Rio Grande do Sul ganhará um distrito industrial eólico, num investimento de R$ 100 milhões

VIVER DE VENTO

No Estado onde são conhecidas pelo nome Minuano e Nordestão e inspiraram a mais famosa saga da literatura gaúcha (O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo), rajadas de ar se transformam em energia há quase três anos. Agora, vão gerar ainda mais riqueza e empregos. Cerca de uma dezena de fabricantes de equipamentos para aerogeradores se instalará em Guaíba. Está prevista para esta semana a assinatura do protocolo do cluster industrial eólico com o governo do Estado, que concederá incentivos para um investimento ao redor de R$ 100 milhões, com potencial para gerar 2 mil postos de trabalho.

Parque Eólico de Osório visto da BR-290 - Foto: Rodrigo Marques

Parque Eólico de Osório visto da BR-290 - Foto: Rodrigo Marques

Viver de vento está se tornando possível. A formação do cluster – conjunto de empresas que atuam no mesmo segmento em uma mesma região, como o polo calçadista do Vale do Sinos – culmina pouco antes do leilão de geração eólica previsto para 14 de dezembro, quando vários projetos previstos para o Estado disputarão a chance de tirar sustento do ar.

Embora o anúncio do cluster eólico preceda o leilão, a instalação das indústrias independe do volume de projetos gaúchos que consigam vender sua geração, assegura o coordenador da assessoria técnica da Secretaria de Infraestrutura e Logística, Edmundo Fernandes da Silva. A implantação é importante por representar a consolidação de uma nova tecnologia no Estado. Estrangeiras como a americana Windtec, a britânica Romax, a alemã LDW e a espanhola Aeroblade terão a companhia de indústrias brasileiras como a catarinense Weg para garantir índice de nacionalização de 85% – uma provável exigência do leilão.

Dos 86 projetos gaúchos cadastrados para o certame, 27 podem passar à fase seguinte, a de habilitação. Os selecionados serão conhecidos no dia 5 de dezembro. Esse é o número dos que já foram confirmados pelos empreendedores e receberam licença ambiental – condição para participar. O total no país chega a 441, mas as perspectivas mais positivas são de que 10% se concretizem. Tudo vai depender do detalhamento das regras, como preço máximo, ainda não conhecido pelos candidatos.

– Não queremos vantagens, mas também não aceitamos que outros tenham facilidades especiais. Quremos manter a data, porque, com as regras atuais, o Rio Grande do Sul tem uma chance muito grande de ser bem aquinhoado nesse leilão – avalia Fernandes da Silva.

Afinal, o Estado já abriga o maior parque da América Latina, o Ventos do Sul, em Osório, tem uma rede elétrica robusta para conectar os novos projetos à rede elétrica e está prester a facilitar o fornecimento de equipamentos. Além disso, Fernandes aponta outra vantagem:

– O Rio Grande do Sul tem situação estratégica. O Uruguai não tem mais de onde tirar energia, e a Argentina enfrenta dificuldades. Podemos nos tornar autossuficientes e exportar para os países vizinhos. Energia e equipamentos.

Torres do Parque Eólico de Osório - 140 metros de altura - Foto: Rodrigo Marques

Torres do Parque Eólico de Osório - 140 metros de altura - Foto: Rodrigo Marques

O RIVAL DO NORTE

Grande adversário do Rio Grande do Sul na disputa de dezembro, o xará do Norte teve o maior número de projetos cadastrados para o leilão do dia 14 de dezembro – 138, somando 4.745 megawatts.

Como foi só o primeiro passo, não significa que vai definir o grande campeão de vendas. No entanto, o entusiasmo do secretário extraordinário de Energia e Assuntos Internacional do Rio Grande do Norte, Jean-Paul Prates, indica que o páreo será duro:

– Nosso potencial eólico é o melhor do Brasil. Conseguimos ganhar no quesito atratividade, agora temos de ver como vamos nos sair na competitividade.

