Do BRT ao aeromóvel para a zona sul, Porto Alegre e as ‘grandes ideias’ não executadas

Campanhas eleitorais e debates entre candidatos são pródigos em apresentar ao eleitor soluções criativas para melhorar a vida dos eleitores. Nessa época do ano, tudo tem solução: escolas melhores; sistema de saúde mais eficiente; geração de emprego e o caos do trânsito nas grandes cidades, além dos temas “da moda” conforme o período, que podem variar da preservação ambiental, a desburocratização ou ao empreendedorismo. Nesse mar de ideias, algumas atravessam anos e mandatos e passam de prefeito para prefeito, até terem seu fim decretado sem nunca sequer haver existido.  

Mapa de apresentação dos projetos BRT e Portais da Cidade, muito discutidos até serem abandonados. Imagem: Divulgação

Símbolo da modernidade do transporte público no século 20, Porto Alegre sonha há décadas em se enfiar embaixo da terra para cruzar a cidade dentro de um vagão de metrô. A influência vem de longe. Em 1863, Londres inaugurou o primeiro metrô do mundo, movido a vapor, com 6,5 km. Paris, Berlim e Budapeste logo seguiram o exemplo dos ingleses. Em 1913, a vizinha Buenos Aires abriu ao público a primeira linha do gênero na América do Sul, 10,7 km ligando a Plaza de Mayo e a Plaza Miserere.

Na Capital dos gaúchos, o tema começou a circular no debate público na década de 1990. Os esboços iniciais traçavam linhas para diferentes regiões da cidade, estimulando a imaginação e o orgulho dos portoalegrenses. O tempo foi passando sem indícios de começar a escavação de algum túnel até que, em 2008, o tema ganhou corpo no debate eleitoral. No ano seguinte, na segunda gestão do prefeito José Fogaça (PMDB), a Copa do Mundo de 2014 permitia estimular todo e qualquer sonho de obra de transporte público, ainda que não se soubesse exatamente de onde viria o dinheiro.

Em 2011, já tendo José Fortunati (PDT) no comando do Paço Municipal, a Prefeitura incluiu o projeto do metrô no programa PAC Mobilidade Grandes Cidades. Viria de Brasília o recurso necessário para concretizar o sonho do metrô de Porto Alegre, a volumosa quantia de R$ 18 bilhões, sendo R$ 6 bilhões do Orçamento da União e R$ 12 bilhões em forma de financiamento. O clima era de “agora vai”.

A então presidenta Dilma Rousseff (PT) até mesmo anunciou a obra em outubro de 2011. E anunciou novamente dois anos depois, em outubro de 2013. Mas não foi. (…) Em dezembro do mesmo ano, com Michel Temer (PMDB) na Presidência da República, o governo federal anunciou que o recurso outrora disponibilizado estava sendo retirado. O motivo alegado foi a incapacidade da Prefeitura de Porto Alegre em conseguir, nos anos anteriores, formalizar a contratação das operações de crédito junto aos agentes financeiros do PAC Mobilidade.

Mais de 150 anos depois do primeiro metrô do mundo ser inaugurado em Londres, o transporte subterrâneo sobre trilhos continua sendo objeto de desejo e símbolo da “Porto Alegre do futuro”.

Os Portais

Outro exemplo “futurístico” é o projeto Portais da Cidade. Apresentado pela primeira vez em novembro de 2006 pelo então prefeito José Fogaça, a proposta consistia em construir três grandes estações (portais) de ônibus: o Portal Cairu, para coletivos das regiões norte e nordeste; o Portal Azenha, para receber ônibus da zona sul; e o Portal Largo Zumbi dos Palmares/Açorianos, na Cidade Baixa, para atender o fluxo de ônibus provenientes da Avenida Protásio Alves e zona leste. 

