Um centro comercial a beira do rio é possível e desejável

Shopping praticamente dentro d'água

Esse é um texto bem informal, coloquial, sem pretensões técnicas, apenas algumas reflexões pessoais sobre um dos aspectos do atual projeto de revitalização do Cais Mauá aprovado pelo governo do Estado. Vou usar também o termo centro comercial, embora ache que não seja o melhor, em lugar do usual shopping center. Nenhum deles na verdade expressa bem esse tipo de espaço que conhecemos tão bem.

Acho que uma das maiores resistências ao projeto de Revitalização do Cais Mauá, que acaba de vencer a licitação,  é a construção de um centro comercial em frente ao rio/lago Guaíba, ao  lado da Usina do Gasômetro. Procurando na web se encontra esse tipo de comentário crítico em alguns blogs, defendendo que não é necessário mais um shopping, que já temos muitos em Porto Alegre, que lazer não é fazer compras em shopping, que se está usando um espaço público para um uso pouco nobre, como o de um shopping, etc.

Além disso, um shopping, até pelo nome, é algo estrangeiro, pior, americano…  Está associado ao consumismo, à artificialidade, um lugar fechado…E, devo confessar, em parte é bem verdade isso. Um shopping não é o melhor idéia para um espaço de lazer na minha opinião. Preferiria um museu, ou um aquário, ou mesmo uma praça.

Se o Estado tivesse verbas ou capacidade de financiamento, provavelmente faria algo assim, pois não precisaria de investidores privados e bancaria todo o cursto do projeto. Mas sabemos que este não é o caso. Um projeto para o Cais Mauá com participação privada não pode simplesmete escolher colocar uma praça no local, neste caso, com certeza diminuiria muito a expectativa de retorno ao investimento e se correria o risco de ninguém se dispor a realizar de fato. Se se trata de uma parceria público-privado os conceitos não podem ser os mesmos de um projeto 100% público, não seria uma verdadeira parceria, mas a parte privada simplesmente fazendo o que parte pública considera o melhor.

Mare Magnum, Barcelona, Espanha

Acho que a idéia do centro comercial não é ruim, e poderia até ficar muito boa, mas existe um certo preconceito contra a simples palavra shopping. Normalmente se imagina um centro comercial como apenas um conjunto de lojas. Mas todos nós sabemos que não é bem assim. Em um centro comercial existem certas lojas especiais, que são muito mais do que isso, por exemplo, as livrarias. A livraria Cultura no Bourbon Country é também um espaço cultural, um ponto de encontro. Tem um pequeno auditório onde são feitas apresentações e palestras gratuitas (isso sem falar na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo). No mesmo Bourbon em Porto Alegre tem um teatro de ótima qualidade. O chamado “centro comercial” hoje em dia é também um dos principais lugares para ir ao cinema, pela comodidade do estacionamento e da segurança. E as cafeterias, as praças de alimentação e os restaurantes? Sem dúvida, há também muita fast food de péssima qualidade nesses espaços, mas temos outras opções, e certamente qualquer um se lembrará de uma ótima cafeteria ou restaurante em um shopping.

Chamar toda essa oferta de compras, cultura, gastronomia e lazer, de centro comercial (shopping center) é um reducionismo. Vou algumas vezes no shopping e normalmente não faço compras no sentido estrito do termo, porque vou ao cinema, depois tomo um café ou como algo. Muito raramente compro algo.

É verdade que temos muitos shoppings e com certeza alguns deles tiveram um importante papel na ocupação de zonas da cidade que estavam pouco utilizadas. Alguns dizem que um centro comercial ao lado da Usina do Gasômetro irá concorrer com o comércio do centro da cidade. Mas vejam o Iguatemi, na verdade toda a Nilo Peçanha se encheu de novos negócios. Se fosse uma concorrência prejudicial, porque se abririam negócios justamente ao lado do Iguatemi?

Interior do Mare Magnum

Negócios são abertos ali porque o centro comercial atrai mais pessoas para a região, dá uma maior visibilidade. O BarraShopping com certeza aumenta a oferta de lazer para aquela zona da cidade. O comércio do centro de Porto Alegre será com certeza beneficiado com o aumento do fluxo de pessoas atraídas pelo Cais Mauá. Quem neste momento tiver um comércio naquela região ao lado do futuro centro comercial deve estar muito contente e não temendo a concorrência, como afirmam alguns.

Eu com certeza preferiria no local um museu ou uma praça. Mas acho que devemos nesse momento nos desapegar das nossas preferências individuais e pensar mais no bem da cidade. Um centro comercial ao lado do Cais Mauá tem duas vantagens. Primeiro, é um tipo de espaço público já conhecido da população, não é necessário explicar o que é ou convencer as pessoas para ir. Por outro lado, empresarios sabem que shoppings dão certo, é um negócio testado e aprovado, exatamente por isso foram contruidos tantos e vai haver outros mais, já que a tendência é a expansão da economia e do consumo, pelo menos durante a próxima década.

