Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS divulga manifesto sobre mudanças no muro da Mauá, em Porto Alegre

Muro da Mauá foi construído para proteger a cidade contra inundações, como a ocorrida em 1941 Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

O IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) divulgou um manifesto público sobre o muro da Mauá, no Centro de Porto Alegre. O texto faz referência às manifestações de agentes públicos sobre remoção, redução ou substituição da estrutura com a revitalização do cais do porto.

Os pesquisadores entendem que o muro da Mauá pode ser substituído, desde que seja garantido, no mínimo, o mesmo grau de segurança que existe atualmente. “Caso haja redução no grau de proteção, alguém deverá se responsabilizar pelos riscos decorrentes, arcando com as perdas e danos eventualmente causados por inundações. O IPH disponibiliza seu corpo técnico para auxiliar no esclarecimento e no debate sobre alternativas”, diz o manifesto.

Confira, na íntegra, o texto divulgado pelo instituto:

Na assinatura do contrato de arrendamento da área do Cais Embarcadero, administradores públicos se manifestaram pela remoção, redução ou substituição do muro da Mauá. Este debate ressurge de tempos em tempos, mas é possível que nem todos que expressam suas opiniões estejam adequadamente informados sobre os aspectos técnicos que envolvem uma intervenção nesta estrutura de defesa contra cheias do Guaíba.

Nesse sentido, o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS vem a público contribuir com alguns esclarecimentos. As manifestações favoráveis à retirada total ou parcial do muro são, geralmente, acompanhadas de sugestões de que esta estrutura pode ser rebaixada ou substituída, com vantagens para o ambiente urbano, por algum tipo de estrutura móvel, ou até que ela é dispensável, já que desde 1941 não foi registrada cheia igual ou semelhante.

Algumas destas sugestões são relevantes, mas é necessário lembrar que o Muro da Mauá é apenas parte de um complexo sistema de proteção contra inundações de Porto Alegre, composto por diques, o muro da Mauá e casas de bombas. Ele inclui a BR-290 (Freeway), Av. Edvaldo Pereira Paiva, Av. Ipiranga e Av. Diário de Notícias, protegendo uma área que vai do Centro Histórico até os bairros ao norte (Farrapos e Humaitá) e a região do aeroporto.

O rebaixamento do muro reduziria o grau de proteção de todo o sistema, e o uso de estruturas móveis exigiria maior rigor na operação, manutenção e treinamento periódico. A modificação do muro da Mauá é uma decisão que deve ser baseada na razão e bom-senso, considerando benefícios e prejuízos gerados. Vale lembrar que, em pouco mais de 100 anos de registros, houve 4 eventos (1928, 1936, 1941 e 1967) em que o muro teria dado proteção efetiva e que, em 2015, o nível d’água ficou apenas 4 cm abaixo da cota do cais do porto. Além disso, nada indica que uma cheia igual ou superior à de 1941 não possa ocorrer outra vez.

Entendemos que o Muro da Mauá pode ser substituído, desde que seja garantido no mínimo o mesmo grau de segurança que temos hoje (incluindo a consideração de operação e manutenção periódicas). Caso haja redução no grau de proteção, alguém deverá se responsabilizar pelos riscos decorrentes, arcando com as perdas e danos eventualmente causados por inundações. O IPH disponibiliza seu corpo técnico para auxiliar no esclarecimento e no debate sobre alternativas.

Jornal O Sul



Categorias:Projeto de Revitalização do Cais Mauá

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25 respostas

  1. Sou a favor de tirar o muro. horrivel aquele cenario para a cidade.

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  2. Eu, particularmente, sou contra qualquer obra para mudar o sistema de contenção das cheias em Porto Alegre. Pode ser melhorada, mas não modificada ou substituída agora. Pra começar teria um custo elevadíssimo. Não tem sentido se fazer isso neste momento. O projeto de revitalização do cais Mauá não necessita que seja derrubado o muro para ser viabilizado, nunca foi preciso isso. Só a viagem de alguns que aproveitam a oportunidade e reivindicam essa ideia também. O cais pode virar um paraíso do entretenimento sem derrubar o muro. Querem acesso ao Guaíba, com visualização da água, acesso a barcos, Pôr-do-Sol, caminhem mais algumas quadras. Uma orla belíssima e urbanizada te espera (Trechos1, 2 e 3).

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  3. E deixar claro que ninguém esta pedindo que o muro seja derrubado como o muro de Berlim, de um dia pro outro. As pessoas esperam estudos técnicos embasados na realidade atual, onde os rios da bacia foram todos represados.

    A gente elogia e agradece a velha guarda que construiu esse muro no passado, sabemos das boas intenções que tiveram e merecem ser homenageados, podem até virar nome de rua em agradecimento, mas será que não existe nenhuma outra tecnologia disponível?

