“O sonho do automóvel acabou em São Paulo”

Para o engenheiro de tráfego Horácio Augusto Figueira, não existe solução para o congestionamento de carros, mas sim para o transporte coletivo

O paulistano convive diariamente com trânsito ruim créditos: Leandro Siqueira / Flickr

Recente pesquisa divulgada pela empresa Ticket, especializada em gestão de benefícios-transporte (como o bilhete único), apontou que o paulistano paga a tarifa média de transporte público mais cara do país, sem considerar a integração. Porém, mesmo pagando uma passagem tão cara, o morador de São Paulo convive diariamente com congestionamentos, ônibus lotados e falhas recorrentes no sistema de transportes sobre trilhos.

Este tema deve ser um dos principais pontos da eleição municipal deste ano. Em debate organizado pelo Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) sobre o livro O Triunfo das Cidades, do economista americano Edward Glasser, o pré-candidato do PSDB, José Serra, afirmou que investimentos em linhas de ônibus só iriam engarrafar mais a cidade. Para ele, a solução para a mobilidade da cidade são obras viárias que desafoguem o trânsito do centro, além de investimentos no Metrô e na CPTM.

O SPressoSP entrevistou o engenheiro de tráfego e vice-presidente da Associação Brasileira de Pedestres, Horácio Augusto Figueira, para saber a sua opinião sobre o transporte público em São Paulo e conhecer as suas propostas para melhorar a mobilidade urbana.

SPressoSP – Como o senhor avalia o custo-benefício do transporte público em São Paulo?

Horácio Augusto Figueira – Em termos de custo-benefício, fora do horário de pico, dá para você usar como serviço comum. Nos horários de pico, por não ter velocidade compatível nos corredores, os ônibus andam em baixa velocidade e lotados. Não é um serviço de boa qualidade. Para reverter essa situação, teria que ser dada prioridade total para os ônibus no sistema viário e, para isso, você tem que incomodar o usuário de carro, não tem outro jeito. Não tem como conciliar privilégios ao transporte coletivo sobre rodas sem tirar uma faixa dos automóveis. Os R$ 3,00 que você paga hoje em São Paulo é uma tarifa cara para um serviço de baixa velocidade comercial.

Se houvesse uma boa velocidade, o serviço não seria caro, até pela integração entre ônibus e metrô, e também pela possibilidade do usuário pegar três ônibus no período de três horas. O que acontece é um subsídio interno do sistema para aqueles que fazem viagens longas. O usuário que anda poucos quilômetros paga por aquele que vem de mais longe.

É caro por isso, um “caro relativo” e não em termos absolutos. Hoje, você pega metrô e ônibus e cruza a cidade inteira. Se compararmos com outras cidades não é mais caro, o problema é que em outras cidades muitas vezes você não tem o benefício de trocar de carro gratuitamente, e também não tem integração com o sistema sobre trilhos.

SPressoSP – Por que este custo-benefício ainda é tão caro?

Horácio Augusto Figueira – Pelo congestionamento imposto pelos automóveis, o poder público não tem a coragem de falar que uma faixa de ônibus transporta dez vezes mais pessoas que a mesma faixa ao lado de automóveis. A sociedade e a mídia cobram que existem muitos congestionamentos, acho que ainda tem pouco. Eu acabaria com o rodízio em São Paulo, para a cidade sentir o que é a verdade do automóvel.

Todo mundo quer andar de carro, mas não existe espaço físico que comporte mais automóveis na cidade de São Paulo. Não tem mais obra viária que vá resolver a questão da mobilidade por transporte individual. Não tem alargamento de marginal, ponte ou túnel que dê conta.

Não sou contra o automóvel. Tenho automóvel, mas me recuso a ir para o centro da cidade com transporte individual. Não cabe, é um problema físico. Você consegue colocar cem pessoas em 1 metro quadrado? Não consegue, e o que estão querendo fazer com o automóvel é isso. A 23 de Maio vai continuar a mesma, e não podemos desapropriar a cidade inteira para entupir com automóveis.

Você vê o que aconteceu na Marginal Tietê, a prefeitura e governo estadual investiram quase 2 bilhões de reais para alargar a Marginal e os congestionamentos voltaram. Aí eles restringiram os caminhões, e os congestionamentos voltaram. E agora, quem eles vão tirar? Os pedestres, vão acabar com as calçadas? Não tem o que fazer, a demanda é tão grande que qualquer avenida inaugurada hoje, em um mês já vai estar entupida.

