Enquanto algumas capitais têm aprendido a andar para a frente…

… na terra que abre guerra contra o Pontal do Estaleiro, aperfeiçoa-se o culto à resistência

Farroupilhas e caramurus, pica-paus e maragatos, borgistas e assisistas, brizolistas e antibrizolistas, Grêmio e Internacional, Litoral Norte e Santa Catarina, cartão de crédito e cheque. Sem meias medidas, os rio-grandenses parecem nascidos não apenas para tomarem posição em tudo, mas principalmente para se mostrarem irreconciliáveis em suas escolhas

 

Consenso, comunhão e unidade são tão  estranhos aos hábitos gaúchos  quanto trio elétrico no Carnaval ou festa de Cosme e Damião.

É igualmente típico dos gaúchos que, de tempos em tempos, um deles se descole da multidão e pregue a pacificação. Muitos cumpriram esse papel ao longo da história, de militares a políticos e intelectuais. Na quinta-feira, o brado pela reconciliação veio do mundo das artes, por meio de um artigo do diretor teatral Luciano Alabarse publicado em Zero Hora

– Escrevi como um gaúcho comum que quer ver o seu Estado avançado. Muita gente me ligou e me mandou e-mails para comentar – relata Alabarse.

A tendência à polarização e à disputa aparece em aspectos muitas vezes insuspeitos do cotidiano gaúcho. No ano passado, havia cerca de 3 milhões de processos em tramitação na Justiça gaúcha, numa razão de um para cada três habitantes, o maior movimento entre os Judiciários estaduais. O Rio Grande do Sul respondeu por 30% dos recursos que chegaram ao Superior Tribunal de Justiça, o que coloca o Estado como campeão em litigância na corte. O segundo colocado, São Paulo, é responsável por 27%.

– Essa posição aguerrida do povo gaúcho faz com que leve todas as questões em frente e isso acaba desembocando no Judiciário. De um lado, é bom porque reflete o exercício da cidadania em sua plenitude. Mas, por outro, pode revelar uma incapacidade de resolver questões no plano da negociação – diz o desembargador Voltaire de Lima Moraes.

Se os gaúchos concordam em pelo menos um ponto – o de que gostam de discutir –, a harmonia termina quando se analisa as razões desse comportamento. À frente da Associação da Classe Média (Aclame), Fernando Bertuol, vê por trás de tudo a disputa eleitoral de 2010.

– Não admitimos que ninguém tenha sucesso no Estado. Qualquer pessoa que gere benefício e possa se reeleger não acontece no Estado. Contam uma história de que o único balde de caranguejo aberto em uma feira era o gaúcho porque, quando um tenta sair, outro puxa para baixo. Somos muito invejosos – afirma o presidente da Aclame.

Para alguns, a formação do Estado, incorporado ao Brasil no século 18 e exposto a sucessivas guerras com os vizinhos, poderia explicar o gosto pela disputa política.

 

Capital da Resistência:

– O Rio Grande do Sul já foi muito mais radical e continua sendo nos seus conflitos em comparação com outros Estados. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande é o mais agressivo. Isso faz com que se tenha uma coloração mais viva em torno das ideias – avaliou o cientista político Murillo de Aragão.

A escritora Lya Luft foi uma das que escreveu para elogiar o texto de Alabarse. Amiga da governadora Yeda Crusius, Lya diz que o Estado vive um momento de acusações “gravíssimas” sem provas que provocam intranquilidade:

– O governo não consegue trabalhar em paz. Numa democracia, as denúncias devem ser feitas, mas deveriam ter provas.

O prefeito de Canoas, Jairo Jorge (PT), que enfrentou oposição ao convidar o ex-deputado estadual Cézar Busatto (PPS) para seu governo, acredita que Alabarse expressou um sentimento forte em parte da população.

– Nos últimos anos, o Estado viveu sob o paradigma do conflito. Isso gera a divisão entre “nós” e “eles”, o que impede a construção de uma agenda mínima.

Citado por Alabarse, o deputado estadual Raul Pont (PT) discorda do diretor de teatro. Ele diz que o apelo de Alabarse é “louvável”, mas peca pelo “irrealismo”. Pont diz que a democracia é caracterizada pela tensão entre interesses diversos e que o Rio Grande do Sul tem conflitos e problemas cotidianos:

– Temos assaltos e mortes, denúncias de corrupção e pessoas na beira da estrada sem terra. Em nome da harmonia temos de calar em relação a isso? Os sindicatos vão deixar de pedir aumento salarial? Isso não significa dizer que temos de viver em guerra, mas não podemos pensar numa sociedade irreal.

O escritor Moacyr Scliar não acredita que o Estado viva um clima de guerra civil nem que a tradicional mania gaúcha de se mover por meio de antagonismos seja patológica. Scliar afirma que, na democracia, há uma mistura natural de conflito e harmonia:

– É certo pedir cooperação, mas não podemos nos iludir com a ideia de que as pessoas vão deixar de expressar suas opiniões.

Entrevista: Luciano Alabarse, diretor teatral

Chega!