Um shopping garante a atração do público e um retorno seguro para o investimento feito. Além disso, por estar ao lado dos armazéns será uma maneira de manter esse espaço ocupado constantemente. Se houvesse apenas a atração dos armazéns e um museu no local, ou uma praça, não se teria tanta certeza do sucesso como negócio e talvez não aparecesse nenhum investidor (uma praça significaria pouco, poi sestaria ao lado de um enorme espaço aberto a partir da Usina do Gasômetro). O centro comercial não é a minha preferência pessoal, talvez eu vá pouco lá, mas de um ponto de vista estratégico , pensando na cidade, e não em minhas preferências, acho que foi a escolha acertada na hora de lançar a licitação.

Sem dúvida um centro comercial com um projeto moderno naquela região privilegiada atrairá muitas lojas e empresas importantes, que vão querer se instalar lá, dando viabilidade econômica ao projeto de revitalização do cais como um todo e também beneficiando o Centro Histórico.

Mas no caso desse centro comercial há uma diferença. Esse tipo de negócio é tão bom que atrai naturalmente os investidores privados, por conta própria, os quais  compram amplos terrenos e realizam ali os seus projetos. Propriedade particular e projeto particular. O poder público municipal, e estadual, não pode interferir nesses projetos, além da regulamentação normal feita.

Fachada do Mare Magnum

Mas o centro comercial do Cais Mauá será parte de uma parceria público-privado (PPP). Nesse caso, municipio e Estado poderiam participar um pouco mais do que deveria ser esse centro comercial e de lazer. É claro que deve ser um negócio sustentável e ser bem gerenciado, mas se poderia direcionar um pouco o centro comercial para se aproximar mais da nossa cultura.

Acho que aa artes plásticas, a literatura, o cinema, a dança e o teatro gaúchos poderiam estar um pouco mais presentes nesse centro comercial no Cais, já que em outros shoppings, são os proprietários sozinhos que decidem sua própria política cultural e de eventos, sem qualquer tipo de interferência, nem ajuda governamental. Neste caso, o poder público poderia ajudar, pelo menos, na divulgação dessa programação especial gaúcha, garantindo ao consórcio um bom público e com isso retorno dos investimentos. Além disso, sabemos que para um centro comercial toda a divulgação de programação cultural é uma excelente forma de propaganda indireta do próprio negócio. Quanto maior o número de pessoas, maiores serão as compras, o que valoriza o local para lojas e indiretamente beneficia o governo que recebera um pouco mais de 1% dos lucros sobre todos os negócios feitos ali.

Um centro comercial no Cais Mauá não só pode ser um belo projeto arquitetônico e uma atração a mais para a região, atraindo público para a zona dos armazéns, mas internamente poderia ser um projeto mais inovador, aprofundando essa parceria público-privado. Sem dúvida na área dos armazéns o governo vai criar espaços com uma proposta puramente social, educacional, etc., o que aliás já está definido, como museu, espaço para artesanato, centro para a juventude, etc. (v. LEI COMPLEMENTAR Nº 638, DE 4 DE MARÇO DE 2010, que “Estabelece regras para a utilização da área do Cais Mauá e dá outras providências.”). Mas se poderia sugerir ao consórcio vencedor algumas idéias para tornar o novo centro comercial um espaço diferenciado dos demais centros comerciais da cidade. Isso poderia servir inclusive de estímulo para que os shoppings exclusivamente privados também fossem nessa direção. Um centro comercial é um empreendimento privado muito consolidado já, normalmente não se arriscam muito a mudar a receita que está dando certo. Sendo uma PPP, o poder público poderia apontar para novas direções, claro que economicamente viáveis, para que pelo menos fossem testadas.

Sobre esse preconceito contra os shoppings em determinados espaços, como mencionei antes, seria bom ver também o que se fez em outras partes do mundo, por exemplo, em Barcelona, uma cidade extremamente preocupada com a qualidade de vida de seus habitantes.

Port Vell, Barcelona

Em Barcelona, no Port Vell (“Porto Velho”, o antigo porto da cidade) fizeram, além de muitas outras coisas, é claro, também um centro comercial ao lado do mar, que se chama Mare Magnum, e que é frequentado por muita gente, principalmente turistas, mas também barcelonenses, dando vida ao lugar, dia e noite, com lojas, cafeterias, restaurantes, cinemas, etc. Mas é um centro comercial normal, nada a destacar.