Mesmo exibindo a quantidade de projetos como troféu, Prates avalia que há “muita espuma” – ou seja, projetos com pouca chance de se concretizar. No Nordeste, estima, pelo menos metade. O secretário admite ainda que o Rio Grande do Norte “saiu muito mais de trás” na disputa pelos investimentos dessa indústria florescente, na sua avaliação ainda muito mal regulada.

– A gente sabe que nosso Estado tem mais dificuldade, e a principal é a conexão às linhas de transmissão – reconhece Prates.

Para driblar as deficiências, negocia com os empreendedores a implantação de Instalações de Interesse Exclusivo de Centrais de Geração para Conexão Compartilhada (ICG), forma de reduzir o custo e permitir que a energia gerada pelos ventos chegue à rede de distribuição. No Rio Grande do Norte, funciona o segundo maior parque do país – já que o Rio Grande do Sul abriga o maior da América Latina, o Ventos do Sul, de Osório. Mesmo assim, ambos enfrentam dificuldades. Os potiguares tentam construir, com ajuda do Ceará, um polo industrial bilateral para receber fabricantes de equipamentos, hoje poucos e concentrados no Sudeste.

– Cada aerogerador (conjunto de torre e pás) exige transporte em sete carretas. Se instalarmos cem aerogeradores, seriam 700 carretas trafegando pelas estradas – exemplifica Prates para justificar o empenho na atração de fornecedores.

Para facilitar a criação do polo, o Estado planeja lançar um pacote tributário, com participação ainda no financiamento de infraestrutura, água e terreno.

– Qualquer alívio fiscal que puder ser dado ao setor eólico será dado. Quem investir no Rio Grande do Norte poderá bradar aos quatro ventos, literalmente, que está produzindo e consumindo energia limpa. Hoje, isso pode parecer bobinho, mas no futuro vai valer muito – justifica Prates.

CATA-VENTOS MOVEM OSÓRIO

Osório - Foto: Rogério Penna

Osório - Foto: Rogério Penna

Será inaugurado nos próximos dias um símbolo do efeito do parque eólico em Osório. O Mirante da Borússia, que se alcança escalando a Serra do Mar por uma estrada em formato de M, não está no cume do morro nem dos investimentos do município em infraestrutura e turismo. Mas é o mais visível sinal de que os cata-ventos gigantes mexeram com a autoestima da cidade.

– Todo o país conhece os bons ventos de Osório. Quando visitamos outros Estados e falamos o nome da cidade, todos já sabem do parque eólico. Isso trouxe uma imagem muito positiva – testemunha o secretário do Desenvolvimento do município, Jorge Ramos.

A estrutura de R$ 600 mil tem a intenção de atrair turistas. Até há pouco mais de um ano, transitar pelas curvas fechadas da estrada do Borússia era um desafio não só pelo ziguezague morro acima, que desenha uma letra M. Pó e barro se alternavam para criar dificuldades a quem queria trocar o litoral pelo clima de serra em poucos minutos.

A estrada estreita ganhou asfalto, como muitas ruas de Osório desde o início da operação do parque, em dezembro de 2006. E o reforço de 2% no caixa da prefeitura – R$ 1,3 milhão numa receita de R$ 65 milhões anuais – permite outros voos. O próximo plano é um teleférico para ligar o mirante a uma das muitas lagoas que pontilham a paisagem.

Osório sonha agora com a duplicação do parque, abocanhando uma fatia dos R$ 2,2 bilhões que o grupo espanhol Elecnor planeja investir para aproveitar o potencial eólico gaúcho. Mesmo que a operação do parque não gere muitos empregos, a construção movimenta, nas contas dos administradores, ao menos 5 mil vagas.

Embora não seja o único combustível, o vento tem ajudado a elevar a colocação de Osório no ranking das maiores economias gaúchos. Como gosta de repetir o prefeito Romildo Bolzan Jr., pulou da 66ª para a 21ª posição e planeja ascender à sexta no próximo ano.

– Antigamente, a gente brincava que Osório ia engarrafar o vento. Não deu para engarrafar, mas estamos lucrando. São bons ventos que atraem grandes investimentos – diz o secretário.

ZH



Categorias:Economia Estadual

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