Os chafarizes minguaram

Problema centenário. Faz 145 anos que as fontes de Porto Alegre, sem a serventia do abastecimento, se tornaram um peso pela manutenção

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Na Redenção, a Fonte Luminosa, ontem: sem água, espaço passava por limpeza | JOÃO MATTOS/ESPECIAL

Porto Alegre começou bonito a sua história no quesito chafarizes. Em 1866, com cerca de 40 mil habitantes, a capital tinha oito fontes onde a população podia se abastecer de água – sete franceses em ferro fundido e um italiano, de mármore. Naquele ano, havia sido inaugurada a Companhia Hidráulica Porto-Alegrense e, ainda que a cidade ficasse distante do centro do país, tinha dinheiro e inspiração para escolher exemplares de qualidade em catálogos, que baseavam as encomendas das peças a fábricas europeias.

A água chegava de um reservatório localizado onde hoje está a Assembleia Legislativa, segundo José Francisco Alves, coordenador da Memória Cultural da Secretaria Municipal da Cultura e autor do livro “Fontes d’art no Rio Grande do Sul”. “Eram cercadas, e a água era vendida”, observa. Ele compara o caso de Porto Alegre com o de outras capitais do país, que, apesar de maiores, não contavam com tantas fontes. “Salvador também importou chafarizes da França, quatro. Porto Alegre tinha o dobro. Em Salvador, sobrou um.”

Mas o sistema durou pouco, já que uma nova tecnologia avançava. Três anos depois da instalação dos chafarizes, já havia 1.082 ligações de água encanada, conforme o livro “Porto Alegre Ano a Ano”, de Sérgio da Costa Franco. Em 1874, 40 ruas recebiam água canalizada, o que se traduzia em prejuízo à Hidráulica para manter as fontes operando. “As pessoas reclamavam que juntava mosquito”, destaca Alves. Sem manutenção, a era dos chafarizes chegou ao fim. Sobraram dois: os Afluentes do Guaíba, hoje a salvo das depredações na sede do Dmae, e o Chafariz Imperial, em reformas no parque da Redenção.

Problema centenário

A dificuldade de manutenção desse tipo de item arquitetônico, pode-se estimar, dura 145 anos em Porto Alegre. Hoje, a recuperação do Chafariz Imperial só é possível porque o Sinduscon (Sindicato das Indústrias da Construção Civil) assumiu a tarefa. “Sabe quando um carro tem que trocar óleo, filtro, pneus…?”, compara o diretor da entidade Zalmir Chwartzmann, sobre a situação em que estava o Imperial quando começou a reforma, em fevereiro deste ano. “A rede de água não chegava porque os canos estavam quebrados. E o motor estava quebrado”, ressalta.

A situação de abandono dos chafarizes da capital foi levantada na coluna de ontem do jornalista André Machado no Metro Jornal. Quando questionado por que o problema existe, Alves é sempre confrontado com o caso de Montevidéu, que preserva melhor seus bens públicos. “Eles têm uma manutenção um pouco melhor que a nossa, e a população cuida.”

Alvos de ataques se recuperam

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Fonte Talavera ganhará iluminação especial com PPP que será apresentada amanhã | JOEL VARGAS/PMPA

Outros chafarizes históricos da cidade também já foram alvos de intensa deterioração, e agora a prefeitura busca recuperá-los. A Fonte Talavera, doada pela Espanha e instalada em frente à prefeitura em 1935, não é a original. A obra de arte criada em 1855 pelo artista Juan Ruiz de Luna, em Talavera de la Reina, foi quebrada durante uma manifestação de carroceiros em junho de 2005 e nunca mais recuperada. A bacia que está no local, hoje, é uma réplica. O conjunto deve ganhar atrativo com a nova iluminação que receberá – o edital da parceria público-privada da rede municipal foi lançado na semana passada.

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Inaugurados em 2012, jatos do Centro não funcionam mais | IVO GONÇALVES/PMPA

A Fonte Luminosa, no parque da Redenção, também de 1935, passa por limpeza. Ontem, os sedimentos que se formam no fundo do tanque, junto a muita sujeira, estavam sendo retirados. É um panorama mais tranquilo do que o dos últimos anos, marcados por insistentes furtos de equipamentos responsáveis pela iluminação ou ejeção da água. Uma pena é que ver a água jorrando não é mais tão comum. Por economia, é difícil manter o funcionamento 24 horas por dia das fontes. METRO

Cidade francesa é exemplo por causa de suas fontes

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Fontaine d’Argent, em Aix-en-Provence | PREFEITURA DE AIX-EN-PROVENCE/DIVULGAÇÃO

Das cidades no mundo famosas por suas fontes, uma delas se destaca pela quantidade e qualidade ao mesmo tempo. Aix-en-Provence, no sul da França, é chamada de “a cidade das cem fontes”, tamanho a quantidade de chafarizes que a adornam.

As estruturas foram construídas entre os séculos 15 e 19 e têm nomes, formas e materiais variados. A Fontaine Moussue, por exemplo, datada de 1667, é basicamente um bloco de pedra tomado por vegetação, que ao longo dos séculos foram se fixando, enquanto do seu topo emerge a água. Um ano mais nova é a Fontaine des Quatre Dauphins, uma das mais famosas, com quatro peixes vertendo água pela boca. O segredo para manter tantas peças é claro: o turismo – e a renda que gera. Assim como outras cidades que são procuradas por turistas, Aix precisa conservar as fontes para continuar sendo um destino apreciado.

Jornal Metro – Porto Alegre – 12/06/2019



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Outros assuntos

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4 respostas

  1. Esses chafarizes secos e as desculpas devido ao gasto de energia que eles geram me fazem questionar: será muito complicado instalar placas solares para fornecer energia para os chafarizes?

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    • Certamente não, até porque se pode utilizar bomba com motor CC, o que torna bem mais barato por não depender de inversor.

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  2. poderiam utilizar a estrutura desse xafariz da redenção, ou do espelho d’agua, ou da propria Orla para fazer um show de águas, como fazem em Las Vegas. Funcionado apenas aos fins de semana e em dado horário, seria um grande atrativo, sem preocupação no custo de manutenção.
    Pesquisam sobre o show de águas em Las Vegas, é um sucesso turístico.

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  3. É bem triste como a cidade não cuida de seus espaços! Essa “fonte” da frente do Mercado Público quando inauguraram a primeira coisa que pensei foi: que coisa mais tacanha, tecnicamente fraca, patética mesmo. E pensamos que tipo de profissional se presta a fazer algo assim, que primeiro se vê insignificante e logo sequer funciona. Existem fontes nesse estilo de jorro direto da calçada em N cidades ao redor do mundo, uma mais bacana que a outra, e as pessoas adoram, as crianças então deliram, é um sucesso, uma festa. Seria ótimo que na frente do Mercado tivessem feito algo bem feito, como quem tiver interesse procure para ver a fonte luminosa com seus efeitos ultra bacanas que fica na frente do Monumento e Museu da Revolução Mexicana na Cidade do México, algo que poderia ter sido feito em POA, claro por alguém que fosse competente, e que é show.

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