Pelo que vi do projeto arquitetônico do nosso centro comercial e lazer, ao lado da Usina do Gasômetro, ele será muito mais bonito que o de Barcelona, que é de concreto e espelhos, mais integrado a natureza, com muito verde, e imagino com estacionamento próprio, que o de Barcelona não tem, porque fica praticamente em uma tripa que se extende mar adentro na área do porto. Não há como ir a Barcelona e não dar uma passada no Port Vell. Lugar escolhido para todo tipo de manifestação cultural, os espaços abertos nessa área são usados durante todo o ano para eventos populares.

O projeto de centro comercial para o Cais Mauá

Esteticamente, na minha opinião, o projeto apresentado para o centro comercial junto à Usina do Gasômetro será muito melhor. Primeiro, porque é baixo, não concorre com a própria usina, uma crítica que foi feita no início dos debates e acatada pelos arquitetos, e segundo porque com a cobertura vegetal (seja com grama ou plantas nativas talvez) incorpora o prédio à natureza, criando uma ligação com a praça ao lado.

Existe contato direto com o rio na parte de baixo, onde, por exemplo, restaurantes, bares, ou cafeterias, poderiam colocar eventualmente mesas (sugestão: colocar também bancos isolados , para quem não for cliente, é importante ter locais para que as pessoas também possam descansar depois de andar).

Não sei se seria possível pela engenharia, mas o ideal é que houvesse acesso também à parte de cima do centro comercial, onde haverá a cobertura vegetal, para que o acesso fosse aberto a qualquer pessoa que viesse da rua, sem ter que atravessar obrigatoriamente pelo  centro comercial.

Se fossem colocados bancos de praça antigos na parte de cima, voltados para o rio, teríamos mais um local para apreciar o por-do-sol do Guaíba, sem o ambiente mais urbano do shopping, no nivel térreo, na verdade seria a única área verde pertencente ao projeto Cais Mauá e não aproveitá-la mais seria um desperdicio. Vi projetos arquitetônicos com tetos de cobertura vegetal que eram transitáveis também.

Essa seria uma forma inteligente de ocupar o mesmo espaço com duas soluções: na superfície uma praça, para ser aproveitada pela população, que seria mais a escolha se o poder público bancasse o projeto,  e embaixo um centro comercial+cultural+gastronônico+de lazer, que daria viabilidade econômica à revitalização, especialmente dos armazéns.

Imagens do centro comercial apresentadas pelo Projeto Porto Cais Mauá

Na primeira foto, com vista área, parece a primeira vista, que são caminhos (em branco) que atravessam a cobertura vegetal do teto do centro comercial, mas na verdade ali são corredores dentro do shopping com cobertura transparente, aproveitando a iluminação natural. Acho que se poderia criar também pequenos caminhos entre o verde com bancos para as pessoas descansarem, em um espaço independente do shopping. Se não houver esse acesso público a parte superior, a cobertura verde só será plenamente visível se alguém sobrevoar o local, como na perspectiva da foto abaixo.

O binômio praça pública + centro comercial/cultural seria o ideal como inovação dessa parceria público-privado. Na pior das hipóteses se poderia pelo menos ter uma ou mais passarelas de madeira sobre o centro comercial, com algum tipo de proteção ao lado e que terminariam numa espécie de belvedere em cima do centro comercial, de onde poderíamos desfrutar da paisagem e o por-do-sol.

Publicado em 23/11/2010 por Jorge Piqué

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Categorias:Arquitetura | Urbanismo, COPA 2014, Projeto de Revitalização do Cais Mauá, Qualidade de vida, QUERO CAIS, Shopping Centers, TURISMO

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8 respostas

  1. Numa eventual praça no topo do edifício uma cerca viva seria suficiente, na calçada um guarda-corpo não tão grande mas que se incorporasse bem na paisagem, poderia ser uma cerca de metal bem trabalhada como aquelas que usavam em varandas antigas (ou então alguma coisa mais simples como um alambrado semelhante aos de estádios de futebol que não obstruem tanto a visibilidade, com cercas vivas na frente disfarçando a instalação de tal dispositivo, pois cercas vivas normalmente são feitas com aqueles pinheiros ornamentais bastante delicados que não suportam o peso de um bêbado caindo, aí teria pelo menos o apoio do dispositivo metálico impedindo quedas).

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  2. na zona em volta do shopping em barcelona, não existe nenhuma proteçao, e sempre algum bêbado cai ali, em 2008 um equatoriano morreu até… se existir segurança permanente talvez nao tenha problema, ou bastaria colocar uma especie de rede, que impediria a pessoa de se afogar pelo menos.

    No caso da praça em cima tb deveria se encontrar algum tipo de protecao, ou uma rede tambem …ou uma cerca viva contornando todo o telhado….

