Moradores da Capital lamentam abandono de prédios

Faz oito anos que de qualquer janela de seu apartamento o funcionário público Rodger Guerra Bernardi, 39 anos, enxerga a carcaça de um prédio na Rua Dom Pedro II, no bairro São João, em Porto Alegre. Com o tempo, já se acostumou à paisagem, mas permanece a ideia sobre o que poderia ser feito com o edifício, antiga sede da Corlac.

— Seria lindo se fizessem uma praça ali — sugere.

Em outra parte da cidade, no Centro, o corretor de seguros Arleno Piccoli, 55, lamenta a situação do prédio pelo qual passa diariamente ao ir trabalhar. A fachada da construção, situada na esquina das ruas Sete de Setembro e General João Manoel, chama a atenção do corretor pela sua antiga beleza.

— Esses prédios, se fossem reformados, poderiam ser casas de cultura. Alguns têm uma beleza incrível.

Ex-fiscal de obras do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do RS (Crea), o aposentado Tadeu Kuse, 63, considera problemático o caso de abandono de edifícios porque há consumo de drogas, roubo de materiais e formação de cortiços dentro deles. Além disso, moradores irregulares mexem nas estruturas, podendo causar acidentes.

— Uma cidade que vai receber a Copa do Mundo e é chamada de cidade sorriso não pode ter cárie dentária — observa Kuse.

Drogas são o motivo de haver gente no edifício da Rua Voluntários da Pátria, 811, chamado de “antigo Hotel Aliado”. Ao anoitecer e pela manhã, compradores e vendedores de entorpecentes se encontram no local, de acordo com um morador da área que não quer ter sua identidade revelada.

— A gente tá aqui do lado e não pode falar, tem que engolir. Ficam dentro e fora do prédio, e no fim de semana é pior, é pesado.

"Esqueleto"

"Esqueleto"

Um dos prédios abandonados mais emblemáticos de Porto Alegre é o chamado “Esqueleto“, situado na Rua Marechal Floriano, no Centro. Há anos o edifício, mesmo inacabado, abriga moradores, e serve para estocagem de produtos piratas de ambulantes. O engenheiro José Carlos Martins, 58, opinou que a estrutura causa um impacto negativo na cidade. Ele sugeriu o que pode ter causado a paralisação da construção do “Esqueleto”.

— Ou houve falta de recursos ou um embargo por não cumprir o plano diretor.

Smov atua quando há risco estrutural

O abandono de prédios passa a ser tratado pela prefeitura quando surge algum risco estrutural, conforme a Secretaria Municipal de Obras e Viação (Smov). É que não há responsabilização do poder público sobre propriedades particulares, informa a assessoria de imprensa do órgão. Interdições podem ocorrer se uma vistoria confirma risco de desabamento, por exemplo. Normalmente, as inspeções são feitas a partir de denúncias. A Smov não tem um registro de quantos prédios estão abandonados na Capital, conforme sua assessoria.

Ao Crea também não cabe responsabilidade sobre propriedades particulares nessas condições. Compete, isso sim, certificar-se de que todas as obras tenham um responsável técnico e que eles estejam habilitados. Para o coordenador da Câmara de Engenharia Civil da entidade, engenheiro Jorge Albrecht Filho, o abandono, que ele prefere chamar de “degradação”, resulta da falta de manutenção.

— Não se tem o costume da manutenção preventiva no país. Só vamos consertar depois que está estragado.

Zero Hora Pelas Ruas, 22/07/2009

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Obs.: Estes prédios estão abandonados há décadas, muitos e muitos anos. Sempre houve um total descaso da Prefeitura para com eles. Será que um dia vai mudar isso e vidas pagarão pela omissão ?

A propósito, o “Esqueleto” não está abandonado há anos como diz a matéria, e sim há 6 décadas !!!  (sim, 60 anos, é inacreditável !) Gilberto.



Categorias:Prédios, Revitalização do centro

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4 respostas

  1. Há fotos dos anos 50 que mostram o predio lá, já.

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  2. O comunicado à prefeitura de abandono das obras por falta de recursos deu-se em 1959. São 50 anos de abandono. E pelo jeito vai continuar até ter o mesmo fim do recente caso em Capão da Canoa.

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  3. Meu caro Gilberto,
    o prédio em referência, ao contrário do que afirmas, não existe há 6 décadas: naquela esquina, ainda ao longo dos anos 60, existia a sólida e verde estrutura da Casa Carvalho, testemunhando o passar diário dos eficientes mas posteriormente eliminados bondes – até nisso nossa cidade conseguiu andar para trás! O tal “Esqueleto” veio depois. Por sua atual aparência, e se tivesse algumas paredes derrubadas a marretaços, poderia se tornar um monumento semelhante à “Denkmalkirche” em Berlin – esta a nos lembrar dos horrores da guerra, aquele a nos lembrar – permanentemente – do horror que temos como administradores municipais.
    Um abraço.

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  4. Esse descaso faz parte do contexto da cultura portoalegrense de não se importar com o visual da cidade.
    Áfinal de contas, essa capital tem qualidade de vida, muita cultura e politização, mas ao mesmo tempo é notório que não prioriza e não liga para as paradas de ônibus mais feias do país, e uma orla do a do Gasômetro e Marinha que parecem ser da Somália ou Haiti. E o portoalegrense acha o Gasômetro maravilhoso. Com essa cultura, não é à toa que os governos não deem importância para esqueletos. Faz parte do portoalegrense way of life.

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