 


Não sei você, mas estou realmente farto desse clima de guerra civil que assola o Rio Grande do Sul. Parece que estamos divididos irremediavelmente em tribos inconciliáveis. Os últimos acontecimentos na esfera de nossa vida pública estão aí para provar o que eu desejaria fosse apenas uma afirmação exagerada. A irracionalidade humana parece ter encontrado no nosso Estado um campo propício para seu desenvolvimento incontrolável. Praticamente todos os dias, um governo politicamente inábil bate de frente com uma oposição intransigente; acusações sem provas contra nossas autoridades fazem parte do nosso cotidiano há meses; movimentos corporativos nos brindam com propagandas difamatórias, como recursos válidos de enfrentamento. Oscilamos, cansados de tantos escândalos, entre o tédio vacinado e o descrédito absoluto em relação às nossas lideranças políticas.

Não imagino viver em uma sociedade de anjos, nem quero. Mas, lendo os jornais do centro do país, me dou conta que essa situação já extrapolou nossos limites geográficos. Nossa incompetência e beligerância são motivos de artigos, reportagens e editoriais. A acreditar na imprensa nacional, temos o mais vergonhoso presídio do país, um governo especializado em arrumar confusões desnecessárias, uma oposição que insiste injustamente em culpar a atual governadora por todas as nossas mazelas e um passado de glórias que nos impede de pensar realisticamente nosso presente prejudicado. Isso sem falar no rendimento de nossa rede de ensino, abaixo de qualquer índice desejável de aprendizado.

O Rio Grande do Sul, hoje, me parece atrasado em quase tudo. Posso estar errado, mas sinto em muita gente um quase orgulho com essa situação. Estamos mais interessados em destruir o adversário político do que restaurar nossa dignidade estadual. Parece que nos dá prazer ver o circo pegar fogo, pelo simples gosto do incêndio. Não sou petista, pedetista, peemedebista, psolista, peessedebista; não sou filiado a nenhum partido, aliás. Nunca fui. Sou gaúcho, simplesmente. Amo minha terra e me interesso por política. Respeito os governantes eleitos e sofro ao ver o Rio Grande chegar em um nível onde gritaria e desrespeito parecem valer mais que bom senso.

A sociedade gaúcha desenvolve seu jeito próprio de lidar com semelhante situação. O mais perigoso é, sem dúvida, a atual indiferença em relação aos nossos líderes. Como se todos fossem farinha do mesmo saco. Tenho certeza de que não são. Se até os índios americanos fumam o

Em meio à discussão levantada em torno das razões da dualidade gaúcha, o diretor teatral Luciano Alabarse comentou o artigo publicado na quinta-feira em Zero Hora. No texto, ele se mostra cansado do que considera um enfrentamento irracional na política. Ontem, ele conversou por 10 minutos com Zero Hora por telefone. A seguir, leia a síntese:

Zero Hora – Por que o Rio Grande do Sul é tão beligerante? Temos esse histórico da Revolução Farroupilha, do separatismo, das nossas guerras. Não sei se isso explica tudo, mas o enfrentamento é um marco na formação do nosso povo. É da cultura do Rio Grande do Sul. Os publicitários, por exemplo, sempre dizem que tudo o que o resto do Brasil aceita o Rio Grande rejeita. Agências de publicidade já criaram um departamento especial para atender o Rio Grande porque o Estado sempre pensa diferente do resto do Brasil. Levado a um nível de um enfrentamento, isso beira a irracionalidade, porque em qualquer discussão nem sempre a gente tem razão, não conheço uma única pessoa, um único grupo que sempre tem razão e parece que o gaúcho sempre quer ter razão e na política. A gente vê nitidamente assim, governo e oposição não dialogam, brigam o tempo todo, denúncias sem provas, acusações em que o ônus da prova é do acusado e não de quem acusa. É triste ver que a cada ano algum Estado nos passa em progresso, em desenvolvimento e com o tempo eu sinto que nós vivemos num passado de glórias, quando o nosso presente não é tão motivador de orgulho.

Luciano Alabarse–

ZH – De quem é a responsabilidade pelo fato de os gaúchos não se unirem? É muito difícil responder isso. Não se trata de culpados e inocentes, estamos tratando de características genéricas de um povo, de uma cultura. Não existe uma ala toda certa e a outra totalmente errada. A beligerância é o traço comum do povo gaúcho, e está na hora de repensarmos isso, sem uma facção culpada e a outra inocente.

Alabarse –

ZH – Quais são os passos para se unificar o Estado? Ouvir uns aos outros, desarmados, sem preconceito, e a partir desse ouvir começar a mudar, sem preconceito. O diálogo é o primeiro passo, é o que se impõe neste momento. Não quero uma sociedade perfeita, de anjos, e sim de homens sensatos, políticos sensatos que respeitem as diferenças, que saibam perder, que saibam ganhar e que trabalhem pelo bem do Estado.

Alabarse –

ZH



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1 resposta

  1. As brigas políticas não são exclusividade gaúcha. Tem em todo lugar.

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