    Ja que falamos em segurança, importante tb ter um serviço médico mínimo permanente no local, que como o posto da brigada atenderia tb a regiao em volta.

    Embora estejamos muito longe da realizacao da obra, que será no minimo parcialmente em 2014, acho bom colocar essas questões, pq tem que estar no planejamento desde o inicio. So lembram disso no final e ai são obrigados a dar uma solução improvisada. Essas questões de segurança aos usuários são muito importantes, tem que ser pensadas com tempo…. e tudo demora, quanto mais cedo pensar nisso melhor… mesmo que sejam detalhes no projeto como um todo…. pelo menso aqui ficam registradas as nossas sugestões…

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  3. Um espaço de comércio e convívio como o PASEO Zona Sul parece o ideal para a região do Cais.

    Já foram ao PASEO? Recomendo. Muito bonito.

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  4. Já existem várias praças em Porto Alegre, algumas em situação caótica no que se refere à depredação do patrimônio e à indesejável presença de criminosos e “moradores” de rua. É melhor deixar a iniciativa privada fazer alguma coisa eficiente que atraia uma ocupação qualificada para o local do que criar mais um “mendigódromo” que pudesse acabar até virando mais uma vila. A propósito: eu acho que seria interessante haver um guarda-corpo nessa calçada entre o lago e o shopping, seria extremamente útil para evitar quedas na água.

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  5. Sobre segurança, que o Daniel menciona, discutimos algumas coisas nos comentários a esse outro post: http://jorgepique.wordpress.com/2010/11/21/debate-na-band-sobre-o-cais-maua/

    Não acho dificil construir uma praça, como falei no texto idealmente o melhor seria uma praça, mas como os investidores iriam ter um retorno das verbas para o restante? Teria ainda os ganhos com as torres, mas tem que ver se nos cálculos deles seria suficiente. Além disso, supondo que fosse suficiente, essa praça seria muito frequentada durante a semana? de noite? acho dificil, e o centro comercial atrairá movimento para o local. Só tendo as torres, lá na rodoviária… é longe…. se corre o risco dos armazens, o cais propriamente dito, ficarem meio abandonados, com shopping nao tem erro, as pessoas vão mesmo, porque conhecem, sabem como funciona, principalente os jovens e são eles que garentem a vida dos lugares…. O shopping em si, isoladamente, nem é uma grande idéia, mas como parte de uma estratégia maior, para viabilizar economicamente a revitalizacao e para ajudar na ocupação daquele espaço é uma grande solução.
    Se eles puderem combinar shopping embaixo com praça em cima, teríamos as duas coisas, uma praça suspensa na beira do guaiba é uma inovação, atrairia mais gente que uma praça convencional, se poderia ter uma visao de todo o guaiba, da area do cais e da area da usina, coisa que uma praça ao nivel do chão não conseguiria. Sem esquecer da outra vantagem de um shopping que nao mencionei…banheiros limpos! Já usaram os banheiros da usina….?

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  6. A questão não é de fazer coisas de primeiro mundo em Porto Alegre, ou não, mas de fazer coisas concretas, possíveis e que tem investidores interessados, como essas propostas para o Cais da Mauá, para o Pontal, etc.

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  7. Um complexo hoteleiro realmente seria bom, e em função da copa ainda tem a vantagem de ser até mais perto do beira-rio. Quanto a um shopping, me parece melhor que haja mais um shopping sob constante vigilância dos que são interessados no lucro do que uma praça que acabe virando ponto de encontro de usuários de crack e abrigo de criminosos. E a idéia do “telhado vivo” me parece uma boa solução, mas ao invés de usar só grama poderiam até ser plantados alguns arbustos, me parece um ótimo ponto para fazer uma praça com cercas vivas (e como teria a segurança do shopping não seria tão fácil de virar um antro).

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  8. TUDO BEM, GILBERTO, CONCORDO CONTIGO…MAS SE OS EMPREENDEDORES SÃO PRIVADOS, O RETORNO FINANCEIRO DO EMPREENDIMENTO É O QUE MAIS INTERESSA A ELES…E AÍ ENTRA O SHOPPING…PORTO ALEGRE É A 3ª CAPITAL BRASILEIRA EM NÚMERO DE SHOPPINGS, INCLUINDO AÍ OS QUE ESTÃO EM CONSTRUÇÃO…É O QUE MAIS IMPRESSIONA AS PESSOAS DE OUTROS ESTADOS COM OS QUAIS MANTIVE CONTATO NOS ÚLTIMOS ANOS…E ALI NO CAIS, COM TANTO MOVIMENTO, FARIA SUCESSO…PRINCIPALMENTE ENTRE OS TURISTAS…E COM UM COMPLEXO HOTELEIRO JUNTO, ENTÃO…

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