SPressoSP – Quais medidas poderiam ser implementadas para melhorar a qualidade do transporte público?

Horácio Augusto Figueira – É preciso pegar o espaço viário, todo o que for necessário, para implantação de uma malha de corredores viários. Parece que a prefeitura anunciou a criação, até o fim do ano, de 140 km de faixas exclusivas, o que não é a oitava maravilha do mundo, por operar na direita e ter muita interferência, mas é melhor que nada. Até esperar que se construa um corredor adequado, operando na esquerda, é benéfico operar a faixa exclusiva na direita, que basta pintar, sinalizar e fiscalizar. Esta seria a primeira medida, deixar o ônibus andar.

São quatro questões que o usuário leva em conta na hora de optar por um meio de transporte. Por que as pessoas fogem do ônibus, metrô e trens lotados, indo pro carro? Primeiro, pela velocidade, os ônibus não conseguem andar no horário de pico. Entre um carro que não anda e um ônibus superlotado que não anda, as pessoas com renda maior optam pelo carro.

Questão do rodízio. No dia que meu carro está no rodízio, eu compro e uso uma moto. Assim, aumentam o número de acidentes devido ao risco deste meio de transporte e pela forma como a maioria dos motociclistas conduzem seu veículo. Uma forma quase que suicida. Olha que loucura, o automóvel veio e congestionou a cidade, e agora pessoas de alta renda estão comprando motos, tenho dados sobre isso. Para fugir do congestionamento que elas próprias criaram e também do rodízio. Então, estamos fugindo de tudo. Quando na verdade precisamos pensar em como fazer um choque de oferta.

Precisamos pegar duas faixas no horário de pico do corredor Nove de Julho, do Ibirapuera e do corredor Consolação-Rebouças para operação do transporte coletivo, doa a quem doer, porque vou conseguir transportar em duas faixas 20 mil pessoas por hora, quando eu precisaria de 20 faixas de automóvel para transportar a mesma demanda. Uma faixa de ônibus leva dez vezes mais clientes por hora que uma faixa de automóvel. Basta a decisão política para que isso seja feito.

Trânsito na avenida 23 de Maio, em São Paulo: o visual é bonito, mas a sensação é insuportável

SPressoSP – Recentemente o pré-candidato à prefeitura de São Paulo, José Serra, afirmou que investir em ônibus em São Paulo iria engarrafar ainda mais a cidade. O que o senhor acha desta afirmação?

Horácio Augusto Figueira – Iria engarrafar o trânsito de automóveis, quando, na verdade, é o contrário, são os automóveis que engarrafam o trânsito do transporte coletivo e não deixam os ônibus andarem. É um viés, precisamos voltar aos bancos escolares para ter uma aula sobre o que é engenharia de transporte de pessoas. O ex-governador que me perdoe, mas quando eles falaram que iriam alargar a Marginal Tietê eu avisei, em uma entrevista, que iam jogar nosso dinheiro no lixo. Nas dez faixas da Marginal Tietê passam em média 15 mil automóveis por hora. Se multiplicarmos esse número pela ocupação média de 1,4 passageiro em cada automóvel, dá 21 mil pessoas por hora. Qualquer engenheiro da prefeitura sabe que uma faixa exclusiva para ônibus biarticulados, bastando apenas permitir a ultrapassagem no ponto, consegue transportar, com um padrão razoável de conforto, todas as pessoas que estão entupindo as dez faixas da marginal.

Quando o candidato diz que vai entupir a cidade, ele só está enxergando o congestionamento de automóveis, e o que eu lamento é o congestionamento de ônibus. Se você entrar no site da SPTrans em horário de pico, você vai ver ônibus trafegando em corredores com velocidade média de 5km/h. A prefeitura sabe disso e não faz nada. Como poderíamos atuar nessa situação?

É só verificar o problema e aumentar mais uma faixa para o transporte público pelo tempo necessário. E os automóveis? Não estou mais preocupado com os automóveis. Se continuarmos preocupados com automóveis não tem mais o que fazer. Posso investir um trilhão de dólares em obras viárias em São Paulo que nunca mais vou conseguir resolver o problema da mobilidade.

