Depredações a monumentos revelam descaso com a Praça da Matriz, cartão-postal de Porto Alegre

Cartão-postal, a Praça da Matriz sofre com o vandalismo no Centro da Capital

Praça dos Três Poderes, da Igreja Católica, do Ministério Público e do Theatro São Pedro sofre com o vandalismo na Capital

As fachadas em granito rosa do obelisco em homenagem a Júlio de Castilhos estão cobertas por pichações. Vândalos atacaram as esculturas fundidas na França, pintaram até as unhas dos pés de duas delas. Há lixo pelos gramados. No playground, babás evitam que as crianças toquem na areia, contaminada por fezes de cães e pombos. O cenário fere o olhar dos turistas, envergonha os frequentadores. A Praça da Matriz – em torno da qual se alinham o Palácio Piratini, a Assembleia Legislativa, o Palácio da Justiça, a Catedral Metropolitana, o Palácio do Ministério Público e o Theatro São Pedro – ficou à mercê dos vândalos. Também chamada de Praça dos Poderes, está abandonada.

Monumento a Júlio de Castilhos (1860-1903), o patriarca da República Rio-grandense, é o alvo preferido dos vândalos

Basta um passeio pela Matriz para ver as feridas. As mais visíveis estão no Monumento a Júlio de Castilhos (1860-1903), o patriarca da República Rio-grandense. De autoria de Décio Villares e inaugurada em 1913, a obra está conspurcada. Pintaram as unhas dos pés do jovem que empunha exemplar do jornal A Federação, o porta-voz do castilhismo. O mesmo aconteceu à estátua que simboliza a “experiência” e lembra vagamente Rodin: ganhou esmalte branco nos dedos.

Pichadores de todas as tendências elegeram o Monumento a Júlio de Castilhos – um dos mais expressivos do país, segundo José Francisco Alves, autor do livro A Escultura Pública de Porto Alegre – para se manifestar. Namorados gravaram equivocadamente suas paixões: “Dani e Nado”, “Janda e Belly” e “Thay e Marcelo”. Um suposto defensor dos meninos de rua deixou o seu recado: “Troque seu cachorro por uma criança carente”. Um ecologista colou um cartaz: “Não deixe que vendam o Morro Santa Teresa”. Sindicalistas também fizeram colagens: “Por um aumento real do salário mínimo”.

Inscrições em preto, azul e rosa tomaram o conjunto do monumento – só a parte mais alta do obelisco escapou. Na estátua equestre do gaúcho que tira o chapéu saudando a República consolidada por Castilhos, colaram uma substância vermelha, possivelmente chiclete, no traseiro do cavalo.

Moradores próximos estão revoltados. Há 42 anos residindo na Rua Duque de Caxias, o cirurgião dentista aposentado Harry Grochau disparou e-mails para vereadores e autoridades pedindo atenção. Recebeu promessas, nada de ações concretas. Ficou com a impressão de que mover a máquina pública é como empurrar um trator de pneus murchos. Passou a achar que ninguém é responsável pela Matriz.

– Acho até que tal pessoa ou entidade nem exista – diz Grochau, 77 anos.

Frequentadores cobram medidas das autoridades

O aposentado e vizinhos sentem-se impotentes ao tentar zelar pela praça. Já viram pessoas fazendo xixi nos canteiros de dia. À noite, os bancos servem de dormitório para sem-tetos, bêbados e drogados. Como odontólogo, Grochau sugere que a areia do playground seja higienizada e substituída. Supõe que esteja infestada até com bichos-de-pé:

– Vejo crianças descalças lá, não imaginam o risco que estão correndo.

Toda a praça merece cuidados e reparos. Parte do gradil que demarca os passeios de pedestres está amassada. Os canteiros de flores viraram lixeiras.

A missão de zelar pela Praça da Matriz é da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam). No entanto, o logradouro deverá ser restaurado pelo Programa Monumenta, do governo federal, o mesmo que não consegue reformar a Praça da Alfândega. Não há prazo para início das obras. Grochau observa que a Matriz não pode ficar no vácuo, pois é o jardim de visitas dos Três Poderes, da Catedral Metropolitana e do Ministério Público.