A ideia era que os ônibus, vindos de diferentes regiões da cidade, se dirigissem para os portais e, dali, haveria então a ligação com o centro da Capital por linha rápida. O objetivo seria diminuir a grande quantidade de ônibus que se dirigem ao centro de Porto Alegre, aliviando assim o trânsito na área central. Junto com os Portais da Cidade vinha a proposta do BRT (sigla do original, em inglês, Bus Rapid Transit). Em que pese ser possível chamar simplesmente de Transporte Rápido de Ônibus, houve o momento em que a sigla em inglês virou a panaceia para o trânsito nas grandes cidades do Brasil. E com Porto Alegre não foi diferente.

O projeto Portais da Cidade entrou na campanha eleitoral de 2008, quando Fogaça foi reeleito, tendo como vice-prefeito José Fortunati. Em 2009, a Câmara Municipal chegou a autorizar que a Prefeitura realizasse operação de crédito de US$ 100 milhões com a Cooperação Andina de Fomento (CAF) para realizar o projeto. No ano seguinte, ao assumir a Prefeitura da Capital, já com a Copa do Mundo de 2014 no horizonte, Fortunati pediu novos estudos técnicos sobre a proposta e começaram então as mudanças. O Portal na Cidade Baixa deu lugar ao Portal Zona Sul, localizado mais próximo do estádio Beira Rio, e a ideia dos portais serem grandes centros comerciais foi perdendo fôlego.  

Em 2011, depois de dúvidas e críticas técnicas sobre o efetivo resultado que a proposta de alto custo teria na melhoria do transporte coletivo, Fortunati pôs fim ao projeto que havia nascido cinco anos antes. A ideia do BRT, entretanto, se manteve.

Linhas e ideias rápidas

No período pré-Copa do Mundo, a “mobilidade urbana” foi a palavra da moda para definir os problemas estruturais do transporte público e do trânsito nas grandes cidades brasileiras, principalmente naquelas que sediariam jogos da Copa. O ano de 2011 se apresentou em Porto Alegre com grandes ideias. 

Em agosto, a Prefeitura lançou edital para receber estudos sobre a construção de estacionamentos subterrâneos na cidade. O objetivo, obviamente e sempre, era aliviar o trânsito, para isso criando mais vagas para carros. O projeto chegou a ser aprovado na Câmara em dezembro daquele ano. Em 2015, todavia, o governo municipal desistiu de construir o estacionamento subterrâneo no Parque da Redenção e, com o passar do tempo, o assunto foi esquecido. 

Algo semelhante ocorreu com o projeto do aeromóvel ligando o centro da cidade com a  zona sul. Em dezembro de 2011, a gestão Fortunati firmou um termo de cooperação com a Trensurb para analisar a viabilidade da obra. Os primeiros estudos projetavam mais de 7 km de linha, indo da Usina do Gasômetro até o Jockey Club, com 12 estações no percurso. Dois anos depois, a Trensurb entregou o estudo de demanda de passageiros. Na sequência, uma nova proposta estendeu o aeromóvel até a avenida Juca Batista, ampliando o traçado para 18 km de extensão. E então, em 2017, o atual prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) desistiu do projeto.

Dentre os projetos de mobilidade urbana pré-Copa, o BRT foi, provavelmente, o de maior repercussão. Reeleito prefeito em 2012, Fortunati começou o novo mandato em 2013 apostando nos ônibus rápidos. “Vêm aí os BRTs”, disse o então prefeito, ao completar 100 dias de governo. 

Em março de 2013, um modelo de BRT, com 24 metros de comprimento e capacidade para 166 passageiros, foi exibido no centro da cidade. No ano seguinte, ano de Copa do Mundo, a intenção era que muitos outros iguais estivessem cruzando velozmente as avenidas da Capital dos gaúchos. O projeto do BRT ainda previa bilhetagem eletrônica, monitoramento de veículos e controle e informação ao usuário. No ano seguinte, a bola rolou no Beira-Rio e nenhum BRT levou torcedores até o estádio da Copa.

Em agosto de 2017, já sob a administração Marchezan, o projeto BRT puxou o freio de mão para não mais ir adiante. Na ocasião, a Prefeitura anunciou que usaria o recurso obtido por meio do FGTS e do BNDES para concluir as obras paradas da Copa do Mundo de 2014. A explicação foi de que o valor obtido representava 25% do total do projeto BRT.