Resumindo tudo o que estou falando, o sonho do automóvel acabou na cidade de São Paulo. Ele foi bom há 40 anos, quando era 1 em mil. Hoje, tem famílias que têm oito veículos para fugir do rodízio. É o rodízio da hipocrisia, você que é pobre não vai andar, mas eu que sou rico pego meu outro carro.

O metrô e o trem vão resolver o problema? Vão resolver os grandes eixos de demanda, mas não da mobilidade de uma cidade que tem mais de mil linhas de ônibus. Você nunca vai ter uma malha de metrô de 2 mil quilômetros nem daqui a 1.000 anos. O sistema de ônibus é aquele que sobe o morro, que atende as ruas de bairros, e muitos dos seus eixos têm que ser estruturadores do sistema de transportes. Tem eixos que não precisam de metrô. Um corredor bem feito e bem operado resolve o atendimento da demanda, basta que você tenha linhas tronco. Por exemplo, a Rebouças, onde operam mais de 30 linhas de ônibus, teríamos que transformar em quatro ou cinco linhas troncos com ônibus biarticulados, como se fosse um metrôzinho sobre pneus. Outra medida é implantar um sistema de semáforo onde o ônibus converse com o semáforo por radiofrequência para diminuir o vermelho. Londres implantou isso em 77 e diminui 30% no tempo de percurso, e Curitiba está com isso faz três meses em todos os seus corredores.

Autor: Felipe Rousselet | Postado em: 16 de junho de 2012 | Fonte: Spresso SP

(Colaborou: Maria Eduarda Carvalho)

Texto publicado em 3 veículos:  UOLSPRESSO SPMOBILIZE



Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

Tags:, ,

49 respostas

  1. Muito bom o texto. Lembro-me de qdo trabalhava na EMTU/SP, qdo inauguraram o corredor de trólebus Diadema-Morumbi-Brooklin, tomando uma faixa de automóveis em cada sentido da via (avenidas Cupecê, Vicente Rao, Roque Petroni Jr.), bombaram reclamações dos usuários de automóveis. Adorei ver o povo reclamando do congestionamento de carros, hehe, é essa mesmo a ideia!
    Lembrando SEMPRE que metrô e ônibus NÃO SÃO SUBSTITUTOS, mas sim COMPLEMENTARES.

    Curtir

  2. Pessoal, olhem só, nesse vídeo, o caos da mobilidade urbana em Amsterdã:

    Curtir

    • Amsterdã é uma cidade minúscula e completamente plana. Não tem como comparar com porto alegre, as técnicas aplicadas nela não funcionam aqui.

      Curtir

      • Tens razão, Lucas, que Porto Alegre só será como Amsterdã daqui a alguns milhões de anos, quando ela for plana. Mas temos várias regiões planas, e existem muitas cidades totalmente planas que não aproveitam de um sistema como Amsterdã, que ganha disparado em qualidade de vida pela mobilidade na cidade. E ela não é tão pequena assim, embora menor que Poa.

        Curtir

  3. Entendi sim: ele defende que os ônibus são são a solução para tudo e eu não, pois já vivemos sobre a supremacia do ônibus, como opção de transporte público no Brasil, há mais de 50 anos e o resultado é que a frota e o uso de automóveis tem se multiplicado geometricamente, compravando que a saída não é por aí.

    Na verdade, a justificativa para privilegiarem ônibus é só uma, o CUSTO. Claro, aí sobra mais da imensa carga tributária brasileira (que atingirá 1,5 trilhão de reais em 2012) para outras prioridades públicas: corrupção, ineficiência, CCs, salários a servidores muito acima do mercado, juros da dívida pública, assistência social viciante e populista, etc.

    Curtir

    • 1% das arrecadações públicas (15 bi/ano) aplicadas em trens metropolitanos, metrôs e VLTs,durante 20 anos, e a circulação nas grandes cidades brasileiras estará praticamente resolvida. Outros 1% deveriam ser investidos em trens interurbanos, nesses mesmos 20 anos, e teríamos linhas ferreas de passageiros ligando as principais regioes do país.

      Daí sim podem dizer: parem de usar automóveis. Antes disso é pura demagogia e imbecilidade.

      Curtir

      • Ou seja, tu não concorda com ele mas tem a mesma opinião. Quer dizer, espero que seja isso ou então tu achas que vamos ter uma malha absurda de trens e metrô em poa logo.