– Será que nenhum dos componentes destas Casas reparou no que lá existe? – pergunta.

Enquanto persiste o abandono, nada escapa aos vândalos. Nem os dois cães gigantes que guardam o Monumento a Júlio de Castilhos ficaram incólumes. Num deles, picharam “skate for life”. Na coleira do animal, gravaram um “Will”, com tinta branca.

 

Vizinhos poderosos
PALÁCIO PIRATINI (respondeu a Secretaria de Estado da Cultura)
A Praça da Matriz é o pátio dos Três Poderes, do Ministério Público, da Igreja Católica e do Theatro São Pedro. Veja como cada instituição se dispõe a contribuir:
– Embora a preservação e manutenção da praça sejam de ordem municipal, a Secretaria de Estado da Cultura está aberta para colaborar em todas as ações direcionadas a isso. Já existe um antigo encaminhamento do Programa Monumenta no sentido de revitalizar a praça, projeto este que teve o apoio e o acompanhamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae). A Praça da Matriz é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas recebe o olhar atento do Iphae.
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA
– Já colaborou no passado, em especial nos anos 1990, e está aberta para conversar com os outros poderes e achar uma solução conjunta. Não tem previsão de recursos para isso. Acha que a Smam deve ter uma ação mais afirmativa na manutenção da Praça da Matriz.
PODER JUDICIÁRIO
– O Tribunal de Justiça do Estado está totalmente aberto, receptivo e disposto a somar esforços com outros poderes na busca de soluções conjuntas.
MINISTÉRIO PÚBLICO
– A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente abriu inquérito civil para tratar do vandalismo da Praça da Matriz. Cogitou o cercamento, mas não teve aprovação do Iphan. Está aberta ao diálogo com outros poderes.
CATEDRAL METROPOLITANA
– O padre Carlos Gustavo Haas, pároco da catedral, diz que deseja se integrar e harmonizar com o estilo da praça. Entende que a catedral é parte do conjunto. Tentou fazer uma rampa de acesso para pessoas com deficiência, mas foi impedido pelo patrimônio histórico. O piso da catedral é similar ao da praça.
THEATRO SÃO PEDRO
– Tudo que for feito para melhorar a Praça da Matriz renderá benefícios a todos. O que o Theatro São Pedro faz é conscientizar a comunidade, para zelar pelo patrimônio coletivo. O alargamento da calçada, na frente do teatro, deve ser entendido como uma ação para revitalizar o espaço.
Contraponto
O que diz a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), responsável pela conservação da praça
Procurada por Zero Hora, a Smam não respondeu o que fará pela manutenção da Praça da Matriz enquanto o Projeto Monumenta não começar a restauração do logradouro. Não há previsão de início das obras pelo Monumenta.

Homenagem a Júlio de Castilhos foi transformada em “monumento ao descaso”...

...com que vem sendo tratada a principal praça da Capital

Pichações em símbolos da República Rio-grandense

e furto de placas de identificação de busto

Vandalismo contra obras se soma ao descaso na conservação da Praça da Matriz,...

...onde há problemas na calçada e nas luminárias

Zero Hora



Categorias:Centro Histórico, Patrimônio Histórico, Restaurações | Reformas, Revitalização do centro, vandalismo

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15 respostas

  1. Talvez seja uma paixão-infantil a primeira-vista, mas desde que conheci, quando pequeno, me apaixonei por esta praça.

    Pena que minha paixão, não seja compartilhada pelos “digníssimos” vizinhos…

    Abraço!

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  2. Um símbolo da decadência de Porto Alegre e do RS!

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  3. Se algum brigadiano der sorte, flagra um sexo escondido e vende o vídeo pra algum site e faz dindin.

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  4. Minha teoria é que as câmeras servem pra RBS mostrar os assaltos na tv. Talvez existam alguns guardas que se distraem vendo a mulherada passar por elas tb?

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