O Laçador, onde o monumento está desde 2007, é uma incógnita.

Por meio do Projeto Construção Cultural, que já recuperou monumentos no Parque da Redenção, o Sinduscon (Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Estado do RS) prevê que até julho ou agosto deste ano o valor necessário para a reforma da estátua estará disponível. O recurso de R$ 1,2 milhão será obtido por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

O vice-presidente do Sinduscon, Zalmir Chwartzmann, espera que a obra possa iniciar entre setembro e novembro. O Laçador será retirado do seu local, levado a um pavilhão da Fraport no aeroporto e restaurado ali. Mas não há previsão sobre o que será feito com o sítio. “O nosso projeto é de recuperação do monumento e para devolvê-lo ao local de origem”, afirma Chwartzmann. O Sítio O Laçador foi projetado para conter uma miríade de referências ao tradicionalismo. Por exemplo, os oito jerivás plantados na área – nem todos permanecem ali – representam o Grupo dos Oito, que criou o MTG.

Para o coordenador da Memória Cultural da Secretaria Municipal da Cultura, José Francisco Alves, o simbolismo não “emplacou”. “O local atual foi bem planejado. Mas não emplacou o simbolismo geral da praça, incluso pelos adeptos das tradições gaúchas. Em muitos aspectos, está exilado.” Na opinião de Alves, um novo sítio deveria ser criado. Talvez até em outro local que o aproximasse mais das pessoas. “O problema é para onde ir. Centro e orla têm muito equipamento urbano. Em hora do pique, como chegar? Na perspectiva de turismo futuro, melhor seria deixar onde está, não afogar a área central.” Mas a discussão é longa. “Todos têm opiniões apaixonantes. Monumentos despertam paixão. Tudo isso é positivo.”

Famílias citam proximidade e local

Na família de Paixão Côrtes, não existe um receio de que o legado do tradicionalista possa ser afetado caso o Sítio O Laçador deixe de existir. O que importa é que o monumento seja restaurado, de preferência com novo laço, já que o atual, substituto do original, furtado, não segue o padrão do anterior. Também querem que a estátua fique mais próxima das pessoas.

Filho do tradicionalista, Carlos Paixão defende que “laçador sem laço é terrível”, o que demonstra sua preocupação com a originalidade. Porém, sobre o sítio, prefere mudanças. “Não é um lugar de vínculo, de ida. Se remodelar ou mudar de lugar, seria interessante. Deve ser pela valorização do espaço. A gente vai ter um símbolo ao longe ou mais próximo?”, questiona. Irmã de Carlos, Ana Paixão reclama que as pessoas acabam não parando no sítio. “Ali não tem nenhuma estrutura física, uma pipoca, nada”, argumenta.

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A visão da neta mais velha do escultor Antônio Caringi, autor da obra, é diferente. Antonella Caringi de Aquino prefere o monumento onde está. Ela lembra que o Laçador já foi removido do Largo do Bombeiro, próximo do ponto atual. “Era um lugar na entrada da cidade. Agora permanece mais ou menos na direção onde estava. É um sítio muito bonito. Eu sou a favor de que o povo deve ir à obra, e não a obra ao povo.” Antonella recorda que a transferência de lugar causou estragos na estrutura. “Acho ruim ter saído dali. Tiveram que concretar, e aí é que vieram os problemas.” Uma reestruturação do sítio talvez fosse melhor. Para Antonella, ali a obra “já tem uma história, uma referência”.

O governador Eduardo Leite prefere deixar a decisão para a prefeitura, porém comenta: “É importante que esteja num lugar de destaque. Talvez aquele em que tenha sido colocado, em função das obras viárias no acesso à cidade, tenha de alguma forma prejudicado a visibilidade. Acho que tem de ser uma decisão de uma forma que a população possa participar”.

André Mags – Jornal Metro – POA – 11/04/2019



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Monumentos, Outros assuntos

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3 respostas

  1. Monumentos urbanos desta relevância simbólica, acabam por contaminar com ela os lugares onde se encontram. Na minha opinião, levar o Laçador para outro lugar significa mutilar este referencial urbano. Se o local já não oferece o destaque devido, que se promova um redesenho do local para restabelecer este destaque. Desenho Urbano e Projeto de Espaço Público…. existem para isto ! O resto é “buscar a solução mais fácil”…..Infelizmente, parece que ainda não aprendemos a lançar mão dos recursos e estratégias adequadas para manter vivos nossos valores urbanos !

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  2. Quando não tinha a linha do trensurb,aquele viaduto a estatua tinha um lugar de destaque como simbolo do rs e não como objeto de culto como alguns querem,para mi8m poderiam deixar onde esta mas se quiserem que vire um objeto de culto talvez pudesse ser transferido para a redenção ou para aquele lugar que se chamava estancia da harmonia depois mudou de nome,com a urbanização da orla seria um bom lugar.

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  3. Triste a nossa realidade onde sequer somos capazes de manter saudável alguns girivás, vegetação tão comum no nosso habitat. Isso reflete bem o exemplo do arvoredo da cidade de Porto Alegre, entregue à sua própria sorte após sofrer manipulação errada dos cortes da CEEE, caçambas de caminhões e ônibus e constantemente batem em suas ramagens.

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