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    • Tecnologia existe, mas o custo é elevado. Na minha opinião uma forma de regular o nível do guaiba é executando barragens nos rios que desaguam nele. Também seria um investimento altíssimo só para dar ao portoalegrense a vista do guaiba nessa região específica do Centro

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  4. Acho que deveria ser feita um estudo mais ou menos assim:

    Uma enchente há cada 50 anos causaria um prejuízo de XX milhões de reais.
    A lucratividade de um centro histórico com qualidade espacial seria de XXXXX milhões de reais.

    E aí ver se não vale o risco. Veneza fica embaixo da água todo ano e ninguém morre afogado ou vai a falência porque a cidade aprendeu a lidar com isso. O lucro do turismo compensa o prejuízo da enchente.

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  5. Olha quando falam do muro me vem a lembrança do meu falecido pai,trabalhou por anos no DNOS que foi responsavel pela construção do muro e das casas de bomba que fazem parte do sistema de defesa contra as cheias. Eu não entendo nada disto mas gastou-se um bom dinheiro para executar esta obra e como já foi escrito aqui,hoje parte do Trensurb e os armazens tiram a vista do rio. Mas ai eu me pergunto quando um motorista esta dirigindo ele deve prestar atenção no transito ou no guaiba e para os pedestres,se quiserem ver o guaiba vá a orla ela esta urbanizada. Porto Alegre não tem dinheiro para executar outras obras esseciais para mitigar a sub moradia e a miseria periferica e vai gastar uma fortuna para alguns iluminados se sentirem mais felizes me poupem.

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    • Não tem nada a ver com o que você escreveu. O muro afasta fisica e visualmente a comunidade do convívio com o Lago – ele estabelece uma barreira que empobrece o centro histórico de Porto Alegre.

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      • Exato. Dizer que é para que alguns iluminados possam se sentir mais felizes é um argumento obviamente estúpido. Quanto a cidade não perdeu nesses 80 anos por isso? Quanto não perdeu por ter a fama de ser uma cidade feia, não turística? O porto Mauá revitalizado, com amplo acesso ao Guaíba traria uma vida nova à cidade. E depois de tudo, ainda o muro não evitou uma só enchente em 80 anos. Pense só numa esplanada ligando o Mercado Público ao rio, com amplo acesso, com visão liberada, o que não faria para o turismo, a auto-estima, a qualidade de vida. Chega de dizer também que é caro um muro desmontável, tendo em vista o que a cidade já perdeu em todos esses anos.

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  6. Em 2015 a cota do guaiba superou a cota da enchente de 1967. Como em 67 não estava concluido o sistema de proteção contra as cheias o estrago foi maior.
    A construção de barragens nos afluentes poderia contribuir com a regularização da vazão no guaiba. O rio Iguaçu, por exemplo, causava enchentes violentas que foram eliminadas com a construção de Itaipu.

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    • Ricardo, estás com os dados errados que saíram nos jornais, a cheia de 2015 foi de 2,94 m, e de 1967 foi de 3,13. Colo aqui a série completa (falha apenas em 1934).

      Ano Máximo Nível em metros (Ponta da Cadeia/Praça Harmonia/Cais Mauá)
      1899 2,60
      1900 1,48
      1901 0,98
      1902 1,99
      1903 1,45
      1904 1,51
      1905 2,50
      1906 1,53
      1907 2,00
      1908 1,69
      1909 1,52
      1910 1,34
      1911 2,05
      1912 2,13
      1913 1,19
      1914 2,60
      1915 1,91
      1916 1,78
      1917 0,98
      1918 1,49
      1919 2,21
      1920 1,60
      1921 1,58
      1922 1,68
      1923 1,75
      1924 1,61
      1925 1,31
      1926 2,60
      1927 1,56
      1928 3,20
      1929 2,05
      1930 2,35
      1931 1,70
      1932 1,84
      1933 1,34
      1934
      1935 1,64
      1936 3,24
      1937 2,51
      1938 1,43
      1939 1,60
      1940 2,24
      1941 4,75
      1942 2,33
      1943 1,6
      1944 1,9
      1945 1,26
      1946 1,55
      1947 1,67
      1948 1,68
      1949 1,71
      1950 1,91
      1951 2,1
      1952 2,06
      1953 2,52
      1954 2,91
      1955 1,8
      1956 2,32
      1957 2,08
      1958 2
      1959 1,99
      1960 1,77
      1961 2,16
      1962 1,25
      1963 2,67
      1964 1,73
      1965 2,72
      1966 2,61
      1967 3,13
      1968 1,18
      1969 1,36
      1970 1,71
      1971 1,72
      1972 2,21
      1973 1,93
      1974 1,48
      1975 1,64
      1976 1,84
      1977 2,13
      1978 1,19
      1979 1,66
      1980 1,58
      1981 1,54
      1982 1,97
      1983 2,35
      1984 2,56
      1985 2,15
      1986 1,73
      1987 2,36
      1988 1,98
      1989 2,00
      1990 2,22
      1991 1,45
      1992 1,94
      1993 2,07
      1994 1,86
      1995 1,96
      1996 1,62
      1997 1,96
      1998 1,97
      1999 1,46
      2000 1,86
      2001 2,40
      2002 2,46
      2003 1,82
      2004 1,56
      2005 2,06
      2006 1,38
      2007 2,44
      2008 1,62
      2009 2,45
      2010 1,84
      2011 2,08
      2012 1,74
      2013 2,04
      2014 2,11
      2015 2,94
      2016 2,65
      2017 2,51
      2018 2,18
      2019 2,1
      2020 2,61