        Curtir

  4. “O metrô e o trem vão resolver o problema? Vão resolver os grandes eixos de demanda, mas não da mobilidade de uma cidade que tem mais de mil linhas de ônibus. Você nunca vai ter uma malha de metrô de 2 mil quilômetros nem daqui a 1.000 anos. O sistema de ônibus é aquele que sobe o morro, que atende as ruas de bairros, e muitos dos seus eixos têm que ser estruturadores do sistema de transportes.”

    Mais um lobista dos ônibus movidos a combustíveis fósseis.

    Nunca vi alguém dizer que uma metrópole precisa de 2 mil km de metrôs para resolver seu problema de mobilidade. Nem 8, nem 80. Mas São Paulo poderia ter uns 200 km de metrô e VLTs, por exemplo, restando aos ônibus o papel de abastecedores do sistema. Aliás, poderiam usar microonibus elétricos, nesse sistema, em ruas apertadas ou centrais.

    Curtir

    • É verdade Julião… não entendo esse pessoal que procura solução única para todos os problemas de transporte!

      Curtir

    • Acho que não entendeste o ponto dele. Existem certas demandas que os ônibus são a solução perfeita dentro da realidade. Achas que vai ter metrô subindo o topo do morro santa tereza (ou do osso, etc) nos próximos 500 anos? As comunidades que estão ali devem ter é ônibus de qualidade para chegar até os metrôs, VLT’s, etc que devem ser contruidos nas grandes avenidas. E bem, se queremos fugir de combustíveis fósseis há várias opções no mercado ou sendo pesquisadas.

      Curtir

  5. O por onde anda o bunda-mole do Kassab, que criou um partido político para se perpetuar sua incompetência em São Paulo. Em POA temos a BR-290 X BR-116 que vive engarrafada, entrada/saida e passagem pela grande POA. Cadê os prefeitos e governador bunda-moles????

    Curtir

  6. Aconselho a assistir o documentário “The end of suburbia” disponível no youtube. Esse documentário conta com entrevistas de estudiosos, pesquisadores bem como geólogos da Shell.

    A primeira parte é uma contextualização histórica das cidades norte-americanas. Vale a pena assistir e absorver muito atentamente o que eles fizeram de bom e adaptar o que fizeram de ruim.

    Curtir

    • “It has none of the amenities of country life neither the amenities of the town, in fact, it has all the disadvantages of both. All you really have is a six lane highway.” Isso define PERFEITAMENTE o subúrbio americano! Fantástico, o vídeo. Esse plano pós-guerra super mal pensado tá resumido nesse vídeo.

      Curtir

    • Isso tudo traz aquela estrutura padronizada que o território americano inteiro possui. É confortável? Sim, mas não se sustenta nem na teoria.

      Curtir

    • O plano de highways citado, causando o único meio de transporte eficiente nos estados unidos ser o carro individual, é totalmente diferente daqui. Nós temos possibilidade de construir justamente o oposto (ferrovias, metrô, enfim) de maneira sustentável, pela nossa organização das cidades. O governo ignora isso e manda colocar MAIS carros dentro do espaço limitado das cidades. Notem que isso é o oposto do que os estados unidos fez: eles encheram de carros uniformemente pelo país todo, mas não em centros urbanos.

      Curtir

      • Conversando com uma francesa uma vez, ela me comentou que o Brasil vem desperdiçando muito em não usar trens, pois há grandes cidades ao longo de uma linha próximo ao litoral e sem muitas cidades médias próximas. Isso é totalmente diferente na Europa onde há uma infinidade de cidades médias equidistantes, o que faz com que os trens parem ou reduzam a velocidade junto a essas cidades.

        Daí fiquei pensando, se na Europa com essa distribuição de cidades os trens são uma ótima opção de transporte, porque aqui só caminhão e ônibus é viável? R. Máfia.

        Curtir

        • Na europa
          Vantagens do trem:
          • chegar na estação no centro da cidade e não precisar pegar shuttles ou metrôs pro destino final.
          • tem gente que prefere trem por medo de avião ou até pela vista da viagem.
          • mais destinos no interior dos países.
          Vantagens do avião:
          • mais barato.
          • mais rápido.

          Curtir

%d blogueiros gostam disto: