MEMÓRIA RESTAURADA Chalé renasce com ampliação

Chalé da Praça XV - Imagem: ZH

Melhorias em um dos prédios mais tradicionais da Capital e reurbanização da Praça XV serão entregues na próxima semanaFaz muito tempo que se ouviu pela última vez em Porto Alegre o chiado peculiar do bonde. Foi em 1970, num mês de março, que o último dos veículos elétricos amarelos parou de rodar. O fim do bonde simboliza o início da degradação do Centro Histórico, que atingiu também a Praça XV e o tradicional Chalé. Dos bondes, só restaram os trilhos. Praça e o Chalé começam na próxima semana um novo tempo, embalados por investimentos para recuperar prestígio.

Oprimeiro prédio do Chalé foi um barracão de madeira, inaugurado em 22 de novembro de 1885. Seria substituído em 1911 pelo atual, definido como uma construção de estilo bávaro com traços de art nouveau, composta por estruturas desmontáveis. Agora, o lugar retorna restaurado e modernizado. Com capacidade duplicada para 600 pessoas, conta com inovações como adega climatizada, deck com mesas ao ar livre e área coberta com telhado ecológico que se interliga ao Chalé por um corredor envidraçado. Com R$ 1,5 milhão de investimento, a obra começou em 2008 por meio do projeto Viva o Centro e garantiu melhorias na própria praça.

Augusto Meyer e Quintana entre os frequentadores

Descrito assim, o Chalé não passa de um lugar frio, sem alma. Mas muitas pessoas, ricas em criatividade, passaram por suas cadeiras. Das conversas de fim de tarde, animadas por uma cervejinha gelada, poemas foram gerados. A burguesia cedeu lugar a artistas e intelectuais, que se adonaram do Chalé e o mantiveram em efervescência de 1940 até o final dos anos 50. Dali tudo se via, o Mercado Público, a Rua da Bragança, depois Marechal Floriano, a estação dos bondes, as modas, o bulício que ditava o ritmo da Porto Alegre do começo do século 19.

Escritor, poeta, acadêmico, folclorista, Augusto Meyer foi um dos frequentadores ilustres. Mas foi o grande Mario Quintana que escreveu assim a respeito do que se passava neste fortim de dois andares: “O chalé fazia parte da gente. Me lembro do Bilo, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado – não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chop, que era de fato o que estava acontecendo – mas no poço artesiano de si mesmo”.

Em 1971, uma reforma, depois de incêndio, não o salvaria da decadência. Nessas circunstâncias é que o escritor Armindo Trevisan descobriu o chope do Chalé. Por ter vivido o momento crítico, o santa-mariense consegue fazer a ponte entre o passado e o futuro:

– Eu sentava lá, escutava tantas lembranças que me contavam, mas não via nada daquilo. Para mim, era mais um mito que havia ficado na cabeça dos porto-alegrenses.

Mas ele sempre achou que o navio merecia uma segunda chance e deseja ver o Chalé novamente como uma marca fulgurante.

– Aos 77 anos, quero ter a chance de voltar a frequentar o Chalé nessa segunda infância de ambos.

Bom chope, poeta.

ZERO HORA – MAURO TORALLES

A inauguração
– Dia 24, 9h30min, entrega da reurbanização da Praça XV
– Local: Chalé da Praça XV, Centro Histórico de Porto Alegre
– Dia 25 de janeiro, 19h, inauguração da ampliação do Chalé
– Local: Chalé da Praça XV, Centro Histórico de Porto Alegre

 

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Categorias:Revitalização do centro

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