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  7. Eu gostaria que algum desses especialistas deste instituto me explicassem, o por quê de diversas vezes, incluindo 2015, esse sistema ter se mostrado inefetivo, pelo menos na minha visão de leigo. Cito por exemplo o caso do 4º distrito, alagado nesse mesmo caso de 2015 e até mesmo em 2020 numa cheia muito menor, e em diversas outras ocasiões, assim como a água passando por baixo das comportas da Mauá, novamente em 2015, mesmo com o nível do rio tendo estado alguns centimetros abaixo do nível do cais. Imagine então em um caso extremo como 1941, com 1m de água acima do cais exercendo pressão nessas mesmas comportas.

    Pergunta novamente de leigo: como se impede que a água entre pelo escoamento pluvial pelo princípio de vasos conectantes? Não estou nem falando da total ineficácia que essas comportadas já demonstraram, pois não são totalmente vedadas.

    Fontes pra refrescar memórias:
    https://www.sul21.com.br/cidades/2015/10/fotos-guaiba-ultrapassa-armazens-do-cais-e-invade-orla-de-ipanema/
    https://portoimagem.wordpress.com/2015/10/12/prefeitura-fecha-ultima-comporta-do-cais-maua/
    https://portoimagem.wordpress.com/2015/10/17/dep-monta-barricada-junto-a-comporta-do-cais-maua/

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    • Adicionando, não sou contra ou a favor do muro, apenas questiono sua real eficácia. Acho bobagem reclamar que o muro “tira a visão do Guaíba” quando os próprios armazéns fazem isso. Além disso, mesmo em caso de uma improvável revitalização do cais, a suposta “segregação” que o muro causa entre o centro e o cais, sempre lembro a todos que o próprio Trensurb é um obstáculo que impede o acesso direto em metade da extensão do cais, da rodoviária ao portão geral. Sem falar da Mauá, uma avenida de 4 pistas. Demolir o muro não integraria o cais ao centro, a não ser que a Mauá e o Trensurb fossem subterrâneos, o que, sabemos não aconteceria em mil anos em Porto Alegre.

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    • mas ai o problema nao é o muro e sim o restante do sistema…

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  8. Interessante essa série histórica que mostra que em 1967 foi a última grande enchente e que antes desse ano era até algo recorrente, com 3 eventos. Até mesmo com as mudanças climáticas que vêm ocorrendo nos últimos anos, não houve uma enchente de mesma magnitude.

    Talvez a construção de barragens nos rios que desaguam no Guaíba tenha influenciado nisso. Frente a esses novos cenários, acredito que possa, sim, haver um estudo novo para que seja revisto o modelo de muro.

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    • Em 2015 a cota do guaiba superou a cota da enchente de 1967. Como em 67 não estava concluido o sistema de proteção contra as cheias o estrago foi maior.
      A construção de barragens nos afluentes poderia contribuir com a regularização da vazão no guaiba. O rio Iguaçu, por exemplo, causava enchentes violentas que foram eliminadas com a construção de Itaipu.

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  9. Texto lúcido, informativo e técnico. Devemos ouvir especialistas antes de políticos ou leigos que simplesmente acham feia aquela estrutura sem considerar sua importância técnica.

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  10. Ok. O texto apenas quer responabilizar alguem no caso da remoção do muro. Mas não traz alternativa alguma. Seria de se esperar do IPH. Tipi diques moveis, novos materiais pata diques e controles para água tipo piscinões pantanos etc. Esta é a função do IPH. Se não souber o que fazer de abrir um concurso para este fim.

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    • Claro que há outras opções para controlar as enchentes, mas todas exigiriam investimentos bilionários, enquanto o muro, os diques e o sistema de estações de bombeamento já esta pronto. Não vejo motivo pra derrubar o muro. Pra quem quer contato direto com o Guaíba já há uma orla novinha em folha.

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      • O motivo é a revitalização do Centro. Tornar o Centro um local turístico, com mais movimento, mais restaurantes, etc. Todo mundo ganha com isso. O muro, no entanto, não evitou uma enchente em 80 anos.

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