Modelo de ônibus BRT chegou a ser apresentado, em 2013, no centro da cidade. Foto: Ricardo Giusti / PMPA,Divulgação

Clique aqui para ler a totalidade da excelente matéria no SUL 21



Categorias:BRT, Meios de Transporte / Trânsito, portais da cidade

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15 respostas

  1. As empresas de onibus não fizeram um acordo milionario de indenização com a prefeitura pela subutilização das linhas e o não aumento da passagem este ano. Debate é bom mas não sacaram ainda quem é que manda no transporte publico em Porto Alegre. Não precisa nem fazer estudo para aeromovel,metro, BRT pois se sabe que não vinga. O trensurb que é um sistema sobre trilhos mais barato que um metro é deficitario dá prejuizo. hoje as pessoas pegam uber tem carro caminham andam de bicicleta pois não há saida. Porto Alegre infelizmente é um cemiterio de boas ideias nesta area.

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  2. O grande problema é que são ideias grandes, e não grandes ideias. Enquanto ficamos batendo pé que queremos metrô, Belo Horizonte está finalizando um ótimo BRT. Porto Alegre não tem demanda para metrô, eu já falei isso várias vezes aqui.

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    • A 4a metropole mais populosa do Brasil nao tem demanda no metro, enquanto cidades europeias com 300 mil habitantes têm?

      Cada uma que tenho que ler.

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    • Porto Alegre: 4 milhoes de habitantes. Não tem demanda pra metrô
      Colonia, Alemanha, 1 milhao de habitantes: 5 linhas

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      • Fala sério que você está comparando um país de primeiro mundo com um de terceiro mundo? Um país que pode subsidiar o metrô com um país que não pode? A propósito, o metrô de Colônia custa 2 Euros por viagem. Você estaria disposto a pagar R$ 13 reais aqui para cada viagem? É cada bobagem que tenho que ler….

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  3. Pequenas sutilizas do texto. Dilma e Fortunati tem partidos referidos. Fogaça e Marchezan, não.

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  4. Será que a falta de movimento para frente da cidade não seria um excesso de debate sobre os temas importantes? Exemplo é o projeto do Pontal, que foi submetido até a um plebiscito há uns 10 anos. São muitos grupos politizados que acabam achando dez problemas para cada solução e trancam a execução de projetos positivos com a desculpa de ter que discutir com a população e com os setores da sociedade

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  5. Golpe jurídico-parlamentar, hahaha. Página esquerdista, deixando de seguir.

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  6. É muito triste ler isto…. o relato de um episódio que revela o fracasso de uma cidade que não consegue realizar…. sabe-se lá porque razão….. algo tão básico… que inúmeras cidades já resolveram….. fica a pergunta: o que será que acontece nesta cidade… com esta comunidade….. que fica correndo faz anos… atrás do seu rabo… sem sair do lugar…..????? Afirmação forte? Olhem quem são os nossos candidatos a Prefeito…. Só faltaram o Colares, o Olívio Dutra e o Fogaça……

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    • enquanto isto….. o CAU pede meu voto…. para uma nova direção!!!! O que fizeram nossos colegas urbanistas em relação a toda esta mediocridade urbanística de Porto alegre e as administrações que sustentamos com nossos impostos??????

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      • Desculpem…. mas desde que entrei na PMPA … pela porta da frente……. o que mais vi…. raras e honrosas exceções….não foram servidores…. mas gente … se servindo… do CC ao colega concursado… ávido por um carguinho de merda….. e sem escrúpulos em pisar nos demais colegas par conseguir uma merdinha de uma FG….. triste….. assim fica difícil uma cidade avançar……

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        • Será que a falta de movimento para frente da cidade não seria um excesso de debate sobre os temas importantes? Exemplo é o projeto do Pontal, que foi submetido até a um plebiscito há uns 10 anos. São muitos grupos politizados que acabam achando dez problemas para cada solução e trancam a execução de projetos positivos com a desculpa de ter que discutir com a população e com os setores da sociedade

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  7. Se bem que no aeromóvel não levo fé para transporte de massa – zilhões de peças para dar problema e deixar o usuário na mão.

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